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Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449versão On-line ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. v.6 n.2 Porto Alegre jun. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1677-54492007000200008 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo anatômico das válvulas do tronco gastrocnêmio em cadáveres humanos

 

 

José Aderval AragãoI; Francisco Prado ReisII; Luis Francisco Poli de FigueiredoIII; Fausto Miranda JuniorIV; Guilherme Benjamin Brandão PittaV

IProfessor assistente, Universidade Federal de Sergipe (UFS), Aracaju, SE. Professor adjunto III, Universidade Tiradentes (UNIT), Aracaju, SE. Doutorando, Curso de Pós-Graduação em Angiologia e Cirurgia Vascular, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP
IIProfessor titular, UNIT, Aracaju, SE. Coordenador, Laboratório de Morfologia e Biologia Estrutural, Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), UNIT, Aracaju, SE
IIIProfessor titular, Departamento de Cirurgia, UNIFESP, São Paulo, SP
IVProfessor titular, UNIFESP, São Paulo, SP
VProfessor adjunto, Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), Maceió, AL

Correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTO: As válvulas são estruturas características das veias, importantes na orientação do fluxo sangüíneo. Sua presença no sistema venoso superficial dos membros inferiores tem sido bastante estudada. No entanto, nas veias profundas, como a veia gastrocnêmia, a literatura é escassa.
OBJETIVO: Realizar um estudo anatômico das válvulas do tronco gastrocnêmio principal em cadáveres humanos adultos.
MÉTODOS: Foram dissecados os troncos gastrocnêmios principais de 80 cabeças de músculos gastrocnêmios de 20 cadáveres adultos do sexo masculino, com idade entre 40 e 68 anos, após fixados e mantidos em solução de formol a 10%. Os troncos e tipos de redes foram classificados de acordo com o proposto por Aragão et al. As válvulas foram estudadas quanto ao número, distribuição, localização e tipo com relação ao tronco, perna, cabeça do músculo e tipo de rede gastrocnêmia.
RESULTADO: Em 80 cabeças de músculos gastrocnêmios, foram encontrados 95 troncos gastrocnêmios principais, sendo que 17 deles eram duplicados. Foram encontradas 65 válvulas em 60 troncos gastrocnêmios principais, todas elas do tipo bicúspide, sendo 35 na rede tipo I, 23 na do tipo II e sete na rede tipo III. Em 74% dos casos, as válvulas estavam localizadas no terço proximal do tronco gastrocnêmio principal.
CONCLUSÃO: As válvulas foram encontradas em todos os tipos de redes que possuíam tronco gastrocnêmio principal, eram todas do tipo bicúspide e se localizaram predominantemente no terço proximal dos troncos gastrocnêmios principais.

Palavras-chave: Insuficiência venosa, veias, anatomia.


 

 

Introdução

A presença de válvulas é uma característica das veias1. Por sua base, as válvulas estão implantadas na parede venosa, possuem na sua estrutura elementos fibrosos, são mais numerosas em fetos, onde algumas vezes aparecem com aspecto de incompletas, e tendem a desaparecer nos adultos2. As válvulas são mais freqüentes nas veias dos membros inferiores, onde dirigem o fluxo, impedindo também o refluxo sangüíneo2,3. Os primeiros estudos a respeito das válvulas remontam a 1854 e têm sido atribuídos a Houlé4.

É reconhecida a importância da influência valvular na patogenia das varizes, e isso tem levado vários autores a estudarem a anatomia das válvulas nos membros inferiores4-9. Para a maioria desses autores, as veias musculares possuem válvulas, com possível exceção das veias soleares e gastrocnêmias. Thiery10 atribuiu à destruição valvular a base da inversão da corrente sangüínea das veias profundas para as superficiais. Hobbs11 destacou que as veias gastrocnêmias dilatadas por insuficiência venosa eram flebograficamente visíveis.

De acordo com Browse3, a grande variação do número de válvulas nas veias musculares da panturrilha tem dificultado, ou impedido, até o presente, de estabelecer sua sistematização. Poucos autores têm feito referência à presença de válvulas nas veias gastrocnêmias3,12-15. Verberck16 e Stritecky-Kahlek17 afirmaram que existia uma válvula na parte terminal da veia gastrocnêmia. Tretbar18 descreveu que as veias gastrocnêmias possuem mais válvulas do que as veias soleares. Villallonga19 destacou a importância das válvulas gastrocnêmias na orientação do fluxo sangüíneo durante os movimentos de contração e relaxamento muscular. Marques20 afirmou que as veias gastrocnêmias não possuem válvulas.

Embora a maioria dos autores destaque o papel morfofuncional desempenhado pelas válvulas venosas, verifica-se que é escassa ou inexistente uma descrição sistemática das válvulas, tanto nas veias gastrocnêmias como no tronco gastrocnêmio principal. Por essa razão, foi realizado o presente estudo, que procurou descrever a anatomia das válvulas do tronco gastrocnêmio principal observando os aspectos: número, tipo, distribuição e localização.

 

Método

Foram utilizados 40 membros inferiores de 20 cadáveres humanos adultos, todos do sexo masculino, com idade entre 40 e 68 anos, fixados e mantidos havia mais de um ano em solução de formol a 10%. Os cadáveres pertenciam aos laboratórios de anatomia das Universidades Federal de Sergipe, Tiradentes, Federal da Bahia e Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. O material foi usado de acordo com a Lei 8501, de 30 novembro de 1992, que dispõe sobre a utilização de cadáveres não reclamados para fins de estudo ou pesquisa científica. O projeto foi aprovado pelos comitês de ética em pesquisa da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), protocolo número 038/02 e Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), protocolo número 1.475/03.

A presença, o número, a distribuição, a localização e o tipo de válvula do tronco gastrocnêmio foram estudados com relação à perna, à cabeça do músculo gastrocnêmio e ao tipo de rede gastrocnêmia. O tronco gastrocnêmio principal e tipos de rede foram classificados de acordo com o proposto por Aragão et al.21 Esses autores classificaram quatro diferentes tipos de redes, onde todo o sistema de veias gastrocnêmias drenava diretamente ou através de troncos colaterais e axiais para o tronco venoso gastrocnêmio principal. Os dados resultantes das dissecações anatômicas foram documentados através de fotografia digital e tabelas.

 

Resultados

Nas 80 cabeças dos 40 músculos gastrocnêmios estudados, foram encontrados 95 troncos gastrocnêmios principais distribuídos por perna e cabeça de músculo. Desses troncos, 61 eram únicos e 17 duplicados (Tabela 1). Foram encontradas também 65 válvulas distribuídas em número aproximadamente igual em ambas as pernas (Tabela 2). Todas as válvulas encontradas eram do tipo bicúspide (Figura 1).

 

 

 

 

Quanto à localização das válvulas, elas foram predominantes no segmento proximal, em aproximadamente 74% dos casos, e ocorreram em maior número na cabeça medial da perna esquerda. No segmento médio, ocorreram cerca de 17% dos casos, e no segmento distal apenas 9%. Neste último segmento, merece destaque o fato de todas as cabeças do músculo gastrocnêmio possuem o mesmo número de válvulas, exceção feita para a cabeça medial da perna esquerda, onde ocorreu a presença de mais de uma válvula no tronco gastrocnêmio (Tabela 3).

 

 

A distribuição das válvulas nos troncos gastrocnêmios principais, considerando o tipo de rede e cabeça de músculo gastrocnêmio (Tabela 4), mostrou 35 válvulas na rede tipo I, 23 na rede tipo II e sete na rede tipo III (Tabela 5). O número de troncos sem válvulas nas redes do tipo I e II foi semelhante, enquanto na rede tipo III ocorreram sete troncos sem válvulas. Considerando-se os troncos sem válvulas e os troncos duplicados, o número de troncos com válvulas por tipo de rede teve a seguinte distribuição: 31 na rede tipo I, 22 na rede tipo II e 7 na do tipo III.

 

 

 

 

Foram encontradas válvulas em todos os tipos de rede. Quanto a sua distribuição por tipo de rede, perna e cabeça de músculo gastrocnêmio, o maior número de válvulas foi encontrado nas pernas e cabeça de músculo da rede tipo I. Isoladamente, ocorreu um maior número de válvulas na rede do tipo I na perna direita. O número de válvulas foi sempre maior nas cabeças laterais, com exceção nos troncos gastrocnêmios das cabeças mediais das pernas esquerda e direita da rede tipo II (Tabela 6).

 

 

Das 35 válvulas encontradas na rede tipo I, a maioria estava localizada no segmento proximal do tronco gastrocnêmio principal. Apenas no segmento médio do tronco da cabeça lateral do músculo gastrocnêmio da perna esquerda não ocorreu a presença de válvula. Na rede tipo II, suas 23 válvulas foram predominantemente localizadas no segmento proximal dos troncos. No segmento distal, ocorreram válvulas apenas na cabeça medial esquerda do músculo gastrocnêmio. As sete válvulas presentes na rede tipo III estavam localizadas no segmento proximal de todos os troncos gastrocnêmios principais (Tabela 7).

 

 

Discussão

Nosso estudo mostrou que, de 95 troncos gastrocnêmios principais, foram encontradas 65 válvulas em 60 troncos. Autores como Vandendriessche12, Schinder, Ramelet13, Mello14, Hobbs15 e Tretbar18 admitiram a presença de válvulas na veia gastrocnêmia. Para Verberck16 e Stritecky-Kahler17 existiria uma válvula na parte terminal da veia gastrocnêmia. A maioria desses autores, entretanto, não quantificou nem estabeleceu a topografia dessas válvulas tanto nas veias como no tronco gastrocnêmio principal.

Foram encontradas válvulas em 70,4% dos troncos gastrocnêmios principais da rede tipo I, em 59,0% dos troncos da rede tipo II, e em 50% dos troncos da rede tipo III. Quanto à relação entre o número de válvulas por rede e tronco gastrocnêmio principal, 79,5% ocorreu na rede tipo I; 62,1% na rede tipo II e 50% na rede tipo III. As redes tipo I e II tiveram quase o mesmo número de troncos sem válvulas. A rede do tipo III teve igual número de troncos com e sem válvula. A proposta original de Aragão et al.21 a respeito das redes venosas gastrocnêmias e a classificação de suas veias nos permitiu observar as características anatômicas da distribuição das válvulas nos troncos gastrocnêmios de acordo com o tipo de rede. Entretanto, achados semelhantes na literatura compulsada, parecem escassos ou inexistentes.

De acordo com Aragão22,23, das 438 veias gastrocnêmias dissecadas, 231 pertenciam à rede tipo II, 174 à rede tipo I e 28 à rede tipo III. Esses dados nos revelaram que o número de válvulas não foi diretamente relacionado com o número de veias da rede.

Em vista da escassez de estudos semelhantes, cremos que os nossos achados anatômicos representam uma contribuição de interesse para ajudar na compreensão da complexa drenagem venosa dos membros inferiores, em especial, a do sistema sóleo-gemelar. É difícil estabelecer com este tipo de estudo anatômico o papel dos nossos achados na fisiologia e fisiopatologia. Entretanto, acreditamos que, no futuro, eles possam servir como base para estudos hemodinâmicos, através flebografia, ultra-sonografia e pletismografia. Isso poderá ainda ajudar cirurgiões vasculares e imagenologistas na interpretação de seus achados.

 

Conclusão

O número de válvulas presentes nos troncos gastrocnêmios principais variou em relação ao tipo de rede gastrocnêmia, cabeça do músculo gastrocnêmio e perna. As válvulas ocorreram em todos os tipos de rede, foram localizadas predominantemente no terço proximal do tronco gastrocnêmio principal e todas eram do tipo bicúspide.

 

Referências

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Correspondência:
José Aderval Aragão
Rua Aloísio Campos, 500 — Atalaia
CEP 49035-020 — Aracaju, SE
Tel.:(79) 3255.1381, (79) 9989.6767
Email: jaafelipe@infonet.com.br

Artigo submetido em 05.03.07, aceito em 27.04.07.

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