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Scientiae Studia

Print version ISSN 1678-3166

Sci. stud. vol.8 no.2 São Paulo Apr./June 2010

https://doi.org/10.1590/S1678-31662010000200001 

Editorial

 

O segundo número de Scientiæ studia deste ano está dedicado à reflexão epistemológica e histórica sobre as ciências físicas. O número se inicia com a importante questão epistemológica de como é possível o processo de criação e invenção no desenvolvimento eminentemente racional do conhecimento científico, passa nos dois textos seguintes ao âmbito histórico, aplicando, no primeiro, o modelo causal à origem do magnetismo e procedendo, no segundo, a uma avaliação da justificação da Interpretação de Copenhague pela adesão ao idealismo platônico e a um vago estruturalismo matemático. São tratadas então questões epistemológicas vinculadas ao método experimental, examinando, primeiramente, a questão da replicação dos experimentos e em seguida a questão da medição quântica. O número se encerra com a nota crítica, que bem poderia ser considerada como sua conclusão, na medida em que procura caracterizar o sentido geral do conhecimento na física contemporânea, propondo que se trilha, nessa ciência, o caminho que vai da invisibilidade segundo a observação para a visibilidade segundo o pensamento, em um movimento que busca chegar a uma visão única do universo.

No artigo de abertura, Michel Paty, tendo em vista tratar do problema da criação científica e de sua relação com a racionalidade, examina o "estilo" de Henri Poincaré na física teórica e na matemática para o caso da formulação da eletrodinâmica relativista, comparando esse trabalho de criação com o trabalho, também criador, desenvolvido contemporaneamente por Albert Einstein para a formulação da relatividade especial. O autor mostra, assim, a existência de processos criativos e inventivos no próprio interior do núcleo mais central da racionalida-
de científica.

Os dois artigos seguintes voltam-se para questões históricas. Osvaldo Pessoa Júnior examina um caso histórico de descoberta independente e concomitante, representado pela descoberta das propriedades diretivas do magneto, a qual conduziu ao "avanço generalizado" constituído pela construção da bússola. O autor aplica ao episódio, que se desenrola independentemente na China e na Europa, a metodologia dos modelos causais em história da ciência, mostrando a existência de "gargalos de desenvolvimento", responsáveis pelo impedimento da generalização de um determinado avanço; no caso em pauta, pelo impedimento de que a descoberta das propriedades diretivas do imã se generalizassem em um instrumento tal como a bússola. Por outro lado, Anderson Leite e Samuel Simon discutem o uso que Werner Heisenberg faz da filosofia antiga para afastar as críticas à chamada Interpretação de Copenhague e para justificar suas próprias teses sobre a mecânica quântica. Os autores mostram como Heisenberg, de certo modo, idealiza a filosofia grega clássica como sendo constituída pelo embate de duas posições antagônicas: o idealismo e o materialismo, expondo o modo como isso serve ao propósito de construir uma interpretação platônico-idealista da realidade física, como justificação posterior de sua interpretação da mecânica quântica.

Nos dois últimos artigos, os autores voltam-se para questões epistemológicas ligadas à experimentação nas ciências físicas. Assim, Romina Zuppone examina o caso das tentativas experimentais de detectar ondas gravitacionais desenhadas na década de 1970 por Joseph Weber, opondo-se ao argumento, formulado por Collins sob inspiração cética e relativista, do regresso do experimentador. Segundo esse argumento, na atividade experimental, a determinação de um resultado desconhecido, por meio de um instrumento desenhado para tal fim, não tem justificação racional interna, mas deve apelar para elementos retóricos externos à ciência.
A autora se opõe a essa posição, mostrando que a existência de estratégias epistemológicas de correção e que um esclarecimento da noção de replicação dos efeitos garantem a racionalidade interna dos experimentos. De sua parte, Olímpia Lombardi e Leonardo Vanni tratam da questão da medição quântica, ou seja, de como é possível explicar, em uma medição quântica, o valor definido dos observáveis do aparelho macroscópico, uma vez que do ponto de vista quântico o sistema se encontra em uma superposição de estados. Os autores analisam então a teoria da decoerência, apresentada como resposta ao problema e segundo a qual a interação do sistema com o entorno conduz ao processo de decoerência que seleciona as propriedades (observáveis) do sistema que adquirem valores definidos, dedicando atenção especial ao problema da base privilegiada na qual se seleciona a propriedade observável, para mostrar que esse problema se dissolve, sendo, na realidade, um pseudoproblema, construído ad hoc com base em uma concepção incorreta da medição quântica.

Conclui este número de Scientiae Studia a nota crítica de Michel Paty que nos propõe uma pequena reflexão sobre o visível e o invisível na física sob o ponto de vista do cognoscível; reflexão na qual enquadra, de certo modo, as relações entre a física clássica e a física quântica, entre o mundo macroscópico clássico mundo, entre outras coisas, dos aparelhos macroscópicos de medição e o mundo microscópico quântico, cuja organização é constitutiva daquele mundo macroscópico de nossa experiência sensível. O autor cogita, em sua breve conclusão, que essa dualidade de mundos, prática do ponto de vista dos conceitos da física, revela a complexidade e a dificuldade da empreitada cosmológica de busca de uma visão unitária do universo.

 

Pablo Rubén Mariconda

editor responsável .

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