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Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449versão On-line ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.8 no.1 Porto Alegre jan./mar. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1677-54492009000100013 

RELATO DE CASO

 

Aneurisma de artéria renal em rim transplantado: reparo ex vivo e reimplante do enxerto

 

 

Cesar Roberto BusatoI; Carlos Alberto de Lima UtraboI; Wilson Freire de SousaII; Ricardo Zanetti GomesI; Joel Kengi HosoumeI; Eliziane HoeldtkeI; Rafael Inácio BrandãoIII; Dieyson Martins de Melo CostaIII

IServiço de Cirurgia Vascular, Departamento de Cirurgia, Santa Casa de Misericórdia de Ponta Grossa (SCMPG), Ponta Grossa, PR
IIServiço de Urologia, Departamento de Cirurgia, SCMPG, Ponta Grossa, PR
IIIResidente, Serviço de Cirurgia Vascular, Departamento de Cirurgia, SCMPG, Ponta Grossa, PR

Correspondência

 

 


RESUMO

Aneurisma verdadeiro de artéria renal em rim transplantado é ocorrência rara. As possibilidades de tratamento dependem do tamanho, da localização do aneurisma e da clínica apresentada pelo paciente. Descreve-se um caso de aneurisma gigante de artéria renal em rim transplantado que recebeu tratamento ex vivo e reimplante na fossa ilíaca direita. Detalhes do procedimento cirúrgico são descritos.

Palavras-chave: Aneurisma da artéria renal, autotransplante renal, complicações em rim transplantado.


 

 

Introdução

O transplante constitui-se hoje terapêutica bem estabelecida, sendo empregado como tratamento de escolha da insuficiência renal crônica irreversível em todo o mundo. A maior sobrevida desses pacientes fez com que a expectativa de complicações vasculares por aterosclerose aumentasse1. O tratamento dessas complicações exige estratégias cirúrgicas que promovam a proteção do enxerto renal2. Estas podem ser realizadas de maneira convencional, in situ, por técnica endovascular3, ou, quando as condições anatômicas não permitirem, por nefrectomia seguida de perfusão hipotérmica, correção da patologia vascular e reimplante na fossa ilíaca4-7.

 

Relato de caso

Paciente masculino, com 51 anos, recebeu um transplante renal de doador vivo há 60 meses. Cirurgia realizada sem intercorrências, permanecendo assintomático até 2 meses atrás, quando, em controle realizado, passou a apresentar aumento gradual da creatinina sérica, chegando a 2,7 mg/dL, sendo submetido, então, a investigação clínica. Uma ultra-sonografia demonstrou dilatação aneurismática da artéria renal transplantada, estendendo-se do hilo à anastomose com a artéria ilíaca externa, apresentando trombo mural. Na tomografia computadorizada com contraste (Figura 1), os achados foram confirmados, e o tamanho do aneurisma, mensurado em 3,9 x 4,0 x 6,5 cm.

 

 

Cirurgia

O implante renal foi retirado da fossa ilíaca direita e recebeu tratamento ex vivo, sendo perfundido pela veia renal com solução de Euro-Collins. Na operação de bancada, notou-se erosão do parênquima pelo aneurisma que foi ressecado. Utilizou-se a veia safena magna para confecção de um enxerto venoso espiralado, de diâmetro semelhante à veia renal (Figura 2).

 

 

O rim foi reimplantado na fossa ilíaca direita de modo que o tubo venoso ficasse interposto entre o coto venoso do rim e a veia ilíaca comum. Um segmento de safena magna foi utilizado para a confecção da ponte entre o coto arterial do rim e a artéria ilíaca comum. A via urinária foi anastomosada de maneira término-lateral ao ureter nativo (Figura 3).

 

 

No pós-operatório, o paciente evoluiu com melhora da função renal, e a creatinina diminuiu para 1,4 mg/dL. Recebeu alta hospitalar sem complicações.

 

Discussão

As complicações dos aneurismas de artéria renal estão associadas a risco de vida por ruptura, especialmente em pacientes grávidas8, e perda do enxerto em casos de rim transplantado9. Aneurismas de mais de 2 cm de diâmetro ou que apresentem algum tipo de sintomatologia decorrente de sua presença têm indicação para tratamento cirúrgico10. Em 1967, Ota et al. realizaram o primeiro reparo de artéria renal, ex vivo, por hipertensão renovascular11. Em 1971, Grein et al. utilizaram a mesma técnica para correção de aneurisma de artéria renal12. Richardson et al., em 1990, descreveram um caso de ruptura de aneurisma de artéria renal em paciente grávida com rim transplantado13. Ressecção de aneurisma em rim transplantado com reparo local foi relatada por Dunkow et al. em 199414 e Guleria et al. em 199815. Mais recentemente, a utilização de técnicas endovasculares tem se mostrado bastante efetiva para casos que apresentam uma anatomia favorável3,16. A necessidade de ressecção de um longo segmento da artéria comprometida pelo aneurisma e o sacrifício de parte da veia renal envolvida nesse caso, necessários para a nefrectomia, obrigaram a interpor um segmento venoso no coto arterial renal e confeccionar um enxerto espiralado para a veia. Essa condição obrigou a realizar a correção ex vivo e proceder ao reimplante do enxerto renal pela segunda vez.

O reimplante renal, com reconstrução vascular extracorpórea, é uma técnica complexa com indicação nos casos em que o aneurisma da artéria não pode ser corrigido por técnica endovascular ou tratamento in situ. Constitui-se alternativa válida para casos selecionados.

 

Referências

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3. Cardozo MA, Lichtenfels E, Erlin Jr N, Raupp E, Tarasconi DP. Endovascular treatment of renal artery aneurysm using microcoil embolization and renal blood flow preservation: case report. J Vasc Bras. 2007;6:167-70.         [ Links ]

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11. Ota K, Mori S, Awane Y, Ueno A. Ex situ repair of renal artery for renovascular hypertension. Arch Surg. 1967;94:370-3.         [ Links ]

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Correspondência:
César Roberto Busato
Rua Saldanha da Gama, 425
CEP 84015-130 - Ponta Grossa, PR
Tel.: (42) 3028.4245
Fax: (42) 3224.3288
Email: crbusato@brturbo.com.br

Artigo recebido em 29.07.08, aceito em 16.12.08.

 

 

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Trabalho apresentado como pôster no X Encontro Paranaense de Angiologia e Cirurgia Vascular, realizado em Curitiba, PR, em 9 e 10 de maio de 2008.

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