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Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449

J. vasc. bras. vol.10 no.1 Porto Alegre mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1677-54492011000100014 

RELATO DE CASO

 

Tratamento endovascular da síndrome de compressão da veia ilíaca (May-Thurner) - relato de caso

 

Endovascular treatment of iliac vein compression syndrome (May-Thurner) - a case report

 

 

Jorge Ribeiro da Cunha JúniorI; Daniel Queiroz NevesII; Fernando Azambuja FontesIII; Gustavo Petorossi SolanoIV; Marcio Cerbazzi Tavares CardosoV; Mauro Henrique de LimaVI; Irlandia Figueira Ocke ReisVII; Paulo Eduardo Ocke ReisVIII

ICirurgião Auxiliar na Angiocare. Residente do Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense (UFF) - Niterói (RJ), Brasil
IICirurgião Auxiliar na Angiocare. Residente do Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense (UFF) - Niterói (RJ), Brasil
IIIAnestesista da Angiocare, Niterói (RJ), Brasil
IVCirurgião auxiliar da Angiocare, Niterói (RJ), Brasil
VCirurgião auxiliar da Angiocare. Pós-Graduando do Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Universitário Antônio Pedro da UFF, Niterói (RJ), Brasil
VICirurgião auxiliar da Angiocare. Pós-Graduando do Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Universitário Antônio Pedro da UFF, Niterói (RJ), Brasil
VIIEnfermeira na Angiocare, Niterói (RJ), Brasil
VIIICirurgião principal na Angiocare. Chefe do Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense Niterói Rio de Janeiro

Correspondência

 

 


RESUMO

A Síndrome de May-Thurner é uma causa pouco comum de sinais e sintomas venosos relacionados ao membro inferior esquerdo. Esta síndrome é caracterizada pela compressão da veia ilíaca comum esquerda pela artéria ilíaca comum direita e, quando tal alteração anatômica causa sintomas que venham a prejudicar a qualidade de vida do paciente, existe a indicação de tratamento cirúrgico ou endovascular para correção desta alteração anatômica. Este artigo é o relato de um caso, no qual optou-se pelo tratamento endovascular com resultado satisfatório e as indicações, as nuances e os resultados esperados para esta técnica no tratamento da Síndrome de May-Thurner são discutidos. Foi concluído que, nesta síndrome, há eficácia do tratamento endovascular com melhora dos sintomas pela recanalização do sistema venoso, sem grandes riscos inerentes ao procedimento e com curto período de internação hospitalar.

Palavras-chave: veia ilíaca; artéria ilíaca; varizes; edema; flebografia


ABSTRACT

May-Thurner Syndrome is an uncommon cause of venous symptoms and signs related to the left lower limb. It is characterized by compression of the left common iliac vein by the right common iliac artery and, when such anatomical change causes symptoms that may impair the patients' quality of life, surgical treatment is indicated. This article addresses a case of May-Thurner syndrome in which we opted for endovascular treatment with satisfactory outcome, as well as a discussion about indications, nuances, and expected results. We concluded that endovascular treatment is effective in treating this syndrome, for it resolves the symptoms by recanalization of the venous system with little risks during the procedure and with short hospital stay.

Keywords: iliac vein; iliac artery; varicose veins; edema; phlebography


 

 

Introdução

A síndrome de compressão da veia ilíaca, também conhecida como Síndrome de May-Thurner, é uma doença pouco comum causada pela compressão da veia ilíaca esquerda pela artéria ilíaca direita, proporcionando uma série de sintomas dependendo do grau de compressão, entre eles: edema assimétrico de membro inferior esquerdo, dor, surgimento de varizes e trombose venosa1-3. Esta síndrome foi descrita pela primeira vez em 1956, por May e Thurner, a partir do estudo de cadáveres, como variações anatômicas da veia ilíaca esquerda proporcionando uma interrupção do fluxo venoso4,5,7-9. Lesões vasculares fibrosas chamadas de spurs foram encontradas no nível em que a artéria ilíaca direita comprimia a veia ilíaca esquerda contra a quinta vértebra lombar5,10. Em 1965, Cockett e Thomas relataram uma série de 35 pacientes com trombose de segmento íliofemoral, os quais possuíam obstrução da veia ilíaca5. Todos os pacientes submetidos ao tratamento cirúrgico possuíam hiperplasia intimal da veia ilíaca.

No passado, o tratamento desses doentes restringia-se ao manejo clínico pouco efetivo, restando apenas as técnicas cirúrgicas abertas como tratamento mais indicado nos casos de maior gravidade6,3,11. Recentemente, com o advento da cirurgia endovascular, uma nova estratégia terapêutica menos invasiva e com bons resultados foi instituída: a angioplastia com balão e colocação de stent1,12,13.

Este artigo tem a finalidade de relatar o caso de uma paciente com diagnóstico de Síndrome de May-Thurner, tratada com sucesso por angioplastia venosa por balão e colocação de stent.

 

Caso clínico

Paciente do sexo feminino, 21 anos, branca, natural da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, sem comorbidades prévias, que apresentava, desde os 18 anos, dor em membro inferior esquerdo e edema com piora ao longo do dia, associado ao surgimento de varizes de pequeno calibre. Ela negava qualquer outro sintoma neste período.

Ao exame físico, apresentava aumento circunferencial do membro inferior esquerdo em relação ao contralateral, presença de telangiectasias e varizes de pequeno calibre, principalmente, em coxa e edema difuso à esquerda. Panturrilhas sem sinais de empastamento. Todos os pulsos palpáveis e de boa amplitude.

Neste período, realizou-se eco-Doppler colorido do membro inferior esquerdo, que mostrou perviedade das veias femoral comum, profunda e superficial com paredes espessadas e refluxo moderado. O índice de velocidade máxima da veia femoral comum esquerda em relação à direita foi de 0,74. A angiorressonância mostrou compressão da veia ilíaca comum esquerda pela artéria ilíaca comum direita, determinando acentuada redução do calibre venoso, caracterizando a síndrome de May-Thurner. Em virtude dos sintomas apresentados pela paciente interferirem em seus afazeres diários, optou-se pelo tratamento endovascular, cuja técnica aplicada foi a angioplastia venosa por balão e colocação de stent.

O procedimento foi realizado sob anestesia raquimedular. Foi realizada punção de ambas as veias femorais com agulha 18 G, introdução de fio-guia curto de 0,35, seguido de passagem de bainha introdutora 11 F e realização de flebografia pré-procedimento, a qual mostrou intensa circulação colateral em veia ilíaca comum esquerda e a impressão da artéria ilíaca direita sobre a veia ilíaca (Figura 1). Após a passagem da bainha, realizou-se a anticoagulação com heparina na dose de 5.000 U venosa. Após identificação da lesão, foi realizada a venoplastia por balão (Figura 2) com dilatação progressiva utilizando cateter balão de 15 x 60 mm e 18 x 60 mm. Após o balonamento da lesão, foi optado o implante de stent, WALLSTENT®, 18 x 60 mm, para manutenção da perviedade do sistema venoso (Figura 3). A liberação do stent acima do local escolhido para implantação definitiva foi realizada, e o stent foi aberto lentamente até 1/3 do seu comprimento. Nesse momento, este foi posicionado a cerca de 1 cm dentro da veia cava. Ao término do implante do stent em veia ilíaca comum direita, realizou-se flebografia de controle, que evidenciou a manutenção do fluxo venoso em ambas as veias ilíacas e diminuição imediata da circulação colateral, demonstrando a efetividade do procedimento (Figura 4). A paciente evoluiu sem intercorrências clínicas no pós-operatório imediato, recebendo alta hospitalar após 24 horas de internação. Para manutenção de patência e prevenção de trombose venosa profunda, a paciente foi mantida anti - agregada no pósoperatório com uso de Clopidogrel 75 mg/dia, durante seis meses.

 

 

 

 

 

 

 

 

Discussão

Descrita pela primeira vez em 1851, por Rudolph Virchow, a compressão da veia ilíaca esquerda consiste em uma variação anatômica comum, que, em alguns casos, pode gerar sintomas como dor, edema, surgimento de varizes unilaterais, úlceras e trombose venosa profunda de repetição14,15.

Em 1956, May e Thurner, em um estudo em cadáveres, descreveram a fisiopatologia da doença mostrando que as alterações hipertróficas observadas na camada íntima venosa estão associadas ao estresse mecânico crônico, induzido pelas pulsações da artéria ilíaca comum direita sobre a veia ilíaca comum esquerda contra a vértebra lombar4,5,10,15,16.

Em 1965, Cockett e Thomas descreveram a síndrome de compressão da veia ilíaca correlacionando os sintomas de edema, dor e trombose venosa profunda às alterações descritas anteriormente por May e Thurner5,10,15. Desde então, o tratamento desta síndrome vem sendo discutido e dividindo opiniões quanto ao tratamento conservador ou à abordagem cirúrgica, principalmente após o advento do tratamento endovascular12,14,16-19.

Antes do advento da dilatação por balão e implante de stent para tratamento de obstruções venosas, muitas técnicas cirúrgicas convencionais foram descritas para o tratamento da síndrome de compressão da veia ilíaca. Mesmo assim, os avanços no tratamento cirúrgico de lesões crônicas vem evoluindo muito lentamente quando comparado com o tratamento das lesões arteriais.

A primeira tentativa de tratamento cirúrgico para este tipo de lesão foi descrito por Palma e Esperon, em 1958, e consistia na confecção de uma derivação fêmoro-femoral cruzada6. Posteriormente, Cormier descreveu a reinserção da origem da artéria ilíaca direita, transpondo-a para a porção abaixo da veia ilíaca, descomprimindo-a.

Apesar do advento destas técnicas cirúrgicas, estas se mostravam muito complexas e agressivas, deixando grandes cicatrizes em virtude do acesso cirúrgico. Com isso, o trauma operatório e os resultados esperados ainda eram pouco promissores, sendo indicado o tratamento cirúrgico apenas para os casos mais graves.

A literatura atual vem demonstrando que a técnica endovascular combinada à angioplastia com balão e à colocação de stent, traz excelentes resultados na recanalização do sistema venoso ilíaco, submetendo o paciente a um trauma cirúrgico mínimo2,12,20-23, assim como aquele demonstrado neste relato de caso.

Quanto à utilização de anticoagulação venosa, não existe consenso. Assim como na Angiocare, a maioria dos autores segue um protocolo de anticoagular os pacientes com heparina durante o procedimento e por 24 a 72 horas, mantendo-os antiagregados com AAS 75 a 250 mg/dia e/ ou Clopidogrel 75 mg/dia durante um a seis meses de pós-operatório7,8,15.

Tendo em vista a boa evolução da paciente, o tratamento endovascular na síndrome de May-Thurner parece ser superior às técnicas convencionais e ao tratamento clínico, e vem se mostrando como tratamento de escolha em pacientes sintomáticos, apesar de não existirem ainda estudos a longo prazo no tratamento endovascular desta síndrome3,9,11. O tratamento endovascular é muito menos invasivo e com poucas chances de complicação, além da possibilidade de retorno precoce dos pacientes às suas atividades laborais habituais.

 

Conclusão

A partir do que foi exposto, concluí-se que a técnica endovascular para o tratamento da síndrome de May-Thurner é factível e promissora, com poucas chances de complicação peri e pós-operatórias, menos invasivas que as técnicas cirúrgicas convencionais, com menor morbidade e requerendo menor tempo de internação hospitalar. Por ser um procedimento relativamente novo, ainda faz-se necessário um maior seguimento dos pacientes e maiores estudos relacionados ao uso da técnica endovascular para o segmento venoso. Porém, a evolução do caso exposto, bem como a revisão da literatura, apontam para uma utilização crescente desta técnica1,2,3,7-9,11,13,20,22,23.

 

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Correspondência:
Jorge Ribeiro da Cunha Júnior
Rua Marques de Paraná, 303 - 3º andar
CEP 24033-900 - Centro Niterói (RJ), Brasil
Tel: (21) 2629-9320
E-mail: jorgercjunior@gmail.com

Submetido em: 18.09.10
Aceito em: 15.03.11

 

 

Contribuições dos autores:
Concepção e desenho do estudo: JRCJ, PEOR, DQN
Análise e interpretação dos dados: JRCJ, MCTC
Coleta de dados: GPS, MHL, FAF
Redação do artigo: JRCJ
Revisão crítica do texto: PEOR, IFOR
Aprovação final do artigo*: JRCJ, PEOR, DQN, MCTC, GPS, MHL, FAF, IFOR
Responsabilidade geral pelo estudo: JRCJ, PEOR
*Todos os autores leram e aprovaram a versão final submetida ao J Vasc Bras.

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