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ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.3 no.6 São Paulo  2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202005000200008 

Richard Tuttle em obras

 

 

Lucrecia Zappi

Jornalista; colabora para o jornal Folha de S. Paulo e para a revista eletrônica Trópico, entre outros veículos

 

 

 

 

Um dos grandes artistas de seu tempo, Richard Tuttle é visto como uma força transformadora do simples. A variedade de materiais, dos fios de metal aos compensados de madeira, traz à tona um artista experimental que deixa, onde quer que passe, vestígios do livre exercício da criação. Organizada junto com o próprio artista, a mostra no museu Whitney, em Nova Iorque, reuniu 40 anos de obra do pósminimalista americano, com mais de 300 peças. Em entrevista por telefone, o artista fez uma reflexão sobre a "poesia da perda" ao discutir o processo criativo, a desconstrução do olhar e dos valores que o cercam.

Quem vê pela primeira vez desconfia. A obra de Richard Tuttle parece ser rigorosamente conceitual e indecifrável, das esculturas-letra às instalações feitas de um amontoado de objetos irreconhecíveis à primeira vista.

Mas voltar à exposição no museu Whitney, em Nova Iorque, para entender melhor o que se passa na cabeça do artista, pode deixar o público ainda mais desorientado. Tem-se a sensação de que o espaço mudou. E de que algumas obras desapareceram para dar lugar a outras.

Não é só impressão. Para apresentar 40 anos de obras do artista de 65 anos nascido em Rahway, Nova Jersey, o museu fez uma retrospectiva em três tempos, durante três meses de exposição, entre novembro e fevereiro. A decisão de triplicar o metro quadrado também deu certo porque só fez frisar o espírito cambiante do artista.

O espaço da mostra, que acaba no domingo1, se perpetua em um jogo prolífico abstrato de pinturas, desenhos, esculturas, instalações, livros e design, feitos com materiais de fundo de gaveta, os mais simples possíveis, como lâmpadas, papelão rasgado, fita adesiva, pregos ou linhas.

A simplicidade dos materiais e a facilidade com que se unem "humanizam" as peças. Tudo é palpável em seus objetos feitos à mão em pequena escala. Mas justamente essa engenhosidade e sofisticação de fazer peças sem grandes "assinaturas" já causou indignação geral.

Há 30 anos, no mesmo Whitney, a "ausência de arte" do artista culminou na demissão da curadora do museu, Marcia Tucker, autora da frase "A obra de Tuttle não se entende, mas se sente". Uma das extravagâncias de Tuttle foi esticar um fio de metal em um paredão e acompanhar a linha da sombra com um risco de grafite.

De volta ao século 21, feridas cicatrizadas entre museu e artista, ao passear pela retrospectiva fica a sensação de leveza no olhar. O legado de Tuttle é justamente essa nova categoria visual, com formas singulares que se sustentam sozinhas.

Suas peças, de natureza pictórica e indeterminada, estão literalmente por um fio do mundo real. "O importante é não ter uma leitura tradicional da obra. Tento escapar da representação mimética, construir o inusitado para aguçar o olhar. É mais enriquecedor para quem vê", diz Tuttle, por telefone, desde sua casa em Albuquerque, no Novo México.

Homem de fala lenta e leitor de poesia desde criança, Tuttle, que vive entre a segunda e a terceira dimensão, tenta ser mais específico: "Minha arte está entre a caligrafia e a arquitetura. Durante toda minha vida eu sempre estive entre estes dois pólos, e a fronteira é bem pequena".

Nesse espaço estreito o que dá o tom é o silêncio, segundo ele. "A dinâmica de meu trabalho é silenciosa", continua. "A maioria dos artistas é tão ruidosa, e eu me pergunto onde é que a obra por fim se silencia".

Na linhagem da arte moderna, a obra se silencia por si mesma, se esgota ou anuncia seu fim. Mas os objetos "sem ego" de Tuttle, sem uma subjetividade exacerbada, feitos de restos e de improvisos, sempre se revigoram, onde estruturas como pregos falam tão alto quanto a forma ou a cor.

É a "arte em processo", característica do pós-minimalismo de Tuttle, em oposição ao racionalismo minimalista: "Um momento importante para o artista é quando ele tem que aceitar a fricção, a tensão em seu trabalho, seja em diferentes meios e em suas restrições. E tudo isto transparece", diz.

E suas influências também. A pintura de Franz Kline ressurge em suas caligrafias poéticas, enquanto sua arquitetura tem algo dos objetos específicos de Donald Judd ou das estruturas de Sol LeWitt.

Outra influência presente em sua arte, segundo ele, é o dadaísmo. "Eu gosto muito desse movimento porque, enquanto todo o modernismo se projeta no futuro, o dadaísmo se concentra no presente. E riem de si mesmos, do que é convencional, do que é burguês. Mas é muito sofisticado como o fazem porque em seu discurso tem toda a poesia da perda".

"É importante criar cultura, mas é fundamental desconstruir seus valores. Como na poesia. Os poetas têm algo a dizer, e olha como usam a linguagem", diz Tuttle, que diz se desfazer dos ideogramas para se comunicar.

Segundo o artista, o primeiro passo para a desconstrução de valores para revigorar a arte é olhar para a própria cultura. "E para entender toda a cultura americana, assim como a latino-americana, você tem passar pela Europa".

"Enquanto os europeus tentam ser plenos o tempo todo, aqui se zera. E essa combinação é maravilhosa porque você consegue ao mesmo tempo ser pleno e chegar ao zero", diz Tuttle.

 

 

 

1. "A Arte de Richard Tuttle" segue para o Des Moines Art Center, IA (18/03 - 11/06) e depois para o Museu de Arte de Dallas, TX (15/07 - 08/10).

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