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Jornal Vascular Brasileiro

Print version ISSN 1677-5449On-line version ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.17 no.3 Porto Alegre July/Sept. 2018  Epub July 23, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1677-5449.000618 

DESAFIO TERAPÊUTICO

Correção cirúrgica de pseudoaneurismas e fístula arteriovenosa complexa entre vasos poplíteos

Adenauer Marinho de Oliveira Góes Junior1  2  * 

Carolina Pinheiro de Oliveira1 

Camilla Castilho Maia1 

Bruno Campos Xavier1 

Silvia Karinny Brito Calandrini de Azevedo1 

1 Centro Universitário do Estado do Pará (CESUPA), Belém, PA, Brasil.

2 Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), Ananindeua, PA, Brasil.

Resumo

A fístula arteriovenosa (FAV) é uma comunicação anormal e permanente entre uma artéria e uma veia devido a traumas penetrantes e lesões iatrogênicas. O trauma penetrante na parede arterial pode levar à formação de pseudoaneurismas (PSA) e, se houver lesão venosa concomitante, à formação de uma FAV. Os autores apresentam o caso de um paciente portador de FAV complexa de vasos poplíteos associada a pseudoaneurisma de artéria poplítea, sugeridos a partir de exames clínicos e exames de imagem, e tratados por cirurgia convencional devido à indisponibilidade de um stent graft com diâmetro apropriado, além de a cirurgia endovascular não estar disponível no serviço em que o paciente foi operado.

Palavras-chave:  fístula arteriovenosa; ferimentos e lesões; artéria poplítea; veia poplítea; falso aneurisma; cirurgia

INTRODUÇÃO

A fístula arteriovenosa (FAV) é uma comunicação anormal permanente entre uma artéria e uma veia 1,2 que está comumente associada a traumas penetrantes e lesões iatrogênicas 1,3 . O tempo de apresentação clínica e o período entre o trauma e o diagnóstico é variável, podendo alcançar décadas 4 . O trauma penetrante na parede arterial pode levar à formação de pseudoaneurismas e, se houver lesão venosa concomitante, ao desenvolvimento de FAV 1 . A ocorrência simultânea de ambas as condições clínicas é uma complicação rara e pouco descrita 5 .

Os vasos mais acometidos são os femorais superficiais (22%), seguidos dos vasos poplíteos (16%) 6 . O trauma em vasos poplíteos acarreta risco significativo de amputação 7 . A FAV é diagnosticada sobretudo pelo quadro clínico, com sopro e frêmito locais, edema e úlcera venosa. A investigação diagnóstica costuma avançar com exames de imagem, como ecografia Doppler, angiotomografia e eventualmente angiografia 1 .

Parte I – situação clínica

Paciente do sexo masculino, 53 anos, sofreu ferimento por “cartucheira” na coxa esquerda há 2 anos e 9 meses.

O paciente evoluiu com dor, edema, varizes, dermatite ocre em membro inferior esquerdo, além de úlcera em face anterior da perna. No membro acometido não havia pulsos distais palpáveis e havia frêmito e sopro perceptíveis desde a região inguinal até o terço proximal da perna (mais intensos na fossa poplítea). Na inspeção chamava atenção a “pulsatilidade” de toda a coxa do paciente.

A angiotomografia demonstrou FAV de vasos poplíteos esquerdos, pseudoaneurisma de artéria poplítea esquerda de 2,6 cm de diâmetro e um aneurisma de veia poplítea com 5 cm de diâmetro ( Figura 1 ).

Figura 1 (A) e (B) Reconstruções da angiotomografia em diferentes incidências, evidenciando a impregnação pelo meio de contraste simultaneamente do sistema arterial e do sistema venoso profundo na coxa esquerda e volumosas dilatações dos vasos poplíteos; C) Corte axial da tomografia computadorizada do membro inferior esquerdo; a: artéria poplítea; pa: pseudoaneursima da artéria poplítea; v: veia poplítea; av: aneurisma da veia poplítea.  

Parte II – o que foi feito

Foi indicada a correção cirúrgica por via aberta. O procedimento foi realizado sob anestesia geral.

Com o paciente em decúbito ventral e um manguito pneumático na raiz da coxa esquerda (em caso da necessidade urgente de hemostasia), procedeu-se incisão em “S” itálico na região poplítea esquerda, identificando-se as volumosas dilatações dos vasos poplíteos. A dissecção desses vasos foi prejudicada pela presença de fibrose e sangramento difuso devido à hipertensão venosa do membro, porém não chegou a ser necessária a insuflação do manguito pneumático. A artéria poplítea foi dissecada e reparada no segmento infragenicular; porém, em virtude do grande volume das dilatações dos vasos envolvidos, o campo cirúrgico foi insuficiente para um controle proximal seguro.

O paciente foi reposicionado em decúbito dorsal a fim de realizar uma incisão longitudinal nas faces mediais da coxa e perna esquerdas, obtendo-se o controle proximal e distal dos vasos envolvidos. Quando a artéria foi pinçada, interrompendo-se o fluxo para a fístula, houve hipotensão arterial, sendo necessário o uso de drogas vasoativas.

Foram realizadas ligaduras arteriais e venosas proximais e distais à FAV e, a seguir, enxerto entre as porções supra e infrageniculares da artéria poplítea com segmento da veia safena magna contralateral reversa (anastomose proximal término-lateral e distal término-terminal). Devido à instabilidade hemodinâmica, a cirurgia foi abreviada sem que o sistema venoso profundo fosse reconstruído ( Figura 2 ).

Figura 2 (A) Acesso cirúrgico posterior em “S” itálico; n: afastadores retraindo o nervo ciático; av: aneurisma da veia poplítea; v: veia poplítea; (B) Acesso cirúrgico medial; a seta indica a anastomose proximal do enxerto na porção supragenicular da artéria poplítea; a ponta de seta indica a anastomose distal do enxerto na porção infragenicular da artéria poplítea.  

O paciente vem sendo acompanhado ambulatorialmente há 6 meses. As feridas operatórias e a úlcera venosa cicatrizaram, não houve aumento do edema do membro em relação ao pré-operatório, e o membro apresentou recuperação funcional satisfatória ( Figura 3 ).

Figura 3 Fotografias feitas no 6º mês pós-operatório mostrando as feridas operatórias cicatrizadas. (A) Acesso cirúrgico posterior em “S” itálico; (B) Acesso cirúrgico medial.  

DISCUSSÃO

Nas FAVs de alto débito com diagnóstico tardio, o fluxo de baixa resistência promove uma arteriomegalia proximal à FAV 8 . Duas teorias explicam essa dilatação. Na primeira, a força de cisalhamento provocada pelo aumento do fluxo local leva a um aumento na produção do fator de relaxamento derivado do endotélio, provocando uma dilatação da musculatura lisa arterial. A segunda teoria afirma que o aumento tardio do fluxo sanguíneo na artéria proximal à FAV leva à destruição das fibras elásticas desse segmento, ocorrendo a progressão da arteriomegalia 4 .

Para a correção de pseudoaneurismas e FAVs, diferentes procedimentos já foram descritos: aneurismorrafia, ressecção de segmento aneurismático e interposição de próteses ou enxertos venosos, implante de stent-graft e procedimentos combinados 9 .

A cirurgia endovascular tem a vantagem de reduzir a morbimortalidade, o tempo de hospitalização e preservar a veia safena magna 7 , porém seu uso ainda carece de estudos com acompanhamento a longo prazo 10 . Entretanto, para o tratamento de aneurismas verdadeiros da artéria poplítea, sabe-se que a cirurgia convencional proporciona perviedade superior a longo prazo, principalmente em pacientes jovens e quando a reconstrução arterial é feita com enxerto de veia 3 .

No caso aqui relatado, optou-se pela realização da cirurgia convencional. Um dos fatores que influenciou a opção pela cirurgia aberta foi a indisponibilidade de um stent revestido com diâmetro apropriado 9 , uma vez que a arteriomegalia proximal à FAV gerou uma diferença de calibres entre a artéria proximal e distal à FAV, e não há um stent revestido cônico adequado à desproporção dos diâmetros. A indisponibilidade de um stent cônico poderia, eventualmente, ser contornada pela liberação de múltiplos stents revestidos de calibres gradualmente crescentes em overlapping utilizando tapered stent grafts11-16 . Porém, essa alternativa endovascular, especialmente na topografia da articulação do joelho, carece de estudos que comprovem sua eficácia a longo prazo; além disso, a cirurgia endovascular não está disponível no serviço em que o paciente foi operado.

No presente caso, o tratamento cirúrgico foi iniciado com acesso posterior para os vasos poplíteos. O acesso posterior deve ser realizado quando o objetivo é a exposição apenas dos segmentos retroarticulares dos vasos poplíteos 7 . Porém, o grande volume do aneurisma venoso prejudicou a dissecção arterial, e esse acesso não possibilitou controle arterial proximal com segurança. Por isso, o decúbito do paciente foi alterado e o acesso medial foi realizado, o que permitiu uma boa exposição e a possibilidade de estender a incisão inicial 7 .

Ao analisar as imagens da angiotomografia retrospectivamente, concluímos que o acesso posterior não deveria ter sido realizado. Recomendamos que a altura da lesão em relação à patela seja usada como referência para o planejamento de casos futuros; quando a lesão estiver localizada acima da borda superior da patela, o acesso medial é o mais indicado.

Em casos como o aqui relatado, a prioridade é a reconstrução arterial, o que foi feito com enxerto usando a veia safena magna contralateral, preservando-se a safena do membro operado para o retorno venoso, pois a ligadura do sistema venoso profundo pode ser necessária. Sempre que possível, a reconstrução do sistema venoso profundo também deve ser realizada por venorrafia, ressecção e anastomose ou enxerto. A ligadura venosa deve ser evitada, devido à possibilidade de o membro evoluir com hipertensão venosa crônica e suas repercussões clínicas no curto e médio prazo 1 . No caso aqui relatado, a ligadura da veia poplítea foi realizada devido ao risco de trombose do volumoso aneurisma venoso e embolia após a desativação da FAV; além disso, devido à instabilidade hemodinâmica, a reconstrução com enxerto venoso inicialmente planejada não foi realizada.

Fonte de financiamento: Nenhuma.

O estudo foi realizado no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência, Ananindeua, PA, Brasil.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 20 de Janeiro de 2018; Aceito: 29 de Maio de 2018

Conflito de interesse: Os autores declararam não haver conflitos de interesse que precisam ser informados.

* Correspondência: Adenauer Marinho de Oliveira Góes Junior Rua Domingos Marreiros, 307/802 - Umarizal CEP 66055-210 - Belém (PA), Brasil Tel.: (91) 981279656 E-mail: adenauerjunior@gmail.com

Informações sobre os autores AMOGJ – Membro titular, Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV); Cirurgião Vascular, Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE); Coordenador, Residência Médica de Cirurgia do Trauma (HMUE); Professor de Cirurgia Vascular, Centro Universitário do Estado do Pará (CESUPA). CPO, CCM, BCX, SKBCA - Acadêmicos(as) de medicina, Centro Universitário do Estado do Pará (CESUPA).

Contribuição dos autores Concepção e desenho do estudo: AMOGJ Análise e interpretação dos dados: AMOGJ Coleta de dados: AMOGJ, CPO, CCM, BCX, SKBCA Redação do artigo: AMOGJ, CPO, CCM, BCX, SKBCA Revisão crítica do texto: AMOGJ Aprovação final do artigo*: AMOGJ, CPO, CCM, BCX, SKBCA Análise estatística: N/A Responsabilidade geral pelo estudo: AMOGJ *Todos os autores leram e aprovaram a versão final submetida ao J Vasc Bras.

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