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Scientiae Studia

versão impressa ISSN 1678-3166

Sci. stud. vol.12 no.2 São Paulo abr./jun. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-31662014000200001 

 

Editorial

 

 

No segundo número deste ano, Scientiæ Studia apresenta uma seleção das melhores contribuições ao projeto "Humanos e animais: os limites da humanidade". Esse projeto – que se origina de uma colaboração entre professores chilenos, italianos e brasileiros – tem como objetivo discutir a relevância do animal no entendimento das características constitutivas do ser humano, assim como a predominância de categorias conceituais humanas (as únicas, ao fim e ao cabo, às quais temos acesso) na compreensão do animal. Ao longo do ano de 2013, foram realizados, primeiro, um conjunto de conferências no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e, finalmente, um encontro de dois dias na Faculdade de Filosofia da Universidade de Santiago do Chile. Essas atividades reuniram um grupo internacional de pesquisadores provenientes de diferentes áreas do conhecimento, em particular, da filosofia, da antropologia, da biologia e da primatologia. O resultado desse debate interdisciplinar, aqui publicado, é uma reflexão multifacetada sobre como o animal passa naturalmente a fazer parte de nossa própria imagem do que é humano para, assim, condicioná-la. Os artigos publicados a seguir discutem e problematizam a ideia de que tal imagem resultante seja unitária e universal, em três direções. Alguns artigos criticam e reformulam certas caracterizações antropocêntricas do animal – como no primeiro artigo que propõe um novo pacto com os animais, ou no segundo e quarto artigos, nos quais se põe em discussão o direito dos animais no plano político e cultural. Outros ressaltam a importância da perspectiva darwinista na caracterização das peculiaridades de cada ser vivo, tal como no tratamento do a priori segundo a visão de Konrad Lorenz do terceiro artigo e na apresentação da perspectiva simbiótica do quinto artigo. Finalmente, trazendo à luz a técnica eugênica e a dispersão ontológica, o sexto artigo discute a redefinição das coordenadas entre humano, animal e vida. Fecha o número resenha que se dedica a apreciar o aporte do biólogo Jakob Von Uexküll à compreensão das relações entre o mundo humano e o mundo dos animais.

No artigo que abre o número, Stélio Marras propõe repensar a relação entre humanos e animais empregando ferramentas teóricas próprias da antropologia, da filosofia, da prima­to­logia e da biologia comportamental mas, sobretudo, evitando os dispositivos epistemológi­cos modernistas, tais como o naturalismo ou o sociologismo. De acordo com o autor, ao refletir sobre a crise das práticas e das concepções contemporâneas da dicotomia entre a animalidade e a humanidade, pode-se chegar ao reconhecimento de que humanos e não humanos somente se afirmam como realidades emergentes nas relações que travam entre si. O desafio que se apresenta parece ser o de conceber as diferenças em continuidade umas em relação às outras, partindo de processos pragmáticos de estabelecimento de relações. Na articulação de seu mapa conceitual, no qual aparecem como referências centrais Bruno Latour e Donna Haraway, Marras optou por tornar público o diálogo com Charbel Niño El-Hani e Joana Cabral de Oliveira, o qual se originou no processo de avaliação do presente artigo, permitindo, com isso, não só a percepção de parte do funcionamento da revisão por pares, mas deixar aberto o diálogo entre os antropólogos e os biólogos.

No segundo artigo, Hernán Neira explora as analogias entre os fundamentos da vida política e da vida animal, percorrendo um caminho que vai de Heródoto e Tucídides até nossos dias, passando principalmente por Aristóteles, Descartes, Condillac, Rousseau e Heidegger. Ao longo de sua análise, as semelhanças e diferenças entre a vida política e a vida animal vão sendo caracterizadas. As analogias trazidas à luz, por meio desse procedimento de comparação de semelhanças e diferenças, são sugestivas, articulando-se finalmente com o tema – dotado de grande atualidade – dos direitos dos animais. É particularmente relevante, no conjunto da reflexão do autor, a constatação da presença de interesses nas atividades dos animais. Essa constatação, que já havia sido feita por Condillac, permite a Neira advogar em favor de uma imagem de alguns animais como detentores de algum grau de consciência de si, do entorno e da possibilidade da própria morte, o que aponta para uma zona de indistinção política entre os humanos e os animais.

Do mesmo modo, Lorenzo Baravalle, em seu artigo, propõe uma imagem do animal como ser consciente e ativo em seu ambiente. Mas agora o ponto de partida são as pesquisas epis­te­mológicas do fundador da etologia, Konrad Lorenz. Por um lado, o artigo apresenta, a partir das teses desse biólogo estudioso do comportamento dos animais, como a resposta darwinista, fundada na ideia de filiação comum, articula-se à tese de Thomas Nagel sobre a inacessibilidade da mente animal; essa articulação permite então os argumentos darwinianos da inteligibilidade (limitada) da mente de um animal de uma espécie para um animal de outra espécie. Por outro lado, o autor mostra como os pressupostos kantianos da epistemologia lorenziana e, em particular, a noção de a priori, podem estimular a pesquisa no âmbito do que Baravalle chama de "epis­­temologia ecológica", uma disciplina dedicada a analisar a esfera vivencial e o mundo fe­no­mênico dos distintos animais.

No quarto artigo, Eliane Sebeika Rapchan e Valter Neves analisam o possível impacto dos atuais desenvolvimentos da primatologia no que tange ao delineamento de novas alte­ri­dades. Para fazer isso, os autores desenvolvem uma análise histórico-epistemológica bem articulada sobre os modos pelos quais os primatólogos e os etnógrafos têm estendido o conceito de cultura aos animais, de modo que a aproximação entre os humanos e os primatas não humanos parece inexorável e irreversível. Ela implica, por exemplo, a reformulação de representações e de categorias de classificação, bem como o aprofundamento do debate sobre os direitos dos animais não humanos. O impacto cultural dos estudos primatólogicos seguramen­te haverá de afetar tanto o desenvolvimento desse mesmo campo disciplinar, quanto o desenvolvimento da própria reflexão antropológica sobre a relação entre a natureza e a cultura.

No artigo seguinte, Davide Vecchi avalia as renovadas tentativas de fundamentar biologicamente o conceito de "natureza humana", segundo uma descrição homeostática de organismo vivo e em compatibilidade com uma versão essencialista e estatística da própria natureza humana. O darwinismo desafia o pensamento essencialista na biologia, sugerindo que muitas de nossas características supostamente típicas da espécie são homologias, adaptações contingentes, e que nossa espécie, como qualquer outra espécie em evolução, é muito variável, tanto genética como fenotipicamente. Vecchi propõe então contrastar a tendência essencialista, comum em disciplinas como a psicologia ou a antropologia física, aos aportes filosóficos de outro florescente âmbito da investigação biológica contemporânea, a microbiômica humana. Em particular, o autor põe em relevo de que maneira a visão simbiótica da vida, derivada da microbiômica humana, desafia a visão estatística, essencialista e monogenômica da natureza humana ainda dominante, apontando para a relevância da diversidade humana e da plasticidade do desenvolvimento humano para a caracterização da natureza humana.

Fechando o conjunto de artigos, Jorge Leandro Rosa estuda as implicações ontológicas mais profundas da eugenia, inspirando-se no trabalho de Giorgio Agamben e confrontando-se extensamente com a reflexão de Hermínio Martins sobre o enorme experimento humano que se encontra em curso. O problema fundamental, que norteia a investigação do autor, é o de procurar entender como uma prática amplamente reconhecida como científica no início do século XX tornou-se uma prática silenciosa, deixada invisível pelas técnicas genéticas (bio­tecnologia), no século XXI. A busca de uma resposta revela que a tensão do ser humano em direção a seu melhoramento é persistente ao longo de sua história e que, no estágio atual de desenvolvimento científico e tecnológico, aguarda uma mais completa compreensão da genética humana para aproveitar de todo seu potencial. Esse potencial está constituído, em particular, pela plasticidade do ser humano, característica graças a qual ele tem a extraordinária capacidade de tornar-se outro (nos objetos técnicos derivados da genética); essa dispersão ontológica produzida pelas práticas genéticas mantêm no horizonte a perspectiva eugenista de melhoria da condição humana.

Encerra o segundo número deste ano de Scientiæ Studia a resenha, escrita por Lorenzo Baravalle, de duas obras de Jakob von Uexküll – A foray into the worlds of animals and humans e A theory of meaning –, que se relaciona com seu artigo e com o artigo de Stelio Marras, ambos publicados neste número. Baravalle apresenta, então, a contribuição dada por Uexküll – autor fundamental na formação de Konrad Lorenz – para a abertura do campo de estudo da mente animal e a correspondente formação de um mundo animal. A noção de Umwelt, o mundo vivido, fenomenicamente significativo, que Uexküll coloca como fundamento do estudo do comportamento animal (e humano) – em contraposição à noção de arco reflexo, elaborada pela fisiologia behaviorista do começo do século xx –, resulta extremamente importante para quem hoje quer aproximar-se das pesquisas em biossemiótica e do estudo da consciência animal.

 

Os editores
Pablo Rubén Mariconda
Lorenzo Baravalle

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