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ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.6 no.11 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202008000100022 

Enterrados vivos

 

 

Cesar Sartorelli

 

 

Ser enterrado vivo é um medo atávico de todos. Na nossa pouca relação com a cidade onde vivemos ignoramos o fato de que existem várias tumbas com mortos que foram enterrados vivos. Passamos todos os dias por elas.

Seria muito triste somente se não houvesse a possibilidade de ressuscitá-los.

Eu me dei conta um dia indo à feira e vendo que a calçada havia cedido num trecho da Rua Aimberê perto de casa (1). No buraco eu vi água, limpa e cristalina, correndo. A direção em que corria era a entrada de um terreno em declive. Fiquei curioso, fui na academia ao lado e nos fundos vi que havia árvores e plantas. (2)

De quem é o terreno? De ninguém, descobri.

Dei a volta e fui à Rua Caiowaá, paralela, e vi que ali havia a continuação desse terreno. Um estacionamento ocupa esse terreno. (3)

Perguntando aos mais antigos no bairro, onde estou só há 9 anos, descobri que são nascentes e riachos perdidos, porque enterrados. Nessa região indefinida de morros entre Sumaré, Pompéia e Perdizes existem muitos desses riachos enterrados vivos, nascentes que levam ao córrego Sumaré sob a avenida de mesmo nome. Um outro riacho perdido é passagem entre as ruas Ministro Gastão Mesquita e Vanderley (4 e 5) e continua como estacionamento de um trio elétrico.

Quando criança, morei no bairro da Penha em São Paulo e pulei pedras de riachos sujos, porém ainda com mata ciliar, em agonia. Hoje eles também foram enterrados vivos.

Esse manifesto é a primeira etapa de um trabalho de intervenção urbana que pretende recuperar a relação com as águas de São Paulo, objetivando desenterrar os riachos perdidos e criar espaços de convívio nos não-espaços sem dono, ou ocupados irregularmente, construídos sobre os túmulos de nossas nascentes.

Os espíritos das águas agradecerão a todos.

 

RIACHOS PERDIDOS

 

 

 

 

 

 

 

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