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Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449

J. vasc. bras. vol.12 no.2 Porto Alegre jun. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1677-54492013000200014 

Relatos De Caso

Tratamento endovascular de estenose de veia ilíaca externa, em pós-operatório de transplante renal, por compressão pelo enxerto

Willamax Oliveira de Sousa1 

Francisco Henrique Peixoto da Silva1 

Roberto Jamacaru Aquino Filho2 

Danilo Rocha Paz1 

1Universidade Federal do Ceará – UFC, Campus Cariri, Faculdade de Medicina de Barbalha, Barbalha, CE, Brasil

2Hospital Maternidade São Vicente de Paulo, Barbalha, CE, Brasil

RESUMO

Paciente com 57 anos apresentou estenose de aproximadamente 80% de veia ilíaca externa esquerda, devido a compressão pelo enxerto renal após o transplante de rim. A complicação vascular manifestou-se clinicamente com edema em membro inferior esquerdo, de caráter progressivo, que se iniciou no pé, durante o pós-operatório imediato, e progrediu até a coxa, associando-se a deterioração da função renal durante o intervalo de quatro meses após o transplante. O diagnóstico de compressão extrínseca pelo enxerto renal foi sugerido pelo eco-Doppler venoso, sendo, então, realizada flebografia, que confirmou estenose de veia ilíaca externa esquerda. O tratamento foi realizado com angioplastia por balão, porém a estenose residual persistiu, optando-se, então, pela colocação de stent, com correção da estenose. O paciente evoluiu com regressão do edema e melhora da função renal. Embora as complicações vasculares sejam eventos raros e potencialmente graves, existe um bom percentual de sucesso com a terapêutica precoce.

Palavras-Chave: transplante de rim; complicações pós-operatórias; angioplastia

INTRODUÇÃO

Pacientes com insuficiência renal crônica em fase avançada têm no transplante renal o tratamento definitivo para sua doença1,2. Porém, apesar de bem padronizada, a cirurgia pode apresentar complicações urológicas, clínicas e vasculares no pós-operatório3,4. As complicações vasculares representam uma das mais graves, podendo levar a comprometimento funcional e até perda do rim transplantado5. Em estudos que avaliaram retrospectivamente grande número de transplantes de rim, essas complicações ocorreram entre 2,55% e 8,86%, e as mais frequentes foram hemorragia, estenose da artéria renal, trombose da artéria renal e trombose da veia renal, enquanto fístula arteriovenosa e aneurismas foram raros1,2,5-7. Ocorrem mais comumente no 1º mês pós-transplante e apresentam-se clinicamente com deterioração da função renal, diminuição do débito urinário, dor na região do enxerto, edema em membro inferior, hemorragia e perda do enxerto1,7.

O diagnóstico deve ser confirmado precocemente com base nos achados laboratoriais, na ultrassonografia doppler (USG), angiografia por ressonância magnética ou convencional5,6.

DESCRIÇÃO DO CASO

Paciente feminino, 57 anos, realizou transplante renal há aproximadamente nove meses, por doença renal crônica devido a atrofia renal idiopática, com implante do enxerto em veia ilíaca externa esquerda (VIE). Refere que percebeu edema no pé esquerdo no 4º dia pós-transplante, quando teve alta hospitalar. Evoluiu com progressão do edema para todo o membro inferior esquerdo (MIE), que piorava ao final do dia, não referindo cianose ou dor no membro.

Na admissão hospitalar, solicitaram-se exames para avaliar a função renal, os quais mostraram níveis de creatinina sérica (Cr) de 4,2 mg/dL e ureia (Ur) de 108 mg/dL. Iniciou-se suporte clínico com enoxaparina 40 mg 12/12h, bem como medicações para evitar rejeição do enxerto. A paciente evoluiu satisfatoriamente com controle pressórico, mantendo diurese diária acima de 2000 mL.

Realizou-se eco-Doppler venoso de MIE que mostrou sistema venoso superficial sem trombose, sistema profundo com segmento distal e poplíteo-femoral pérvios e compressíveis. Já na veia femoral esquerda, foi observado fluxo de baixa velocidade e perda da fasicidade respiratória. Os sinais ecográficos sugeriram compressão extrínseca ou trombose do segmento da VIE, junto à anastomose do enxerto renal transplantado, comprometendo a sua veia. Decidiu-se então progredir a investigação com flebografia para esclarecimento diagnóstico com vistas à intervenção terapêutica.

Foi realizada flebografia por punção de veia femoral comum esquerda, técnica de Seldinger, colocação de introdutor 5F de 11 cm e tomada de imagens de veias cava inferior, ilíacas e femorais, que não detectou trombos e confirmou a estenose de VIE por compressão extrínseca pelo rim transplantado (Figura 1a, b). Decidiu-se, então, por angioplastia. Foi passado fio hidrofílico 0,35 para vencer a lesão, introduzido cateter balão Profiler(r) 6 × 40 mm, sendo feita angioplastia na estenose (Figura 2a). A flebografia de controle mostrou estenose residual (Figura 2b). Decidiu-se fazer nova angioplastia com colocação de stent autoexpansível Biotronik Astron(r) 9 × 60 mm e o exame controle evidenciou veia ilíaca pérvia e sem estenose residual (Figura 3). O procedimento ocorreu sem intercorrências.

Figura 1 a) Flebografia mostrando estenose de veia ilíaca externa esquerda com ausência de trombos em seu interior. b) Compressão extrínseca de veia ilíaca externa esquerda pelo enxerto renal. 

Figura 2 a) Angioplastia com balão 6 × 40 mm para correção de estenose da veia ilíaca externa esquerda. b) Estenose residual após angioplastia com balão. 

Figura 3 Correção da estenose da veia ilíaca externa esquerda após implantação de stent 9 × 60 mm. 

A paciente evoluiu assintomática e sem queixas, recebendo alta hospitalar em uso de varfarina 5mg/dia, meia elástica 7/8 e medicações de uso contínuo pós-transplante. Em acompanhamento ambulatorial, dez dias após a alta hospitalar, apresentava MIE sem edema, boa diurese e pressão arterial controlada. No seguimento após cinco meses, a paciente retorna assintomática com Cr 1,85 mg/dL e Ur 76 mg/dL.

DISCUSSÃO

A compressão da VIE pelo enxerto transplantado é uma complicação pouco frequente no pós-operatório de transplante renal8. Ocorre um prejuízo na drenagem venosa do rim bem como do membro ipsilateral, levando a edema; simulando trombose venosa profunda, com manifestação, geralmente, na primeira semana após o procedimento cirúrgico8. Pode também acarretar deterioração da função renal. Em geral, as complicações vasculares podem estar relacionadas à técnica cirúrgica e são minimizadas com um bom tratamento dos vasos do enxerto e do leito receptor e utilização de técnicas anastomóticas cuidadosas por experiente equipe de cirurgiões.

A USG é um bom exame inicial para triagem quando existe uma suspeição clínica e/ou alteração bioquímica de função renal, podendo detectar ou sugerir, de maneira rápida e não invasiva, alterações vasculares e referentes ao enxerto1,9,10. Os pacientes devem permanecer com anticoagulante oral por pelo menos 6 meses e INR entre 2 e 3, associado ou não a antiagregante (AAS 75-300 mg/d ou clopidogrel 75mg/d), porém ainda não há consenso quanto ao tempo de uso ou a associação deles8,11,12. É necessário acompanhamento através de exame físico e estudo de imagem dos pacientes, pois existe a possibilidade de recidiva da estenose ou trombose futura, podendo ser necessária nova intervenção endovascular ( angioplastia ou colocação de novo stent) ou trombólise, respectivamente.

A estenose de VIE por compressão extrínseca se configura, portanto, em uma alteração de grande morbidade, com risco de perda do enxerto, que pode ser tratada com grande índice de sucesso por intervenções endovasculares1,5. A angioplastia com implante de stent mostrou-se um tratamento seguro e eficaz, pouco invasivo, além de ter menos morbimortalidade que a cirurgia aberta8,13. O tempo de internamento hospitalar e o retorno do paciente às suas atividades cotidianas também são menores.

REFERÊNCIAS

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Concepção e desenho do estudo: WOS, FHPS, RJAF, DRP

Análise e interpretação dos dados: WOS, FHPS, RJAF, DRP

Coleta de dados: WOS, FHPS, RJAF,DRP

Redação do artigo: WOS, FHPS, RJAF, DRP

Revisão crítica do texto: WOS, FHPS, RJAF, DRP

Análise estatística: não houve

Aprovação final do artigo*: WOS, FHPS, RJAF, DRP

Responsabilidade geral do estudo: WOS, FHPS

Fonte de financiamento: Nenhuma.

*Todos os autores leram e aprovaram a versão final submetida do J Vasc Bras.

O estudo foi realizado no Hospital e Maternidade São Vicente de Paulo, Barbalha, CE.

Recebido: 14 de Setembro de 2012; Aceito: 21 de Dezembro de 2012

Conflito de interesse: Os autores declararam não haver conflitos de interesse que precisam ser informados.

WOS é médico formado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Residência em Cirurgia Geral pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Campus Cariri, Faculdade de Medicina de Barbalha. Residente em Cirurgia Vascular pelo SUS – PE..

FHPS é especialista em cirurgia vascular. Professor do curso de medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), campus Cariri. Coordenador da Residência Médica em Cirurgia Geral, UFC - Campus Cariri

RJAF é chefe do Serviço de Alta Complexidade SUS em Cirurgia Vascular e Endovascular do Hospital e Maternidade São Vicente de Paulo, Barbalha CE. Título de Especialista em Cirurgia Vascular SBACV AMB. Certificado em Área de Atuação em Ecografia Vascular com Doppler SBACV CBR AMB. Certificado em Área de Atuação em Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular SBACV CBR AMB. Membro Efetivo da SBACV Regional CE. Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (TCBC) - Cirurgia Vascular.

DRP é médico formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Faculdade de Medicina de Barbalha, campus Cariri.

Correspondência Willamax Oliveira de Sousa Av. Cel. João Coelho, 169, ap. 111 - Centro CEP 63180-000 - Barbalha (CE), Brasil E-mail: willamax@yahoo.com.br

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