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ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.6 no.11 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202008000100006 

Ateliê de artes para crianças: primeiros registros e reflexões de um trabalho em progresso

 

 

Maria Christina S.L. Rizzi; Sumaya Mattar Moraes

Professoras do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da USP

 

 

 

O Ateliê de Artes para Crianças é um curso de extensão do Departamento de Artes Plásticas da ECA/USP, vinculado ao Laboratório de Metodologias do Ensino e Aprendizagem em Artes Visuais, em estruturação. Foi oferecido pela primeira vez no primeiro semestre do ano de 2008. Os estudantes da Licenciatura têm no Ateliê elementos que possibilitam a experimentação e a pesquisa prático-teórica e contam com recursos materiais e uma sala especialmente preparada para o desenvolvimento das propostas. O objetivo deste artigo é apresentar reflexões preliminares suscitadas pelas primeiras atividades do Ateliê.

O Curso de Licenciatura em Educação Artística com Habilitação em Artes Plásticas do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo completa trinta anos de reconhecimento pelo Decreto Federal nº 82.625 de 13/11/78. Faz aniversário cumprindo um de seus objetivos, expresso no documento intitulado Proposta pedagógica e estrutura curricular renovada adaptadas ao Programa de Formação de Professores da USP1, encaminhado para o ano de 2006: a criação de um Ateliê de Artes para Crianças, como parte integrante do Laboratório de Artes Visuais para Crianças e Adolescentes, idealizado pela Profa. Dra. Regina Stela Barcelos Machado, ligado à área de Metodologias do Ensino e Aprendizagem em Artes Visuais.

O Ateliê de Artes para Crianças está vinculado à disciplina de graduação "Metodologias do Ensino das Artes Visuais III com Estágios Supervisionados" e atende aos princípios e objetivos do Programa de Formação de Professores da Universidade de São Paulo (PFPUSP), que propõe "a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, de modo a garantir a qualidade da formação inicial, introduzindo os licenciandos nos processos investigativos em sua área específica e na prática docente"2.

O Ateliê de Artes para Crianças é um curso de extensão departamental semestral, oferecido pela primeira vez no período de março a junho do ano de 2008. Sob orientação e supervisão das docentes do curso de Licenciatura, o trabalho contou com a participação direta de uma aluna de pós-graduação, dois formandos em fase de elaboração do trabalho de conclusão de curso (TCC) e uma aluna vinculada à Bolsa-Trabalho oferecida pela Coordenadoria de Assistência Social (COSEAS) da USP, além da participação de um funcionário do Departamento de Artes Plásticas, responsável pelo apoio às atividades de extensão, grupos de pesquisa e publicações, e uma funcionária da área acadêmica, responsável pelo apoio às atividades ao Ateliê3.

 

Ateliê de Artes para Crianças: fundamentação e dinâmica

Participaram do semestre inaugural crianças e adolescentes moradores do entorno e filhos de funcionários da USP4. Foram desenvolvidos doze encontros de uma hora e meia de duração, em uma sala de aula do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes, especialmente preparada para acomodar as crianças e acolher as propostas planejadas pelos licenciandos5.

Os mesmos tiveram oportunidades de retomar e aprofundar os conhecimentos oferecidos pelos vários professores das disciplinas práticas e teóricas cursadas no decorrer de sua formação na graduação, formulando propostas que dialogassem com seus campos de interesse. A partir das características e necessidades dos participantes, dos recursos disponíveis no laboratório, das características arquitetônicas do Departamento de Artes Plásticas e de equipamentos existentes na Cidade Universitária, a equipe planejou encontros em que foram apresentadas às crianças produções estéticas desenvolvidas em épocas e locais distintos e durante os quais puderam explorar linguagens e procedimentos artísticos diversificados.

Alguns encontros foram realizados na parte externa do Departamento de Artes Plásticas, o que possibilitou a exploração da luz natural e da paisagem. O contato com obras de arte de diferentes produtores deu-se pelo manuseio de livros e materiais gráficos, pela projeção de imagens e pela realização de uma visita ao acervo do Museu de Arte Contemporânea, localizado no campus universitário.

No encerramento do semestre, utilizando os registros fotográficos que fizeram ao longo dos encontros, os licenciandos organizaram uma apresentação visual do caminho percorrido e montaram uma exposição com as produções dos participantes. Houve a presença de familiares e amigos das crianças, docentes, funcionários e alunos do Departamento de Artes Plásticas, além de outros convidados. A oportunidade propiciou intercâmbio e rica troca de experiências entre todos os presentes6.

Dadas a complexidade e riqueza do processo desenvolvido, alguns dos objetivos voltados ao conhecimento, expressos na proposta de reestruturação curricular do curso de Licenciatura citada anteriormente, foram favorecidos pela participação dos licenciandos no Ateliê de Artes para Crianças, entre eles, "o conhecimento que envolve a investigação de recursos pessoais percepção, intuição, imaginação, reflexão e processos afetivos exercitados na aprendizagem artística e estética"7.

Isso porque as propostas educativas elaboradas e desenvolvidas pelos licenciandos derivaram de sua imersão na situação prática, em contato ativo com as características e necessidades do grupo de crianças e adolescentes. Tal imersão impôs a necessidade de organização de seqüências didáticas, seleção de conteúdos, procedimentos de ensino e formas de avaliação, de tal modo que as propostas desenvolvidas fossem significativas tanto para os participantes como para os próprios licenciandos, alimentando novas ações de ambos os grupos.

Analisando a quantidade de licenciandos participantes e a especificidade do Ateliê no primeiro semestre do ano de 2008, experimentamos possíveis estratégias de trabalho e chegamos a uma dinâmica de rodízio de funções complementares, quais sejam: a) ministrar aula; b) ser assistente; c) registrar por escrito; d) registrar por imagens.

Dessa forma, ainda que o planejamento e a avaliação do trabalho desenvolvido sempre passassem pelo âmbito coletivo, todos tiveram oportunidades de protagonizar a docência. O ministrante preparava a próxima proposta a partir da avaliação, feita em grupo, da atividade desenvolvida. Sob sua responsabilidade ficava a elaboração de um relatório reflexivo da atividade observada, o que o ajudava a pensar em sua própria proposta. Durante a semana, enviava o seu relatório para a equipe. Após estudar e pesquisar com mais profundidade, encaminhava ao grupo a sua primeira idéia, desta vez, mais bem detalhada em termos de fundamentação, objetivos, estratégias e recursos.

O processo de trabalho no Ateliê de Artes para Crianças teve início com três perguntas fundamentais: Como os alunos aprendem arte? O que é importante ser ensinado em arte? Como os conteúdos de arte podem ser organizados?

Essas mesmas perguntas têm norteado professores-pesquisadores no decorrer de sua prática e reflexão, entre eles Ana Mae Barbosa, que, ao final da década de 1980, elaborou uma proposta que trouxe a mudança de paradigma do moderno para o contemporâneo no ensino de arte: a Proposta Triangular8.

Considerando que o ensino da arte deve dialogar com as produções artísticas e as formulações estéticas de seu tempo, a autora explicitou que, se no modernismo foram considerados valores a busca da expressão pessoal e a emoção, na contemporaneidade, ganham força e sentido a construção e a elaboração como procedimentos artísticos, enfatizando a cognição. Aos processos artísticos, é acrescentada a consciência de pertencimento a determinada filiação cultural. Essas considerações, possibilitando entender a importância de se confluir para o mesmo ato de conhecimento em arte as ações de fazer arte, ler obras de arte e contextualizar a produção e a fruição das mesmas, nortearem os trabalhos desenvolvidos no Ateliê.

Do processo de trabalho no Ateliê de Artes para Crianças emergem questões que apontam para profícuas pesquisas a serem desenvolvidas no âmbito do Laboratório de Metodologias do Ensino e Aprendizagem em Artes Visuais. Entre estas, estão tanto aspectos metodológicos relacionados à especificidade das linguagens artísticas e à natureza do trabalho com as diversas faixas etárias, como questões teóricas, tais como as relações entre a Proposta Triangular e as propostas de grandes teóricos do ensino de arte entre eles Herbert Read, Viktor Lowenfeld e John Dewey , o que em muito pode favorecer a compreensão da amplitude de suas colaborações, e as relações entre a Proposta Triangular e os estudos de processos epistemológicos por pensadores contemporâneos, como Edgar Morin e o Pensamento Complexo.

 

A prática e a reflexão no âmbito do Ateliê

Tendo o formato de curso de extensão, voltado, portanto, à comunidade, o Ateliê de Artes para Crianças dirige-se também aos alunos do curso de Licenciatura, cumprindo um importante papel na preparação dos futuros professores de arte. A vivência de situações práticas, mediadas por profissionais experientes e submetidas à reflexão, assume importância cada vez maior na formação de professores. Tal perspectiva assenta-se na idéia de aprender pelo fazer, há muito preconizada por Dewey, que defendera a prioridade da experiência pessoal ativa nos processos educativos. As idéias de Dewey9 estão sendo retomadas por teóricos contemporâneos, entre eles Donald Schön, autor que tem oferecido importantes contribuições para o reconhecimento do potencial da aprendizagem pela prática também na formação docente.

Na perspectiva de Schön10, a aula prática assume um lugar especial na formação inicial de professores. Nesse ambiente especialmente projetado para provocar a aproximação dos futuros profissionais com o mundo prático, os estudantes aprendem fazendo11.

Sob supervisão dos docentes responsáveis pela disciplina "Metodologias do Ensino das Artes Visuais III com Estágios Supervisionados", os licenciados confrontam os saberes adquiridos ao longo da formação com os limites e possibilidades oferecidos pelas situações reais de ensino e aprendizagem e as características e necessidades apresentadas pelo grupo de participantes, aproximando-se, assim, do mundo prático a que se refere Schön.

Com a atuação no Ateliê, a escolha profissional e vocacional dos alunos ganha consistência, permitindo um preparo consciente para o início da vida profissional. Participar desse processo contribui para o aluno fazer escolhas, acompanhar o desenvolvimento de suas opções e assumir as conseqüências das mesmas.

A prática educativa partilhada aproxima o aluno da realidade do professor-artista-pesquisador, pois permite que veja como se dão os processos de criação didática e quais as necessidades de complementação teórica. Uma vez submetidas à reflexão, as dificuldades e soluções encontradas geram novos saberes e favorecem o desenvolvimento de práticas educativas críticas, fundamentadas na experiência e pautadas na invenção e investigação contínuas.

 

 

1. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes. Proposta pedagógica e estrutura curricular renovada adaptadas ao Programa de Formação de Professores da USP. São Paulo: USP, 2005, p. 16-17.         [ Links ]
2. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Pró-Reitoria de Graduação. Comissão Permanente de Licenciaturas. Programa de Formação de Professores - USP. São Paulo: USP, 2004, p. 5.         [ Links ]
3. Professoras do curso de Licenciatura: Profa. Dra. Maria Christina de Souza Lima Rizzi e Profa. Dra. Sumaya Mattar Moraes. Aluna pós-graduanda: Margarete Barbosa Nicolosi Soares. Alunos em fase de TCC: Ligia Carvalho e Ivan Chaer. Aluna bolsista da COSEAS: Juliana Correa. Funcionários: Raul Cecílio Menezes Junior e Solange dos Santos.
4. Os participantes da primeira turma foram: Isaque (08 anos), Larissa (09 anos), Carlos (11 anos), Carolina (09 anos), Liete (11 anos), Beatriz (06 anos), Luan (08 anos), Lucilla (13 anos), Arthur (09 anos), Vitor (10 anos), Claudia (10 anos), Letícia (11 anos) e Yasmine (12 anos).
5. Os recursos materiais para a realização do Ateliê de Artes para Crianças são oriundos da verba específica da Pró-Reitoria de Graduação para a implantação do Programa de Formação de Professores da Universidade de São Paulo (PFPUSP).
6. Contamos com a presença das professoras Christine Ballengee Morris e Vesta Daniel, da Universidade de Ohio (EUA), acompanhadas de Leda Guimarães, da Universidade Federal de Goiás, e dez alunos de pós-graduação.
7. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Op. cit., 2005, p. 2.
8. BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte: anos oitenta e novos tempos. São Paulo: Perspectiva, 1994.         [ Links ]
9. DEWEY, John. Experiência e educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971;         [ Links ] DEWEY, John. A arte como experiência. Rio de Janeiro: Abril Cultural, 1974. (Coleção Os pensadores).         [ Links ]
10. SCHÖN, Donald. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.         [ Links ]
11. Idem, p. 40.

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