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Scientiae Studia

versão impressa ISSN 1678-3166versão On-line ISSN 2316-8994

Sci. stud. vol.13 no.2 São Paulo abr./jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-31662015000200001 

Editorial

Editorial

Pablo Rubén Mariconda1 

1Departamento de Filosofia Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.

O segundo número deste ano de Scientiæ studia está dedicado, em sua maior parte, à tradição francesa de reflexão filosófica sobre a ciência e a tecnologia. Assim, os três primeiros artigos dedicam-se a analisar aspectos da filosofia da técnica de Gilbert Simondon: a sua contribuição à teoria da concretização; as relações entre a mecanologia de Simondon e a cibernética de Norbert Wiener; e a possibilidade de uma teoria biológica da tecnologia, enquanto o quarto artigo, partindo das posições de Georges Canguilhem sobre o normal e o patológico, discute a possibilidade de fundamentar a crítica social do capitalismo contemporâneo na crítica biopolítica. A seguir, é analisada a proposta de Hans Jonas de uma nova ética, baseada na responsabilidade perante a natureza, para a civilização tecnológica. E, por fim, é analisada a recepção e divulgação das ideias ópticas de Isaac Newton no continente europeu durante o século xviii, em especial, na França, com Voltaire, e na Itália, com Algarotti. Fecham o número cinco resenhas que se ligam à tradição francesa, introduzindo o pensamento de Jacques Ellul sobre a tecnologia; discutindo a concepção de avanço técnico e o conceito de invenção em Gilbert Simondon; analisando as relações entre ética, conhecimento e vida em Georges Canguilhem; e apresentando as ressonâncias da biopolítica de Michel Foucault para a questão dos sofrimentos psíquicos.

Abre este número de Scientiæ studia o artigo de Andrew Feenberg que se dedica a desenvolver as implicações políticas da contribuição de Simondon para os estudos sobre a tecnologia, para a filosofia ambiental e para a teoria crítica da tecnologia do próprio autor. O artigo se desenvolve em três etapas. Na primeira, Feenberg apresenta três conceitos, que considera como chaves para a compreensão das consequências da filosofia de Simondon no contexto político contemporâneo: as ideias de uma relação entre os valores e o projeto tecnológico, de um meio associado e de concretização técnica. Aproximando, na segunda parte, a conceituação simondoniana do construtivismo da teoria do ator-rede de Latour, o autor procura superar a separação típica de Simondon entre tecnologia e sociedade, recuperando a apropriação original de Simondon feita por Marcuse, no sentido de usar criativamente essa apropriação na composição da teoria crítica da tecnologia.

Tendo o objetivo de suscitar um interesse epistemológico na filosofia da tecnologia, Ivan Domingues procura, em seu artigo, lançar luz sobre a questão das relações entre a tecnologia, a engenharia e a ciência no pensamento de Gilbert Simondon. Para isso, Domingues examina a evolução terminológica de uma família de conceitos de Simondon, aparentados ao de cibernética, desenvolvido por Norbert Wiener: dos conceitos de alagmática (teoria das operações) e organologia (teoria dos órgãos), utilizados preferencialmente nas teses (principal e complementar) de Simondon, até o conceito de mecanologia, que é preponderante na entrevista de 1968, discutindo a influência da cibernética de Wiener, segundo a qual, além da ciência dos objetos e das estruturas, há uma ciência das operações e processos, que são tomados na interação entre sujeito e objetos, dos quais fazem parte agora os instrumentos, para mostrar que, nesse sentido, a cibernética trata diretamente da interação entre humanos e máquinas. Como mostra o autor, a mecanologia é então uma cibernética universal, desatrelada das engenharias (particulares) e coordenada à ontogênese dos objetos técnicos.

No terceiro artigo deste número, Wendell Evangelista Soares Lopes detém-se no significado, em Simondon, da filosofia biológica da técnica, para mostrar como a analogia com o orgânico é básica na constituição da ontogenética técnica. Segundo o autor, na análise a que Simondon submete o processo de individuação dos objetos técnicos, ele mobiliza explicitamente os conceitos de concretização (superdeterminação funcional), adaptação e ambiente associado, os quais revelam a organicidade do modo de existência dos objetos (seres) técnicos. Segundo a ordem técnica, tal como é pensada por Simondon, quanto mais concreto e adaptado é um objeto técnico tanto mais sua individuação se aproxima da individualidade propriamente orgânica (biológica). Novamente, isso aponta para uma convergência entre a máquina de tipo cibernético (autônoma e recursiva) e o orgânico. Embora a autonomia da máquina cibernética pareça limitada a uma "mutação orientada", enquanto o organismo é uma autoprodução vital, ainda assim, a autonomia dos seres técnicos (artificiais) levanta a dupla questão, duas faces de uma mesma moeda, de saber se máquinas podem simular inteiramente o vital e se a técnica é autônoma com relação à sociedade.

No quarto artigo do número, Vladimir Safatle se debruça sobre a trajetória de vida de Georges Canguilhem, o insigne professor de Simondon, para pensar a possibilidade de reorientar a biopolítica, que foi utilizada predominantemente, e até excessivamente, na descrição dos mecanismos disciplinares de administração dos corpos e de gestão (probabilística/estatística) da vida, de modo que ela possa fornecer uma base para a crítica social do capitalismo contemporâneo. Safatle deriva essa biopolítica - que é capaz de operar a crítica social da economia - do vitalismo de Canguilhem o qual serve de pano de fundo para três aspectos importantes da biopolítica de Canguilhem: a concepção da normatividade vital; a conhecida teoria das relações entre o normal e o patológico; e o conceito de errância da atividade vital. Ora, o referencial de análise biopolítica obtido com a articulação dos três conceitos pode representar um ganho teórico, pois avança na direção de uma teoria das normas (normatividade), e um ganho crítico, mediante a reorientação do pensamento social no sentido de uma crítica biopolítica da economia capitalista.

Completam este número de Scientiæ studia dois artigos que diferem dos anteriores apenas porque não tratam da escola francesa. Assim, Maurício Chiarello examina a proposta de Hans Jonas de uma nova ética mais apropriada à civilização tecnológica, avaliando-a em sua capacidade de mobilização dos cientistas para o exercício da responsabilidade para com a natureza. Chiarello mostra o impasse a que conduz a posição de Jonas: ao fazer a crítica da compulsão tecnológica, sem o necessário redirecionamento da pesquisa científica, ele fica impossibilitado de propor alternativas efetivas que manifestem melhor os valores ligados à responsabilidade ética e social dos cientistas e tecnólogos. Para sair do impasse, o autor lança mão então da posição de Lacey sobre o papel dos vários tipos de valores nas atividades científicas e combina isso com a ideia, que ele retira de temas presentes em Adorno e em Marcuse, de uma experiência estética capaz de abertura à alteridade e de acolhimento de valores menos ligados à húbris tecnológica que possam ser incorporados por modos alternativos de conduzir a atividade científica e tecnológica, no sentido da alta manifestação de valores humanos, sociais e ambientais.

Encerrando a série de artigos, Breno Arsioli Moura e Cibelle Celestino Silva analisam a recepção das concepções ópticas newtonianas no continente, particularmente, na França com Voltaire e na Itália com Angarotti, durante a primeira metade do século xviii. Comparando o Elementos da filosofia da Newton de Voltaire e o Newtonianismo para damas de Algarotti - livros que inauguram o gênero literário da divulgação científica -, os autores mostram as distorções e simplificações do conteúdo científico próprio do Óptica de Newton que produzem e propagam uma imagem idealizada de suas concepções científicas e da própria filosofia natural. Esse processo de propagação das ideias científicas faz parte, desde então, do processo pelo qual foi sendo constituída a capilaridade de comunicação entre a ciência e a sociedade que produziu paulatinamente a predominância social da ciência, como base da civilização tecnológica.

Este número de Scientiæ studia publica cinco resenhas dedicadas a obras ligadas à tradição francesa de estudos sobre a ciência e a técnica. Na primeira, Jorge Barrientos Parra faz uma apresentação da coletânea Jacques Ellul and the technological society in the 21st century, organizada por Helena Mateus Jerónimo, José Luís Garcia e Carl Mitchan e aproveita a oportunidade para apresentar o trabalho pouco conhecido entre nós desse importante estudioso da tecnologia, fornecendo um roteiro completo de leitura de sua obra, além do breve relato das contribuições da coletânea sobre a adequação das concepções de Ellul à situação atual. Na segunda, Cristiano Cordeiro Cruz analisa o Entretien sur la mécanologie, que consiste de duas entrevistas concedidas em 1968 por Gilbert Simondon a Jean Le Moyne, sob encomenda do Ofício do Filme do Québec, Canadá. Após explicitar que a principal diferença entre as concepções cibernéticas de Simondon e Wiener encontra-se na concepção de informação, pois enquanto para Simondon ela é tomada em seu aspecto de potencializar a individualização e, portanto, a invenção, para Wiener, ela é tomada como incremento de controle por regulação e homeostase, Cruz trata das relações entre o processo ontogenético de individuação técnica e o processo de individuação individual e coletiva dos seres humanos. Na terceira resenha, Marcos Camolezi concentra-se no conceito de invenção, tal como ele se encontra no curso Imagination e invention (1965-1966) de Gilbert Simondon. Faz isso em duas etapas. Na primeira, mostra o estreito vínculo entre invenção e imagem, apresentando as quatro fases do circuito ontogenético das imagens; na segunda, faz a genealogia da invenção como problema filosófico a partir do final do século xix, passando por Bergson, Bachelard e Canguilhem, para chegar a Simondon, em um verdadeiro esclarecimento contextual de sua trajetória intelectual. De sua parte, Rodolfo Franco Puttini resenha o livro O conhecimento da vida de Georges Canguilhem, apresentando a estrutura e organização dos oito ensaios que o compõem e que tratam do vínculo entre pensamento e vida, com o qual Canguilhem se empenha em fundamentar o campo ético nas ciências médicas e sociais. No curso da apresentação dos ensaios da coletânea, Putini examina sucessivamente o método historiográfico de Canguilhem; a questão de se as ciências da vida podem prescindir de uma filosofia da vida, e as repercussões e diretrizes para a filosofia e a sociologia da medicina. Fechando as resenhas, María Fernanda Vásquez Valencia apresenta a edição espanhola do livro de Sandra Caponi, Locos y degenerados: una genealogia de la psiquiatria ampliada, primeiramente publicado em português. Valencia mostra como por meio de um estudo histórico-epistemológico, que ressoa intensamente os estudos genealógicos de Foucault, Caponi estuda a emergência da psiquiatria ampliada como mecanismo biopolítico a partir da segunda metade do século xix, com a constituição dos dispositivos de institucionalização do tratamento mental e de medicalização forçada, apropriados à teoria da degeneração então dominante. A autora trata então da constituição da psiquiatria como disciplina científica e médica, sua relação com a justiça e a definição dos dispositivos de internação, classificação e regulação que possibilitaram o discurso médico sobre o anormal e a ampliação das fronteiras da psiquiatria ao estudo e intervenção de condutas, desvios, anomalias, vícios e sofrimentos psíquicos.

Pablo Rubén Mariconda editor responsável

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