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ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.6 no.11 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202008000100009 

 

Re-projetando (utrecht)1

 

 

Ricardo Basbaum

 

 

Nesta conversa, é importante tentar produzir um sentido para o projeto como um todo, já que os eventos de re-projetando (utrecht) já ocorreram. E a partir de agora também podemos contar com o diagrama do projeto, que nos ajudará nesta tarefa, uma vez que essa composição de imagens e palavras nos leva a criar a impressão de conexão entre os 9 eventos do projeto.

Gostaria de enfatizar que os eventos não foram planejados ou concebidos a partir da necessidade de que exista uma ligação direta, literal, entre eles: as escolhas que definiram cada um dos eventos e seus participantes foram feitas a partir de vários aspectos simultâneos, sendo que por todo o tempo houve a crença - e o investimento - de que certa modalidade de construção do evento tornaria possível que o grupo de propostas enfim funcionasse em conjunto. Assim, a ambição deste momento (conversa, mesa-redonda) é construir algum tipo de narrativa ou fluxo que possa, generosamente, constituir o roteiro de alguma trama interessante, isto é, séries de problematizações rítmicas que funcionem como a pulsação de re-projetando (utrecht) (em particular) e da série re-projetando (em geral).

Como pode ser visto a partir do diagrama, a série re-projetando se inicia com a projeção da forma específica NBP sobre o mapa da cidade - instrumento de auxílio para o encontro de 9 pontos, que correspondem ao diferentes locais em que os ângulos e o círculo central da forma tocam o mapa. Dando continuidade a esse gesto inicial - que combina acaso e controle - visitou-se cada um dos locais, fez-se alguma pesquisa, para finalmente então se chegar ao formato de cada um dos eventos.

Nesse ponto, a mediação de Casco - Office for Art, Theory and Design tornou-se clara: é uma característica, não apenas da série re-projetando, mas também de outros projetos que desenvolvo (Você gostaria de participar de uma experiência artística?, por exemplo), trazer para o primeiro plano, na construção do evento, certos tópicos das estruturas de fundo. É muito importante que essa mediação seja assumida como parte do projeto: com esse reconhecimento o projeto é imediatamente colocado em uma rede, aceitando funcionar ali. O aspecto colaborativo de re-projetando se insinua desde seu início - com o esforço coletivo de mediar os contatos que irão constituir os eventos.

É possível considerar re-projetando como uma dinâmica que aproxima o gesto artístico da atitude curatorial, no sentido de se penetrar nos vários estágios envolvidos na construção do evento - e isto é, de certo modo, correto: já trabalhei anteriormente (e tenho continuado) na zona de contato entre artista, crítico, agente e curador (posição que em certo momento denominei de "artista-etc"), tendo mesmo produzido uma "escultura curatorial" (no evento On Difference #2, Kunstverein Stuttgart, 2006). Mas, de fato, este gesto consiste aqui basicamente em ativar o dispositivo de produção de "sentido" característico do projeto NBP - provavelmente um de seus mais interessantes aspectos. Não que essa busca de sentido seja um tipo de acumulação de elementos que faça sua significância crescer mais e mais com o tempo; mas seu oposto: de projeto para projeto, há um esforço contínuo de apagamento de qualquer sobrecarga de sentidos fixos e cristalizados, procurando todo o tempo abrir a proposição novamente, tornando possível que continue e funcione outra vez, uma vez mais. Essa abertura para colaborações diversas e diferentes é o que faz re-projetando (e Você gostaria...?) aceitar e tornar benvindos outros participantes e gestos - certa oferta de espaço - como necessários para o desenvolvimento de seus próprios planos. Considero fascinante esse cuidado contínuo em evitar o excesso de sentidos fixos e estabelecidos e este talvez seja um dos principais aspectos com os quais identifico, hoje, minha pesquisa como artista.

É através desses espaços vazios que posso propor que se insinuem e deslizem por re-projetando alguns dos conceitos que tenho somado ao meu trabalho durante os últimos anos - de modo a ter certeza de que, dessa maneira, tais camadas discursivas não irão constranger ou asfixiar o que quer que tenha sido gerado ou qualquer um que esteja colaborando ou participando, para que se tenha então espaço para o acolhimento de propostas e áreas intersticiais (linha orgânica ou membrana) para a fluência de conceitos intermediários (conceitos-entre). Claro que estes constituem uma série especial de conceitos, que devem ser criados.

Quando inscrevo no diagrama termos como "dinâmica de grupo", "trauma", "contaminação subliminar", "micropercepção" e "repetição", estou tentando indicar a presença de alguns tópicos que têm sido importantes para a construção da espessura própria do projeto NBP (e sua forma) - e isso inevitavelmente flui através de seus vários momentos, especialmente, é claro, em re-projetando (utrecht).

É curioso perceber como cada um dos 9 projetos de re-projetando (utrecht) reverbera através do outro, influenciando mutuamente como os recebemos e nos relacionamos com eles. Apesar de que cada uma das situações poderia perfeitamente ser experimentada isolada das outras, também remete e é prontamente lançada para o próximo evento - e somos então carregados pelas linhas do diagrama e da forma NBP, adquirindo certa velocidade; e também produzindo algumas novas linhas... Daí que o convite para participar, colaborar, tomar parte é também uma forma de demanda para ouvir algo de você(s). Como ocorre agora.

 

re-projecting (utrecht)

 

re-projetando (esquema geral de operações)

1  A forma NBP é projetada sobre um mapa, configurando uma proposta de intervenção.

2  Os pontos em que os ângulos da forma NBP e seu círculo interno tocam o mapa são escolhidos como locais para ações, atividades, intervenções, palestras etc., relacionadas tanto a projetos de minha autoria quanto de convidados.

3  Os locais selecionados funcionam como espaços para o desenvolvimento de propostas que atuam como interfaces entre as práticas contemporâneas (em arte mas também em outros campos e disciplinas), as áreas públicas ou privadas e os indivíduos, grupos e comunidades que ali habitam ou trabalham.

4  Espera-se a produção de uma tensão, caracterizada como conversação, negociação e provocação recíprocas.

 

 

1 Texto originalmente preparado para mesa-redonda realizada em 26 de abril de 2008, como parte das atividades de re-projetando (utrecht) [re-projecting (utrecht)], evento realizado junto ao Casco - Office for Art, Theory and Design, sob curadoria de Emily Pethick, entre 04/2008 e 05/2008.

 

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