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ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.6 no.11 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202008000100018 

Construímos, mas esquecemos de edificar!

 

 

Marcos Martins

 

 

O ambiente construído, ao compor a paisagem da cidade, carrega consigo uma rede de significados que potencializa a inscrição do corpo no espaço público. Suas inserções se dão de forma simbólica através dos elementos que demarcam os espaços, transformando os lugares de passagem em lugares antropológicos1. Apresento aqui uma dessas experiências de 'habitar com o corpo' percebidas em minhas andanças com visadas que descrevem 'o espaço' pelos olhos do corpo - visadas que se fazem corpo através das formas construídas nas paisagens2.

Na Avenida Santos Dumont, cidade de Fortaleza3, uma imagem pontuou a paisagem externa que eu avistava da janela do ônibus - a presença de uma senhora que estava a habitar um dos abrigos de ônibus daquela movimentada avenida. A construção de sua espacialidade, no mobiliário, deu-se de forma lenta e processual, em três momentos: (1) pela demarcação do lugar com sua presença, (2) pelo comércio informal que ela exerceu logo após o processo de ocupação e (3) pelo jardim que ela edificou reciclando garrafas PET, latas e embalagens. Presenciei esses momentos com um olhar atento, de forma a enquadrar seu 'habitar com o corpo' como uma construção poética no espaço urbano.

Primeiramente ela inseriu sacolas sobre uma metade do banco de concreto do abrigo. Esses volumes continham suas roupas, apetrechos e objetos. Ficavam sobre o assento como uma forma de delimitação espacial, deixando a outra parte do banco para o uso dos transeuntes que por lá passavam. Em um segundo momento, com a colaboração dos moradores da região, ela passou a exercer o comércio informal de balas e doces no mobiliário. Por fim, num terceiro momento, ela construiu um jardim ao redor do mobiliário.

Ela criou, com sua ação e presença, uma corpografia4 de resistência à segregação imposta pelos desequilíbrios sociais, absorvendo com seu habitar uma memória urbana do contexto social da cidade e inscrevendo, no lugar de passagem do ponto de ônibus, a materialização gestual do seu desejo.

 

 

 

 

 

1 AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994.
2 Enquanto a paisagem é composta pelas formas construídas ou naturais, o espaço agrega a esse conceito as suas dinâmicas e funções sociais. Vide SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Edusp, 2008, p. 104.
3 Essa experiência foi vivenciada de 2002 a 2003.
4 A corpografia parte do pressuposto de que a experiência urbana fica inscrita no corpo de quem a experimenta, sendo a memória do corpo. Vide JACQUES, Paola Berenstein. Cenografias e corpografias urbanas: um diálogo sobre as relações entre corpo e cidade. Cadernos PPG-AU/FAUFBA, vol. 1, n. 1, Salvador, 2003, p. 79.

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