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ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.7 no.14 São Paulo  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202009000200005 

José Agrippino de Paula: artista POP tropicalista

 

Lucila Meirelles

 

 


Este texto trata do pensamento, da vida e da obra do artista pop tropicalista José Agrippino de Paula. Partindo de uma série de conversas com o artista, serão abordados seus eventos intermídia, seu cinema de invenção, os happenings, o realismo fantástico, e as vivências dos anos 1960 e 1970.
Este texto foi elaborado concomitantemente ao lançamento do CD/DVD Exu encruzilhadas , Selo SESC, disco contendo dez músicas inéditas de Agrippino, encontradas pelo cineasta Hermano Penna e um DVD com dois filmes realizados na África, em Super8, Candomblé no Togo e Candomblé no Dahomey.

Palavras-chave: pop tropicalismo; contracultura; cinema de invenção; intermídia


This paper deals with the thought, life and works of tropicalist pop artist José Agrippino de Paula. Based on a series of interviews with the artist, it approaches his intermidia events, his cinema of invention, his ,happenings, his fantastic realism and the experiences of the 60s and 70s.
This paper was prepared concomitantly with the release by Dual Disc Selo SESC of Exu Encruzilhadas, a multimedia CD containing not only ten previously unreleased song by Agrippino, found by filmmaker Hermano Penna, but also two of his Super8 films shot in África, Candomblé no Togo and Candomblé no Dahomey.

Keywords: pop tropicalism; counterculture; cinema of invention; intermidia


 

 

Não faça música, faça seu barulho.
José Agrippino de Paula

Fui apresentada para o artista José Agrppino de Paula em 1977 no ateliê do artista plástico José Roberto Aguilar. Em 1988, tornei-me guardiã e curadora das obras audiovisuais de José Agrippino e organizei a primeira mostra de seus trabalhos: Mostra JAP, que ocorreu simultaneamente no Museu da Imagem e do Som e na Galeria Fotóptica, em São Paulo. Além da exibição de todos os seus filmes ainda praticamente inéditos, foi lançada a segunda edição de seu livro Panamérica pela Max Limonad e também foi realizado um ciclo de palestras com a presença de Caetano Veloso, Maria Esther Stockler, José Celso Martinez Correa, Jorge Mautner, José Roberto Aguilar, entre outros. Para esse evento, dirigi um vídeo juntamente com o videomaker Walter Silveira e o editor Grima Grimaldi, chamado Sinfonia Panamérica, em que tive oportunidade de fazer várias entrevistas com Agrippino. Este texto é resultado dessas conversas mantidas com o artista durante a gravação e que trago à baila por ocasião do lançamento do CD/ DVC Exu encruzilhadas.

Foi Hermano Penna, cineasta e premiado diretor de Sargento Getulio, quem trouxe à luz a existência de uma fita com dez músicas inéditas de José Agrippino de Paula; fita que Agrippino vendia para os amigos a fim de financiar seus projetos.

A obra do José Agrippino de Paula sempre foi reconhecida como instigante, experimental, coletiva, improvisada com ações de rua: compreendia eventos intermídia, fusões de linguagens. Agrippino era a vanguarda dos anos 1960 e 1970, não apenas na literatura e no cinema, mas também na dança e no teatro, juntamente com a atriz e bailarina Maria Esther Stockler.

José Agrippino ainda é um artista pouco conhecido do público em geral embora muito reverenciado nos meios intelectuais e artísticos. Mário Schemberg (1914-1970), cientista e crítico de arte, costumava afirmar que o livro Panamérica (1967) era mais importante do que Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez: ali, Agrippino fundia realidade com realismo fantástico.

Já o happening ou "teatro rock" Rito do Amor Selvagem misturava música, história em quadrinhos e dança moderna e marcou época por sua concepção inovadora.

Agrippino foi, de fato, um luzeiro para o pensamento da época: seu livro Panamérica não só inspirou Caetano Veloso a dali retirar versos para Sampa ("Panaméricas de Áfricas utópicas"), como também inspirou Gilberto Gil a compor trechos como "eu e ela estávamos ali abraçados na parede", música presente no disco Doces Bárbaros.

Agrippino morou no bairro da Pompéia, na rua Cotoxó, em São Paulo. Agrippino entrou no curso de arquitetura junto com Flávio Império, em 1955, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, situada na rua Maranhão. Em suas palavras: "eu e Flávio Império entramos na mesma turma. Agora, eu fiquei reprovado nos três primeiros anos porque eu ficava mais conversando com as pessoas do que me dedicando aos estudos".

Conseguiu uma transferência para a Faculdade Nacional de Arquitetura do Rio de Janeiro em 1959 e ali se formou: "na arquitetura do Rio tinha um Teatro de Arena. Consegui um dinheiro, cartaz, dirigi e montei Crime e Castigo, de Dostoiévski. Fiz o papel de Raskólnikov ".

Depois de formado no Rio, Agrippino veio para São Paulo, em 1965.

O primeiro livro escrito por Agrippino foi Lugar Publico, publicado em 1965. Nesta obra, ele mostra a relação solitária do homem com a cidade e com as imagens intermitentes da urbe.

Em 1967, Agrippino escreve Panamérica, uma epopeia intercontinental que narra a aventura de um cineasta em estúdios faraônicos, filmando uma versão da Bíblia Sagrada, tendo como personagens figuras míticas da cultura pop da época, como Marilyn Monroe, John Wayne, Burt Lancaster, Marlon Brando, Cary Grant, Cassius Clay e o jogador de beisebol Joe DiMaggio. Mário Schemberg dizia que Panamérica tinha nos dado uma epopeia contemporânea do império americano1. Caetano Veloso escreveu em seu livro Verdade Tropical que Panamérica não tinha nada a ver com o que ele conhecia e amava como literatura. Panamérica era um choque, um desafio:

José Agrippino tomou do cinema americano figuras mitológicas, assim como uma técnica de narração por imagens [...] fugiu de qualquer análise psicológica [...] Combinou uma descrição minuciosa inspirada na Ilíada, com uma imaginação fantástica, autêntica, que se relaciona com as aventuras de Guliver2.

Agrippino frequentava o atelier de José Roberto Aguilar, na rua Frei Caneca, e foi lá que conheceu Maria Esther Stockler:

Nesta época a Maria Esther fazia ensaio lá. Ela estava dançando uma música hindu do Ravi Shankar, fazendo quase uma meditação, e era realmente muito fascinante, muito fascinante, era uma coisa linda ela dançando. Ela estava com o grupo Móbile, montou dois espetáculos com eles.

A secretaria de Estado de Cultura de São Paulo deu uma verba de 23 mil cruzeiros para Agrippino montar a peça Tarzan do 3º mundo. Segundo Agrippino:

A Maria Esther tinha o domínio desse espetáculo. Era um espetáculo de dança, quer dizer, foi ela quem dirigiu e fez a coreografia. Tinha o Oiá Guerecy, que era considerado por nós o melhor dançarino da companhia. Ele saiu do candomblé daqui de São Paulo, era o Babalorixá Oroni.

A peça Tarzan era muito requintada, uma mistura de expressões, tecnologia, teatro, dança, beleza visual. Nas palavras de Agrippino:

A Maria Esther era uma pessoa altamente informada porque viveu em Nova Iorque. Nós conhecemos também Jô Soares. Ele de vez em quando ia pra Nova Iorque e trazia discos. Caetano Veloso também tinha muitos discos. Quer dizer, aqui em São Paulo nós tínhamos uma quantidade de informação do mundo, assim moderno, de Nova Iorque, muito grande. O mix the media theater.

Em 1967, Agrippino e Esther foram convidados para fazer um espetáculo no Rio, O planeta dos Mutantes, um musical "pop apocalíptico", no qual história em quadrinhos, o pop, o happening, música e dança moderna integravam-se às novas concepções do teatro de vanguarda. Maria Esther dirigiu e fez a coreografia. Agrippino fez o roteiro junto com os Mutantes: "era um espetáculo muito atual, avançado, teatro/ rock. Rita Lee entrava num cilindro, um cilindro assim de plástico transparente com uma armação de ferro e era a esquife dela, mas uma esquife assim tipo Branca de Neve".

Rito do Amor Selvagem estreou em novembro de 1969, no Teatro São Pedro. O palco não poderia ser mais sugestivo: a mesa do Conselho de Segurança da ONU, onde os representantes de diversas etnias e interesses vivem uma versão moderna das bacantes, jornalistas seduzindo embaixadores, orientais insinuando-se com enviados do Vaticano, africanos devastando protocolos. O resultado plástico buscava a pop art:

Nesta época eu já tinha um certo contato com o rock. Éramos amigos de Caetano Veloso. Eu era muito amigo do Rogério Duarte, no Rio, e ele era muito amigo do Caetano e, nessa época, nós vivíamos em Santa Teresa. Acho que nessa época a Anecy Rocha estava filmando com Walter Lima Junior. Não sei. Mas enfim, nesta situação, nós tínhamos um certo conhecimento dessa área.
Em São Paulo, eu e a Esther morávamos na Bela Vista, Caetano e Gil na avenida São Luís. Eles tinham discos [...], por exemplo, o disco do Jimi Hendrix.
A iluminação do Rito do Amor Selvagem era de altíssimo nível e os dançarinos afros eram muito bons. O Guerecy, um dos dançarinos, foi pego muito puro [...] ele era filho de santo mesmo. Ele era mestre de facas, ele quem executava sacrifício [...]. Um dia ele faltou no ensaio porque foi cortar o pescoço de uma galinha.

Rito do Amor Selvagem teve a direção de Maria Esther Stockler e roteiro de Agrippino. O Rito foi baseado na peça As Nações Unidas escrita por Agrippino:

Essa peça era muito louca, difícil de produção. Eu até cheguei a apresentar para o Jô Soares. Ele queria fazer a peça mas não deu certo. Mas como pintou a grana, nós fizemos uma mistura de dança e teatro e estreamos com a subvenção de 43 mil cruzeiros, no Teatro São Pedro. A estreia foi espetacular. As pessoas ficaram excitadas com este acontecimento, ou seja, a civilização vai chegando a um ponto que ela se torna muito antimovimento do corpo humano, embora tenha os carros, os aviões e tudo [...] na cidade, mas o corpo cada vez mais lento, não é? Tem todo este aspecto de passividade, do espectador da vida moderna. No Rito do Amor Selvagem havia uma bola de plástico transparente de seis metros de altura. A bola era uma cena muito linda, no sentido mágico e no final a gente jogava a bola para a plateia, que ficava excitadíssima porque justamente era o insólito dela entrar, entrar ali, entende? Era uma coisa insólita, inesperada.
O Living Theater veio para o Brasil e alugou um apartamento através da Maria Esther. Era um apartamento do Mário Schemberg. O Living passou a morar lá.
O Living.[...] eles já saíram um pouco daquela contracultura do beatnik.
Nós tivemos muito contato com o Vitor Garcia, não é? O Vitor Garcia montou O Balcão. A filmagem de O Balcão foi feita por mim, Jorge Bodansky e Vitor Garcia. Este filme existe e é propriedade da Ruth Escobar. É bom comprar esse filme. É muito bom.

Em 1968 José Agrippino inicia as filmagens da ousada transgressão Hitler 3º Mundo, na mesma época da decretação do sinistro AI-5. Como nos diz o crítico Jairo Ferreira:

Hitler 3º mundo é um dos cult movies máximos não só de um cinema de invenção, mas de transgressão. Em Hitler 3º Mundo, gritos lacerantes percorrem o filme, os personagens lambuzam-se com sangue e as cenas de tortura são recorrentes. O animalesco também está presente com toda sua carga disforme e grotesca. Jô Soares, que faz o papel de um samurai, joga alimentos para favelados que reagem de forma animal.

Em São Paulo, a casa da rua Goitacás 57, de Maria Esther e Aggrippino, virou uma espécie de ponto, uma "casa de curtição":

Então, tinham casas que eram uma bandeira completa. Nossa casa foi uma bandeira completa também durante muito tempo porque a gente fazia som solto. Chegava cabeludo e tudo, e diziam que tinha muita droga. E então a polícia mandou alguém vigiar. Tinha gente da polícia na farmácia que ficava na esquina e tinha um agente de polícia no edifício. O Mário Schemberg me avisou que a minha casa estava sendo vigiada. Não sei como ele obteve essa informação. E a informação veio de cima. Eu fui preso uns dez dias depois, eles colocaram duas ampolas de "Perventim" na cama e disseram que eram minhas. Quando saí comecei a receber umas ameaças de morte lá na casa. Eram ameaças escritas, datilografadas, coisa meio louca, enfiada debaixo da porta, sabe? Aí eu falei: "Não, péra aí, esse negócio é uma loucura!". Aí eu e Maria Esther resolvemos ir para a África, ficamos dois anos na África. Fizemos alguns filmes na África. Uns documentários, mas alguns foram se perdendo. Fomos depois para Londres. O Caetano já tinha voltado. Quem estava lá era o Gil.
Quando voltamos para o Brasil passamos um mês em São Paulo e fomos para a Bahia, ficamos morando em casa do Rogério Duarte uns dois anos, depois para a Boca do Rio, depois Arembepe [...]
Eu fiz um trabalho lá em Salvador, patrocinado pelo Instituto Cultural Brasil-Alemanha, que é o Instituto Goethe. Eu fiz uma adaptação de Fausto para o Goethe, para ser levada para crianças. Mas as crianças eu escolhi as de Candomblé, que era do Gantois. E fiz na praia de Boca do Rio, uma coisa desbundante. Esse filme Super8 se perdeu.

Agrippino trouxe uma claridade, uma novidade para as ideias da época. Caetano Veloso, em Verdade Tropical, escreveu: "a simples presença de Zé Agrippino representava como que um aprofundamento das ideias mais audaciosas"3.

Zé Agrippino faleceu aos 71 anos, no dia 4 de Julho de 2007, no Embu, cidade próxima a São Paulo, onde vivia.

 

Obras de José Agrippino de Paula

1. Literatura

Romances

PAULA, José Agrippino de. Lugar Publico. Rio de Janeiro: Ed Civilização Brasileira, 1965.         [ Links ]

______. Panamérica. [1ª edição. Rio de Janeiro: Ed Tridente, 1967] e [2ª edição. São Paulo: Ed Max Limonad, 1988].         [ Links ]

______. Nações Unidas. Rio de Janeiro: Editora Tridente, 1967.         [ Links ]

______. United Nations. Rio de Janeiro: [s.n.], 1968.         [ Links ]

Contos

PAULA, José Agrippino de.Na Alameda dos Baobás. In: Revista Caspa, São Paulo, 1977.         [ Links ]

______. Roteiro de Viagem do Diário Oficial das Drogas do Ocidente. In: Revista Ânima, Rio de Janeiro, abr.-maio 1976.         [ Links ]

______. Tribo do ar e do mar Sagrado. In: Revista Planeta, São Paulo, Edição Tres, ago. 1974.         [ Links ]

______. A cigana Prateada da lua. In: Revista Ficção, Rio de Janeiro, jul. 1977.         [ Links ]

2. Cinema

HITLER III MUNDO. Direção: José Agrippino de Paula. 1969. Filme em 16 mm [70'].         [ Links ]

RITO DO AMOR SELVAGEM. Direção: José Agrippino de Paula. 1970. Filme em 16 mm [40'] (perdido).         [ Links ]

CANDOMBLÉ NO TOGO. Direção: José Agrippino de Paula. 1972. Filme em Super8 [20'].         [ Links ]

CANDOMBLÉ NO DAHOMEY. Direção: José Agrippino de Paula. 1978. Filme em Super8 [20'].         [ Links ]

CÉU SÔBRE ÁGUA. Direção: José Agrippino de Paula. 1978. Filme em Super8 [20'].         [ Links ]

MARIA ESTHER: danças na praia. Direção: José Agrippino de Paula. 1978. Filme em Super8 [40'].         [ Links ]

TIMBUCU. Direção: José Agrippino de Paula. [s.d.]. Filme em Super 8 (perdido).         [ Links ]

KIDS. Direção: José Agrippino de Paula. [s.d.].Filme em Super 8 (perdido).         [ Links ]

DOGON. Direção: José Agrippino de Paula. [s.d.].Filme em Super 8 (perdido).         [ Links ]

3. Teatro

TARZAN III MUNDO -- O MUSTANG HIBERNADO. Autoria e direção: José Agrippino de Paula. Teatro Anchieta, Rio de Janeiro, 1968.         [ Links ]

PLANETA DOS MUTANTES. Autoria e direção: José Agrippino de Paula e Maria Esther Stockler. Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro, 1968.         [ Links ]

RITO DO AMOR SELVAGEM. Autoria e direção: José Agrippino de Paula e Maria Esther Stockler. Teatro São Pedro, São Paulo, 1969.         [ Links ]

4. Obras sobre José Agrippino de Paula

SINFONIA PANAMÉRICA. Direção: Lucila Meirelles, Walter Silveira e Grima Grimaldi. 1988. Ópera de sons e imagens [15´         [ Links ]].

OS PASSEIOS NO RECANTO SILVESTRE. Direção: Miriam Chneiderman. 2006. Filme em Super8 [16´         [ Links ]].

 

 

Lucila Meirelles é videoartista e curadora das obras audiovisuais de José Agrippino de Paula desde 1988.

 

 

1 Cf. Veloso, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 103.         [ Links ]
2 Veloso, Caetano, loc. cit.
3 Ibidem, p. 70.

 

 

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