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Jornal Vascular Brasileiro

Print version ISSN 1677-5449On-line version ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.19  Porto Alegre  2020  Epub May 08, 2020

https://doi.org/10.1590/1677-5449.190108 

ARTIGO ORIGINAL

Avaliação da qualidade de vida em pacientes portadores de varizes de membros inferiores submetidos a tratamento cirúrgico

Fernanda Appolonio Rocha1 
http://orcid.org/0000-0001-7471-8371

Esdras Marques Lins1 
http://orcid.org/0000-0001-6603-6944

Catarina Coelho de Almeida2 
http://orcid.org/0000-0002-4277-8959

Ronaldo Campelo Dias Junior3 
http://orcid.org/0000-0001-5710-6701

Pedro Alberto Livino da Silva3 
http://orcid.org/0000-0003-0595-7218

Claudia Almeida Gameleira3 

Mary Gleyce de Melo Gomes Falcão4 
http://orcid.org/0000-0001-5378-2091

José Wellington dos Santos Barros4 
http://orcid.org/0000-0003-4877-8850

1Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, Disciplina de Cirurgia Vascular, Recife, PE, Brasil.

2Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, Hospital das Clínicas, Serviço de Cirurgia Vascular, Recife, PE, Brasil.

3Faculdade Pernambucana de Saúde – FPS, Curso de Medicina, Recife, PE, Brasil.

4Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira – IMIP, Serviço de Cirurgia Vascular, Recife, PE, Brasil.


Resumo

Contexto

As varizes dos membros inferiores representam uma das doenças mais prevalentes na população mundial e resultam em grande impacto na qualidade de vida dos pacientes devido às limitações nas atividades diárias e no desempenho funcional. Vários autores têm ressaltado a importância da avaliação da qualidade de vida na abordagem de pacientes portadores de doença venosa crônica.

Objetivos

Avaliar a qualidade de vida antes e após o tratamento cirúrgico de pacientes portadores de varizes dos membros inferiores.

Métodos

Através de estudo de antes e depois, foram avaliados 92 portadores de varizes dos membros inferiores submetidos a tratamento cirúrgico. Os pacientes foram divididos em grupos de acordo com a faixa etária e a classificação clínica CEAP. A qualidade de vida foi avaliada através do questionário VEINES QOL/SYM, aplicado no pré-operatório e 60 dias após a operação.

Resultados

Do total de 92 indivíduos analisados, 82,6% (76) eram mulheres. Com relação à idade, a média foi de 45,7±12,11. A classe CEAP 2 foi a mais encontrada, em 57,6% dos pacientes. Foi encontrada diferença significativa entre os escores antes e após a cirurgia para os pacientes na faixa etária entre 30 e 40 anos. Não houve diferença entre os escores nos momentos pré e pós-operatório entre os grupos CEAP.

Conclusões

Não foi encontrada diferença na qualidade de vida antes e após a cirurgia na maioria dos pacientes do estudo.

Palavras-chave:  qualidade de vida; varizes; insuficiência venosa

Abstract

Background

Lower limb varicose veins are one of the most prevalent diseases in the global population. The disease is chronic and has a great impact on patients’ quality of life, limiting daily activities and functional performance. Several authors have emphasized the importance of including quality of life assessment in management of patients with chronic venous disease.

Objectives

To evaluate quality of life before and after surgical treatment of patients with varicose veins.

Methods

A before and after study design was employed. Ninety-two people with varicose veins of the lower limbs were treated surgically. Patients were divided into subsets according to age and CEAP clinical classification. Quality of life was assessed using the VEINES QOL/SYM questionnaire, administered during the preoperative period and 60 days after the operation.

Results

The sample comprised 92 subjects, 82.6% (76) of whom were women and mean age was 45.7±12.11 years. CEAP class 2 was the most frequent clinical classification, in 57.6% of patients. There was a significant difference in scores before and after surgery among patients aged from 30 to 40 years. There was no difference between preoperative and postoperative scores between different CEAP groups.

Conclusions

No difference in quality of life was observed after surgery in most of the patients in the present study.

Keywords:  quality of life; varicose veins; venous insufficiency

INTRODUÇÃO

A doença venosa crônica (DVC) dos membros inferiores (MMII) é extremamente comum e possui apresentações variáveis. É caracterizada pela disfunção no sistema venoso, secundária à hipertensão venosa, causada por incompetência valvular e/ou obstrução do fluxo venoso. Além de causar comprometimento estético, a DVC pode ocasionar sintomas e levar a complicações e sequelas, que podem influenciar negativamente na qualidade de vida dos seus portadores1.

A partir da terceira década de vida, observa-se um aumento importante na incidência de DVC. No Brasil, um estudo epidemiológico realizado por Maffei2 encontrou prevalência de 35,5% de varizes e formas graves de DVC. Esse número aumenta com a idade: na faixa etária de 30 a 40 anos, a doença acomete 3% dos homens e 20% das mulheres; aos 70 anos de idade, 70% da população apresenta algum grau de doença venosa2,3.

Embora o tratamento cirúrgico seja um método terapêutico amplamente utilizado para a DVC, há poucos estudos avaliando o impacto na qualidade de vida (QV) dos pacientes submetidos ao mesmo. Existem relatos avaliando a QV após o tratamento cirúrgico, porém relacionando-a a outros fatores, como a hemodinâmica venosa4, o uso de ultrassonografia pré-operatória5, e comparação de técnicas de tratamento6.

Como ferramenta para avaliar a qualidade de vida (QV) de pacientes portadores de varizes nos MMII, questionários podem ser empregados antes e após o tratamento ao qual foram submetidos. Entre os diversos questionários para avaliação de QV, o VEINES-QOL/SYM é um dos mais utilizados por apresentar boas propriedades clinimétricas, além de uma metodologia objetiva e não onerosa que pode ser utilizada em qualquer ambiente e que pode completar a avaliação clínica convencional7-10.

O VEINES-QOL/SYM consiste em um questionário específico e autoaplicável com 26 itens relacionados aos sintomas, desempenho nas atividades de vida diária, hora do dia que os sintomas são mais intensos, alterações ocorridas em relação à doença no último ano e o seu impacto psicológico. Este questionário produz dois escores, um relacionado à estimativa do impacto da DVC na QV, que é o VEINES- QOL, e outro relacionado aos sintomas decorrentes da DVC, o VEINES-Sym. Quanto maior o escore, melhor é a qualidade de vida do paciente9,10.

A partir destas considerações, o objetivo deste estudo foi avaliar o impacto do tratamento cirúrgico na QV dos pacientes portadores de varizes dos MMII, utilizando os escores do questionário VEINES QOL/Sym, aplicado antes e após a cirurgia.

MÉTODOS

Foi realizado estudo do tipo antes e depois em todos os pacientes submetidos a tratamento cirúrgico de varizes de membros inferiores no Serviço de Cirurgia Vascular do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), Recife (PE), no período entre dezembro de 2013 e julho de 2014 (amostra consecutiva). Todos os participantes assinaram termo de consentimento livre e esclarecido após receberem informações sobre o estudo.

O número de pacientes incluídos (n = 92) no estudo foi determinado a partir de fórmula para o cálculo amostral baseada na utilização de um instrumento de coleta de dados formado por itens categóricos, como é o caso do questionário aplicado, o VEINES/QOL-SYM.

A Fórmula 1 utilizada foi:

n=cE2i=1kciE2i=1kcio1+1NxcE2i=1kciE2i=1kcio1 (1)

onde: cE = número de categorias efetivas do instrumento de coleta; ciE = número de categorias do i-ésimo item; k = número de itens do instrumento de coleta; ciO = número total de categorias do i-ésimo item; N = tamanho da população.

Foram avaliados 92 pacientes submetidos a cirurgia de varizes de MMII. Os pacientes foram incluídos no estudo à indicação de tratamento cirúrgico por médico especialista em Cirurgia Vascular, após avaliação clínica e ultrassonográfica. Os critérios de inclusão foram pacientes de C2 a C6, sintomáticos e com presença de varizes ao exame físico e à ultrassonografia com Doppler, associadas ou não a refluxo de safena(s). Foram excluídos pacientes menores de 18 anos ou com comorbidades clínicas que contraindicassem o procedimento operatório.

Os pacientes foram examinados em posição ortostática por um examinador capacitado que, após a inspeção, classificou os membros inferiores de acordo com a gravidade da DVC, utilizando a classificação clínica CEAP. Quando o paciente era portador de DVC em ambos os membros inferiores, foi considerado o de maior escore do CEAP.

A técnica cirúrgica empregada foi varicectomia, ligadura de perfurantes (técnica convencional, por abordagem direta, após marcação guiada por ultrassonografia) nos casos em que havia refluxo nas mesmas, e crossectomia com ou sem safenectomia. A safenectomia era indicada nos casos de refluxo associado à dilatação da safena magna ou parva. Os procedimentos foram realizados sempre pelo mesmo grupo de cirurgiões.

No período pós-operatório, todos os pacientes usaram meias de compressão elástica (20-30 mmHg), comprimento meia-coxa (7/8) e foram prescritos anti-inflamatório (nimesulida) por 5 dias e analgésico (dipirona ou paracetamol) somente no caso de dor.

O questionário VEINES-QOL/SYM (Venous Insufficiency Epidemiological and Economic Study), apesar de ser autoaplicável, foi aplicado na forma de entrevista, por entrevistador devidamente treinado, ao perfil de escolaridade dos pacientes atendidos no serviço (grande número de analfabetos e de baixa escolaridade). Os questionários foram respondidos previamente ao procedimento cirúrgico (no momento da admissão hospitalar) e após um período de 60 dias (±7 dias) da cirurgia.

Para a análise estatística, os pacientes foram estratificados de acordo com a classificação clínica CEAP e foram ainda divididos em faixas etárias.

Inicialmente todas as variáveis foram analisadas descritivamente. Para as variáveis quantitativas esta análise foi feita observando os valores mínimos e máximos, e por meio do cálculo de médias, desvios padrão e mediana. Para as variáveis qualitativas, foram calculadas as frequências absolutas e relativas.

A normalidade dos dados foi testada através do teste de Kolmogorov-Smirnov. Para a comparação dos momentos pré e pós operatório foi utilizado o teste não paramétrico de Wilcoxon, pois a suposição de normalidade dos dados foi rejeitada. Para a comparação de dois grupos foi utilizado o teste não paramétrico de Mann-Whitney. O nível de significância utilizado para os testes foi de 5%.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do IMIP, sob parecer nº 3946-14.

RESULTADOS

Forem recrutados 118 pacientes, dos quais 19 foram excluídos por apresentarem condições clínicas que eram contraindicações ao procedimento operatório (Figura 1Flow chart). Não houve perda de seguimento dos pacientes operados.

Figura 1 Flow chart de pacientes da pesquisa. 

Foram avaliados 92 pacientes com idade entre 22 e 71 anos (45,71±12,11 anos; mediana de 43,50 anos), dos quais 76 (82,6%) eram do sexo feminino. A classificação clínica CEAP 2 foi a mais presente, em 57,6% (n = 53) da amostra. Os dados clínicos e epidemiológicos encontram-se resumidos na Tabela 1.

Tabela 1 Dados dos pacientes e procedimentos realizados. 

n 92
Idade 22-71 anos
Média 45,71±12,11
Mediana 43,50
Sexo 76 F (82,6%)
34 M (17,4%)
Classificação Clínica (C) CEAP 2 = 53 (57,6%)
3 = 20 (21,7%)
4 = 13 (14,1%)
5 = 4 (4,3%)
6 = 2 (2,2%)
Tipo de procedimento V = 63
V+C = 10
V+S = 15
V+LP = 4

n = número de pacientes; V = Varicetomia; V+C = Varicetomia + crocectomia; V+S = Varicectomia + Safenectomia; V+LP = Varicectomia + Ligadura de perfurantes.

Os pacientes foram avaliados quanto à qualidade de vida por meio do questionário VEINES-QOL/Sym nos momentos pré e pós operatório. Tanto para o VEINES-QOL quanto para o VEINES-Sym, escores maiores indicam melhores desfechos9. Na Tabela 2 apresentamos os valores descritivos dos escores nos dois momentos de avaliação. Observamos que os pacientes não apresentam alterações significativas na QV do momento pré para o momento pós-operatório, tanto no que diz respeito à melhora dos sintomas como na melhora da QV.

Tabela 2 Valores descritivos (scores) do VEINES SYM e VEINES QOL, nos momentos pré e pós-operatório para o total da amostra estudada. 

Variável Momento n Média DP Mínimo Máximo P25 Mediana P75 p*
SYM Pré 92 50,00 10,00 29,60 71,25 42,01 49,71 58,47 0,678
Pós 92 50,42 9,92 15,85 61,20 47,44 53,45 57,22
QOL Pré 92 50,00 10,00 31,75 72,28 41,58 48,70 56,81 0,809
Pós 92 50,07 10,04 15,57 61,29 46,54 53,37 56,65

*nível descritivo de probabilidade do teste não paramétrico de Wilcoxon.

n = número de pacientes; DP = desvio padrão, P25 = percentil 25; P75 = percentil 75.

Foi observado que na faixa etária de 30 a 40 anos, quando avaliados pelos questionários VEINES SYM e VEINES QOL, houve um acréscimo significativo do escore no pós-operatório, representando uma melhora nos sintomas e na QV após a cirurgia nesses pacientes. Nas demais faixas não houve alteração estatisticamente significante (Tabela 3). Por meio do teste não paramétrico de Kruskal-Wallis observamos que os grupos etários não apresentaram diferenças significativas nos momentos pré (p = 0,269) e pós-operatório (p = 0,578).

Tabela 3 Valores descritivos (escores) do VEINES SYM e VEINES QOL, nos momentos pré e pós-operatório, segundo a faixa etária. 

Idade n Variável Momento Média DP Mínimo Máximo P25 Mediana P75 p*
< 30 11 SYM Pré 48,30 8,37 33,76 62,63 41,82 48,62 53,01 0,534
Pós 50,69 8,67 36,51 59,70 42,19 53,07 58,53
QOL Pré 49,61 8,56 38,41 62,52 44,21 45,29 60,34 0,477
Pós 50,73 6,32 40,95 58,40 44,62 50,25 56,75
30-40 20 SYM Pré 47,53 6,32 37,69 64,36 43,31 46,35 49,58 0,025
Pós 51,85 7,06 27,10 59,70 49,39 52,49 56,01
QOL Pré 47,17 6,64 36,05 60,09 41,50 47,28 52,34 0,048
Pós 51,96 8,81 18,86 59,90 49,99 54,04 56,73
40-50 27 SYM Pré 52,75 10,99 35,60 73,05 43,51 54,36 60,25 0,597
Pós 50,92 9,74 23,43 59,70 46,42 54,97 58,57
QOL Pré 53,02 11,66 31,95 74,10 41,16 52,69 62,19 0,337
Pós 50,89 9,33 19,07 59,93 48,03 52,25 57,65
50-60 20 SYM Pré 52,38 12,29 30,22 70,97 42,68 53,45 63,65 0,296
Pós 49,61 10,92 21,63 59,70 46,02 51,26 59,25
QOL Pré 52,24 11,57 34,54 73,26 40,55 52,31 60,17 0,455
Pós 50,14 10,72 20,36 59,93 48,01 52,86 57,00
>= 60 14 SYM Pré 46,16 8,57 33,29 60,23 37,90 47,52 53,36 0,925
Pós 45,58 13,28 13,09 57,91 41,27 51,19 52,77
QOL Pré 45,32 7,00 35,25 55,59 39,22 46,20 52,52 0,975
Pós 44,72 13,25 10,11 56,82 38,26 47,98 56,06

*nível descritivo de probabilidade do teste não-paramétrico de Wilcoxon.

n = número de pacientes; DP = desvio padrão; P25 = percentil 25; P75 = percentil 75.

Não houve alteração estatisticamente significante dos escores do VEINES-SYM e VEINES-QOL do momento pré para o momento pós-operatório quando os pacientes foram divididos em grupos de acordo com a classificação clínica CEAP (Tabela 4). Por meio do teste não paramétrico de Kruskal-Wallis observamos que os grupos de CEAP não apresentaram diferenças significativas no momento pré (p = 0,626) e no momento pós-operatório (p = 0,406) para o VEINES-SYM; e nos momentos pré (p = 0,843) e pós-operatório (p = 0,400) para o VEINES-QOL.

Tabela 4 Valores descritivos (escores) do VEINES SYM e QOL, nos momentos pré e pós operatório, segundo a gravidade do quadro clínico. 

CEAP n Variável Momento Média DP Mínimo Máximo P25 Mediana P75 p*
2 53 SYM Pré 50,66 9,85 30,22 73,05 43,63 48,53 58,90 0,403
Pós 51,38 8,76 21,63 59,70 48,39 52,94 58,22
QOL Pré 9,98 31,95 73,26 42,26 49,85 57,72 50,43 0,418
Pós 9,14 18,86 59,93 49,42 52,68 56,84 51,14
3 20 SYM Pré 47,55 10,55 33,29 67,22 38,05 47,39 53,85 0,970
Pós 47,75 12,02 21,55 59,70 37,93 50,80 57,95
QOL Pré 9,44 37,49 67,66 40,38 47,02 58,56 49,06 0,823
Pós 9,81 20,36 59,62 43,31 53,03 57,50 50,10
4 13 SYM Pré 50,10 8,75 38,07 65,94 43,05 51,13 54,98 0,807
Pós 50,06 6,84 35,06 59,70 46,67 51,88 54,08
QOL Pré 9,74 34,54 68,79 38,52 48,52 54,31 48,06 0,972
Pós 8,99 30,18 58,24 41,39 50,09 56,38 48,43
5 4 SYM Pré 48,32 15,06 35,16 69,88 36,93 44,12 63,91 0,465
Pós 40,21 19,60 13,09 59,70 20,34 44,03 56,27
QOL Pré 15,98 39,01 74,10 39,80 44,98 67,53 50,77 0,273
Pós 21,05 10,11 58,41 17,37 44,53 56,28 39,39

*nível descritivo de probabilidade do teste não-paramétrico de Wilcoxon.

n = número de pacientes; DP = desvio padrão; P25 = percentil 25; P75 = percentil 75.

Os pacientes com classificação C6 foram excluídos da Tabela 4 devido ao n reduzido (n = 2), impossibilitando análise estatística adequada. Nesses pacientes houve aumento dos escores no pós-operatório.

Não foi observada piora da QV em nenhum subgrupo.

DISCUSSÃO

Os pacientes foram estratificados de acordo com a classificação clínica CEAP, uma vez que pacientes com menor escore clínico, teoricamente, apresentariam menor comprometimento venoso. Os pacientes foram ainda divididos para a análise em faixas etárias, considerando que faixas etárias mais avançadas tendem a possuir doença venosa mais avançada, visto que a DVC é crônica e progressiva, com um impacto maior na qualidade de vida.

A maior prevalência de varizes dos MMII em mulheres encontrada nesta pesquisa está de acordo com os dados da literatura. É importante ressaltar que o sexo feminino é descrito como um dos fatores de risco para o desenvolvimento da DVC dos MMII11-13. A média de idade dos pacientes avaliados foi superior a 40 anos. Estudos têm evidenciado que a prevalência da DVC aumenta com a idade, sobretudo em suas formas mais graves (CEAP 4, 5 e 6)14-17.

As informações sobre QV têm sido utilizadas tanto como indicadores para avaliação da eficácia e impacto de determinados tratamentos quanto na comparação entre diferentes procedimentos terapêuticos, embora outros critérios, como a avaliação da mudança de classe CEAP também sejam empregados18. A avaliação da QV na prática clínica é uma ferramenta importante, particularmente como uma variável de desfecho capaz de verificar o impacto da doença e de seu tratamento na vida do indivíduo14,15.

Na avaliação da QV em pacientes portadores de varizes dos MMII, encontram-se disponíveis diversos questionários. O questionário VEINES, utilizado nesta pesquisa, apresenta boas propriedades clinimétricas, além de uma metodologia objetiva, não onerosa, praticável em qualquer recinto, e que completa a avaliação clínica convencional10,19,20. Para avaliar a QV é necessário aferir medidas quantificáveis reprodutíveis do impacto funcional, psicológico e social da doença avaliada. O VEINES-QOL/SYM avalia os sintomas, o desempenho nas atividades de vida diária e o impacto psicológico da DVC, o que justificou a escolha da utilização desse questionário no presente estudo.

O questionário VEINES SYM/QOL, quando desenvolvido, utilizou a classificação CEAP para a avaliação da gravidade da doença venosa9; motivo pelo qual foi utilizada a mesma classificação neste estudo. A classificação CEAP foi também utilizada em outros estudos sobre QV e varizes5,6,21.

Quando considerados todos os pacientes, não foi observada alteração significativa da QV antes e depois do procedimento cirúrgico. Resultado semelhante foi descrito previamente por Blomgren et al. em 2006, quando apresentaram um estudo prospectivo randomizado no qual os escores de qualidade de vida após a cirurgia não apresentaram melhora significativa durante um período de observação de dois anos5. Este resultado pode ser explicado porque a maior parte dos pacientes deste estudo foi classificada, segundo a classificação clínica CEAP, como C2. Pode ser levantada a hipótese de que a ausência de alteração significativa dos escores após a cirurgia deve-se ao fato desses pacientes apresentarem sintomas mais leves, levando a uma menor influência na QV desses indivíduos.

Vários autores demonstraram a existência de uma relação direta entre a gravidade da DVC e a diminuição da QV, sobretudo em relação aos aspectos físicos e funcionais9,22-24. Esses estudos apontaram que indivíduos com maior gravidade da DVC dos MMII (CEAP 4, 5 e 6) tendem a apresentar escores mais baixos nos questionários de avaliação da QV.

Quando os pacientes foram avaliados segundo a faixa etária, os mais jovens (entre 30 e 40 anos) apresentaram a maior melhora da QV no pós-operatório, sendo observado um aumento da QV estatisticamente significativo nesse grupo. Uma das hipóteses para justificar tal resultado seria a menor prevalência de patologias associadas nessa faixa etária, o que levaria a uma maior relevância dos sintomas secundários à DVC nesses pacientes, e que com o tratamento cirúrgico puderam ter uma melhora significativa desses sintomas e, consequentemente, da qualidade de vida. Indivíduos com mais idade frequentemente apresentam outras condições patológicas que podem resultar em sintomas nos MMII, influenciando assim negativamente na QV.

Quando os pacientes foram avaliados em grupos de acordo com a classificação clínica do CEAP nos momentos pré e pós-operatório, o grupo de pacientes de menor comprometimento clínico (C2 e C3) apresentou melhor QV após a cirurgia, porém sem significância estatística. Não houve diferença significativa entre QV dos demais grupos, antes e depois da cirurgia.

Encontramos na literatura um estudo prospectivo randomizado5 no qual foi observado que mesmo após intervenção cirúrgica, os níveis de QV não melhoraram significativamente durante um período de 2 anos, assim como os achados da presente pesquisa.

Um aspecto importante a ser ressaltado e que tem sido descrito, é a dificuldade em estudar DVC e QV devido à discrepância entre os sintomas do paciente, os achados clínicos, e os resultados da ultrassonografia com Doppler. Na prática clínica é comum encontrarmos pacientes com DVC de mesma classificação clínica, mas que apresentam limitações físicas, funcionais e sociais distintas25-30.

A avaliação da QV depende da interpretação que cada paciente faz dos sinais e sintomas da sua doença e está relacionada à percepção subjetiva de suas condições de vida. O mesmo quadro clínico para indivíduos diferentes pode resultar em perdas funcionais distintas, ou ter relevâncias emocionais e sociais diversas27. O sintoma dor nos membros inferiores pode ser decorrente de diversas outras doenças e pode estar relacionado à presença de varizes de forma equivocada, conforme já descrito em estudo prévio31.

Uma das principais limitações do estudo encontra-se na heterogeneidade do grupo avaliado, assim como dos tratamentos realizados. Além disso, no presente estudo o número de pacientes de classes mais avançadas foi reduzido e, por consequência, a detecção de diferença estatística significativa entre os grupos não pôde ser realizada. Além disso, não houve avaliação da correlação dos achados ultrassonográficos com os escores pré e pós-operatórios e não foi realizada a análise da correlação da classe CEAP e a idade dos pacientes. A divisão dos pacientes em subgrupos pode ter dificultado a análise dos dados devido ao n reduzido em cada grupo.

CONCLUSÃO

No grupo de pacientes entre 30 e 40 anos, o tratamento cirúrgico proporcionou uma melhora na QV. Nos demais grupos, não foi encontrada diferença nos escores do VEINES-QOL/SYM antes e após a cirurgia.

Como citar: Rocha FA, Lins EM, Almeida CC, Dias Junior RC, Silva PAL, Gameleira CA, Falcão MGMG, Barros JWS. Avaliação da qualidade de vida em pacientes portadores de varizes de membros inferiores submetidos a tratamento cirúrgico. J Vasc Bras. 2020;19:e20190108. https://doi.org/10.1590/1677-5449.190108

Fonte de financiamento: Nenhuma.

O estudo foi realizado no Serviço de Cirurgia Vascular, Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), Recife, PE, Brasil.

REFERÊNCIAS

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2 Maffei FHA. Varizes dos membros inferiores: epidemiologia, etiopatogenia e fisiopatologia. In: Maffei FHA, Lastória S, Yoshida WB, Rollo HÁ, editores. Doenças vasculares periféricas. Rio de Janeiro: Medsi; 1995. p. 939-49. [ Links ]

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Recebido: 12 de Agosto de 2019; Aceito: 04 de Fevereiro de 2020

Conflito de interesse: Os autores declararam não haver conflitos de interesse que precisam ser informados.

Correspondência Fernanda Appolonio Rocha Av. Rui Barbosa, 715, sala 708 - Graças CEP 52011-040 - Recife (PE), Brasil Tel.: (81) 3019-0909 E-mail: fappolonio@yahoo.com

Informações sobre os autores FAR - Professora adjunta, Cirurgia Vascular, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Doutorado em Ciências, Universidade de São Paulo (USP). EML - Professor adjunto, Cirurgia Vascular, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Professor, Curso médico, Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS); Médico assistente, Serviço de Cirurgia Vascular, Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP); Doutorado em Cirurgia, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). CCA - Mestrado em Cirurgia, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Médica assistente, Serviço de Cirurgia Vascular, HCUFPE. RCDJ, PALS e CAG - Médicos graduados, Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS). MGMGF - Cirurgiã vascular; Ex-residente, Serviço de Cirurgia Vascular, Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP). JWSB - Cirurgião vascular; Chefe, Serviço de Cirurgia Vascular, Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP).

Contribuições dos autores Concepção e desenho do estudo: FAR, EML, MGMGF Análise e interpretação dos dados: FAR, CCA Coleta de dados: MGMGF, CAG, PALS, RCDJ Redação do artigo: FAR, CAG, PALS, RCDJ Revisão crítica do artigo: EML, JWSB, CCA Aprovação final do artigo*: FAR, EML, MGMGF, CAG, PALS, RCDJ, CCA, JWSB Análise estatística: FAR Responsabilidade geral pelo estudo: FAR *Todos os autores leram e aprovaram a versão final submetida ao J Vasc Bras.

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