SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 número15Lupe e paisagem índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


ARS (São Paulo)

versão impressa ISSN 1678-5320

ARS (São Paulo) vol.8 no.15 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-53202010000100014 

Lupe Cotrim: um cristal puro1

 

 

César LealI

 

 


RESUMO

Este artigo revisita a poesia lírica de Lupe Cotrim Garaude, avaliando que essa produção, interrompida pela morte prematura da autora, merece destaque entre as dos poetas brasileiros surgidos após 1950.

Palavras-chave: Lupe Cotrim Garaude; poesia lírica; modernidade; soneto


ABSTRACT

This article revisits Lupe Cotrim Garaude's lyric poetry, estimating that this production, breaked off with her premature death, merits a special place among those of Brazilian poets that had emerged after 1950.

Keywords: Lupe Cotrim Garaude; lyric poetry; modernity; sonnet


 

 

Entre os poetas brasileiros surgidos na segunda metade do século XX, indiscutivelmente Lupe Cotrim Garaude (1933-1970) é uma das vozes mais fortes. Sua linguagem, culta, sóbria e aristocrática, utiliza símbolos e metáforas com surpreendente economia de palavras. Além do poder poético, cuja magia de linguagem conquista o mais exigente leitor de poesia moderna, Lupe Cotrim associa habilidade técnica incomum ao construir imagens altamente representativas da melhor poesia contemporânea. Não pergunta nem responde sobre o seu destino de poeta. Não deseja escrever obra perfeita, mas é como se aspirasse a produzir obra-prima. Esse anelo coincidirá com o pensamento dos mais rigorosos filósofos da arte quando afirmam que obra perfeita não pode ser obra-prima. E dão, como exemplo, talvez a maior obra-prima da literatura universal: o Don Quijote, cujos deslizes de composição são encontrados em quase todas as páginas, mas nem por tais defeitos deixou de ser a obra-prima que só encontra paralelo nas grandes epopeias homéricas, em Dante, na vastidão do universo psíquico do Rei Lear e outras grandes tragédias do teatro shakespeariano.

Lupe Cotrim é uma poeta da modernidade, não apenas no conceito baudelairiano da modernitas, mas também na acepção do termo como Hegel filosoficamente o concebeu e foi tão bem analisado por Jürgen Habermas, o mais completo remanescente da Escola de Frankfurt, em um de seus livros mais traduzidos, O discurso filosófico da modernidade.

Considero que o soneto de Lupe, "Destino mineral", de Raiz comum (1959), reúne em um simples agrupamento de quatorze versos - o que raramente se observa - os dois conceitos de modernidade: modernidade filosófica e modernidade poética. Nessa curtíssima coordenada temporal, encontram-se numa extremidade Hegel, na outra Baudelaire.

O conceito de modernidade, aparentemente simples, é muito importante do ponto de vista da crítica, quando aplicado a um poeta, por encerrar um reconhecimento de distinção intelectual. Utilizar paradigmas dos séculos XVI e XVII e neles introduzir novos ritmos e linguagem, é o que faz Lupe Cotrim Garaude, e apenas isso seria suficiente para incluí-la no círculo dos poetas da tradição Baudelaire-Valéry.

É óbvio que essa tradição da modernitas não pode aplicar-se ao nosso "Modernismo" de 22, o modernismo dos "brazilianists" que, apesar de seus esforços, ainda não conseguiram levar a literatura brasileira para o debate internacional sobre a modernidade. A força de nossa poesia resulta do trabalho de alguns poetas, de sua competência intelectual, e não da Semana de Arte Moderna de 1922. As influências que atuaram sobre Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Joaquim Cardozo, João Cabral de Melo Neto, Dante Milano, Abgar Renault e tantos outros são bem conhecidas.

Observa-se que Lupe Cotrim Garaude, utilizando o paradigma do soneto inglês - o soneto italiano modificado por Sidney e Spenser, e que iria encontrar em Shakespeare sua mais completa representação -, rompe com a temática idealista, neoplatônica, que, praticamente, não sofrera alterações ao ser levado do Continente para a Ilha no século XVI. Em Lupe Cotrim Garaude a presença do enjambement em parte de seus sonetos não significa influências de escolas ou estilos. Estilo "histórico" ou estilo de "cultura". Tal processo também está presente nos melhores sonetos ingleses escritos em outros países, pois o soneto shakespeariano iria tornar-se tão visível nas literaturas europeias quanto o petrarquista, embora sem tantos petrarquismos, como ocorreu em alguns sonetos de Camões, sonetos portugueses que iriam influenciar o barroco espanhol, especialmente Góngora, sem dúvida o mais forte e original poeta lírico das línguas romances.

Vejamos o soneto de Lupe Cotrim, composto ainda na fase mais juvenil de sua poesia, mas no espírito dos sonetos da tradição Baudelaire-Rimbaud-Mallarmé-Valéry:

Destino mineral

Sou feita de uma carne perecível
futuro de outra carne, sem nenhuma
eternidade. A rocha é uma invencível
parte da terra; que ela me resuma
no seu mesmo destino mineral.
A solidez ausente que tortura
nossa matéria frágil, no final
se renderá: serei de pedra dura.
Nunca mais chorarei nessa passagem
de poesia. Com nítida certeza,
recorto nas montanhas minha imagem
mais que raiz, expressa na beleza.
Pela terra em que não me desfiguro
hei de surgir um dia em cristal puro.

Raiz comum, 1959.

Essa composição demonstra o domínio formal, rigor e exuberância técnica de Lupe Cotrim Garaude. Ao escrevê-la, a jovem poeta paulista teria no máximo 25 anos. A linguagem não é apenas lírica, uma vez que se prende à análise de seu próprio corpo, de algo formado de matéria "perecível" que ela estende ao universo da Natureza e da Cultura. Sopram sobre essa linguagem suaves brisas filosóficas. A parte perecível, integrada ao mundo da Natureza, refere-se não só a ela, mas também aos descendentes, àqueles que, por transmissibilidade hereditária, irão levar ao futuro, como num revezamento das estações dos anos, dos séculos, o que restar de sua carne, "sem nenhuma eternidade". Que visão fantástica! No universo da Natureza, muitas espécies têm desaparecido sem deixar rastros. Sob esse aspecto, é surpreendente que várias formas de existência protegidas pela dupla hélice descoberta por James Watson, Cricks e outros, em 1953, tenham caído na mais completa anonimia, num desaparecimento absoluto, "sem nenhuma eternidade", como diz Lupe Cotrim em "Destino mineral".

Todavia, as criações da cultura são "monumentos", confirma Horácio em uma de suas odes famosas. E a semelhança temática entre a composição de Lupe Cotrim e o soneto inglês, por exemplo, o Soneto 1, de Shakespeare, revelaria apenas diferenças das épocas em que foram escritos, o que teria de ser levado em consideração na eventualidade de um estudo de literatura comparada. Paradoxalmente, são pelas diferenças que o poeta do século XX se assemelha ao poeta do século XVI.

Em Shakespeare, é dominante a influência do "doce estilo novo" criado pelos poetas toscanos, que nos mostra a mulher como estrela, algo inalcançável, cuja beleza dá lugar à gentileza, à nobreza espiritual que desperta no homem uma disposição para o bem. O petrarquismo, aprofundando o sentido dessas ideias, volta-se para o erotismo platônico, tímido, buscando convencer que sem a união sexual a mulher não poderá eternizar-se, não irá sobreviver à rápida passagem do tempo. É isso o que afirma Shakespeare no Soneto citado, que farei passar aqui pela inflexão da voz do grande tradutor Ivo Barroso:

Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do belo não se extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
Mas tu, que só os olhos teus contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser crucias.
Tu que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão
E, sovinas, esperdiças na avareza.
Piedade, senão ides tu e o fundo
Do chão, comer o que é devido ao mundo2.

A essa proposta shakespeariana, Lupe Cotrim Garaude responde na língua poética contemporânea, tão vigorosa quando expressa através dos paradigmas da modernitas, amparada pela tradição em que se apoia:

Pouco sabeis de mim. Hoje percebo
que o segredo mais puro do que sou
vos é desconhecido. É um arremedo
apenas do que sinto o que vos dou.
Se é receio vos largar o coração,
talvez eu tema. Sei o que é silêncio,
a mágoa de compor a solidão
uma outra vez. E sei que não convenço
vossa distância em minha entrega. Perto
ou longe, sois limite próprio. Surda
é em vós essa paixão em que desperto
um arrepio que vossa paz perturba.
E intensa me contenho e mais não faço
para atrair-vos ao céu que vos disfarço.

"Amar de amor, amor de amar VI", Entre a flor e o tempo, 1961

Em outra série de sonetos, "Nau de assombro"(Raiz comum), Lupe Cotrim desconstrói toda temática idealista dos sonetos do Renascimento escritos no espírito do neoplatonismo combinado com o "Stil nuovo", do jovem Dante e seus amigos toscanos, mas não na acepção de "Stil novo" (cf. Canto XXIV, verso 57 do "Purgatório"), um momento particular da maturidade da Dante, o poeta da Commedia, não mais o da Vita nuova. Todavia não irei transcrever "Nau de assombro". São versos que exigem cuidadosa reflexão. Demonstram a modernidade do poeta do século XX em relação ao classicismo dos poetas neoplatônicos dos séculos XVI e XVII, a lançar Lupe Cotrim a uma distância tão grande daqueles que, no "Encontro Nacional de Escritores", reunidos em Brasília, em 1968, procuravam cooptá-la para as hostes da Geração de 45, tão glorificada pelo Panorama de Fernando Ferreira de Loanda, publicado em 19513.

Essa era a geração de Domingos Carvalho da Silva, em cujas páginas figuravam tantos poetas que nela não podiam ser incluídos. E outros que não se deixaram atrair pelo fascínio do conceito geracional, filosoficamente formulado por pensadores como Ortega y Gasset, Azorin, Julián Marías, Julius Petersen e tantos outros. Esses poetas brasileiros eram artistas cultos e pertenciam às mais diferentes correntes da modernidade. Agora, com seleção e prefácio de André Seffrin, e direção de Edla van Steen, na coleção "Roteiros da poesia brasileira" foram reunidos em uma antologia 56 autores, de reputação consolidada, aparecidos nos anos 1950-1970, e que haviam sido "ocultados" pela polêmica Concretismo-Geração de 19454. Ou, melhor, pelo esnobismo de algumas "águias enfermas" surgidas nesse período. Entre tais poetas, a agudeza crítica de André Seffrin não esqueceu Lupe Cotrim Garaude, um "cristal puro", como ela imaginou seu destino mineral em nosso planeta.

 

 

I César Leal é poeta e crítico cearense radicado no Recife, autor, entre outros, de Dimensões temporais da poesia e outros ensaios; em 2006, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. Um de seus ensaios mais conhecidos é "Dante e os modernos".
1.Comunicação enviada ao seminário Ser poeta: Lupe Cotrim, 40 anos depois, realizado em 23 de março de 2010 no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP)         [ Links ]
2. In: 42 Sonetos de Shakespeare. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.         [ Links ]
3. LOANDA, Fernando Ferreira de. Panorama da nova poesia brasileira. Rio de Janeiro: Orfeu, 1951 [         [ Links ]Inclui poemas de expoentes da "geração de 45", mas também de "dissidentes" como João Cabral de Melo Neto e José Paulo Paes, entre outros].
4. SEFFRIN, André (org.). 1950 - Roteiro da poesia brasileira. São Paulo: Gobal, 2007.         [ Links ]

 

 

Clique para ampliar

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons