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ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.4 no.8 São Paulo  2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202006000200003 

Do inobjeto

 

 

Vilém Flusser

Da cidade de Praga, onde nasceu em 1920, Flusser e sua esposa Edith emigram para o Brasil, depois de uma breve permanência em Londres, fugindo da máquina de extermínio nazista que avançava sobre a Europa no início dos anos 40. Em São Paulo ele inicia sua carreira como filósofo, conferencista e escritor, publicando seus primeiros livros e artigos nos anos 60. Em 1983 publica na Alemanha o livro Por uma filosofia da fotografia, editado em 1985 no Brasil com o título A filosofia da Caixa Preta, que o tornaria internacionalmente conhecido como um dos mais importantes teóricos das novas mídias

 

 

 

Esse texto, cujo original datilografado foi encontrado nos Arquivos Flusser (Flusser Archiv), na Escola Superior de Arte e Mídia de Colônia (Kunsthochschule für Medien Köln), faz parte de uma série de reflexões que o autor desenvolveu acerca dessa nova categoria de objetos informacionais, por ele chamados de "inobjetos". Após a sua morte em 1991, Flusser tornou-se reconhecido pela comunidade internacional como um dos mais importantes pensadores do Ocidente, ao lado de Jean-François Lyotard, Jean Baudrillard e Paul Virilio, por suas reflexões acerca do impacto das novas tecnologias na cultura como um todo. O manuscrito original não se encontra datado, mas podemos supor que ele pertence à série dos anos oitenta, período de intensa atividade produtiva do filósofo.

M. Ramiro

A nossa circunstância era composta, ainda recentemente, de objetos. De casas e móveis, de máquinas e veículos, de roupas e sapatos, de livros e quadros, de latas e garrafas. Havia, naquele tempo, gente em nosso entorno, mas as ciências "humanas" tinham objetivado tal gente. Ficou tão calculável e manipulável como qualquer outro objeto. A circunstância toda era objetiva. Querer orientar-se em tal circunstância era distinguir entre objetos. Por exemplo: entre os objetos da natureza e os da cultura. A roseira contra a parede da minha casa será objeto natural, por crescer e por ser assunto da botânica, essa ciência da natureza? Ou será objeto artificial, por ter sido plantada por jardineiro em obediência a determinado modelo estético? E minha casa será objeto artificial, por ser a arquitetura uma "arte"? Ou será ela objeto natural, por ser "natural" que homens façam casas, como pássaros fazem ninhos? A distinção entre natureza e cultura é duvidosa. Igualmente duvidoso é não importa que outro critério para distinguirmos objetos. Por exemplo: distinguir entre objetos intransportáveis e transportáveis, "imóveis" e "móveis". País parece ser objeto imóvel, mas a Polônia foi transportada rumo ao Oeste. Camas parecem ser móveis, mas a minha cama é mais estável que a Polônia. Todo catálogo de objetos terá inexatidões e lacunas. Não é fácil o conhecimento objetivo.

No entanto, sob retrospectiva, viver em circunstância objetiva era viver vida confortável. Havia, por certo, dificuldades "epistemológicas", mas sabia-se, mais ou menos, como levar a vida. Viver é caminhar rumo à morte. Em circunstância objetiva tal caminhar esbarra contra objetos. Os objetos que barram caminho eram chamados "problemas". Viver era limpar o caminho, resolver problemas. De duas maneiras. Manipulando o problema para que fique mais dócil (a isso se chamava "produção de objetos"), ou saltando por cima do problema (a isso se chamava "progresso"). Havia problemas que não permitiam nem serem manipulados, nem saltados. A isso se chamava "as últimas coisas". Ao encontrar tais problemas insolúveis, tais últimas coisas, a gente morria. Era isto viver: resolver problemas (emancipar-se das condições), até esbarrar contra esta última coisa que é a morte. Isto é confortável: sabe-se a que se ater, à "dureza das coisas".

Infelizmente tudo isso não vale mais atualmente. Inobjetos estão penetrando a circunstância e estão empurrando os objetos rumo ao horizonte. "Informações" é o nome de tais inobjetos. O que acabo de dizer parece besteira. Sempre havia informações no nosso mundo. E, conforme o termo "in-formação", trata-se de "formação em" objetos. Todo objeto contém informação, seja livro ou quadro, seja lata ou garrafa. Para trazer a informação à tona, basta decifrar o objeto. Nada de novo, portanto.

Como acontece sempre, tal objeção do senso comum, aparentemente razoável, é falsa. As informações atuais que penetram a nossa circunstância para desalojar os objetos são de tipo novo. As imagens eletrônicas nas telas de TV, os dados contidos em computadores, os microfilmes e hologramas e todos estes programas e modelos são a tal ponto "moles" (software) que escapam entre os dedos. São "inconcebíveis" no significado literal do termo. É erro chamá-los "objetos". São inobjetos.

Por certo, as novas informações se apóiam sobre objetos, como o fazem as antigas: sobre válvulas catódicas, sobre chips, sobre raios. Mas quem quiser orientar-se na nova circunstância que está surgindo pode desprezar tal suporte. A prova disso é que o suporte (o hardware) está ficando sempre mais barato e a informação mesma (o software) sempre mais cara. Os últimos restos de objetividade que ainda aderem aos novos inobjetos são desprezíveis. A circunstância está se tornando sempre mais mole, mais nebulosa, menos palpável. E tal caráter espectral do corajoso mundo novo é o ponto de partida para todo e qualquer ensaio para orientarmo-nos nele.

Aliás, estamos todos compenetrados disso. O nosso interesse vital vai se deslocando. São as informações, não os objetos, que queremos. Nos países ditos "desenvolvidos" fazem-se greves, não para obter mais objetos (mais um par de sapatos, mais uma cadeira), mas para obter mais informação (mais uma viagem de férias, mais uma escola para os filhos). Os objetos vão retrocedendo do campo do interesse. Simultaneamente, vai se deslocando a atividade da sociedade. Os proletários, esses fazedores de objetos, vão formando minoria e os funcionários e outros "empregados no setor terciário", esses fazedores de inobjetos, vão formando maioria na sociedade. Em outros termos: a moral burguesa (produção, propriedade e consumo de objetos) vai cedendo a outra.

Não que os objetos estejam rareando. Pelo contrário, verdadeira maré alta de gadgets  está inundando a cena. Mas tal maré prova que os objetos estão se tornando desprezíveis. Todas as canetas, estes isqueiros, estes aparelhos de barbear, estas garrafas plásticas, distribuídos a preço vil para serem jogados fora, são falsos objetos: não é possível ater-se a eles. E, na medida em que estamos aprendendo sempre melhor a programar autômatos a cuspirem tais gadgets, todos os objetos vão se transformar em gadgets, inclusive casas e quadros. Quem sabe, inclusive gente? Todos os objetos, sem exceção, vão se tornando baratos, vão perdendo valor, e o valor vai se transferindo sobre as informações, esses inobjetos. "Transvaloração de todos os valores".

Diga-se de passagem que isto é a essência do novo imperialismo. Quem decide e impera é o detentor das informações (dos programas de usinas atômicas e de armas atômicas, dos modelos das operações genéticas, dos aparelhos administrativos). Tais informações são vendidas a preços exorbitantes e o resto da humanidade, mero detentor de objetos como o são as matérias primas, não pode, senão, submeter-se. O que vale é a informação, o resto é desprezível.

Tal deslocamento dos objetos para o horizonte do interesse e tal fixação do interesse sobre os inobjetos não têm paralelo na história da humanidade. Isto é sumamente incômodo: como, sem termos exemplos, imaginar como será a vida de quem manipula informações, códigos, símbolos, modelos e quem despreza objetos? Que tipo de gente será ele? Que tido de vida será essa? Para facilitar a tarefa, forcemos um paralelo: a primeira revolução industrial, de memória bendita.

Dizia-se na época que um camponês de 1750 d.C. se parecia mais com um camponês de 1750 a.C. que com o operário de 1780 d.C., seu filho. Tamanha a transformação que a indústria introduziu. Atualmente podemos afirmar o mesmo. Nossa vida se assemelha mais à do operário e do burguês da Revolução Francesa que à vida dos nossos filhos, os que brincam com jogos eletrônicos e com computadores. Tamanha a transformação que a moleza das informações introduziu. Por certo: tal comparação com a Primeira Revolução não vai tornar a nossa situação mais cômoda, mas nos ajudará a tomarmos distância dos eventos.

Ajudará a compreendermos que viver entre os objetos e ater-se a eles não é a única maneira "razoável" de viver-se. O homem pré-industrial vivia entre seres animados: vacas, plantas, camponeses, artesãos, senhores. A Revolução Industrial substituiu tais seres por objetos: máquinas, produtos, massa operária, capital, mercado. De maneira que a nossa "objetividade" é coisa recente. E não é coisa tão extraordinariamente satisfatória, como acreditavam ainda os nossos pais otimistas. Há sociedades no Terceiro Mundo que recusam, com boas razões, nossa forma de vida. Agora, quem a recusa também são nossos próprios filhos. Tal distância nos permite, pelo menos, tentarmos imaginar essa vida "alternativa", a vida com inobjetos.

O novo homem, tal como está surgindo em nosso entorno e em nosso próprio íntimo, será ser sem mãos, ser de mãos atrofiadas. Não manipulará objetos. Não "trabalhará", não terá "práxis". O que restará das mãos serão as pontas dos dedos. Com elas o novo homem movimentará teclas. A fim de compor, decompor e recompor símbolos em sistemas informativos. O novo homem não será ator: não haverá mais nem ato, nem ação, nem atividade. Será jogador: haverá estratégia, projeto, programa. Em vez de agir, o novo homem decidirá. "Homo ludens", não mais "homo faber". A sua vida não mais será "drama", mas será "espetáculo". O propósito da vida não mais será fazer e ter, mas conhecer, vivenciar e gozar. Como o novo homem estará desinteressado dos objetos, não terá problemas. Em vez de pro-blemas, terá ele pro-gramas. Viverá, não para resolver problemas, mas para bolar programas. Visão fantástica essa, mas que já está se realizando.

No entanto, não tão fantástica como parece ser à primeira vista. O novo homem, por mais novo que seja, ainda será homem. Morrerá ele também, e saberá disso. A irrupção dos inobjetos, por revolucionária que seja, não modificará este dado fundamental da existência humana. O de caminharmos para a morte. E sob tal perspectiva pouco importa se a morte for concebida como "última coisa" ou como inobjeto. A vida futura, por espectral que pareça ser, ainda será vida humana. De modo que, se não precisarmos adorar os inobjetos que se precipitam sobre nós, tampouco precisaremos receá-los sobremedida. Ajudarão, eles também, como faziam os objetos, a tapar a morte.

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