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ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.8 no.15 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202010000100011 

A professora-poeta1

 

 

Ismail XavierI

 

 


RESUMO

A evocação da experiência da poeta Lupe Cotrim como professora de Estética nos três primeiros anos da ECA-USP ressalta a sua liderança na criação de um diálogo entre alunos e professores de diferentes setores da Escola; a memória desta experiência luminosa, vivida pelo autor como aluno, dá ensejo a observações sobre o isolamento atual dos vários segmentos das artes e da comunicação na pesquisa e na formação dos alunos, tema que requer uma reflexão mais efetiva.

Palavras-chave: ensino de arte; história da ECA; criação, docência e pesquisa


ABSTRACT

The brief account of poet Lupe Cotrim's experience as professor of Aesthetics during the first three years of ECA-USP gives emphasis to her leadership in the creation of a productive dialogue involving students and faculty members from different sectors of the School. The memory of that enlighted experience, which the author lived as a student, elicits a commentary on the present isolation of the different sectors of arts and communication, both in research activities and teaching, a topic that deserves a special attention.

Keywords: art teaching; history of ECA; art creation and academic research


 

 

Gostaria inicialmente de parabenizar a Leila Gouveia e o IEB pela iniciativa e também agradecer por este evento que nos traz de volta Lupe Cotrim, a nós professores da ECA e a outros pesquisadores e estudiosos, e aos jovens aqui presentes.

É uma ocasião de memória, acima de tudo um momento de reflexão sobre a sua obra, como acontecerá esta tarde, e sobre sua notável atuação na universidade. Esta ficou para nós como uma inspiração que se renova, um exemplo que nos desafia e nos oferece o senso de estar em diálogo com um passado que vivemos como estudantes, mas que nos ajuda nessa busca de sentido para os nossos empenhos de hoje, pois há questões que permanecem e há desejos não satisfeitos, inquietações que se configuram melhor quando nos confrontamos com experiência que vivemos ao lado de Lupe, beneficiados pela sua inteligência, sua capacidade de doação e sua sensibilidade especial.

No Simpósio Lupe Cotrim realizado na ECA em junho de 1990, coordenado por Monica Rector, salientei a rara oportunidade - a felicidade - nossa em ter contado com a presença de Lupe nos primeiros anos da ECA, escola em que se tornava mais agudo o desafio de combinar a atividade acadêmica de reflexão conceitual (enfim, as disciplinas com seu recorte temático) e a relação viva com o contemporâneo. A sua condição de escritora, poeta, professora formada em filosofia lhe permitiu enfrentar, melhor do que ninguém, este desafio, conduzindo um diálogo intenso com os estudantes onde se exprimia toda a sua sensibilidade e seu modo peculiar de estar no mundo.

Tivemos em Lupe não apenas a professora que trazia um saber, que organizava as suas aulas, que transmitia uma experiência; mas alguém cuja inquietação poética alimentava sua forma aberta de se expor ao diálogo, assumir o risco dos embates. Ela era alguém cujo compromisso com a palavra e relação com o mundo se exprimia a todo instante, e que se fez notável em seu convívio com uma geração ambiciosa em sua relação com a universidade, com a cultura e a política.

Não nos surpreendeu, portanto, quando, na agitação de 1968, sua resposta à militância estudantil foi muito corajosa e nos ajudou a tornar consequente, não puramente retórico, todo um ciclo de debates que vivemos nas reuniões e comissões de professores e alunos que tanto marcaram o nosso cotidiano entre abril-maio e agosto-setembro daquele ano.

Aceitando o debate nas comissões paritárias e mostrando de que forma se podia ser coerente no encaminhamento de uma reformulação dos cursos que pudesse dar expressão ao momento vivido, Lupe Cotrim foi uma liderança decisiva naquela conjuntura, e seu curso a experiência mais densa, do ponto de vista intelectual e político, daquele ano.

De sua atuação, deriva a homenagem do Centro Acadêmico dos estudantes da ECA que passou a se nomear C.A. Lupe Cotrim, em 1970. Foi iniciativa de uma nova gestão do Centro, então já conduzido por alunos mais novos que deram continuidade a nosso sentimento ao homenageá-la após a sua morte.

Desde o momento daquele simpósio, o nosso de trabalho na universidade e os rumos que a instituição foi tomando só tornaram mais dramática a convicção de que não conseguimos resolver bem a questão das fronteiras que separam esta federação de cursos e de áreas de pesquisa que compõem a ECA. Embora em pleno desconforto, não temos senão reiterado o enredamento na especialização do trabalho universitário, a despeito de uma ou outra iniciativa pontual.

Esta é uma questão que se coloca desde os primeiros anos da Escola (1967-1970), antes de uma consolidação mais nítida do sistema nacional de ensino e pesquisa em comunicações e artes, quando a ECA em particular era pequena e se formava. E houve algo de distinto naquela conjuntura mais propícia a experimentações e que trouxe oportunidades raras de interlocução, de troca de experiências com um leque mais amplo de colegas num momento que encontrou em Lupe Cotrim a sua maior tradução. A dimensão da Escola e os tateios dos primeiros tempos deram maior ensejo para um atravessamento de fronteiras e uma presença mais decisiva da estética na formação dos estudantes, dado que ganhou sentido especial pela presença de Lupe em nossa experiência (quando digo nossa, refiro-me a alunos de distintas áreas e formações profissionais da ECA).

Ela deixou a sua marca e sua inspiração como poeta, professora, alguém cujo diálogo franco gerou debates em que ela se expôs daquela forma intensa que lhe era característica, e nos fez viver com maior profundidade o momento cultural, seja na discussão de exposições de arte, em particular a Bienal de São Paulo, de filmes, de peças, tudo feito de modo a conectar a reflexão mais conceitual sobre as artes e o curso de estética à atividade crítica dirigida ao contemporâneo.

Mais tarde, nas escolas de comunicações, houve o conjunto de problemas trazidos por um modelo implantado em nível nacional, com ênfase (digamos positivista) na ideia de que o trabalho e a criação na área (comunicação, notadamente, mas com alguma repercussão nas artes) exigia uma formação pautada pela assimilação de um saber (vindo das ciências sociais, da psicologia e das teorias da comunicação) e pela sua instrumentação - ou seja, pela ideia de aplicar este saber na vida profissional, no trabalho criativo, como um engenheiro se apoia na física, química e matemática, e o médico na biologia e na química. Nesse modelo, pouco espaço se dava para aspectos fundamentais da formação requerida pelas distintas áreas, em particular, o cinema cuja dimensão estética e parentesco com o teatro, as artes visuais, a música e a literatura não parecia muito relevante.

Cada área da escola tratou de resolver a seu modo a relação com o modelo vigente, havendo alterações profundas pelas quais as áreas (cinema, teatro, artes plásticas, jornalismo, publicidade, ciência da informação) ganharam autonomia na condução dos cursos - com a radical separação entre as comunicações e as artes, ficando sempre o cinema na zona cinzenta entre uma coisa e outra, ao mesmo tempo indústria cultural de ponta naquela época, e arte já adensada e diversificada em sua experiência estética. Tal autonomia era bem-vinda e significou um ajuste aos traços específicos das áreas, mas alargou o fosso que as separava, tornando mais esgarçada ainda a federação.

Ao longo dos anos aprendemos o quanto se tornou mais difícil exercer este papel que Lupe exerceu: atravessar fronteiras, ser ator central em um diálogo que pode (como aconteceu) empolgar o conjunto da Escola, algo que ela fez em grande estilo ao combinar as incursões na história da arte, a reflexão estética e a resposta ao novo, ao que nos mobilizava por inteiro no corpo a corpo com as obras e com o nosso tempo.

Não é de hoje que comentamos a dificuldade que temos [falo dos professores de cinema] em desenvolver o diálogo mais intenso com os colegas de teatro, música e artes plásticas (visuais), bem como com os que se ocupam de forma mais decisiva da indústria cultural e das novas configurações da mídia.

Claro que não deixa de haver uma discussão estética; há exemplos de debates que nos engajam, fazem-nos conversar de modo mais intenso. Mas não temos mais um ponto de encontro - em termos de espaço e de redes efetivas de intercâmbio - e não temos mais uma figura do encontro - em termos da personificação deste desejo como Lupe Cotrim conseguiu ser. Resultado: carecemos de uma convivência capaz de gerar uma discussão mais sistemática e ao mesmo tempo mais viva da cultura contemporânea.

Estamos talvez pressionados demais pelos imperativos que hoje atravessam os programas de pós-graduação, e esse espírito de "linha de montagem" que se instituiu na produção de nossos trabalhos (papers é seu nome), de nossas revistas, de nossa pesquisa.

Mas isto tudo não é razão para que deixemos de lado as inquietações e nossa relação pessoal, inteira, com um projeto de vida universitária e de intervenção na cultura que tem se dissolvido na rotina dos programas e no cumprimento das tarefas do dia a dia. Pensar em Lupe é repor no nosso convívio alguém que, em determinadas circunstâncias, conseguiu unir o que ficou depois separado.

Não se trata de supor aqui que tudo se move pelo jogo exclusivo das vontades, pois pensar em Lupe é também saber avaliar a diferença entre as duas condições de existência, as duas conjunturas históricas, cada qual com o seu perfil, suas possibilidades e seus limites. A atual, de qualquer forma, exige de nós um gesto mais decisivo de reconstrução de um projeto, um debruçar-se inteiro nesta situação aflitiva, não como funcionários, peças de uma engrenagem, mas como intelectuais, artistas e críticos de arte que assumem a responsabilidade de equacionar a nova forma que aquele desafio presente desde os anos 60 agora assume.

Trata-se então de procurar a resposta consequente que ponha este nosso pequeno mundo em movimento, uma resposta que certamente requer algo mais do que uma análise intelectual do problema, embora esta seja necessária.

Ao assumir este tom de fala, tenho consciência de que estou repetindo o já observado em 1990, na ocasião do simpósio Lupe Cotrim na ECA. Em sua intervenção, o professor Giannotti já tematizava este imperativo da renovação, diante de um perfil de atividade acadêmica já transformado em rotina e que, neste intervalo, não avançou na direção desejada.

Dado o quadro, não creio ser impertinente tomar este reencontro com a poeta-professora como um momento de espelhamento que a afetividade torna caloroso mas que a objetividade tinge de angústia, pois ai aflora com toda nitidez um presente que é problemático não porque esteja longe do ideal (pois tudo sempre estará), mas porque está aquém do aceitável para quem traz na memória o legado de quem teve infelizmente uma passagem breve demais por este cenário que ainda habitamos e que agora nos solicita tanto ou mais quanto solicitou os professores da então nova escola em seus primeiros anos.

 

 

I Ismail Xavier é professor de cinema na ECA-USP. Publicou, entre outros livros, O Discurso Cinematográfico: a opacidade e a transparência (Paz e Terra, 1977, 3ª. Edição 2005), Sertão Mar: Glauber Rocha e a estética da fome (CosacNaify 2007, 2ª. edição), Alegorias do subdesenvolvimento:Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal (Brasiliense, 1993), O cinemabrasileiro moderno (Paz e Terra, 2001), O olhar e a cena: melodrama, Hollywood, Cinema Novo, Nelson Rodrigues (Cosac Naify, 2003), Ismail Xavier - encontros, Adilson Mendes (Org.) (Azougue, 2009).
1. Texto elaborado para a comunicação à mesa inaugural do Seminário Lupe Cotrim, em 23 de março de 2010.

 

 

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