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Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449

J. vasc. bras. vol.9 no.3 Porto Alegre set. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1677-54492010000300013 

RELATO DE CASO

 

Doença cística da artéria poplítea: relato de caso

 

 

Daiane Taís Schlindwein AlbernazI; Luiz Fernando Lima AlbernazII; Eduardo Estevão EggersIII

IMédica, Novo Hamburgo (RS), Brasil
IICirurgião Vascular Especialista pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), Novo Hamburgo (RS), Brasil
IIICirurgião Vascular Especialista pela SBACV; Professor da Disciplina de Cirurgia Vascular da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), Canoas (RS), Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Apesar de sua raridade, a doença cística da artéria poplítea (DCAP) deve ser lembrada no diagnóstico diferencial de claudicação intermitente de membros inferiores em pacientes jovens. A literatura brasileira apresenta poucos relatos dessa doença. Este trabalho reportou o caso de um paciente masculino portador de DCAP e revisou a literatura, traçando um paralelo com a síndrome de aprisionamento da artéria poplítea.

Palavras-chave: Claudicação intermitente, artéria poplítea, cistos.


Introdução

A claudicação de membros inferiores em indivíduos jovens tem como principais causas a doença cística da artéria poplítea (DCAP) e a síndrome do aprisionamento da artéria poplítea (SAAP). Apesar de sua importância, a DCAP tem sido pouco estudada devido a sua raridade. Não apresenta etiologia esclarecida e à sua existência deve ser sempre lembrada pelo cirurgião vascular. Até o presente momento, a literatura brasileira apresenta, aproximadamente, dez relatos1-5, citações em anais de congressos6-8 e uma comunicação pessoal2.

 

Descrição do caso

RLS, 39 anos, masculino, branco, professor de futebol referia dor na panturrilha direita há 1 ano e piora do quadro há 8 meses, quando apresentou palidez e claudicação intermitente para 100 m do membro inferior, acompanhado de parestesia do pé direito. Sua história pregressa indicava apenas a ruptura de ligamento cruzado anterior direito há 18 anos, corroborada pela ressonância magnética prévia dos joelhos, a qual demonstrou ruptura de ligamento cruzado anterior, lesão meniscal e severa artrose no joelho direito e, de menor grau, no esquerdo (Figura 1).

 

 

O paciente não apresentava fatores de risco para a doença aterosclerótica.

Ao exame físico, apresentava importante hipertrofia muscular de ambas as panturrilhas. Os pulsos arteriais distais eram presentes, mas desapareciam durante as manobras de flexão dorsal passiva dos pés e extensão dos joelhos.

A ecografia com efeito Doppler demonstrou a presença de imagem sugestiva de aneurisma de artéria poplítea direita com desaparecimento do fluxo arterial após a contração prolongada das panturrilhas (Figuras 2 e 3), e a arteriografia de membro inferior direito revelou a ausência de desvio medial da artéria poplítea (Figura 4).

 

 

 

 

 

 

O exame de ressonância nuclear magnética confirmou a imagem de formação "aneurismática" da artéria poplítea direita, afastando a possibilidade de inserções musculares anômalas (Figura 5).

 

 

Retrospectivamente, pode-se identificar nas imagens angiográficas das artérias poplíteas o sinal discreto de estreitamento lateral da artéria poplítea em posição justa articular.

O tratamento indicado foi a intervenção cirúrgica direta através da abordagem posterior da fossa poplítea direita, identificando-se volumoso cisto multilocular na adventícia da artéria poplítea, entre seu terço médio e distal, sendo o restante do vaso livre de alterações anatômicas (Figura 6).

 

 

A exploração da fossa poplítea não identificou cisto de Baker nem compressão muscular.

A dissecção da artéria poplítea demonstrou importante envolvimento do vaso pela formação cística, sem limites precisos entre eles (Figura 7A), causando compressão da luz devido à consistência firme dos cistos. As aderências leves aos tecidos circunvizinhos permitiram liberação sem ruptura ou extravasamento macroscópico do conteúdo.

 

 

A técnica cirúrgica adotada foi a ressecção do segmento arterial comprometido e interposição de segmento de veia safena interna homolateral invertida.

A análise macroscópica da peça cirúrgica demonstrou a presença de substância viscosa no conteúdo da formação cística (Figura 7B), e a análise histopatológica comprovou a presença de degeneração mucinosa adventicial com material proteináceo e de histiócitos.

O paciente apresentava seguimento de 49 meses e relatava ausência de sintomas ou de restrição física.

 

Discussão

A claudicação intermitente dos membros inferiores de pacientes jovens sem fatores etiológicos evidentes para doença arteriosclerótica é rara. As etiologias mais comuns são a SAAP e a DCAP, a qual é considerada causa de 1:1.200 casos de claudicação intermitente2. A compressão extrínseca e embolia da artéria poplítea, e a tromboangeíte obliterante e a displasia fibromuscular3,4 também são possibilidades diagnósticas.

Algumas particularidades do diagnóstico diferencial entre SAAP e DCAP são discutidas a seguir, considerando idade, sexo, apresentação clínica, alterações encontradas em manobras semiológicas e exames de imagem.

Idade

O aparecimento dos sintomas da SAAP é comum em jovens até a terceira década de vida, enquanto que na DCAP ocorrem preferencialmente entre a quarta e a sexta décadas. É importante ressaltar que o aprisionamento pode permanecer por anos sem diagnóstico, não podendo ser descartada essa hipótese em indivíduos de qualquer idade1.

Sexo

Ambas são mais frequentes em homens, sendo a SAAP com frequência de 8:1 e a DCAP, de 4,7:12.

Apresentação clínica

Há casos de SAAP causados apenas por hipertrofia muscular das panturrilhas. No entanto, a grande maioria dos casos deve-se principalmente à alteração congênita da relação entre os vasos poplíteos e demais estruturas adjacentes. No caso descrito, a presença de hipertrofia muscular imprimiu maior atenção na avaliação diagnóstica.

Em ambas as patologias pode haver qualquer grau de manifestação isquêmica, dependendo do grau de acometimento e do tempo de evolução da doença. Da mesma forma, ambas as patologias podem apresentar períodos assintomáticos. Como justificativa desse achado, alguns autores sugerem que, em determinados casos, poderia haver uma comunicação entre a cápsula sinovial e o cisto, modificando a pressão no seu interior de forma intermitente9. Existem relatos de remissão espontânea da doença cística com acompanhamento de dez anos10.

Na SAAP ocorre bilateralidade em aproximadamente 25% dos casos11, enquanto na DCAP há somente relato de um caso bilateral na literatura12.

Manobras semiológicas

Na SAAP, a extensão do joelho e a flexão dorsal passiva dos pés com desaparecimento dos pulsos distais encontram-se frequentemente presentes, como descrito por Mc Donald13. A manobra pode ser realizada com o auxílio de tomografia computadorizada ou ultrassonografia11. Porém, deve-se ficar atento à possibilidade de falso positivo do teste11 na presença de hipertrofia das panturrilhas, como documentado ecograficamente neste caso.

Ishikawa14 descreveu uma manobra de flexão do joelho com desaparecimento do pulso distal do membro na presença de DCAP.

Exames de imagem

A ecografia com efeito Doppler e o exame de ressonância magnética ou tomografia computadorizada podem ser úteis na identificação morfológica da artéria e da sua relação com estruturas adjacentes15-17. Devido à pequena frequência dos achados, a imagem do cisto pode ser confundida com aneurisma ou pseudoaneurisma e a substância interna viscosa dos cistos com trombos murais hipoecogênicos. Por outro lado, lesões aneurismáticas pós-estenóticas podem estar presentes em 6,7% dos aprisionamentos18.

O exame arteriográfico pode evidenciar, na DCAP, a imagem da compressão da artéria acometida pelo cisto – o sinal da cimitarra15.

O estudo detalhado pode demonstrar pequenas alterações nas imagens em perfil. Na SAAP pode haver desvio medial da artéria, presença de circulação colateral e diminuição ou ausência de fluxo com a flexão ativa dos pés. Existem relatos de aprisionamento sem desvio arterial e com dilatação aneurismática pós-estenótica19.

 

Etiopatogenia da doença cística da artéria poplítea

A DCAP é uma alteração morfológica incomum. A doença tem maior incidência na artéria poplítea. Existem relatos de casos com acometimento das artérias ilíacas externas, femorais, radiais, ulnares e braquiais20 e até em veias21. Alguns autores relatam a presença de cistos mucoides originados em outras localizações na parede do vaso além da adventícia, como nas camadas média e íntima20,22.

A etiologia é desconhecida e controversa.

Em 1998, autores sul-africanos apresentaram uma teoria, denominada "hipótese unificadora", a qual consideraram que os cistos eram resquícios de células da gânglia em junções de vasos não-axiais23.

Outros autores apontam os traumatismos repetitivos como possível fator etiológico2. O presente caso contempla essa hipótese, documentada pelas alterações degenerativas e lesão ligamentar do joelho direito decorrente de traumas antigos evidentes na ressonância magnética realizada pelo paciente.

Alguns autores9,22,24 encontraram comunicação cisto-articular. Esse fato atesta a hipótese de os cistos adventiciais serem, na verdade, cistos sinoviais infiltrados na adventícia. Todavia, não há explicação para a diferença na quantidade de ácido hialurônico presente na sinóvia quando comparada ao conteúdo dos cistos25. Não foi identificada a presença de comunicações macroscópicas do cisto com outras estruturas adjacentes.

Autores sauditas, em 2007, sugeriram a possibilidade de relação da DCAP com a degeneração mucoide intimomedial, relacionada por alguns autores à etiologia de formações aneurismáticas20.

 

Tratamento

A aspiração simples dos cistos pode ser feita sob orientação ecográfica26, tomográfica11 ou transoperatória9,17. Ao ponderar a possibilidade de simples evacuação dos cistos, deve-se observar a estrutura da artéria remanescente e atentar à possibilidade de insucesso e recidiva que, em alguns relatos, chega a 10%10. Devido à viscosidade do conteúdo, a aspiração simples pode não ser fácil9, sendo a ressecção da adventícia uma alternativa27.

A angioplastia somente deve ser considerada em casos de exceção28,29.

À presença de oclusão arterial, de fibrose ou de destruição parcial de sua parede pelo cisto, recomenda-se a excisão e substituição por enxerto venoso, a qual é considerada uma alternativa confiável e segura, com menor índice de recidiva3,4,29.

 

Conclusão

Este trabalho relatou o caso de um paciente portador de quadro clínico compatível com DCAP, cuja etiologia permanece desconhecida, tendo sido submetido ao tratamento cirúrgico convencional com sucesso.

 

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Correspondência:
Daiane Taís Schlindwein Albernaz
Rua Marcílio Dias, 1.431, sala 53
Novo Hamburgo (RS), Brasil
Fone (51) 3594-1837
E-mail: dai_brasil@yahoo.com

Submetido em: 12/02/2010 Aceito em: 28/04/2010

 

 

Contribuições dos autores
Concepção e desenho do estudo: DTSA
Análise e interpretação dos dados: DTSA e LFLA
Coleta de dados: DTSA
Redação do artigo: DTSA e LFLA
Revisão crítica do texto: EEG
Aprovação final do artigo*: DTSA, LFLA e EEG
Análise estatística: N/A
Responsabilidade geral pelo estudo: DTSA e LFLA
Informações sobre financiamento: N/A
* Todos os autores leram e aprovaram a versão final submetida ao J Vasc Bras.
Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Trabalho realizado na Clínica Albernaz e no Hospital Regina, Novo Hamburgo (RS), Brasil.

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