SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.13 issue4Kasabach-Merritt syndrome: clinical vs. surgical treatmentCrutch-related acute arterial thrombosis in upper limb: case report author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Jornal Vascular Brasileiro

Print version ISSN 1677-5449On-line version ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.13 no.4 Porto Alegre Oct./Dec. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1677-5449.0046 

Relatos De Caso

Agenesia bilateral de artéria carótida interna: relato de caso

Giuliano da Paz Oliveira1 

Nara Lívia Rezende Soares2 

Germano da Paz Oliveira3 

Benjamim Pessoa Vale4 

1Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, São Paulo, SP, Brasil

2Centro Universitário UNINOVAFAPI, Teresina, PI, Brasil

3Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí – HUPI, Teresina, PI, Brasil

4Hospital São Marcos – HSM, Teresina, PI, Brasil

RESUMO

Agenesia da artéria carótida interna (ACI) é definida como uma ausência congênita do canal carotídeo e ocorre em menos de 0,01% da população. O diagnóstico dessa anomalia ocorre geralmente como um achado incidental ou depois de um evento cerebrovascular. Apresentamos o caso de uma mulher de 36 anos, hipertensa e tabagista, com agenesia bilateral de ACI, que abriu quadro com hemorragia subaracnoide decorrente de rotura de aneurisma de artéria de basilar. A agenesia da ACI é, portanto, uma condição que, embora rara, deve ser lembrada por estar associada a outras más formações potencialmente fatais, como os aneurismas cerebrais.

Palavras-Chave: artéria carótida interna; doenças das artérias carótidas; aneurisma intracraniano

INTRODUÇÃO

Agenesia da artéria carótida interna (ACI) é definida como uma ausência congênita do canal carotídeo, muitas vezes acompanhada de outra anormalidade arterial no Polígono de Willis1.

Agenesia, aplasia e hipoplasia da ACI são anomalias congênitas raras, ocorrendo em menos de 0,01% da população2. A ausência de uma ou ambas as artérias carótidas internas, na maioria das vezes, não manifesta nenhuma sintomatologia. Isso acontece devido à presença de vasos colaterais, como os vasos embrionários persistentes, as vias normais de anastomose através do Polígono de Willis ou as anastomoses com as artérias carótidas externas. Dessa forma, o diagnóstico dessa anomalia ocorre geralmente como um achado incidental ou depois de um evento cerebrovascular, como um infarto cerebral ou como uma hemorragia subaracnoide após a ruptura de um aneurisma3.

Por outro lado, alguns doentes podem exibir sinais relacionados à insuficiência cerebrovascular ou complicações vasculares decorrentes da presença de uma má formação arterial concomitante. Nesse caso, estes pacientes podem manifestar sintomas variados que vão desde dores de cabeça recorrentes e visão turva até hemiparesia e rebaixamento de nível de consciência4.

Embora possa ser detectada por angiotomografia computadorizada (angio-TC) ou angioressonância nuclear magnética (angio-RNM), o exame padrãoouro para o diagnóstico de agenesia de ACI ainda é a angiografia5.

É importante ressaltar ainda que a agenesia de ACI, quando presente, geralmente é unilateral e mais frequente no lado esquerdo5. A relação proporcional entre as prevalências de agenesia de ACI do lado direito, do lado esquerdo e bilateral é, respectivamente, de 1:3:13.

DESCRIÇÃO DO CASO

Apresentamos o caso de uma mulher de 36 anos sabidamente hipertensa, sem tratamento regular e tabagista, que apresentou quadro súbito de cefaleia holocraniana de forte intensidade associada a vômitos em jato e rebaixamento do nível de consciência.

Na avaliação inicial da admissão em serviço de Pronto Atendimento de um hospital terciário, apresentava-se sonolenta, com despertar ao chamado, fala confusa, retirando os quatro membros ao estímulo doloroso, com discreta hemiparesia braquiocrural proporcionada à esquerda, com presença de rigidez de nuca. Portanto, pontuou 11 pontos na Escala de Coma de Glasgow, enquadrada na classe III da Escala de Hunt-Hess.

Foi realizada tomografia computadorizada de crânio, que demonstrou hemorragia meníngea à direita e agenesia bilateral do canal carotídeo. Em seguida, optou-se pela realização de angiografia, que evidenciou ausência de opacificação das artérias carótidas internas bilateralmente desde suas origens, além de dilatação sacular irregular no topo da artéria basilar (Figuras 1, 2 e 3). Foi realizado tratamento endovascular com coils de platina e hidrocoil, obtendo oclusão total do aneurisma (Figura 4).

Figura 1 Arteriografia seletiva do sistema carotídeo esquerdo em sua porção cervical, na incidência lateral: artéria carótida interna esquerda não contrastada. 

Figura 2 Arteriografia seletiva do sistema carotídeo direito em sua porção cervical, na incidência lateral: artéria carótida interna direita não contrastada. 

Figura 3 Arteriografia seletiva do sistema vértebro-basilar esquerdo em sua porção intracraniana, na incidência ântero-posterior: aneurisma em topo da artéria basilar (imagem de pré-operatório). 

Figura 4 Arteriografia seletiva do sistema vértebro-basilar esquerdo em sua porção intracraniana, na incidência ântero-posterior: aneurisma em topo da artéria basilar após tratamento endovascular com coils de platina e hidrocoil. 

Realizou-se pós-operatório em unidade de terapia intensiva, na qual permaneceu por quatro dias, sem intercorrências. Recebeu alta hospitalar após sete dias de internação. Atualmente, dois anos após procedimento, encontra-se em seguimento ambulatorial, apresenta discreta hemiparesia à esquerda, sem limitação para realização das atividades diárias.

DISCUSSÃO

Agenesia de ACI é uma anomalia congênita rara, com pouco mais de 100 casos relatados desde a primeira descrição feita por Tode, em 1787, através da dissecação de cadáver3,6. Até o presente momento, encontramos na literatura apenas 26 casos relatados de agenesia bilateral de artérias carótidas internas7.

A ACI tem origem a partir da porção cranial da aorta dorsal e dos seguimentos terminais do terceiro arco aórtico primitivo, com o pleno desenvolvimento por volta da sexta semana8. A agenesia ou aplasia da artéria carótida interna está relacionada, dessa forma, com a atresia ou a involução do terceiro arco aórtico e da porção distal da aorta dorsal, ainda na fase embrionária inicial. A base do crânio, por sua vez, começa a se formar após a quinta ou a sexta semana de vida fetal. Assim, se o primórdio embrionário da ACI não se desenvolver antes da terceira até a quinta semana embrionária, a ACI e o canal carotídeo não irão se desenvolver3.

Nenhuma explicação precisa foi proposta para o desenvolvimento de anomalias da artéria carótida interna, mas acredita-se que todas as variantes decorrem de insultos durante o desenvolvimento do embrião. Keen e col. sugeriram que as lesões mecânicas no embrião em desenvolvimento, como o dobramento excessivo do embrião para um lado e o efeito da pressão ou de restrição pelas bandas amnióticas, podem colaborar para a ausência da artéria carótida interna4.

A história natural dos pacientes com artéria carótida interna ausente não é totalmente clara9. Sabe-se que a maioria dos pacientes portadores dessa anomalia permanece assintomática, uma vez que o suprimento arterial é compensado pela existência de circulação colateral10. Sabe-se ainda que há um maior risco de aneurisma cerebral no Polígono de Willis em pacientes com agenesia das artérias carótidas internas9. Assim, a apresentação clínica inicial costuma ser a de um evento cerebrovascular, como um infarto cerebral ou como uma hemorragia subaracnoide após a ruptura de um aneurisma, como ocorreu no caso que foi relatado10.

A prevalência de aneurismas intracranianos na população geral é estimada em 2 a 4%. Por outro lado, em pacientes com ausência congênita de ACI, este número aumenta para 24 a 34%4. Os pacientes com agenesia bilateral das artérias carótidas internas possuem um alto risco de desenvolvimento de aneurismas, sobretudo nas artérias comunicantes posterior e basilar, como relatado no presente caso9.

O aumento da formação de aneurismas intracranianos pode ser atribuído a uma força hemodinâmica anormal, relacionada à compensação colateral dos vasos arteriais ou a um defeito congênito na integridade da artéria carótida interna ou de outras artérias4.

Condições que apresentam algum grau de comprometimento hemodinâmico, como ocorre na agenesia de ACI, podem ser um gatilho adicional para o desenvolvimento de comorbidades significativas10. Diversos autores ressaltam a importância da realização de imagem periódica dos vasos cerebrais dos pacientes com agenesia de ACI, no intuito de monitorizar o desenvolvimento de aneurismas intracranianos9. Estudos têm relatado que o reconhecimento precoce das anomalias envolvendo o sistema carotídeo pode prevenir complicações potencialmente fatais10.

A angiografia convencional é mais sensível do que a angio-TC ou a angio-RNM para detecção de aneurismas cerebrais. Recomenda-se utilizar angio-RNM para vigilância de aneurismas em crianças, por tratar-se de uma técnica não invasiva9.

A ausência congênita de ACI pode ser encontrada em associação com outras síndromes, particularmente na população pediátrica. Já foram descritas associações com hipoplasia de mastoide, Sindrome de Horner e hipopituitarismo congênito9.

CONCLUSÃO

A agenesia da ACI é uma condição que, embora silenciosa, pode estar associada a outras más formações e distúrbios potencialmente graves. De maneira geral, os pacientes com agenesia de ACI bilateral estão em alto risco de desenvolvimento de aneurismas intracranianos. O diagnóstico de anomalias que envolvem o sistema carotídeo deve ser seguido de um acompanhamento rigoroso desses pacientes, a fim de identificar precocemente alterações potencialmente fatais, como os aneurismas cerebrais.

Fonte de financiamento: Nenhuma.

O estudo foi realizado no Hospital São Marcos - HSM, Teresina (PI), Brasil.

REFERÊNCIAS

1. Suyama K, Mizota S, Minagawa T, Hayashi K, Miyazaki H, Nagata I. A ruptured anterior communicating artery aneurysm associated with internal carotid artery agenesis and a middle cerebral artery anomaly. J Clin Neurosci. 2009;16(4):585-6. http://dx.doi.org/10.1016/j.jocn.2008.06.001. PMid:19200736 [ Links ]

2. Given CA 2nd, Huang-Hellinger F, Baker MD, Chepuri NB, Morris PP. Congenital absence of the internal carotid artery: case reports and review of the collateral circulation. AJNR Am J Neuroradiol. 2001;22(10):1953-9. PMid:11733331. [ Links ]

3. Orakdögen M, Berkman Z, Ersahin M, Biber N, Somay H. Agenesis of the left internal carotid artery associated with anterior communicating artery aneurysm: case report. Turk Neurosurg. 2007;17(4):273-6. PMid:18050072. [ Links ]

4. Elazab NE, Riel-Romero RM, Gonzalez-Toledo E. Internal carotid artery agenesis and basilar artery aneurysm with third nerve palsy. Pediatr Neurol. 2010;42(6):451-4. PMid:20472202. [ Links ]

5. Neves WS, Kakudate MY, Cêntola CP, Garzon RG, Poça d'Água A, Sanches R. Agenesia da artéria carótida interna: relato de caso. Radiol Bras. 2008;41(1):63-6. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-39842008000100015. [ Links ]

6. Hunt WE, Hess RM. Surgical risk as related to time of intervention in the repair of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 1968;28(1):14-20. http://dx.doi.org/10.3171/jns.1968.28.1.0014. PMid:5635959 [ Links ]

7. Sunada I, Inoue T. Bilateral internal carotid artery agenesis. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 1996;61(2):206-7. http://dx.doi.org/10.1136/jnnp.61.2.206. PMid:8708697 [ Links ]

8. Naeini RM, De J, Satow T, Benndorf G. Unilateral agenesis of internal carotid artery with ophthalmic artery arising from posterior communicating artery. AJR Am J Roentgenol. 2005;184(2):571-3. http://dx.doi.org/10.2214/ajr.184.2.01840571. PMid:15671382 [ Links ]

9. Steer AC, Rowe PW. Bilateral agenesis of the internal carotid artery: case report and approach to management. J Paediatr Child Health. 2008;44(9):511-3. http://dx.doi.org/10.1111/j.1440-1754.2008.01357.x. PMid:18928467 [ Links ]

10. Given CA 2nd, Huang-Hellinger F, Baker MD, Chepuri NB, Morris PP. Congenital absence of the internal carotid artery: case reports and review of the collateral circulation. AJNR Am J Neuroradiol. 2001;22(10):1953-9. PMid:11733331. [ Links ]

Recebido: 26 de Maio de 2014; Aceito: 07 de Julho de 2014

Correspondência Giuliano da Paz Oliveira, Rua Doutor Diogo de Faria, 85/101 – Vila Clementino, CEP 04037-000 – São Paulo (SP), Brasil, Tel.: (11) 952345398, E-mail: giulianooliveira@hotmail.com

Conflito de interesse: Os autores declararam não haver conflitos de interesse que precisam ser informados.

Informações sobre os autores

GPO - Médico formado pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Atualmente é Residente em Neurologia na Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

NLRS - Acadêmica de Medicina, Centro Universitário UNINOVAFAPI.

GPO - Cirurgião vascular e endovascular do Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Mestre em Ciências pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

BPV - Médico formado pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Atualmente é Médico Neurocirurgião Vascular e Endovascular do Instituto de Neurociências e do Hospital São Marcos (HSM), Presidente Voluntário da Associação Reabilitar, Coordenador do Projeto Pense Bem AVC em Teresina-PI (Sociedade Brasileira de Neurocirurgia) e Membro do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia.

Contribuições dos autores

Concepção e desenho do estudo: BPV

Análise e interpretação dos dados: GPO, NLRS

Coleta de dados: GPO, NLRS

Redação do artigo: GPO, NLRS, GPO, BPV

Revisão crítica do texto: GPO, GPO, BPV

Aprovação final do artigo*: GPO, NLRS, GPO, BPV*

Análise estatística: N/A

Responsabilidade geral do estudo: GPO, BPV

*

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium provided the original work is properly cited.