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Jornal Vascular Brasileiro

Print version ISSN 1677-5449On-line version ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.15 no.2 Porto Alegre Apr./June 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1677-5449.007315 

Relatos de Caso

Tumor de corpo carotídeo (paraganglioma): relato de dois casos submetidos a tratamento cirúrgico

Nelson Mesquita Junior1  * 

Rogério Santos Silva1 

José Henrique Agner Ribeiro1 

Lislaine Cruz Batista1 

Emanuelle Melania Stedille Bringhentti1 

Bruno Benjamin Brunini de Souza1 

Lisiane Cristine da Mota Cabral1 

1Faculdade Evangélica do Paraná – FEPAR, Curitiba, PR, Brasil.

Resumo

O tumor de corpo carotídeo é uma neoplasia rara, geralmente benigna, que acomete, sobretudo, indivíduos entre a quarta e a quinta décadas de vida. Manifesta-se pela presença de massa cervical consistente localizada abaixo do ângulo da mandíbula, pulsátil e comumente indolor. Pode evoluir para dor local, disfagia, soluços, rouquidão e síndrome do corpo carotídeo hipersensível. Este artigo relata os casos de duas pacientes diagnosticadas com essa neoplasia e submetidas ao tratamento cirúrgico. A primeira foi submetida a uma ressecção em bloco do tumor, enquanto a segunda, com estadiamento mais precoce, foi tratada com uma ressecção subadventicial da lesão.

Palavras-chave:  tumor de corpo carotídeo; paraganglioma; tumor de glomo carotídeo

INTRODUÇÃO

O corpo carotídeo é uma estrutura de formato elíptico de 3 a 4 mm de tamanho localizada na bifurcação da carótida comum ao nível da sua camada adventicial1-4. Tem como função a quimiorrecepção e a barorrecepção. Por essa razão, os tumores provenientes desse local são chamados de quimiodectomas, isto é, tumores quimiorreceptores2,5-7.

Os tumores de corpo carotídeo são neoplasias derivadas de células paragangliônicas e, apesar de serem bem delimitados, são tumores não capsulados e altamente vascularizados por ramos da artéria carótida externa e seus “vasa vasorum”2-4,8-12.

Apesar de raros, são os paragangliomas mais comuns originados na região da cabeça e pescoço (60-70%)5,13. Essa neoplasia é, em grande parte das vezes, hipervascularizada, de origem familiar e crescimento lento, e não há predisposição por sexo. Acomete, sobretudo, pacientes na quarta e quinta décadas de vida, sendo, na grande maioria das vezes, de caráter benigno; porém, grande parte dos autores relatam malignidade em 5 a 6% dos casos1,6,14,15. Os sintomas são variados. Pode ser assintomático ou manifestar-se como uma tumoração de crescimento lento, indolor e pulsátil na região lateral do pescoço, próximo ao ângulo da mandíbula, com eventual queixa de rouquidão, dificuldade de deglutição e sintomas da síndrome do seio carotídeo5,6,16.

DESCRIÇÃO DOS CASOS

A primeira paciente, 28 anos, sexo feminino, branca, natural de Loanda (PR), foi atendida no ambulatório do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba (HUEC) com história de tumor em região cervical bilateralmente, com evolução de 5 anos, sendo submetida 4 meses antes a biópsia cirúrgica na região cervical esquerda e encaminhada com diagnóstico de aneurisma de carótida. Negava antecedentes de disfagia, disfonia, ataques isquêmicos e emagrecimento. Ao exame físico, foi observada uma cicatriz de aproximadamente 3 cm no bordo anterior do músculo esternocleidomastoideo, à esquerda. Através da palpação, ficaram evidentes duas massas ovoides, uma medindo 3 × 4 cm, à esquerda, e outra medindo 2 × 2 cm, à direita (Figura 1). Ambas se localizavam nos triângulos carotídeos direito e esquerdo e apresentavam uma consistência elástica, indolor, pulsátil, com mobilidade lateral, porém fixas no sentido longitudinal, sem frêmitos e sopros. O exame da cavidade oral não evidenciou lesões e adenopatias em outras regiões. O exame neurológico mostrou integridade dos pares cranianos.

Figura 1 Presença de lesões tumorais, bilateralmente, em região topográfica correspondente aos vasos carotídeos. 

A paciente foi hospitalizada e submetida a exames de eco-Doppler colorido e tomografia computadorizada (Figura 2), que sugeriram diagnóstico de tumor de corpo carotídeo, posteriormente confirmado pela arteriografia (Figura 3). À esquerda, observou-se oclusão da carótida externa na origem. O exame tomográfico também descartou sinais de invasão da base do crânio.

Figura 2 Imagem tomográfica que deixa evidente a presença de lesão tumoral ao nível da bifurcação carotídea, bilateralmente. 

Figura 3 Exame arteriográfico através do qual se pode observar a rica vascularização tumoral, além da ausência de enchimento da carótida externa pelo contraste. 

A paciente foi submetida a cirurgia sob anestesia geral. Realizou-se uma incisão no bordo anterior do músculo esternocleidomastoideo esquerdo, encontrando-se uma tumoração sólida aderida à bifurcação carotídea, sem comprometer os nervos vago e hipoglosso. Observou-se ligadura da carótida externa na origem. Devido à dificuldade na dissecção, foi realizada a ressecção em bloco do tumor e da bifurcação carotídea (Figura 4). Utilizou-se shunt temporário de Pruitt-Inahara para proteção cerebral, interposição de safena interna com anastomose proximal lateroterminal e distal terminoterminal (Figura 5). Foram retirados dois gânglios para análise histopatológica. A paciente evoluiu no pós-operatório sem déficit neurológico, recebendo alta no sexto dia. O exame histopatológico confirmou diagnóstico de tumor de corpo carotídeo com gânglios livres (Figura 6). Após 60 dias de pós-operatório, um novo estudo arteriográfico não evidenciou resquícios do tumor (Figura 7). A cirurgia do lado contralateral não foi realizada por recusa da paciente.

Figura 4 Aspecto da peça cirúrgica, produto da ressecção em bloco do tumor juntamente com a bifurcação carotídea. 

Figura 5 Arteriografia transoperatória de controle que mostra a perviedade da veia safena usada na reconstrução. 

Figura 6 Exame histopatológico que, através da técnica de imuno-histoquímica, deixa clara a presença das células cromafins. 

Figura 7 Arteriografia de controle após 60 dias, que não mostrou resquícios tumorais. 

A segunda paciente, do sexo feminino, 65 anos, natural de Curitiba (PR), queixava-se da presença de tumoração na região cervical esquerda. Relatava histórico de hipertensão arterial sistêmica e hipercolesterolemia, ambas sob controle. A paciente também relatou possuir meningioma aderido ao seio sagital superior, que não apresentava atividade de crescimento desde 2009. Ao exame físico, verificou-se, na palpação, a presença de massa ovoide pulsátil e indolor em trígono carotídeo esquerdo. Havia consistência elástica sem aderência aos planos profundos e com mobilidade lateral, porém imobilidade em sentido longitudinal. Sem frêmito e sopros. Assim como no caso anterior, os exames da cavidade oral e neurológico não mostraram alterações. A paciente foi submetida a exames de imagem no período pré-operatório. O eco-Doppler colorido evidenciou massa tumoral extremamente vascularizada com dimensões de 3,9 × 3,2 cm ao nível na bifurcação carotídea com afastamento das carótidas internas e externa (“sinal da lira”).

O tratamento cirúrgico foi instituído. Sob anestesia geral, fez-se uma incisão cervical semelhante à descrita no caso anterior, à esquerda. Foi encontrada uma massa sólida aderida à bifurcação carotídea. As estruturas nobres adjacentes foram isoladas facilmente e a dissecção do tumor foi realizada pela técnica subadventicial sem intercorrências (Figuras 8 e 9). Retirou-se material para análise histopatológica. Foi colocado um dreno suctor durante as primeiras 24 horas de pós-operatório. A paciente evoluiu no pós-operatório sem complicações e recebeu alta no segundo pós-operatório. O exame histopatológico confirmou diagnóstico de paraganglioma carotídeo.

Figura 8 Ressecção de tumor glômico através da técnica subadventicial. Nesta imagem, podem-se observar as seguintes estruturas sendo isoladas dos vasos carotídeos: nervo vago (ponta de flecha); nervo hipoglosso (flecha); e tumor (estrela). 

Figura 9 Aspecto do sítio cirúrgico após a ressecção. 

DISCUSSÃO

Segundo Shamblin et al.3, o tumor de corpo carotídeo é classificado em três grupos de acordo com a extensão circunferencial e o grau de aderência: Grupo I - tumor pequeno sem aderência aos vasos que pode ser ressecado sem causar danos às estruturas vizinhas; Grupo II - tumor intermediário com pequena aderência aos vasos cuja dissecação é mais difícil, sendo necessária, às vezes, a revascularização; Grupo III - tumor grande com infiltração nos vasos cuja dissecação se torna quase impraticável, sendo necessária a ressecção em bloco com bifurcação carotídea e realização de revascularização com veia safena ou prótese6,17,18.

Em relação aos exames complementares, o eco-Doppler colorido é a primeira opção, pois fornece informações sugestivas do diagnóstico, que são importantes para triagem e diagnóstico diferencial. A tomografia computadorizada cervical ou, melhor ainda, a ressonância nuclear magnética são os exames de escolha para obter dados de localização, extensão, correlação com estruturas adjacentes e natureza vascular do tumor6,12,13,19. A cintilografia de corpo inteiro e a citometria de fluxo de DNA podem ser usadas na pesquisa de lesões metastáticas ou tumores múltiplos17,20. Já a biópsia não é indicada devido à grande chance de sangramento5,10,12.

A cirurgia é o tratamento de escolha, tendo em vista a possibilidade de malignização, invasão peritumoral e metastação. A técnica mais utilizada é a dissecção subadventicial do tumor (Gordon-Taylor)17,18,21. A ressecção em bloco é utilizada apenas nos casos em que é inviável separar o tumor da artéria, e deve ser seguida de interposição de um enxerto para a carótida interna17. Pantanowitz et al., em 1984, ao fazer uma comparação entre o tamanho do tumor e a classificação de Shamblin, percebeu que os tumores de até 6 cm de tamanho correspondem aos grupos 1 e 2 de Shamblin, e os maiores de 6 cm correspondem ao grupo 3. Portanto, concluiu que os tumores que têm indicação de dissecção são os que possuem menos de 6 cm e extensão circunferencial incompleta, com ângulo da bifurcação menor que 90º, e os que devem ser abordados por ressecção são os maiores de 6 cm e extensão circunferencial completa, com ângulo da bifurcação maior que 90º18,22. O tumor é considerado inoperável quando envolve toda a carótida interna extracraniana, o que torna impossível a anastomose distal com enxerto ou prótese10.

No intraoperatório, é muito importante, antes da dissecção, a identificação e a exposição ampla de todos os nervos, evitando sua manipulação em excesso5,23. Em certas situações, como a ressecção em bloco ou uma possível lesão da parede arterial, faz-se necessário o uso de shunt17. Barbitúricos e manitol são preconizados quando se necessita clipar a artéria carótida interna24.

As taxas de complicações gerais variam entre 32 e 44%, e as taxas de mortalidade variam entre 8 e 20%25. A maior causa de morbidade é a lesão de pares cranianos, sendo os mais acometidos o hipoglosso, o vago e o laríngeo superior, que ocasionam paralisias muitas vezes definitivas4,17,18,23. Complicações mais graves, como infarto cerebral e hemorragia de difícil controle, são mais raras4.

A embolização pode ser utilizada no caso de tumores grandes, em que ela reduz a perda sanguínea e o tamanho do tumor e melhora os resultados cirúrgicos, porém não se pode descartar o risco de embolia cerebral17,18. A radioterapia pode ser utilizada para tumores inacessíveis, parcialmente ressecados, metastáticos, em casos de recorrência local e nos pacientes em que a cirurgia tem altos índices de morbidade. Porém, é necessário lembrar que efeitos colaterais podem ocorrer, como necrose da mandíbula, cérebro e partes moles17,18. A pesquisa do tumor de corpo carotídeo é indicada para os familiares de primeiro grau, e os pacientes devem ser acompanhados em longo prazo, pois a doença metastática pode levar de 10 a 20 anos para se tornar evidente6.

Fonte de financiamento: Nenhuma.

O estudo foi realizado no Hospital Universitário Evangélico de Curitiba (HUEC), Curitiba, PR, Brasil.

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Recebido: 03 de Novembro de 2015; Aceito: 05 de Fevereiro de 2016

Conflito de interesse: Os autores declararam não haver conflitos de interesse que precisam ser informados.

*Correspondência Nelson Mesquita Junior Rua Deputado Heitor Alencar Furtado, 1819/1302 - Mossunguê CEP 81200-110 - Curitiba (PR), Brasil Tel.: (41) 9994-5167 E-mail: nelsonmesquitajunior@gmail.com

Informações sobre os autores NMJ - Mestrado em Princípios de Cirurgia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); Professor de Anatomia e Angiologia e Cirurgia Vascular da Faculdade Evangélica do Paraná (FEPAR). RSS - Mestrado em Princípios de Cirurgia pelo Instituto de Pesquisas Médicas (IPEM); Cirurgião Vascular. JHAR - Doutorando do 9º período do curso de Medicina da Faculdade Evangélica do Paraná (FEPAR). LCB - Acadêmica do 8º período do curso de Medicina da Faculdade Evangélica do Paraná (FEPAR). EMSB - Acadêmica do 7º período do curso de Medicina da Faculdade Evangélica do Paraná (FEPAR). BBBS - Doutorando do 12º período do curso de Medicina da Faculdade Evangélica do Paraná (FEPAR). LCMC - Médica patologista da Citolab.

Contribuições dos autores: Concepção e desenho do estudo: NMJ Análise e interpretação dos dados: NMJ, RSS, JHAR, LCB, EMSB, BBBS, LCMC Coleta de dados: NMJ, RSS, JHAR, LCB, EMSB, BBBS, LCMC Redação do artigo: NMJ, RSS, JHAR, LCB, EMSB, BBBS Revisão crítica do texto: NMJ, RSS, JHAR, LCB, EMSB, BBBS Aprovação final do artigo*: NMJ, RSS, JHAR, LCB, EMSB, BBBS Análise estatística: N/A. Responsabilidade geral pelo estudo: NMJ *Todos os autores leram e aprovaram a versão final submetida ao J Vasc Bras.

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