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ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.7 no.13 São Paulo jan./jun. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202009000100002 

Anamnésia e hipomnésia: Platão, primeiro pensador do proletariado

 

 

Bernard Stiegler

Bernard Stiegler, diretor do Instituto de Pesquisa e Inovação do Centre Georges Pompidou e professor na Université de Technologie de Compiègne, é filósofo e Doutor pela École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris. Foi diretor de programa do Collège International de Philosophie, diretor adjunto do Institut National de l'Audiovisuel (INA), diretor do IRCAM, e diretor do departamento de desenvolvimento cultural do Centre Georges Pompidou, Paris

Tradução de Maria Beatriz de Medeiros

 

 



Este texto trata da exteriorização da memória, isto é, da técnica como perda do saber. O processo de exteriorização (mnemotecnologias) se concretiza como história da gramatização, história técnica da memória, onde a memória hipomnésica relança a constituição de uma tensão de memória anamnésica. Como as questões filosóficas são questões de transindividuação, em termos de filosofia política, tratase de descrever e de criticar os processos concretos de transindividuação e pensar as hypomnémata digitais e as novas formas de otium que podem aparecer e fundar uma nova economia política da memória e do desejo.

palavraschave: memória; anamnésia; hipomnésia; Platão; Marx


This text deals with the exteriorization of memory, that is, of technique as loss of knowledge. The process of exteriorization (mnemotechnology) concretizes itself as history of grammatization, technical history of memory, in which hipomnesic memory reinstitutes the constitution of an anamnestic memory tension. Since the philosophical questions as transindividuation questions, in terms of political philosophy, it deals with describing and criticizing the concrete processes of transindividuation and thinking the digital hypomnémata and the new ways of otium that may appear and found a new political economy of memory and desire.

keywords: memory; anamnestic; hipomnesic; Plato; Marx


 

 

A exteriorização da memória como perda do saber

Todos nós já tivemos a experiência da perda de um objeto portador de memória - pedaço de papel, livro anotado, agenda, relíquia, fetiche etc. Descobrimos, então, que uma parte de nós mesmos (como nossa memória) está fora de nós. Essa memória material, que Hegel chama de "objetiva", é parcial. Mas ela constitui a parte mais preciosa da memória humana: nela se forma o conjunto das obras de espírito sob aspectos os mais variados.

Escrever um manuscrito é organizar o pensamento confiandoo ao fora, na forma de rastros (traces)1, isto é, de símbolos. Somente dessa forma ele se reflete, constituise realmente, tornandose repetível (Jacques Derrida diria iterável) e transmissível, transformandose, assim, em saber. Esculpir, pintar, desenhar é ir ao encontro da tangibilidade do visível, é ver com as mãos dando a ver, ao mesmo tempo, rever; é formar o olho daqueles que olham e, assim, esculpir, pintar e desenhar esse olho; o transformar. Esse é também o sentido do que Joseph Beuys chama de escultura social.

A memória humana é originalmente exteriorizada, e isso significa que ela é, antes de qualquer coisa, técnica. Ela se formou, primeiramente, há dois mil anos, como instrumento lítico. Suporte da memória espontânea, o instrumento lítico não é, no entanto, feito para guardar a memória: sem dúvida, somente após o paleolítico superior é que surgem as mnemotécnicas propriamente ditas. São os mitogramas da sociedade mágica, dos quais o churinga da Austrália é um testemunho recente, assim como as tatuagens no corpo do feiticeiro, o quipo (cordelette à noeuds) dos incas. Na origem dos primeiros textos, as escrituras, que só aparecem depois do neolítico, resultam no alfabeto, que ainda hoje organiza a agenda dos empresários. Porém, esse objeto calendário é, atualmente, um aparelho: o computador de bolso. E passase, assim, das mnemotécnicas às mnemotecnologias.

Originalmente objetivada e exteriorizada, a memória que não para de crescer tecnicamente e de estender o saber dos homens e seu poder, ao mesmo tempo lhes escapa e os ultrapassa, questionando suas organizações psíquicas e sociais. Esse processo se torna particular-mente sensível com a passagem das mnemotécnicas às mnemotecnologias. Mas isso também ocorreu na antiguidade grega e depois com a imprensa.

Hoje, a memória se tornou o elemento maior do desenvolvimento industrial e tecnológico, e os objetos cotidianos são cada vez mais suportes de memória objetiva, quer dizer, também de saberes. Ora, esses saberes tecnológicos, objetivados na forma de aparelhos, geram, sobretudo, uma perda de saber, no momento mesmo em que se fala em "sociedades de saber", em "indústrias do conhecimento" e em capitalismo cognitivo ou cultural.

Estamos, permanentemente, ligados a aparelhos mnemotecnológicos os mais variados: da televisão ao telefone, passando pelo computador e a direção com GPS. Ora, essas tecnologias cognitivas, às quais confiamos uma parte cada vez mais importante de nossa memória, nos fazem também perder, cada vez mais, saber.

Perder um telefone celular é perder o rastro (trace) de números de contatos e perceber que eles não mais estão na nossa própria memória, mas no aparelho. E é preciso aqui perguntar se o desenvolvimento industrial e massivo das mnemotecnologias não constitui uma perda estrutural da memória, ou, mais precisamente, um deslocamento dessa memória: um deslocamento pelo qual ela pode se tornar um objeto de controle de saberes e constituir a base essencialmente mnemotecnológica dessas sociedades de controle, que Gilles Deleuze começou a teorizar, no fim da sua vida.

Essa hipótese se fundamenta em uma antiga questão da filosofia exposta por Platão, como hipomnésia, e que Michel Foucault2 reativa, no final de sua vida, como questão das hypomnémata.

Nós exteriorizamos na aparelhagem mnemotecnológica contemporânea, cada vez mais, funções cognitivas, e perdemos correlativamente, cada vez mais, saberes que se encontram delegados aos aparelhos e aos serviços que os agenciam, os controlam, os formalizam, os modelam, mas talvez nos destruam, pois esses saberes, que nos escapam, parecem induzir a uma obsolescência do homem que se encontra cada vez mais desarmado e como que esvaziado do seu interior.

Assim, quanto mais se aperfeiçoam os automóveis, menos sabemos dirigir. O sistema GPS, ajudando hoje o motorista na sua condução, substituí-lo-á amanhã inteiramente. O GPS teleguiará o veículo por um sistema de direção automática. Logo, à medida que o sistema, que formaliza nossos esquemas sensóriomotores, automatizase inversamente o perdemos.

Quanto mais confiamos séries de pequenas tarefas, que formam a trama de nossa existência, aos aparelhos e aos serviços da indústria moderna, mais nos tornamos vãos, mais perdemos nosso saberfazer (savoirfaire), nosso saberviver (savoirvivre) e, com eles, os sabores da existência. Somos apenas bons para consumir, cegamente, sem os sabores que somente os saberes fornecem, como que impotentes. Tornamonos incapazes, senão obsoletos, se for verdade que é o saber que nos dá a potência de sermos humanos.

As economias existentes, que necessitam dessas tecnologias, onde os comportamentos são formalizados e gerados, são características de uma época hiperindustrial que reatualiza singularmente a análise platoniciana da hipomnésia, pois, se for verdade que a industrialização em geral é a generalização de uma reprodutibilidade mnemotecnológica dos comportamentos motores dos produtores, a hiperindustrialização é a generalização de uma reprodutibilidade mnemotecnológica de comportamentos motores dos consumidores.

Como o produtor, cujo gesto é reproduzido e cujo saberfazer (savoirfaire) passa pela máquina, despojandoo de seu valorsaber (valeursavoir), deixandolhe apenas sua força de trabalho quase animal - o que faz dele o que se chama de proletário -, o consumidor é roubado de seu saberviver (savoirvivre) encontrandose, simultaneamente, desindividuado: ele é apenas um poder de compra, um consumo cego que destrói o mundo cegamente.

Jacques Derrida, em A farmácia de Platão3, constrói a maioria de seu empreendimento de desconstrução da metafísica a partir de uma leitura de Fedro, mostrando como esse diálogo opõe à hipomnésia sofística uma anamnésia filosófica, lá onde é impossível, segundo o que Derrida descreve em De la grammatologie4 como uma lógica deste suplemento, que é o rastro (trace), opor o interior a exterior: é impossível opor memória viva à memória morta, que é a hypomnematon, que constitui a memória viva como sábia. Onde a metafísica instala oposições estáticas, é preciso rearticular composições dinâmicas: é preciso pensar processualmente, e Derrida chama esse processo de "diferensa"5.

Portanto, o que Sócrates descreve em Fedro, qual seja, que a exteriorização da memória é uma perda de memória e de saber, é o que experimentamos hoje, no cotidiano, em todos os aspectos de nossa existência e cada vez mais no sentimento de impotência, senão de incapacidade - no momento mesmo em que a extraordinária potência mnésica das redes digitais nos torna igualmente sensíveis à imensidão da memória humana, que parece ter se tornado reativável e acessível, infinitamente.

Esse aparente paradoxo significa que a hipomnésia é uma questão política e objeto de combate: um combate por uma política da memória, mais precisamente, pela constituição de meios hipomnésicos duráveis. A exteriorização da memória e dos saberes, quando atinge o estágio hiperindustrial, é ao mesmo tempo o que estende o seu poder sem limite e o que permite o seu controle: controle pelas indústrias cognitivas e culturais das sociedades de controle que formalizam a atividade neuroquímica e as sequências de nucleotídeos, e que inscrevem, dessa forma, os substratos neurobiológicos da memória e dos saberes na história do que é preciso analisar como um processo de gramatização, onde as biotecnologias são o estágio mais recente e as nanotecnologias a etapa seguinte, instalando plenamente a questão de uma biopolítica, uma psicopolítica, uma sociopolítica e uma tecnopolítica da memória.

 

A gramatização como "história do suplemento"

Não existe interioridade que preceda a exteriorização, muito pelo contrário: a exteriorização constitui o interior como tal, isto é, distingue-o e o configura, no sentido que Leroi-Gourhan descreve como sendo um processo de exteriorização, no qual essa distinção configurante, que não para de se deslocar, aciona novas relações entre os indivíduos psíquicos e indivíduos coletivos; novos processos de formação de indivíduos psíquicos e sociais; novos processos de individuação psíquica e coletiva6.

Quando aparecem as mnemotecnologias, o processo de exteriorização, que é o devir técnico, concretizase como história da gramatização. O processo de gramatização é a história técnica da memória, onde a memória hipomnésica relança, a cada vez, a constituição de uma tensão de memória anamnésica. Essa tensão anamnésica se exterioriza como obras de espírito, onde se configuram as épocas de individuação psicossocial: a gramatização é o processo pelo qual os fluxos e as continuidades, que tecem as existências, são "discretizados" (tornados discretos). A escritura, como "discretização" do fluxo da palavra, é um estágio da gramatização. Ora, com a revolução industrial, o processo de gramatização ultrapassa repentinamente a esfera da linguagem, isto é, também do logos, e investe a esfera do corpo. Primeiro ela "discretiza" os gestos dos produtores visando sua reprodução automatizada, e, ao mesmo tempo, aparecem as reprodutibilidades maquínicas e aparelhadas do visível e do audível, que tanto espantam Walter Benjamin.

Essa gramatização do gesto - que é a base do que Marx descreve como proletarização, ou seja, como perda de saberfazer (savoirfaire), que continua com os aparelhos eletrônicos e digitais, como gramatização de todas as formas de saberes, na forma de mnemotecnologias cognitivas, onde os saberes linguísticos se tornam tecnologias e indústrias do tratamento automático das línguas, assim também o saberviver (savoirvivre), isto é, os comportamentos em geral, do userprofiling7 à gramatização dos afectos - é o que conduz ao capitalismo cognitivo das economias hiperindustriais de serviços.

A gramatização é a história da exteriorização da memória em todas as suas formas: memória nervosa e cerebral, memória corporal e muscular, memória biogenética. Assim exteriorizada, a memória pode ser objeto de controle sociopolítico e biopolítico, através de investimentos econômicos de organizações sociais que reagenciam assim as organizações psíquicas por intermédio dos órgãos mnemotécnicos. O número desses órgãos pode ser contado pelo número de "máquinasinstrumentos" e todos os autômatos, aí compreendidos os eletrodomésticos (Adam Smith analisou, já em 1776, os efeitos da máquina sobre o espírito do trabalhador).

É por isso que o pensamento da gramatização pede uma organologia geral, isto é, uma teoria da articulação dos órgãos e senti-dos corporais (cérebro, mãos, olhos, tato, língua, órgãos genitais, vísceras, sistema neurovegetativo etc.), dos órgãos artificiais (suportes técnicos da gramatização) e dos órgãos sociais (grupos humanos familiais, clânicos, étnicos, instituições e sociedades políticas, empresas e organizações econômicas, organizações internacionais e sistemas sociais em geral, mais ou menos desterritorializados - jurídicos, linguísticos, religiosos, políticos, fiscais, econômicos etc.).

Se reabrirmos a questão de Fedro, na época hiperindustrial do objeto hipomnésico mnemotecnológico, e do ponto de vista de uma organologia geral (fundando uma organologia política, uma organologia econômica e uma organologia estética), descobrimos que a hipomnésia constitui a primeira versão de um pensamento da proletarização. Isso, se for verdade que o proletariado é ator econômico sem saber, pois sem memória: sua memória foi passada para dentro da máquina reprodutora dos gestos. Gestos que esse proletariado não necessita mais saber fazer. Ele deve simplesmente servir, tornandose novamente um servo.

Examinar a memória técnica, hoje, é reabrir o estudo da hipomnésia como questão do proletariado e como processo de gramatização, em que o consumidor é doravante lesado em sua memória e em seus saberes: é estudar o estágio da proletarização generalizada induzida pela generalização das tecnologias hipomnésicas.

A verdade de Platão estaria, nesse aspecto, em Marx. Mas isto com a condição de tirar duas conclusões suplementares:

Σ 1. Marx não pensou o caráter hipomnésico da técnica e da existência humana, o que o fez não pensar a vida humana como "exsistência"8.

2. A luta inaugural da filosofia contra a sofística, em torno da memória e de sua tecnização, está no coração da luta política, que é a própria filosofia; e a reavaliação da importância da hipomnésia em Platão, assim como aquela da desconstrução que propõe Derrida, que deve constituir a base de um projeto político renovado da filosofia onde a técnica se torna o tema central.

 

A filosofia como reação ao estágio ortotético da gramatização

Se for verdade que a filosofia começa com Platão, ela se concretiza em seu combate contra a sofística em torno da questão da memória como mnemotécnica (hipomnésia, mas também retórica e tecnologias da linguagem baseadas na logografia). A questão primeira da filosofia é a memória, isto é, a episteme, concebida como anamnésia. E é a época da gramatização que provoca essa questão filosófica: a filosofia se constitui como afirmação da anamnésia como reação contra a prática sofística da hipomnésia, que é a escritura, definida como tecnização da memória linguística e, como tal, como falso saber (Gorgias), a técnica sendo em geral apreendida pela filosofia platoniciana como um pseudosaber do devir, isto é, do contingente, do sensível e do acidental, o verdadeiro saber sendo colocado como saber do necessário, ou seja, das essências inteligíveis do ser, enquanto imutável.

A gramatização é impensável no quadro dos pares constituídos por Platão, na base da oposição entre anamnésia e hipomnésia, que o conduz a opor: o ser e o devir, a alma e o corpo; o inteligível pensado a partir da imortalidade dessa alma e o sensível como mortalidade do corpo, que é também o lugar das paixões e a armadilha da queda. Tudo isso alicerçado pela oposição do logos e da teckné.

Opor memória psíquica viva e memória técnica morta é induzir toda essa série. Inversamente, repensar a memória como processo de gramatização, onde a memória viva e a memória morta compõem permanentemente, é tentar sair dessas oposições. Pensar a memória hoje, como nova questão política que constitui a técnica, é esboçar esse passo à frente.

A questão da filosofia é a do amor ao saber. Ora, esse amor ao saber constitui a prova de um amor perdido. Esse saber perdido faz do saber um objeto do desejo, do philein, assim como do Eros. E todo objeto do desejo é um objeto já perdido: ele só é desejado na medida em que ele faz falta (fait défaut). Esse saber foi perdido pela memória: a memória aparece, pela primeira vez, na filosofia de Platão, em Mênon. É aí que o saber é definido como reminiscência, como relembrança (ressouvenir) e como corpo técnico, a queda mesma. Em Mênon, a relembrança é o fruto da dialética, ela mesma atividade do pensamento, à qual Fedro opõe os artifícios da hipomnésia que aí afloram. Em Fedro, que retoma com o mito da alma alada, o tema que Mênon recusou, com o mito de Perséfone, aprendemos que se trata de um saber que foi esquecido por causa da queda.

A questão amorosa da filosofia é a de um esquecimento tal que há uma anamnésia a ser completada, mas que é preciso distinguir da hipomnésia dos sofistas: a memória da verdade (da idéia) foi original-mente perdida. Existe, na origem, uma falta de origem. Mas essa origem não é a origem verdadeira, ela é apenas aquilo que Platão definiu como uma queda, prefigurando nisso a versão monoteísta da falta de memória como desobediência e falta, isto é, como pecado original.

A queda faz a alma cair na técnica que a aprisiona no corpo, e como paixão que desencadeia a memória artificial pela qual os sofistas produzem o pithanon, a persuasão e as falsas crenças, esquema que se repetirá em Rousseau: a hipomnésia é a técnica em geral oposta à anamnésia, como a alma é oposta ao corpo, e é isto que constitui a cena de Georgia. Nesse diálogo, a filosofia se define contra os sofistas que pretendem tudo saber pela técnica (como polymathes), como amor de um saber perdido que exprime o irredutível não saber de Sócrates - e é isto que a dogmatização do socratismo, para Platão, tenderá progressivamente apagar.

Ora, o que constitui a questão filosófica, o objeto de seu desejo o saber, episteme, ou a verdade, aletheia - é precisamente o desejo (philein, philia, elo social na individuação, chamado justiça, Um que constitui o Ser etc.). Mas tal como este desejo é constituído pela sua tecnicidade, enquanto tecnicidade, onde a questão sofística dá problema na Atenas do século V, é recalcada pela filosofia. É esse o nó problemático que traduz a oposição entre anamnésia e hipomnésia, e é isso que constitui a filosofia como metafísica que se trata de desconstruir nesse aspecto.

 

A memória humana é epifilogenética

À queda, logo o erro, o pecado original que, para Platão, significa a falta (le défaut) de origem que precederia uma origem plena, uma interioridade, uma alma imortal, enfim, à oposição platoniciana de anamnésia e hipomnésia, a arqueologia e a paleontologia humanas permitem responder com uma teoria da memória, onde parece que a tecnicidade é o que constitui a vida como "exsistência", isto é, como desejo e como saber. E é isso que permite caracterizar a hominização pelo aparecimento de uma memória epifilogenética.

O Zinjantropo, descoberto em 1959, é um australopiteco datado de 1,75 milhões de anos, cujos antecedentes bipedóides, os mais antigos, seriam de 3,6 milhões de anos. Ele pesa cerca de 30 quilos. É um verdadeiro bípede que tem uma reentrância occipital exatamente na perpendicular do alto do crânio. Assim, ele possui os membros anteriores da motricidade liberados: eles são essencialmente dedicados à fabricação e à expressão, quer dizer, à exteriorização. Seu esqueleto foi encontrado, com seus instrumentos, na garganta de Olduvai.

LeroiGourhan, partindo desses fatos, mostra que o que faz a humanidade do homem e constitui uma ruptura na história da vida é o processo de exteriorização técnica do ser vivo. O que caracterizava, até então, o ser vivo, a saber, as condições de predação e de defesa, passa para fora dele: a luta pela vida, ou melhor, pela existência, não pode mais estar encurralada pela cena darwiniana. O homem leva essa luta, que poderíamos chamar também de espiritual, por órgãos não biológicos, isto é, por órgãos artificiais, que consistem as técnicas. Mas essa vida não é mais uma simples "biologia", em que é uma existência, é uma economia técnica do desejo sustentada por meios técnicos hipomnésicos que são também simbólicos9.

LeroiGourhan mostra que a técnica é um vetor de memória. Do australopiteco ao homem de Neandertal, produzse a diferenciação biológica do córtex cerebral que se chama abertura leque cortical. Mas, a partir deste último, o sistema cortical praticamente não evolui mais: seu equipamento neuronal é bastante parecido com o nosso. Ora, do homem de Neandertal até nós, a técnica evoluiu de maneira extraordinária, e isso significa que a evolução técnica não depende da evolução biológica. O espaço de diferenciação técnica se produz fora da dimensão biológica e independente dela, fora desse "meio interior" no qual reinam, para Claude Bernard, os elementos constitutivos do organismo. O processo de exteriorização é, nisto, o processo de constituição de uma terceira camada de memória.

Desde o neodarwinismo, fruto da biologia molecular, e segundo os trabalhos de Weismann, admitese que os seres vivos sexuados são constituídos por duas memórias: a memória da espécie, ou genoma, que Weismann nomeou gérmen, e a memória do indivíduo, dita somática, que conserva o sistema nervoso central onde se deposita a memória da experiência. Isso existe desde os moluscos do lago de Léman, que Piaget estudou, até os chimpanzés, passando pelos insetos e pelos vertebrados.

O homem tem acesso a uma terceira memória que é apoiada e constituída pela técnica. Um sílex talhado se forma na matéria inorgânica organizada por essa talha: o gesto técnico engrama uma organização que se transmite via o inorgânico, abrindo pela primeira vez, na história da vida, a possibilidade de transmitir saberes adquiridos individualmente, mas por uma via não biológica. Essa memória técnica é epifilogenética; ela é ao mesmo tempo o produto da experiência individual epigenética e o suporte filogenético da acumulação de saberes, constituindo o phylum cultural intergeracional.

O escravo Mênon traça na areia a figura de um objeto geométrico, pois seu saber procede dessa exterioridade primordial da memória. Para pensar seu objeto, ele deve exteriorizálo, organizando a inorganicidade da areia que se torna, assim, superfície plástica, podendo receber e conservar uma inscrição, o espaço e o suporte de projeção de um conceito geométrico. Por mais efêmero que ele seja, o desenho na areia pode conservar uma característica de um elemento da figura por mais tempo que o espírito do escravo, pois seu espírito é essencialmente móvel: seus pensamentos não param de passar e de se apagar. Ele é retencionalmente finito. Sua memória fracassa sem cessar, sua atenção está sempre sendo retirada de seus objetos para novos objetos e ele tem dificuldade de "intencionar" o objeto geométrico, de visualizálo em sua identidade orgânica, sua necessidade, sua essência íntima: seu idos.

O desenho, como memória hipomnésica, é indispensável a esse filósofo em potencial, que é o escravo e sua iniciativa, isto é, sua anamnésia. O desenho constitui uma bengala da razão, um espaço de intuição inteiramente produzido por gestos que o escravo traça na areia, à medida que se dá seu raciocínio, os efeitos figurados desse raciocínio a areia guardando como resultado a intuição e a compreensão que o escravo tem a partir "dos olhos", e sobre os quais eles podem prolongar e construir o raciocínio geométrico10.

É isso o que a oposição platoniciana entre o inteligível e o sensível, isto é, entre o logos e a tekhné, tornará literalmente impensável nos diálogos que seguirão Mênon - e é assim que se formará a metafísica como denegação da técnica original da memória.

 

O cerne da questão filosófica da memória é a transindividuação

As questões filosóficas são todas questões de transindividuação. A transindividuação é o resultado do processo de coindividuação dos indivíduos psíquicos, no indivíduo coletivo, que os reúne como grupo humano. Processo que não para de colocar e de individuar a questão do Um e do Múltiplo11. A individuação é, pois, uma operação de memorização psíquica e coletiva onde a transindividuação é a metaestabilização de significações. E, nisto, a transindividuação é o que, através dos indivíduos psíquicos, individua coletivamente fundos préindividuais, eles mesmos constituídos e sustentados pelas formas hipomnésicas12.

Coloquemos que o indivíduo psíquico é um eu, e que o indivíduo coletivo é um nós. O eu só pode ser pensado como pertencente a um nós. Ele se constitui adotando uma história coletiva que herda e na qual se reconhece uma pluralidade de eu. Essa herança é uma adoção no sentido que eu posso, perfeitamente, como neto de um imigrante alemão, reconhecerme em um passado que não foi aquele de meus ancestrais, e que eu posso, no entanto, tornar meu como francês ou como americano. Esse processo de adoção estruturalmente artificial é uma memória intrinsecamente artificial13.

Essa artificialidade, que é um falta original (défaut d"origine), é também o que abre o jogo do eu, enquanto essencialmente processo, e não um estado. Esse processo é uma in-dividuação enquanto tendência a tornarse um, isto é, indivisível, mas essa tendência não se realiza nunca (é isso que Kant interroga em Paralogismes, na Crítica da razão pura) porque ela encontra, como sistema aberto, neguentrópico e dinâmico, uma contratendência com a qual ela forma um equilíbrio metaestável: um equilíbrio no limite do desequilíbrio em um meio mnésico préindividual onde o eu se coindividua no nós.

Isso só é possível porque esse nós é igualmente um tal processo. A individuação do eu é sempre processualmente inscrita na individuação do nós, enquanto, inversamente, a individuação do nós apenas se completa através daquelas, processualmente polêmicas, dos eu que o compõem. O que liga o eu e o nós, na individuação, é o meio préindividual segundo suas condições positivas de eficácia advindas de dispositivos retencionais pelos quais ele se forma como meio mnésico. Esses dispositivos retencionais são sustentados pelo meio técnico, que é a condição do encontro do eu e do nós. A individuação do eu e do nós é, nesse sentido, igualmente individuação de um sistema técnico (o que estranhamente Simondon não viu). O sistema técnico é um dispositivo que possui um papel específico (onde todo objeto está preso: um objeto técnico só existe agenciado, no seio de um tal dispositivo, a outros objetos técnicos: é o que Simondon chama de "conjunto técnico"). Assim, o fuzil, e mais geralmente, o devirtécnico com o qual ele faz sistema, é a possibilidade de constituição de uma sociedade disciplinar, segundo Foucault14.

O sistema técnico é o que sustenta a possibilidade de constituição de dispositivos retencionais que são resultantes do processo de gramatização: este desabrocha no seio do processo de individuação do sistema técnico. Os dispositivos retencionais dos meios mnésicos, que geram cada novo estágio da gramatização, são o que condiciona os agenciamentos entre a individuação do eu e a individuação do nós, em um mesmo processo de individuação psíquica, coletiva e técnica (isto é, mnésica, onde a gramatização é um subsistema da técnica); um processo que comporta três ramificações, e cada ramo se divide, ele mesmo, em subconjuntos processuais (por exemplo, o sistema técnico, em se individuando, individua também os sistemas mnemotécnicos ou mnemotecnológicos onde bifurcam os estágios da gramatização etc.)15.

Antes mesmo da filosofia (chegada tardiamente), a questão dos primeiros pensadores présocráticos (simultaneamente geômetras, fisiólogos, poetas e legisladores - nomotetas) é a que articula o Múltiplo, que constitui a massa de cidadãos, vários eu, ao Um - que ele se chame água (Thales) ou ser (Parmênides) - que funda o nós, até seu mais vasto horizonte, como universal. A questão política que se forma, assim, é a das condições da metaestabilização das leis jurídicas, mas também epistêmicas, enquanto horizonte comum, isto é, transindividual das significações vindas da individuação psicossocial, que os filósofos pensam como eidè, idealidades.

O começo do pensamento présocrático é o aparecimento do pensamento do Um e do Múltiplo, no momento em que a gramatização, que conduziu à alfabetização, abre a krisis da qual surge esse novo processo de individuação psíquica e coletiva, que é a polis - que substitui a sociedade basílica do "padrerei". De Thales a Platão, essa krisis inaugura a era do pensamento crítico, isto é, também político, como processo de individuação psicossocial: processo onde o cidadão se distingue do grupo como estruturalmente inacabado e em devir, precisamente por essa distinção onde ele se destaca como singularidade de direito.

Esse pensamento políticofilosófico do Um e do Múltiplo é o da transindividuação como tal - a partir de Platão que funda assim a metafísica, como mnémè, atravessada pela tekhné, isto é, ao mesmo tempo, como anamnésia e hipomnésia. A questão filosófica - passando pela krisis sofística, e saindo assim da época présocrática - é então saber em quais condições é possível transindividuar na artificialidade. E a transindividuação é a questão do espírito tal como ele se tornará princípio da unidade do monoteísmo cristão. Quando o Um se torna o Ser, esse se divide em regiões que constituem disciplinas: os saberes fundados nas "ontologias regionais", para falar como Husserl16.

Eles definem o que se transindividua entre o psíquico e o coletivo e a legalidade dessa transindividuação, segundo os regimes de individuação que formam também paridades (dos coletivos de pensamento e dos nós transcendentais, sempre para falar como Husserl).

As ontologias regionais são, conforme as regras, fundamentais da transindividuação que define a ontologia formal da lógica e/ ou da metafísica, e esta é, por sua vez, como "metatransindividuação", a que resulta da individuação filosófica.

As operações tramam a história da metafísica tal como ela foi, diferentemente, desconstruída desde Marx até o pensamento da gramatologia, passando por Freud. Mas, além dessa desconstrução e aquém (como na era présocrática), a questão da individuação permanece primeira, e a da transindividuação na tensão anamnésica do Um do Múltiplo permanece o objeto da filosofia propriamente dita17. É por isso que a filosofia não terminou.

 

A transindividuação como retenção

A transindividuação como atividade da memória, sendo psicossocial, mostra que toda memória é uma questão de seleção e, inversamente, que toda seleção é uma questão de memória. Quando eu seleciono (por exemplo, quando eu falo ou eu calo o que não falo), eu constituo uma memória, quer dizer que eu transindividuo ou eu participo de um processo de transindividuação.

Pensar essa seleção necessita passar pela fenomenologia husserliana do objeto temporal (Zeitobjekt) e da crítica por onde parece que a transindividuação, onde o psíquico e o coletivo se conjugam, acontece nas condições organológicas de retenções terciárias formadas pelos suportes hipomnésicos dos meios préindividuais. A epifilogênese é o processo de produção dessas retenções terciárias hipomnésicas, comportando as retenções primárias e secundárias definidas por Husserl, e que formam a trama da vida anamnésica.

A retenção primária, assim como sua distinção da retenção secundária, é a que Husserl retira de uma análise fenomenológica da melodia. No agora de uma melodia, isto é, no momento presente de um objeto musical que transcorre, a nota presente somente pode ser uma nota, e não um som, na medida em que ela retém nela a nota precedente, que permanece presente, nota precedente ainda presente que retém nela, por sua vez, aquela que a precede etc. E é preciso não confundir essa retenção primária, que pertence ao presente da percepção, com a retenção secundária, que é a melodia que eu escutei, por exemplo, ontem, e que eu posso reescutar na imaginação pelo jogo da lembrança, e que constitui o passado de minha consciência. É preciso não confundir, diz Husserl, percepção (retenção primária) e imaginação (retenção secundária).

Mas existe uma terceira espécie de retenção, e ela é hipomnésica. Antes da invenção do fonógrafo, era absolutamente impossível escutar, duas vezes seguidas, a mesma melodia. Ora, desde a aparição do fonograma, que é um caso de retenção terciária, e um estado da gramatização, isto é, uma época do suplemento, a repetição idêntica de um mesmo objeto temporal se tornou possível, o que permite, aliás, melhor compreender os processos retencionais. E o que aparece como resultado é:

  • Quando o mesmo objeto temporal acontece duas vezes seguidas, ele gera dois fenômenos temporais diferentes, o que quer dizer que as retenções primárias variam de um fenômeno para outro: as retenções da primeira audição, tornadas secundárias, atuam na seleção das retenções primárias da segunda audição. Isso é verdade, em geral, mas a retenção terciária, que é o fonograma, torna-a evidente. A repetição hipomnésica produz uma diferença.

  • Por outro lado, os objetos temporais terceirizados (fonograma, filmes, emissões radiofônicas e televisivas), gravados ou teletransmitidos, e nisto controlados, são o tempo materializado que sobredetermina as relações entre retenções primárias e secundárias em geral e permitem, assim, controlálas. A diferença tanto pode ser intensificada pela repetição terciária quanto anulada por ela: a repetição pode gerar indiferença.

O jogo das retenções primárias e secundárias, anamnésico, sendo o de uma seleção, mas uma seleção tal que ela é determinada pelas retenções terciárias hipomnésicas, é o que constitui a realidade concreta de toda operação de transindividuação18. E o pensamento da retenção terciária, uma história do suplemento como gramatização, advém da organologia geral onde a história do suplemento só é pensável em sua tripla dimensão fisiológica, técnica e social19.

Em termos de filosofia política, tratase de descrever e de criticar (de discernir, krinein) os processos concretos de transindividuação. Por exemplo, o jurídico é um processo concreto de transindividuação - concreto significando que ele pertence a uma época da gramatização que o determina. Produzir uma lei é transindividuar ao pé da letra - e o início recente de gravações da imagem sonora em movimento, em processos judiciários, coloca novas questões sobre a transindividuação jurídica.

Esta transindividuação se faz segundo leis constitucionais, no sentido filosófico, isto é, leis constituídas por uma lógica transcendental. E a filosofia política consiste em descrever as legalidades que permitem a transindividuação do jurídico, a partir desta constituição que condiciona também as matemáticas etc. Ora, levar em consideração a hipomnésia na formação da anamnésia torna impossível e caduca a compreensão transcendental, isto é, a priori, da constituição. E não é por simples coincidência que a filosofia, como "rainha das ciências", entre em crise no momento em que novos estados da gramatização aparecem, e estes não mais somente aqueles da letra.

Em se tratando de filosofia política, importa saber quem se apropria e quem controla os processos de transindividuação denominados metatransindividuantes e que permitem controlar as metatransformações socioeconômicas e sociopolíticas, através das hipomnésias próprias a cada época da gramatização - as metatransindividuações sendo determinadas pelas características técnicas ou tecnológicas das retenções terciárias.

Dizendo de outra forma, o e da individuação psíquica e coletiva, onde se formam as condições de transindividuação, é a técnica - e é precisamente isto que a filosofia havia, até agora, excluído. É por isso que é preciso constituir um novo horizonte filosófico, onde a tecnicidade esteja no coração da transindividuação. Esse caminho, que passa pela desconstrução, não para aí: esta não é um impasse, mas a condição de que se faça uma história técnica do suplemento concebido como retenção terciária no processo de individuação de uma organologia geral20.

 

Capitalismo e gramatização do desejo

A memória trabalha, e seu trabalho, que se parece com o do luto, idealiza seus objetos. Esta idealização espontânea (entendida aqui no sentido freudiano) é uma condição da transindividuação. Mas, por outro lado, a transindividuação, como processo de produção de significações, supõe a ideação. Há ideação quando há linguagem, como mostram as Recherches logiques de Husserl21. Assim que aparece o logos, o trabalho da memória, como trabalho transindividual do espírito, passa da ideação à idealização pela elaboração conceitual entendida como anamnésia: é a dianoia como skholè, como mélétè, como otium. Mas não é possível opor a anamnésia à hipomnésia, e é por isso que Foucault22 pode mostrar que o otium é uma prática das hypomnémata.

No entanto, é preciso de novo analisar o discurso de Platão sobre as hypomnémata e a hipomnésia, como fatores de perda de saber. Do ponto de vista de uma história da gramatização, Fedro antecipa as questões que reaparecem em O Capital. São questões de uma economia política da memória. Fedro diz que a memória pode se proletarizar, que a l"hipomnésia, como exteriorização, é uma desindividuação, e que essa questão é política (então é a questão da sofística).

Hoje, o controle industrial da memória pelas hypomnémata, que são as mnemotecnologias, constitui uma perda de saberviver (savoirvivre), tanto quanto de saberfazer (savoirfaire), e uma perda de saberes teóricos (de transindividuação das idealidades). No estado atual da hegemonia que o capitalismo financeiro exerce sobre as tecnologias hipomnésicas, e das quais ele faz tecnologias de controle retencional, nós perdemos o poder de transindividuar.

Se individuar é individuar o grupo: é o transindividuar e se transindividuar. Reciprocamente, não acessar a transindividuação, perder o poder e o saber de transindividuar é se desindividuar - é arruinar a psique e a precipitar para a psicose.

Os gregos pensavam no interior de um processo de individuação psíquica e coletiva fundado na letra como retenção terciária ortotética: a transindividuação, aí, torna-se hegemonicamente literal no que os meios simbólicos, que são também mnésicos, são todos determinados pela hipomnésia alfabética que rege a cidadania.

A memória objetivada alfabética é ortotética (orthotès significa exatidão), uma vez que ela permite engramar sem ambiguidade uma significação linguística pelo princípio de uma decomposição (análise) e de uma recomposição (síntese) fonética. Interiorizada pelos locutores, ela gera uma nova relação com a língua e, consequentemente, um novo processo de transindividuação de significações: ela coloca o sentido à prova de uma nova "diferensa" (no sentido de Derrida).

A identificação textual dos enunciados, isto é, sua objetivação hipomnésica, gera uma intensificação de sua subjetivação: de sua individuação anamnésica. Mas, ao mesmo tempo, é o que salienta Platão, o controle hipomnésico da letra permite também a logografia, isto é, o conjunto de técnicas da linguagem que consiste em manipular a opinião pelo pithanon (a arte de persuadir) curtocircuitando a anamnésia, que é a transindividuação, e que Platão chama de dialética - que é, antes de tudo, um diálogo.

No século XIX, com os primeiros aparelhos de gravação analógicos, aparecem as engramagens ortotéticas mnemotecnológicas.

Os aparelhos mnemotecnológicos se tornam numéricos na segunda metade do século XX. As mnemotécnicas e as mnemotecnologias ortotéticas digitais permitem, simultaneamente, intensificar a individuação e, ao mesmo tempo, controlá-la no sentido de uma desindividuação. Assim, as formas da hypomnémata analógicas e digitais relançam as mais velhas questões da filosofia no contexto capitalista e mercadológico que a atividade mercantil dos sofistas sem dúvida prefigura, mas onde a dimensão industrial introduz novas questões, pois a indústria é um novo estado da gramatização.

A gramatização dos meios mnésicos e simbólicos, pelos aparelhos tecnológicos, produzse de fato, enquanto a "máquinainstrumento" desenvolve uma outra forma de ortotese pelo controle dos gestos, logo, do corpo. Onde as hipomnésias literais controlavam, desde a Antiguidade, as funções intelectivas do espírito, as hipomnésias audiovisuais controlarão suas funções sensitivas, a partir do século XX. As hipomnésias, no início da revolução industrial, controlavam reproduzindo a motricidade do gesto. A fotografia e o cinema participam desta gramatização do gesto. O controle do trabalho, pela organização científica do trabalho, que se apoia na gramatização é teorizada por Frederick W. Taylor, em Principles of scientific management23.O gesto gramatizado é um gesto terciário: sua reprodução maquínica intervém como retenção terciária na atividade motora de produção. Sempre existiu retenção terciária na atividade motora de produção. É o que faz aparecer o que se chama, para a préhistória, "tecnologia experimental" aplicada à reconstituição da talha dos sílex de Neandertal. Mas todo o management24, advindo da teoria tayloriana do trabalho, é um pensamento e um controle do gesto por um tipo de retenção terciária ortotética e maquínica, que constitui uma hipomnése do gesto pelo qual o trabalhador é transformado em proletário e privado de seus saberes.

Os aparelhos analógicos, e depois digitais, que se desenvolvem na linhagem do maquinismo industrial e das "máquinasinstrumentos", afetam não somente os modos de produção, mas também os modos de con-sumo. Acontece aí um novo estado de exteriorização de saberes e de hipomnésia, que constitui o processo de proletarização generalizada como perda de saberes. A gramatização literal é posta a serviço da concepção, a gramatização dos gestos a serviço da produção e a gramatização dos senti-dos a serviço do consumo. Esse capitalismo cognitivo e cultural constitui uma nova organização hipomnésica integrada, que permite o controle de todas as formas de movimento, isto é, de emoção e, aí, de inconsciente.

Os corpos, no processo de individuação - seja o corpo do produtor controlado pelo gesto ou o corpo do consumidor controlado pelos sentidos - aparecem quando se formam os pensamentos nietzscheano e freudiano do desejo e da pulsão, como fenômenos surgindo do inconsciente; significa que, no momento em que vivemos, o reaparecimento da anamnésia e da hipomnésia, como telecracia, e nas formas que tomaram uma dimensão industrial e tecnológica colossal e mundial, o cerne da questão que a sofística coloca à filosofia, à democracia, é uma reelaboração da questão do desejo, enquanto ele mesmo é constituído ou destituído hipomnesicamente e segundo estados de gramatização.

O processo de individuação é a economia do que, desde Freud, chamase de desejo: é a economia libidinal. Freud não soube articular um pensamento da hipomnésia em psicanálise, embora seu pensamento seja o da anamnésia, como mostrou tão bem Jean François Lyotard: uma anamnésia pensada a partir do narcisismo, do ideal do eu e da sublimação como poderes de transformação das pulsões animais e, em particular, da pulsão sexual, em um poder de individuação e de transformação espiritual do psiquismo e do coletivo, pela constituição de um processo de transindividuação, que Aristóteles chamou de philia, em outras palavras, amor.

A questão que nos é hoje colocada como política da memória é a de uma política do desejo, isto é, uma política do inconsciente. O inconsciente é o que articula corpos sobre retenções terciárias e suportes hipomnésicos, constituindo o corpo como poder técnico, isto é, como poder da imaginação, como potência do fantasma. Pensar hoje a questão da memória, tal como ela foi originalmente exteriorizada e per-mite, ao mesmo tempo, intensificar a individuação e produzir desindividuação por perda de saber e por proletarização, é reelaborar um pensamento hipomnésico e anamnésico da economia, em geral, dos saberes, na medida em que estes são formas da libido.

Em nossa época - tal é o caráter eminentemente estranho e inquietante do capitalismo contemporâneo -, os saberes são destruídos e, através deles, a libido também é destruída, por uma exteriorização, permitindo um controle e uma intensificação dos processos pulsionais, em detrimento da economia libidinal, isto é, da anamnésia: o capitalismo consumista, mimético, gregário e pulsional reativa as técnicas sofísticas a um ponto incomparavelmente mais potente e perigoso, sendo uma verdadeira gramatização do desejo, constituindo um limite para o qual, é evidente, que esse capitalismo caminha, para seu desmoronamento e para sua autodestruição, se nada acontecer para mudar esse estado de fato.

Procura-se, desde então, acionar programas de busca da econo-mia hipomnésica do desejo que permitem as mídias digitais. Estes são portadores de possibilidades anamnésicas, assim como hipomnésicas de individuação e de transindividuação totalmente inéditas. Tratase de pensar as hypomnémata digitais e as novas formas de otium que podem aí aparecer e fundar uma nova economia política da memória e do desejo.

 

 

1 N.T.: "A tradução de trace por "rastro" não vai sem problemas, pois o próprio Derrida reconhece a estranheza do uso feito por ele do termo francês. Aquele que, em português, parece ser um falso cognato de trace, "traço", não deve, no entanto, ser descartado desse tipo de pensamento. A despeito de traço corresponder normalmente a trait, já no próprio francês os dois termos trace (rastro) e trait (traço) se comunicam e Derrida tira proveito dessa relação. Outras traduções possíveis de trace seriam vestígio, impressão ou qualquer marca em geral". Cf. NASCIMENTO, Evando. Escrita e gramatologia. Disponível em: www.rubedo.psc.br| Artigos|©Evando Nascimento. Acesso em: 30 maio 2008.         [ Links ]
2 FOUCAULT, Michel. Dits et écrits II. Paris: Gallimard, 1994.         [ Links ]
3 DERRIDA, Jacques. A farmácia de Platão. São Paulo: Iluminuras, 1997.         [ Links ]
4 Idem. De la grammatologie. Paris: Minuit, 1967.         [ Links ]
5 N.T.: "Por natureza intraduzível em outra língua, différance fere o código ortográfico francês com a substituição proposital do e de différence por um a ..., que a rigor só é percebido visualmente na escrita .... Por esse motivo, creio ser injustificável a proposta de algumas traduções como "diferência", "diferância", "diferança" ou, bem melhor, "diferensa"... - différance marca o limite da possibilidade de toda tradução" (NASCIMENTO, Evando. Op. cit.).
6 SIMONDON, Gilbert. L"individuation psychique et collective. Paris: Aubier, 1969.         [ Links ]
7 N.T.: Em inglês no original.
8 N.T.: "L"homme est un étant eksistant, c"estàdire un existant qui est "d"intelligence" avec l"être, qui a une compréhension préontologique de l"être". Disponível em : www.larousse.fr/demo/ personnage/M/MartinHeidegger.htm.         [ Links ]
9 STIEGLER, Bernard. Mécréance et discrédit 3. L"esprit perdu du capitalisme. Paris: Galilée, 2006.         [ Links ]
10 STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. 3. Le temps du cinéma et la question du malêtre. Paris: Galilée, 2001.         [ Links ]
11 Referência a Jacques Garelli.
12 A posição de Simondon sobre este assunto é ambígua e hesitante (Cf. STIEGLER, Bernard. L"apolitique de Simondon. La Revue Philosophique, tomo 131, n.3, 2006. Disponível em: www.cairn.info/revueph ilosophique 20063325.htm;         [ Links ] e Idem. Nanomutações, hypomnéta, grammatisation. Revue Nanomutations. 2006. Disponível em: www.cairn.info/revueph ilosophique 20063325.htm.         [ Links ]
13 RENAN, Ernest. Qu"est ce qu"une nation? Paris: Presses Rocket, 1992.         [ Links ]
14 "Marx faz, por exemplo, ótimas análises do problema da disciplina no exército e nos ateliês. A análise que vou fazer da disciplina no exército não se encontra em Marx. O que aconteceu no exército a partir do século XVI e no começo do século XVII até, praticamente, o fim do século XVIII? Uma enorme transformação que fez que, no exército, até então constituído essencialmente de pequenas unidades de indivíduos relativamente intercambiáveis, organizados em torno de um chefe, essas unidades fossem substituídas por uma grande unidade piramidal, com uma série de chefes intermediários, suboficiais e técnicos. Isso, porque uma descoberta técnica havia acontecido: o fuzil relativamente rápido e ajustável" (FOUCAULT,Michel. Op. cit., p. 1006).
15 FOUCAULT, Michel. La technique et le temps 4. Symboles et diaboles, ou la guerre des esprits. Paris: Galilée, 2002.         [ Links ]
16 HUSSERL, Edmund. Recherches logiques. Paris: PUF, 1996.         [ Links ]
17 Descrever o que eu chamo, em Mécréance et discrédit 1. La décadence des démocraties industrielles, de regimes de consistência, é descrever regimes de transindividuação, onde o que permite transindividuar as existências são justa-mente as consistências (Cf. STIEGLER, Bernard. Mécréance et discrédit.1. La décadence des démocraties industrielles. Paris: Galilée, 2004).         [ Links ]
18 A anamnésia deve ser pensada desta forma, com o conceito aristotélico de ato, de energeia e de entelecheia: a partir de um par não oposicional do ato e da potência, onde a potência forma o préindividual, ultrapassando a oposição da forma e da matéria resultante de um esquema hilemórfico, como mostra Simondon.
19 Mostrei alhures como os três níveis organológicos se articulam com as três for-mas de retenções, e como as três sínteses da imaginação transcendental, que Kant estabelece na Crítica da razão pura, são constituídas por uma quarta síntese protética e a posteriori.
20 Nietzsche, pensador do rastro (trace) e da inscrição, na segunda dissertação da Généalogie de la morale, é o filósofo que introduz a questão da genealógica e nisto organológica da seleção. Freud faz disso a questão do inconsciente, o problema é que o pensamento freudiano não chega a pensar as retenções terciárias, logo, nem a técnica, o que o leva a uma fabulação neolamarkiana. Bergson, pelo privilégio que dá ao tempo, que ele opõe ao espaço, fabrica um par oposicional diferente daquele de Husserl. Este opõe a retenção primária às retenções secundárias, mas exclui as retenções terciárias pelo mesmo motivo, a saber, elas são espaciais e não temporais. Deleuze permanece preso ao par oposicional bergsoniano que ele opõe ao par oposicional husserliano. Desse ponto de vista, Deleuze é mais bergsoniano que nietzscheano. Os trabalhos de Bárbara Stiegler (Nietzsche et la critique de la chair. Paris: PUF, 2005) mostram que,         [ Links ] em Nietzsche, as relações entre apolíneo e dionisíaco já deixam de lado as questões de técnica e de indústria. Ao contrário, um pensamento como o de Bergson, que domina ainda Deleuze, não pode colocar a questão da técnica - como se vê, por exemplo, em Le diagramme. A partir daí, sua crítica das sociedades de controle é desesperada.
21 HUSSERL, Edmund. Op. cit.
22 FOUCAULT, Michel. L"écriture de soi. Dits et écrits. Paris: PUF, 1996.         [ Links ]
23 Várias edições, 1911.
24 N.T.: em inglês no original.

 

 

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