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Scientiae Studia

Print version ISSN 1678-3166On-line version ISSN 2316-8994

Sci. stud. vol.7 no.2 São Paulo Apr./June 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-31662009000200001 

EDITORIAL

 

 

Scientiæ studia dedica este número inteiramente aos fundamentos da psicologia do século XX. A despeito das diversas controvérsias sobre o caráter científico desse ramo do conhecimento, há relativo consenso sobre a ruptura epistemológica observada a partir das décadas finais do século XIX, especialmente em decorrência da teoria da evolução darwiniana e da adoção de métodos experimentais em psicologia. Em linhas gerais, o número enfoca a origem e o itinerário de algumas de suas mais influentes escolas, tomando como referencial inicial os trabalhos de Wilhem Wundt e William James, prosseguindo com reflexões sobre a psicanálise, o behaviorismo e a etologia. Nesta coletânea de ensaios, importa menos a unidade que deveria supostamente perpassar essas visões, do que a multiplicidade dos pontos de vista apresentados.

Abre o número o artigo de José Antônio Damásio Abib que reflete sobre as dificuldades de enquadrar a psicologia em um modelo epistemológico de caráter unitário. Conquanto se admita que Wundt e James devam ser considerados como autores fundamentais do pensamento psicológico, a manifesta multiplicidade de escolas de psicologia não permite a unificação de todas elas em torno de um projeto científico comum, de modo que fica comprometida a própria noção de uma verdadeira história da psicologia. Assim, é preciso admitir, nesse caso, um pluralismo epistemológico, de modo que a história da psicologia passa a ser uma história da cultura psicológica, ou seja, história das idéias e das forças institucionais que foram moldando a psicologia ao longo de décadas. No segundo artigo, Saulo de Freitas Araujo fornece uma visão panorâmica da psicologia de Wundt, dedicando especial atenção aos fundamentos filosóficos de sua obra, o que permite desfazer alguns mal-entendidos a respeito da obra wundtiana. Ademais, Araujo explicita as concepções de objeto e método da psicologia, particularmente para os conceitos de paralelismo psicofísico e síntese criadora. Tendo em vista que Wundt é um autor muito mais reverenciado do que lido, é com grande satisfação que se oferece ao leitor esta via de acesso para essa riquíssima teoria psicológica, que não deve ser tomada apenas como uma mera curiosidade histórica. Em seguida, Richard Theisen Simanke discorre sobre a tradicional dualidade entre as ciências humanas e as ciências naturais, analisando a psicanálise freudiana frente a essa divisão. Curiosamente, a obra de Freud, na maioria das vezes, é interpretada como se pertencesse exclusivamente ao terreno das ciências humanas, mas ocorre que tal interpretação oblitera o fato de que o psicanalista austríaco se considerava, antes de tudo, um cientista natural, não deixando dúvidas a respeito de seu posicionamento em prol do naturalismo em psicologia. Simanke discute essa inconsistência nas interpretações da obra de Freud, mostrando como a psicanálise pode ser vista, sobretudo, como expressão de um tipo de naturalismo qualificado que escaparia à dualidade entre as ciências naturais e as ciências humanas. No quarto artigo, Carlos Eduardo Lopes mostra como o projeto de psicologia de Edward Chace Tolman é capaz de evitar tanto o reducionismo fisiológico quanto o reducionismo mentalista. A argumentação, por um lado, envolve o reconhecimento de que o comportamento pode ser entendido como um fenômeno molar, cuja principal característica é a emergência de novos padrões de comportamento e, por outro lado, afasta-se de uma epistemologia realista, aderindo à concepção de que as teorias científicas são como mapas que descrevem as situações observáveis, o que dá margem ao instrumentalismo e ao pragmatismo. Por sua vez, Carolina Laurenti reflete sobre o impacto do darwinismo na psicologia de Burrhus Frederic Skinner, mostrando como as noções de criatividade, liberdade e dignidade podem ser acomodadas no behaviorismo radical. Como consequência, elimina-se a ideia de que há algum tipo de sujeito iniciador ou homúnculo que governaria nossas ações, colocando-se em evidência, desse modo, o papel controlador do ambiente que nos rodeia. No sexto artigo, Fátima Caropreso aborda o desenvolvimento da noção de inconsciente psíquico em Freud, mais especificamente, trata do papel dos eventos cerebrais como suporte fisiológico dos fenômenos inconscientes. Dessa maneira, as dinâmicas cerebrais deixam de ser identificadas exclusivamente com os fenômenos da consciência, o que tem profundas implicações para a psicologia como um todo. Finalmente, César Ades completa a seção de artigos com uma significativa análise histórico-conceitual da modularidade das funções comportamentais. Recorrendo à história da psicologia, examinamse as perenes controvérsias em torno da modularidade, mostrando como, ainda hoje, tal assunto constitui um campo de fenômenos não de todo elucidados. Entre outras coisas, é preciso determinar o grau de encapsulamento dos módulos, ou seja, o quanto eles se encontram sujeitos a influências externas. Para isso, apresenta-se como estudo de caso as pesquisas sobre a percepção da expressão facial, evidenciando que a modularidade é uma forma de especialização que, no entanto, admite abertura para controles externos. Para além da estratégia de investigar a especialização dos processos comportamentais, o autor defende a necessidade de examinar a integração dos diversos módulos de modo a que sejam mutuamente controlados ou gerenciados por processos globais. Em seu todo, o artigo de Ades mostra exemplarmente como as contribuições teóricas contemporâneas podem estar plenamente integradas com o estudo dos fundamentos e da história da psicologia.

Como documento científico, Scientiæ studia oferece o texto Apelo para que a psicologia seja uma "ciência natural", originalmente publicado por William James em 1892, como réplica ao exame crítico feito por George T. Ladd, professor da Universidade de Yale, a respeito do livro Os princípios de psicologia, na edição inaugural do periódico Philosophical Review. Trata-se de uma exposição bastante sucinta na qual o psicólogo e filósofo norte-americano especifica seus pontos de vista sobre a natureza do objeto da psicologia e sobre como os profissionais da área deveriam posicionar-se para torná-la uma ciência natural. Como introdução, procedo a um exame do contexto da psicologia jamesiana, explicando os fatores que fizeram com que James seja um pensador extremamente popular, muito embora não tenha realmente organizado uma escola de psicologia, isto é, um programa de investigações coletivas em torno de suas ideias. Na verdade, o ambiente no qual James estava inserido era muito mais intelectualmente rico do que costumamos imaginar, incluindo diversos outros pensadores de considerável talento, de modo que devemos atentar para o papel da comunidade formada pela primeira geração de psicólogos dos Estados Unidos.

Para encerrar, temos a satisfação de apresentar uma entrevista com Arno Engelmann, renomado pesquisador e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, reconhecido nacional e internacionalmente por seus trabalhos acerca de estados subjetivos, teoria da Gestalt e epistemologia da psicologia. Com muita propriedade, Engelmann discorre sobre sua trajetória teórica, com especial atenção para os desdobramentos do gestaltismo na psicologia contemporânea.

 

Renato Rodrigues Kinouchi
editor convidado

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