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Scientiae Studia

versão impressa ISSN 1678-3166

Sci. stud. vol.2 no.3 São Paulo jul./set. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-31662004000300003 

ARTIGOS

 

Arquitetônica kantiana e gravitação newtoniana

 

Kantian architectonics and Newtonian gravitation

 

 

Eduardo Salles de Oliveira Barra

Professor Doutor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná. barra@ufpr.br

 

 


RESUMO

Propõe-se, neste artigo, uma reconstrução da interpretação de Kant para a teoria da gravitação universal de Newton, em particular dos seus aspectos metafísicos e metodológicos, a partir da análise do §38 dos Prolegômenos a toda metafísica futura. A pretensão é mostrar que a interpretação da teoria newtoniana nessa passagem apóia-se integralmente no programa de uma "metafísica da natureza", que Kant elaborou nos Princípios metafísicos da ciência da natureza como condição necessária a uma autêntica ciência da natureza. Com respeito a esse programa, o desafio será mostrar que a sua sustentabilidade requer um tipo de unidade particular que permita reunir os princípios transcendentais heterogêneos da natureza formaliter e materialiter spectata; isto é, exige-se um modelo de unidade arquitetônica, cuja possibilidade real é exibida na complexa e bem-sucedida articulação de princípios de origens diversas que Newton operou em sua teoria da gravitação universal.

Palavras-chave: Leis naturais. Unidade sistemática. Metafísica da natureza. Gravitação. Kant. Newton.


ABSTRACT

In this article, we propose a reconstruction of Kant's interpretation of Newton's theory of universal gravitation, in particular, its metaphysical and methodological aspects, beginning by the analysis of §38 from the Prolegomena to any future metaphysics. The intention is to show that the interpretation of Newtonian theory in this passage rests completely on the program of a "metaphysics of nature" that Kant propose in Metaphysical principles of the science of nature as a necessary condition of an authentic science of nature. As to this program, the challenge will be to show that its sustainability requires a kind of particular unity that allows to put together the heterogeneous transcendental principles of formaliter and materialiter spectata nature, that is, it is required a model of architectonic unity, whose real possibility is exhibited in the complex and well succeeded articulation of principles from various sources that Newton worked in this theory of universal gravitation.

Keywords: Laws of nature. Systematic unity. Metaphysics of nature. Gravitation. Kant. Newton.


 

 

"a razão humana é, por natureza, arquitetônica…"
(Crítica da razão pura, A474/B502).

 

1. LEIS a priori E EMPÍRICAS DA NATUREZA

Na filosofia kantiana, os adjetivos 'a priori' e 'empírico' são responsáveis por uma distinção exclusiva e exaustiva entre os enunciados. Dado um enunciado qualquer, ele deveria, em princípio, ser suscetível a uma classificação como ou bem a priori ou bem empírico, se nutrirmos qualquer expectativa sobre a sua validade objetiva. Entre as várias espécies de enunciados aos quais a distinção parece aplicar-se, encontram-se aqueles caracterizados como "leis da natureza". Virtualmente, haveria assim tanto leis a priori quanto leis empíricas da natureza e, ainda que umas devam ser consideradas determinações particulares das outras, é preciso ter presente que as leis empíricas não podem ser completamente derivadas das leis a priori, visto que são relativas a fenômenos empiricamente determinados (cf. CRP, A127-128 e B165).

Não resta dúvida de que o esforço mais notório de Kant é dirigido ao esclarecimento das condições de possibilidade das leis a priori da natureza – ou, na sua própria terminologia, da natura formaliter spectata. Disso depende, entre outras coisas, o próprio conceito de natureza como a necessária conformidade dos fenômenos a leis. Contudo, não seria desprezível o papel atribuído por ele às leis empíricas, visto que, na ausência das suas determinações particulares, todo o aparato apriorístico transcendental (conceitos e princípios puros do entendimento) seria vazio de sentido e desprovido de condições de verdade material, em outras palavras, seriam como formas sem matéria. A tentativa mais sistemática realizada por Kant de promover a interconexão entre determinações puras (a priori) e empíricas de um conceito empiricamente dado resultou na "metafísica da natureza corpórea" descrita nos Princípios metafísicos da ciência da natureza (1990) [1786].

Nesse opúsculo, Kant apresenta uma espécie de dedução transcendental dos conceitos e leis fundamentais da ciência empírica mais bem estabelecida no final do século XVIII, qual seja, a mecânica newtoniana. Num contexto em que explicita as suas razões para o famoso repto "hypotheses non fingo", Newton afirmara que as leis do movimento, assim como a própria lei da gravitação universal, haviam sido "deduzidas dos fenômenos e tornadas gerais pela indução" (Principia, p. 943). Talvez o aspecto mais surpreendente do tratamento que Kant realiza das leis newtonianas do movimento seja o fato de conferir-lhes o caráter de genuínas leis a priori da natureza (corpórea). Submetidas à dedução transcendental kantiana, essas leis assumem o caráter de esquematizações particulares dos princípios puros do entendimento, especificamente, das Analogias da Experiência na "Analítica dos Princípios". Mas o mesmo não ocorre com a lei da gravitação universal. Nos Princípios metafísicos, a gravitação nem sequer é mencionada como uma lei da natureza, muito embora o conceito de atração, ao qual a gravitação universal poderia ser subsumida, receba uma extensa análise. Para os fins desta exposição, o aspecto mais significativo da análise kantiana do conceito de atração é que, embora seja um esquema particular de um conceito matemático-transcendental do entendimento (as categorias da qualidade), não é suscetível de uma construção na intuição pura, comprometendo inexoravelmente a inteligibilidade ou validade objetiva de qualquer conceito a priori de uma força atrativa.

Antes de prosseguir, é importante observar que o diagnóstico negativo de Kant acerca da inteligibilidade ou validade objetiva do conceito de forças atrativas refletia o pensamento então dominante à época, envolto em intensas polêmicas metafísicas e metodológicas em torno do legado newtoniano, em particular do conceito de uma força atrativa que agisse à distância e que, sob todos os aspectos relevantes, fosse irredutível aos princípios mecânicos da matéria e do movimento. O próprio Newton reconhecera o problema, mas julgara-se incapaz de solucioná-lo. Para ele, tratava-se do problema de atribuir uma causa à gravidade, um problema decorrente da sua recusa em admitir que a gravidade pudesse ser incluída entre as chamadas qualidades essenciais da matéria, ao lado da impenetrabilidade, inércia, coesão etc.1 Grosso modo, Kant fez pouco caso das reiteradas advertências de Newton. Coerente com a sua doutrina de que os princípios matemático-transcendentais determinam a essência dos fenômenos (cf. Princípios, p. 467, nota). Kant identificou as forças atrativas (e repulsivas) como forças essenciais da matéria. Mas, apesar de todas as vantagens que pudesse ter em relação às filosofias mecanicistas de Descartes e Locke, Kant reconheceu uma insuperável limitação em sua doutrina dinâmico-metafísica da natureza material: a impossibilidade de deduzir a priori uma lei da força atrativa que fosse suficiente para toda a diversidade de modos pelos quais a matéria se encontra atualmente disposta na natureza. Deve-se a isso a sua não-construtibilidade na intuição pura e, conseqüentemente, a sua ininteligibilidade ou ausência de validade objetiva, enquanto essa força atrativa for tomada como uma determinação exclusiva da razão pura aplicada ao conceito empírico de matéria.2

Tradicionalmente, essa conclusão foi interpretada como uma recusa expressa do caráter apriorístico da gravitação universal newtoniana. Ora, se a impossibilidade de deduzir a priori uma lei para as forças atrativas for de fato uma razão suficiente para inviabilizar qualquer pretensão a respeito do caráter apriorísitco dessa lei, não há outra alternativa senão considerá-la como um caso de lei empírica da natureza. Entretanto, significaria isso que Kant adotou sem mais a versão de Newton para os fundamentos epistemológicos da lei por ele descoberta, qual seja, "deduzida dos fenômenos e tornada geral pela indução"? Certamente que não, pois Kant acrescentaria, no mínimo, a condição negativa para todas as leis empíricas da natureza: serem "apenas determinações particulares das leis puras do entendimento" (CRP, A127-128). Isso basta para integrar à compreensão dos fundamentos da gravitação universal um elemento completamente negligenciado na versão original de seu autor. Newton obtivera a formulação da lei da gravitação universal por intermédio de um raciocínio complexo, mesclando premissas empíricas e matemáticas, de tal modo que o seu grande mérito foi justamente promover a articulação entre uma quantidade significativa de informações empíricas e princípios matemáticos e mecânicos, a fim de determinar a razão exata pela qual os corpos se atraem e determinam mutuamente os movimentos de fato observados. No contexto das respostas dirigidas aos seus críticos metafísicos, é compreensível que o componente matemático tenha sido omitido, pois não suscitara maiores questionamentos, ainda que pouca ou nenhuma explicação conceitual estivesse então disponível para o emprego sistemático desse expediente. A concepção kantiana das condições de possibilidade das leis empíricas introduz um componente apriorístico de caráter constitutivo e, assim, estabelece um quadro diante do qual a matemática não apenas torna-se aceitável, mas sobretudo indispensável para uma genuína ciência empírica da natureza.

Mas essa não parece ser nem a única nem a principal razão para Kant recusar que a lei da gravitação universal tenha sido exclusivamente "deduzida dos fenômenos e tornada geral por indução". Nas duas passagens dos textos kantianos que analisarei a seguir, procurarei mostrar que há um segundo e mais decisivo componente apriorístico na interpretação kantiana dessa lei. Trata-se do componente "sistemático" ou "arquitetônico". Minha tese geral é que o programa da "metafísica da natureza", que Kant enuncia nos Princípios metafísicos como o único capaz de oferecer as bases para uma autêntica ciência da natureza, somente se completa com a idéia de um "sistema da natureza", cujos vínculos com as condições "formais" da experiência são exclusivamente arquitetônicos, mas nem por isso menos necessários. Somente a idéia de uma unidade arquitetônica seria capaz de reunir num mesmo corpus doutrinário os princípios transcendentais heterogêneos da natureza formaliter e materialiter spectata. Em outras palavras, minha sugestão é que as análises kantianas da gravitação universal dependem intrinsecamente de um modelo arquitetônico da ciência da natureza, o qual permita conferir unidade orgânica aos princípios heterogêneos de uma metafísica da "natureza em geral", isto é, tanto os princípios objetivos da "conformidade a leis", quanto os princípios subjetivos da "conformidade a fins" da natureza.

Pretendo com tal interpretação indicar, afinal, qual foi o estatuto atribuído por Kant à gravitação universal newtoniana. Essa tarefa enfrenta certas dificuldades em razão de que os próprios pronunciamentos de Kant a respeito parecem ora atribuir-lhe um estatuto apriorístico ora um estatuto empírico.3 Penso que essas variações são devidas ao modo "sistemático" de Kant encarar a ciência newtoniana, cuja exigência central é que seus componentes a priori e a posteriori não possam ser aplicados isoladamente na determinação de seus objetos, embora devam ser suscetíveis de serem assim conceitualizados e analisados. A gravitação universal representaria para o sistema da ciência newtoniana a idéia em torno da qual ele é constituído. De fato, Kant não propôs qualquer exposição sistemática da teoria newtoniana nem de qualquer outra teoria particular da ciência da natureza. Suas preocupações filosóficas não o conduziram a análises tão detalhadas dos conteúdos de teorias particulares. Todavia, ele sugeriu uma metodologia geral, que chamou de "arquitetônica da razão pura", na Crítica da razão pura, por meio da qual essas análises poderiam proceder. Minha suposição básica é que essa metodologia, como teoria geral dos sistemas, constitui um elemento indispensável a uma reconstrução plausível da interpretação kantiana para a teoria newtoniana dos movimentos naturais.

 

2. A UNIDADE SISTEMÁTICA DA NATUREZA

A minha primeira tarefa é esclarecer o que Kant compreende por "sistema" (ou, correlativamente, "arquitetônica") e o modo como essa compreensão está integrada à sua interpretação mais geral do que deve ser uma teoria científica. Há sempre o risco de que a concepção kantiana de uma teoria científica seja analisada ou somente com base na doutrina dos Princípios metafísicos, na qual o critério fundamental consiste na aplicabilidade da matemática (ou, se se preferir, na construção de seus objetos numa intuição pura), critério esse que exclui peremptoriamente do domínio do conhecimento científico tanto a psicologia empírica quanto a química pré-lavoisieriana ou , quando muito, considerando ainda a exigência de sistematicidade que se realiza em torno das idéias da razão (cuja impossibilidade de construção numa intuição pura está dada desde sempre pela impossibilidade de realizarem-se in concreto) como um anexo inevitável ao edifício de uma "teoria racional da natureza", mas, de qualquer modo, somente um anexo. Pretendo mostrar que há indícios textuais claros de que Kant não pensava de nenhuma dessas maneiras. Para ele, uma metodologia que orientasse as sínteses teóricas dos objetos naturais apenas para um único aspecto, seja formal (construtivo) seja material (sistemático), seria insuficiente para constituir uma genuína ciência da natureza. O objeto próprio dessa ciência deve ser a "natureza em geral", um conceito que somente pode ser analisado de um duplo e indissociável ponto de vista formal e material.

A sistematização, no entanto, não é uma tarefa exclusiva da razão. Do ponto de vista lógico e transcendental, a primeira e mais fundamental sistematização é aquela operada pelos próprios conceitos e princípios puros do entendimento. Nesse sentido, a ciência da natureza realiza-se inicialmente como sistema na medida em que dispõe de princípios constitutivos da natureza ou de uma "metafísica da natureza", cujas leis são os "princípios da necessidade do que é inerente à existência de uma coisa" (Princípios, p. 469). Mas isso ainda não seria suficiente para constitui-la integralmente como um sistema. Pela aplicação desses princípios constitutivos aos objetos da experiência, descobre-se uma diversidade de leis empíricas, sem que esses mesmos princípios possam antecipar ou mesmo constituir as diversas interconexões necessárias entre elas. Essa é uma função exclusiva do "enlace racional dos conhecimentos num todo" (Princípios, p. 468).4

Talvez em nenhum outro sentido a razão opera de forma tão nitidamente constitutiva. Pois, "em todas as ciências, notadamente as da razão, a idéia da ciência é o plano geral ou delineamento da mesma; logo, o contorno de todos os conhecimentos que lhe pertencem" e essa idéia do todo é "a primeira coisa que se tem de ver e procurar em uma ciência…" (Lógica, §3, p. 93). Mas, com isso, é preciso admitir que a ciência da natureza incorpora uma dimensão teleológica ou uma orientação a fins, admitindo uma identidade formal com os seus próprios objetos, na medida em que Kant tardiamente reconhece que também eles devem ser ajuizados como se contivessem em si mesmos e "na sua necessidade interna uma relação a fins" (CJ, §65, p. 290-1).5 Fins que, no caso da ciência da natureza, são os "fins essenciais" da razão humana inscritos na sua própria natureza e que nos levam a operar na ciência da natureza "de forma arquitetônica". Então, se essa interpretação estiver correta, ao menos do ponto de vista temporal ou arquitetônico, o caráter sistemático da ciência é prioritariamente uma realização da razão.

Para uma primeira aproximação à concepção kantiana de "arquitetônica", os parágrafos iniciais da seção intitulada "A Arquitetônica da Razão Pura" da primeira Crítica são bastante esclarecedores:

Por arquitetônica entendo a arte dos sistemas. Como a unidade sistemática é o que converte o conhecimento vulgar em ciência, isto é, transforma um simples agregado desses conhecimentos em sistema, a arquitetônica é, pois, a doutrina do que há de científico no nosso conhecimento em geral e pertence, assim, necessariamente, à metodologia.

Sob o domínio da razão não devem os conhecimentos em geral formar uma rapsódia, mas um sistema, e somente deste modo podem apoiar e fomentar os fins essenciais da razão. Ora, por sistema entendo a unidade de conhecimentos diversos sob uma idéia. Esse é o conceito racional da forma de um todo, na medida em que nele se determina a priori todo o âmbito do diverso, como o lugar respectivo das partes. O conceito científico da razão contém assim o fim e a forma do todo que é correspondente a um tal fim. A unidade do fim a que se reportam as partes, ao mesmo tempo que se reportam umas às outras na idéia desse fim, faz com que cada parte não possa faltar no conhecimento das restantes e que não possa ter lugar nenhuma adição acidental, ou nenhuma grandeza indeterminada da perfeição, que não tenha os seus limites determinados a priori. O todo é, portanto, um sistema organizado (articulado) e não um conjunto desordenado (coacervatio); pode crescer internamente (per intussusceptionem), mas não externamente (per appositionem), tal como o corpo de um animal, cujo crescimento não acrescenta nenhum membro, mas, sem alterar a proporção, torna cada um deles mais forte e mais apropriado aos seus fins (CRP, A832-833/B860-861).

Aqui estão presentes os pressupostos centrais da exigência de sistematicidade para a ciência: (i) a unidade sistemática é o que converte o conhecimento vulgar em conhecimento científico; (ii) o sistema deve ser compreendido como a unidade de conhecimentos diversos subsumidos sob uma única idéia; (iii) essa idéia, por sua vez, determina a priori o âmbito total do diverso e, assim, antecipa os limites para o crescimento futuro (per intussusceptionem) do conhecimento. Desse modo, os sistemas, assim como as coisas consideradas como "fins naturais", são entidades organizadas e, sobretudo, auto-organizadas. O elemento organizador interno em ambos os casos é a idéia ou o "conceito racional da forma de um todo". É compreensível, então, que as coisas tidas como "fins naturais" e os "fins essenciais" da razão humana mantenham entre si uma identidade formal e passem a ser indistintamente tomadas como único "fundamento de conhecimento da unidade sistemática da forma e da ligação de todo o múltiplo que está contido na matéria dada, para aquele que ajuíza essa coisa" (CJ, §65, p. 291).

Assim como a construção na intuição pura constitui o fio condutor da unidade constitutiva dos conceitos e princípios da ciência da natureza, a arquitetônica orienta a edificação da sua unidade sistemática. Mas, para fins da constituição dessa unidade sistemática, Kant não apresenta nenhuma recomendação prática. Ele apenas sugere que a idéia subjacente a toda e qualquer ciência é a própria filosofia (cf. CRP, A834/B862), uma vez que oferece o arquétipo a todo sistema de conhecimentos, mas isso apenas como "uma simples idéia de uma ciência possível, que em parte alguma é dado in concreto…" (CRP, A838/B866). Assim entendida, "a filosofia é a ciência da relação de todo o conhecimento aos fins essenciais da razão humana (teleologia rationis humanae) e o filósofo não é o artista da razão, mas o legislador da razão humana" (CRP, A839/B867). O único esquema que poderia realizar integralmente essa idéia "de uma ciência possível", mediante a qual a filosofia desempenharia sua função legisladora no interior do conjunto das demais ciências, é a própria metafísica, se pudesse ser integralmente construída segundo o quadro abaixo:

 

 

Para a presente discussão, o que importa é saber se os princípios heterogêneos da unidade constitutiva e da unidade sistemática poderiam ser ambos incluídos, segundo o quadro acima, nessa ordem arquitetônica e assim integrados ao "sistema inteiro da metafísica". Kant promove a divisão da "metafísica" em duas grandes partes: filosofia transcendental (ontologia) e fisiologia. A primeira contém "o sistema de todos os conceitos e princípios que se reportam a objetos em geral, sem admitir objetos que seriam dados…" A segunda, ao contrário, "considera a natureza, isto é, o conjunto dos objetos dados (seja aos sentidos, seja, se quisermos, a uma outra espécie de intuição)…"(CRP, A845/B873). A fisiologia consiste, portanto, na "consideração racional da natureza", consideração essa que pode ser tanto física quanto hiperfísica. Se os seus princípios podem ser aplicados in concreto numa experiência possível, ela se chama fisiologia imanente (física); mas, se se ocupa da "ligação dos objetos da experiência que ultrapassa toda a experiência", chama-se fisiologia transcendente (hiperfísica) (CRP, A845-6/B873-4).

Mas que ligação deveria haver, se é que pode haver alguma, entre a fisiologia imanente e a transcendente assim definidas? Quase nunca Kant emprega 'fisiologia' nesse sentido na primeira ou na terceira Crítica.6 No entanto, ele ocorre em várias passagens dos Prolegômenos.7 Numa passagem em particular, Kant atribui à "metodologia fisiológica" a função de promover a "distinção entre verdade e hipóteses e os limites de legitimidade dessas últimas" (Prolegomena, §25, p. 308). Está claro que a fisiologia não determinaria propriamente a verdade, mas apenas a sua distinção das hipóteses. A verdade, definida como a "concordância do conhecimento com o seu objeto", não pode ser conhecida a priori, sem que o objeto nos seja dado. Mas devemos dispor, ao lado da simples correspondência com o objeto, de um "critério puramente lógico da verdade" ou de uma condição negativa ou sine qua non de toda a verdade, que Kant define como a "concordância de um conhecimento com as leis gerais e formais do entendimento e da razão" (CRP, A58/B82 e A59-60/B84). Tudo leva a crer que seja justamente mediante as "leis gerais e formais" do entendimento que a fisiologia promove uma tal distinção entre a verdade e a hipótese. Penso que, então, poderíamos compreender, grosso modo, a distinção entre as fisiologias imanente e transcendente da seguinte maneira: a primeira contém as proposições verdadeiras e a segunda, as proposições hipotéticas. Para isso, a "metodologia fisiológica" deveria estabelecer os critérios para a admissibilidade de uma hipótese. Remeto à penúltima seção deste artigo para uma discussão sobre a adequação dos "princípios" da fisiologia transcendente a esses critérios. Interessa-me, neste momento, esclarecer em que sentido a fisiologia transcendente possa estar de algum modo implicada na determinação do valor de verdade das proposições empíricas, algo que, prima facie, deveria ser uma função exclusiva da fisiologia imanente.

Admitir que a fisiologia transcendente possa desempenhar uma função relevante no estabelecimento de leis empíricas é o mesmo que reconhecer a insuficiência dos princípios da fisiologia imanente na determinação de todas as condições a priori para a sua admissibilidade. Seria como se Kant, após haver estabelecido os conceitos e princípios a priori da fisiologia imanente e seus esquemas empíricos, promovesse uma extensão desse conjunto de condições a priori a ponto de incluir outros conceitos e princípios fisiológicos essencialmente heterogêneos em relação aos primeiros, pois não diriam respeito ao que os objetos são em si (kat' alètheian), mas ao que eles são para nós (kat' àntropon) (CJ, §90, p. 446). Ora, considerando que "a verdade ou a aparência não estão no objeto, na medida em que é intuído, mas no juízo sobre ele, na medida em que é pensado" (CRP, A293/B350), se as condições em que os objetos são dados aos nossos sentidos conferem-lhes uma natureza fisiológica (imanente), as condições em que são ajuizados como reais ou aparentes (tal como ocorre com os movimentos planetários, conforme veremos adiante) conferem-lhes uma "segunda" natureza fisiológica (transcendente).

Com efeito, por não se constituir "de baixo para cima" a partir de princípios fisiológicos imanentes, Kant jamais sugere que essa "segunda" natureza possa vir a se realizar integralmente em determinados objetos ou em suas relações imediatas particulares. O seu único esquema é a idéia de uma totalidade ordenada e que ordena a si mesma:

A idéia contém o arquétipo do uso do entendimento, por exemplo, a idéia do Universo, a qual tem que ser necessária, não enquanto princípio constitutivo para o uso empírico, mas apenas enquanto princípio regulativo em vista da conexão completa de nosso uso empírico do entendimento. Ela deve, pois, ser considerada como um conceito fundamental necessário seja para acabar objetivamente os atos de subordinação do entendimento, seja para considerá-los como ilimitados (Lógica, §3, p. 92).

Portanto, a cosmologia racional (que no quadro acima ocupa o lugar da vertente transcendente da fisiologia da razão pura) liga-se à sua contraparte imanente (física racional) por imposição das condições (não-contigentes) de uso e aplicação dessa última. E, em função disso, ela está credenciada a desempenhar uma parcela das tarefas que cabem por direito à autêntica metafísica da natureza: inserir-se no conjunto das demais ciências como uma instância legisladora interna, que não se limita a distinguir conceitualmente os objetos e métodos próprios a cada uma das ciências particulares, mas também em "acabar objetivamente os atos de subordinação do entendimento" em cada uma delas, "em vista da conexão completa de nosso uso empírico do entendimento". Isso significa que Kant considera o mero uso empírico do entendimento ou, o que parece ser o mesmo, a simples aplicação dos princípios da fisiologia imanente à experiência (in concreto), insuficiente para promover essa "conexão completa". Seria, então, necessária a intervenção regulativa de uma fisiologia transcendente que promovesse a máxima unidade das determinações do entendimento, constituindo assim uma "segunda" natureza ao lado daquela formaliter spectata isto é, uma natura materialiter spectata.

O