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ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.1 no.2 São Paulo dez. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202003000200010 

Entrevista com Iberê Camargo

 

 

Paulo Reis

Curador independente e professor convidado do curso de história da arte do Instituto de Artes da UERJ

 

 

 

 

Iberê Camargo é um dos poucos artistas modernos brasileiros que se pode considerar uma unanimidade. Digo "é" porque sua obra tornou-se perene, um cânone na pintura moderna. Assim como Amilcar de Castro, outra unanimidade, Iberê foi um artista alheio ao mundo das artes. Preso somente à sua ética artística, recluso na solidão do seu ateliê, diante de suas obras, o artista buscava as razões de pô-las no mundo. Esta é a grande verdade em meio a tantas que se procurou construir em torno desse polêmico artista.

Neste momento em que há uma grande mostra retrospectiva percorrendo o Brasil , me vêm à mente as conversas que tive com o artista ao longo de dois meses, antes de sua morte, em 1994. Nas duas últimas entrevistas que o artista concedeu, naquela semana de agonia, falou da sua dor física e emocional, por estar sendo consumido por uma doença infame. Tendo enfrentado um câncer no pulmão, que limitara os movimentos do braço direito, o artista não tocava nos pincéis havia um ano. Falava com dificuldade, pois submetia-se diariamente a sessões de radioterapia e não podia pintar, viajar ou receber pessoas. Para se ocupar, escrevia um livro de memórias afetivas. Em resposta à finitude do homem, deixou sua obra como testemunho.

Nossas conversas duraram mais de um mês, pois eu lhe elefonava todas as manhãs, quando chegava à redação do jornal carioca, apenas para saber como estava de saúde. Passávamos horas ao telefone, falando sobre arte, vida, humanidades, política e mercado. Sem meias-tintas, assim como carregava na paleta, carregava nas palavras, enfrentando até mesmo instituições como a Bienal Internacional de São Paulo, acusando seus organizadores de tê-lo colocado na mostra como "comissão de frente" de um tema que não lhe dizia respeito - a "quebra do suporte". Espírito trágico e amargo, o artista costumava justificar o sentimento das suas obras tristes e de cores sombrias remetendose a um de seus temas prediletos, as figuras humanas sobre bicicletas.

Nos anos 50, sua série dos carretéis dissolveu-se aos poucos em imagens cada vez mais abstratas. Mas quando a corrente principal da arte brasileira apontou para uma extinção da tela, Iberê voltou-se à figuração. Os tons rebaixados e a miséria humana eram uma constante em suas obras. Dividindo com Oswaldo Goeldi o título de maior artista expressionista brasileiro, Iberê possuía uma paleta de infinitas camadas de tinta que fazia brotar personagens sombrios, tristes e trágicos como a existência humana, tema tão caro aos expressionistas.

Tendo iniciado com as paisagens, nos anos 40, ele passa para a figuração da série dos carretéis, no fim dos anos 50, e por diversas fases até chegar a uma abstração expansiva nos anos 60, época dos núcleos. Na década seguinte, Iberê retoma a forma que anteriormente havia sido diluída em pastosas camadas de tinta com os vórtices e símbolos. Essa figuração desaguaria nos famosos ciclistas. Com fantasmagorias, lembranças e reminiscências, Iberê povoa de tons azuis, frios e paisagens estéreis suas telas. Os anos 90 chegam e ele, no auge da sabedoria, passa a pintar Idiotas e Tudo te é falso e inútil, obrassíntese da sua coerente trajetória artística. Solidão, sua última obsessão, mede 4 metros.

Iberê Camargo sempre foi um homem esquentado. Dizia não suportar a burrice e nunca ficou sem responder a uma crítica. A tragédia de ter tirado a vida de um homem num incidente de rua mudou sua vida. Depois disso, o artista retornou a Porto Alegre e passou a fugir da amarga lembrança. Sempre contundente, virulento e polêmico, Iberê me concedeu as entrevistas entre a dor da doença, o apanágio dos remédios e o inconformismo contra a natureza, a doença, o acaso. Inicialmente publicadas no Caderno B do Jornal do Brasil, pela primeira vez estas entrevistas vêm à tona em sua íntegra. A dor de publicálas hoje é menos intensa do que na época de sua realização.

Paulo Reis: O senhor nunca teve uma boa relação com os artistas, com os galeristas, com os críticos, a quem até chamou de débeis mentais. Enfim, com aquilo que chamamos mercado de arte. Por quê?

Iberê Camargo: O preço que pago pelas minhas convicções é, muitas vezes, ser excluído. Sempre fui um rebelde e fugi da escola. As pessoas esperam que todo mundo seja igual, mas eu me nego a ser e por isso sou excluído de muitas coisas. Odeio tudo que não for pintura e, felizmente para o mundo, é o artista que produz arte. A crítica não a pode fazer nem a pode orientar, embora certos críticos exerçam influência, como acontece, atualmente, em salões e bienais.

PR: Pictoricamente, sua obra pode ser dividida por fases: a dos charcos, a dos carretéis, a das abstrações e a dos ciclistas...

IC: Concordo. É uma seqüência que foi acontecendo naturalmente. Segui meus passos intuitivos. Goya era muito ignorante da história da pintura, mas sabia pintar. A impressão é que toda arte é emoção. O pensamento, na arte, serve para justificar os arranjos florais - para quem puxa para cá, puxa para lá, explicar o que faz. Não faço essas coisas.

PR: Mesmo afastado das Bienais de arte, este ano o senhor vai ter uma sala ao lado de Lucio Fontana, Robert Rauschenberg, Richard Long, entre outros grandes artistas estrangeiros . Isso o deixa lisonjeado?

IC: Não. Acho que essa colocação da Bienal é para provar que eu não sou pintor. Não quero saber de instalação. Quando o homem criou o fogo, ele fez uma instalação. Sou pintor. Eu tenho uma visão bem diferente de arte.

PR: O senhor afirma que recolocou o homem de volta ao quadro. Sua pintura é humanista?

IC: É. Porque acho que o homem é o meu centro. Mas você sabe que o homem testa aquilo que sabe. Ele não tem a capacidade de pensamento do anterior. Ele não pode pensar o que nunca foi pensado. Quem estudou psicologia sabe disso. Você olha o mar e sabe que é água, olha a pedra e vê a natureza, olha o céu e vê o azul. Está no sentido do homem. O trabalho do pintor é de recriar a natureza. A realidade da natureza recriada é o que é a verdadeira discussão filosófica da arte e sua função.

PR: Falando em humanismo, sempre se disse que o senhor tem posições políticas de direita. Isso é verdade?

IC: Não faço política. Não sei de nada do que acontece. Aqui, o cara atira no outro por causa de política. Tudo em política é remendado, o que pode hoje, não pode amanhã. Não tenho convicções políticas. O homem não encontrou solução para essas coisas porque é egoísta. Somente os bichos e as aves é que sabem das coisas.

PR: Esta exposição que o Rio recebe é uma retrospectiva de diversas fases de sua carreira?

IC: Não sei bem o que será mostrado. Como não posso interromper meu tratamento de saúde não vou viajar para ver a exposição. Ela está sendo montada com alguns quadros da coleção da minha mulher e da minha galeria, que arrumou quadros de colecionadores. Eu não fico com trabalhos meus. Agora que não estou pintando, não vendo nada, ganho um dinheiro do governo, mas é uma mixaria que não dá para pagar as despesas. Enfim, é um problema. Só quero me recuperar para voltar a pintar o mais rápido possível.

PR: Com este problema, quais são as dificuldades para pintar?

IC: O problema é que eu tinha dificuldade nos braços. Fiz todos os tratamentos que o médico me indicou. Quando pintava eu sofria muito. Descobri que tinha uma mancha preta que se alastrava. Fui a outro médico e ele disse que era preciso fazer um tratamento que custou uma nota preta. O que me incomoda é essa desgraça generalizada nos hospitais. As pessoas não podem nem se tratar. O seguro de saúde e o INSS são uma desgraça e dá tudo errado.

PR: Muitos acham sua pintura triste, melancólica por causa dos tons. Ela é reflexo do seu sofrimento?

IC: Quem olha com tristeza é porque é triste. O que está dentro é o que está fora. Meus tons são frios porque minha paleta vem da alma. Pinto o que sinto. Acho que não nasci para alegrar ninguém, sempre me senti um ciclista da vida que anda contra o vento. Se as pessoas percebem tristeza ou alegria é porque esses sentimentos vêm delas. A arte é essa busca no sentido.

PR: Quando se fala em Iberê vem logo à mente a pintura. Mas seu trabalho de desenho e gravura é bastante significativo. O senhor vê diferença entre os suportes?

IC: Eu pinto, escrevo, gravo, faço tudo com o mesmo amor porque vou fundo na minha verdade. Na gravura você depende de outros fatores, a pintura é mais direta. Ela é mais imediata. Agora a gente se apaixona pelo que faz se guiando pela sua beleza. Estou preparando um livro em italiano sobre meu trabalho. Por que italiano? Porque estudei. Quem não sabe outra língua no Brasil está ralado. Quero que o livro alcance outros lugares.

PR: A Bienal vai tratar da questão do suporte. O senhor se enquadra nessa questão plástica?

IC: Eu é que vou saber? Acho que é para fazer uma comissão de frente. Não estou preocupado com essas coisas. Sei apenas que pinto, mas me enquadrar nessas teorias é meramente um dado comercial.

PR: O senhor disse que sente muita saudade do Rio. Mas a cidade também lhe traz más recordações. É preciso visitar o inferno para se conhecer o paraíso?

IC: Eu gosto muito do Rio. Tenho apartamento e ateliê aí. E muitos amigos, que são a melhor coisa da vida. Mas resolvi ficar em Porto Alegre apesar do inverno me maltratar aqui. Certas coisas são mal postas. Tem coisas que não se deve dizer para não mexer em feridas.

PR: O senhor é um homem bastante reflexivo e não se expõe. É quase um eremita, vivendo dentro de uma metrópole como Porto Alegre. Sempre foi assim?

IC: Eu sou caseiro. Não tenho tempo para perambular pelas ruas. Só vou para ver o céu, a água, as árvores. Estou velho e doente e nada mais me interessa a não ser a natureza.

PR: Ano passado houve uma mostra no Centro Cultural São Paulo e outra na Galeria Camargo Vilaça. Uma obra sua chamou bastante atenção, Tudo te é falso e inútil, um óleo sobre tela. Esse é seu sentimento atual?

IC: Essa frase me foi dada pelo amigo Ronaldo Brito. Realmente penso na vida e no que vem depois. A verdade é que tudo é passageiro e montado como uma carta de baralho. Você põe 2000 anos de cultura e o que vai ficar? O que o homem escreveu, o tempo comeu.

PR: É um fato sua teimosia, até mesmo doente o senhor que pintar. Por quê? O senhor acha que é predestinado para a arte?

IC: Eu nunca desisto, e também nunca digo não. Acho que já nasci pintor. Quando criança meu brinquedo era lápis e papel, dessa maneira me vejo sem função na vida se não estiver pintando. Vem daí minha necessidade de estar trabalhando.

PR: O que mais o incomoda atualmente na arte brasileira?

IC: Essa burrice nacional. Por que as pessoas estão mudas? A televisão é a pior coisa que poderia ter acontecido. Não suporto isso. Vejo que há artistas que são valorizados e não têm uma obra significativa. Vejo que se elogia apenas pelo desejo de um mercado, não tem verdade naquilo. Isso tudo me incomoda, então não tomo parte nisso.

 

Biografia

Iberê Camargo nasceu em Restinga Seca, no interior do Rio Grande do Sul, em 1914. Chegou à capital aos 20 anos, já com o desejo de ser artista. No Rio, para onde se mudou em 1943, estudou na Escola Nacional de Belas Artes. Aqui, foi aluno de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), fundando um grupo com o nome do mestre. Em 1947, ganhou um prêmio que permitiu que viajasse ao exterior. Estudou com os pintores André Lhote (1885-1962), em Paris, e com Giorgio De Chirico (1888-1978), em Roma. Como pintor, Iberê se considerava herdeiro da tradição de Maurice Utrillo (1883-1955) e de Goya (1746-1828). Dos modernos, era admirador do irlandês Francis Bacon (19091992) e do holandês naturalizado americano Willem de Kooning.

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