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ARS (São Paulo)

Print version ISSN 1678-5320On-line version ISSN 2178-0447

ARS (São Paulo) vol.15 no.29 São Paulo Jan./June 2017

http://dx.doi.org/10.11606/issn.2178-0447.ars.2017.131504 

Artigos

Os astros ditam o futuro. A história impõe o presente. (Artaud vs. Cárdenas)

The stars dictate the future. History imposes on the present. (Artaud vs. Cárdenas)

Silviano Santiago *

RESUMO

Silviano Santiago trata do encontro de dois autoexilados na Cidade do México em 1936: o poeta e crítico de arte guatemalteco Luis Cardoza y Aragón e o poeta e dramaturgo francês Antonin Artaud. O autor discute como ambos valorizaram o papel da cultura nas transformações sociais e econômicas e de como se posicionaram no ambiente artístico e social mexicano.

Palavras-Chave: Autoexílio de Luis Cardoza y Aragón no México; autoexílio de Antonin Artaud no México; viagens de artistas de vanguarda

ABSTRACT

The text is about the meeting of two self-exiled artists in Mexico City in 1936: the Guatemalan poet and art critic Cardoza y Aragón and the French poet and playwright Antonin Artaud. Silviano Santiago discusses how both valued the role of culture in social and economic transformations and how they positioned themselves in the Mexican artistic and social environment.

Key words: The self-exile of Luis Cardoza y Aragón in Mexico; the self-exile of Antonin Artaud in Mexico; journeys of avant-garde artists

Antonin Artaud e Eli Lotar, fotomontaem, 1929-1930. Na fotografia de Lotar vemos Roger Vitrac e Josette Lusson ao lado de Artaud (com o cachimbo na boca). 

“O colegial lê o abecedário, e o astrólogo, o futuro contido nas estrelas. No primeiro exemplo, o ato de ler não se desdobra em seus dois componentes. O mesmo não ocorre no segundo caso, que torna manifestos os dois estratos da leitura: o astrólogo lê no céu a posição dos astros e lê ao mesmo tempo, nessa posição, o futuro ou o destino.”

Walter Benjamin, “A doutrina das semelhanças”

1. Dois estrangeiros no México

Em 1936, o poeta e crítico de arte guatemalteco Luis Cardoza y Aragón, auto-exilado na Cidade do México, faz amizade com um outro autoexilado, o poeta e dramaturgo francês Antonin Artaud. É definitiva a imagem que guardou do viajante europeu durante a sua estada de quase um ano naquele país: “Antonin Artaud igual a ‘El desdichado’ de su hermano Nerval”. E carrega de tintas violentas o retrato do artista, parafraseando os célebres versos do soneto simbolista:

“El viudo, el inconsolado, príncipe de Aquitania de la torre abolida. El tenebroso, cuya sola estrella está muerta y cuyo laúd constelado lleva el sol negro de la melancolía”. Antes observara: “[Artaud] Vino a México en busca de su esperanza. Expulsado de todas partes, vivió desangrándose, vivió atrozmente, la cabeza en llamas, gran señor de la miseria.

Os dois artistas são irmãos no exílio. Depois de viver nas metrópoles europeias e viajar pelo mundo, o latino-americano voltará ao continente de origem para se instalar definitivamente, não na pátria, mas em país ao norte do seu. Desesperançado com a decadência por que passa o Velho Mundo, o europeu sai em busca de diálogo com os homens políticos mexicanos, e não com os artistas, para regenerar o Ocidente1. Depois de tentativas frustradas, acaba por adotar um outro país europeu, a Irlanda, de onde sairá expulso definitivamente para a pátria e já nesta, para o hospício. Num misto de ironia pelas viagens dos artistas de vanguarda e de apatia pelos grandes e simbólicos gestos de boa-vontade supracontinentais que elas querem representar e deixam entrever, Cardoza dirá de Artaud e, indiretamente, de si mesmo: “Confundió, por desesperación, el Nuevo Continente con un nuevo contenido. Algo hay de ello, pero no bastaba a su exigencia absoluta. También mucho de Europa se moría en nosotros”.

O novo continente não segreda novos conteúdos para o velho continente. Por sua vez, no coração e na mente dos vanguardistas europeus e latino-americanos, o velho continente agoniza. “Les tropiques sont moins exotiques que démodés”, dirá o antropólogo Lévi-Strauss depois de longa estada no Brasil dos anos 1930. Já o velho continente sobrevive como pode às sucessivas mortes anunciadas. O surrealista Philippe Soupault responde a um questionário sobre o papel da Europa na década de 1930, rezando uma prece à beira do túmulo:

Sou dos que não têm medo em afirmar que o espetáculo oferecido atualmente pela Europa é o de total decadência. Pelos meus escritos, palavras e gestos, tenho me esforçado por sinalizar a morte, aliás bastante vergonhosa, que toma conta dessa nossa península inútil. Deles também me sirvo agora para preparar um belo enterro para ela. A Europa agoniza suavemente, soluçando, babando, fanfarronando, amém...

Era preciso se desvencilhar não de um cadáver, mas de dois. O “melhor” da América Latina era uma cópia degradada da Europa. Em linguagem telegráfica, anunciando a grande decepção final que significará a premência da viagem de volta, Artaud associa a barbárie europeia ao seu cadáver no Novo Mundo: “Venu au Mexique fuir civilisation & culture Europe qui nous ramènent tous à la Barbarie et je trouve devant moi le cadavre de la civilisation et de la culture de l’Europe...” A Guatemala de Cardoza y Aragón é a metáfora das ditaduras que, na defesa do conservadorismo econômico e político, tomam conta das repúblicas, pequenas e grandes, da América Latina, ao mesmo tempo em que expulsam os oposicionistas para a Europa, quando não os matam. A França de Antonin Artaud é a metáfora do país que, entre as demais nações europeias, tenta rechaçar a tomada de poder pelos regimes totalitários. Ditadura aqui, totalitarismo lá. Cara de um, focinho do outro. Por isso, se na França se ergue o trampolim da Europa para o Novo Mundo, resta saber se o Novo Mundo poderá acolher os europeus, apresentando-lhes os caminhos mágicos que desbloqueariam o beco sem saída da civilização ocidental.

No México dos anos 1930, o guatemalteco e o francês são exemplos vivos desse troca-troca trágico, esperançoso e nostálgico. Seria o México índio de Emiliano Zapata, agora sob as rédeas curtas do general Lázaro Cárdenas, seria o México revolucionário agora nas mãos burocratizadas do Partido Revolucionário Nacional (o futuro PRI), um lugar predestinado para os vanguardistas de todo colorido que saíam da Europa em busca da esperança de novos caminhos para o Ocidente moribundo? Seria o México o lugar de onde retirar, para nele reimplantar, uma ideia autóctone e não ocidental de cultura que, por sua vez, serviria como modelo político universal? Nesse lugar predestinado, velho país jovem, não seria o mais violento contrassenso encontrar vagando sem destino pelas ruas da capital um vanguardista europeu, entregue à própria sorte, um “desdichado”, sem a proteção da sua “buena dicha”? Não seria exemplo da mais doce ironia moderna que dois autoexilados, dois artistas “desdichados”, um europeu e o outro latino-americano, se encontrem, o primeiro nas drogas e o segundo na embriaguez?2

Irmãos no exílio e artistas de vanguarda, o guatemalteco europeizado e o francês mexicanizado tentam e querem atravessar, com a combustão da cultura, fronteiras nacionais e intercontinentais, aboli-las. Como norte, o enorme sonho de um mundo melhor inventado pela imaginação poética. Entregando-se a profundas reflexões políticas – inspiradas pelo “sonho”, diz Artaud; inspiradas pela não existência do sonho, mas pela presença do “sobrenatural”, diz Cardoza –, os dois supervalorizam o lugar e o papel da cultura na condução do destino do Homem, vale dizer da Vida, como mediadora na busca da Utopia socioeconômica.

Escreve Artaud, querendo domesticar e domiciliar as hipóteses civilizatórias do sonho: “Nous ne savons rien de la civilisation mexicaine. Belle occasion sans doute pour rêver hypothétiquement”3. Escreve Cardoza, afirmando o primado da Vida, negando o pragmatismo e assegurando o poder infinito das forças sobrenaturais: “No existe el sueño. Yo puedo afirmarlo porque nadie puede curarme de la vida. Nadie ni nada. Lo sobrenatural es mi mundo, el mundo del hombre y su sola razón. Y su sola alegría”. Mediando os dois quereres, outras palavras proféticas de Gérard de Nerval, agora tomadas de empréstimo à novela Aurélia, e que servem de epígrafe para a Pequeña sinfonía del Nuevo Mundo, de Cardoza y Aragón: “mais je n’ai jamais éprouvé que le sommeil fût un repos. Après un engourdissement de quelques minutes, une vie nouvelle commence, affranchie des conditions du temps et de l’espace, et pareille sans doute à celle qui nous attend après la mort”.

Viajante contumaz, Cardoza y Aragón por duas vezes deixou o país natal. É primeiro levado a deixar a Guatemala em 1921, indo morar em sucessivas capitais europeias. O primeiro autoexílio europeu é consequência das perseguições políticas sofridas pelo pai – um advogado liberal que fazia oposição cerrada ao ditador Manuel Estrada Cabrera (1898-1920), “el señor Presidente” de Miguel Ángel Asturias. Alguns anos mais tarde, quando se implanta em seu país a ditadura de Jorge Ubico (1931-1944), renuncia ao posto que tinha no Consulado geral guatemalteco em Nova Iorque, entregando-se de novo a viagens por países europeus, até autoexilar-se definitivamente no México em fins de 1932. Pouco a pouco, ele se converterá “en el más mexicano de los extranjeros y el más extranjero de los mexicanos” (apud José Emilio Pacheco). Artaud estava certo quando detectava dois filões na cultura mexicana: “um que deseja assimilar a cultura e a civilização europeia, emprestando-lhe uma forma mexicana, e o outro que, prolongando a tradição secular, permanece obstinadamente rebelde a todo progresso”. O guatemalteco Cardoza se sente melhor na primeira corrente; Artaud situa a si próprio na segunda corrente: “pour mince que ce soit ce dernier courant, c’est en lui que se trouve toute la force du Mexique...”

A ambigüidade que reveste a definição dada a Cardoza y Aragon por José Emilio Pacheco – o mais estrangeiro dos mexicanos, o mais mexicano dos estrangeiros – significa também o recalque mexicano da origem guatemalteca e justifica ainda a sobrevivência econômica do autoexilado. Corpo no México, cabeça na Europa, corpo na Europa, cabeça no México, Cardoza quase nunca está de corpo presente na sua Guatemala. Talvez seja por isso que os amigos do grupo Contemporáneos assinalem, a favor dele, o temperamento também ambíguo, ou pelo menos duplo. Dele dirá Jorge Acuesta: “Por debajo de una apariencia pacífica, amable y benevolente, Cardoza y Aragón atiza un incendio en su alma. Su temperatura interior es el rojo blanco; su temperatura exterior es la del hielo”. Muitas vezes ambíguo, será por isso que Cardoza se adapta com cordialidade à nova era da institucionalização do PRN? A favor, ainda, de sua adaptação, o fato de ter sido por duas vezes expulso do país de origem por ditaduras militares duradouras, que defendiam os direitos de propriedade da multinacional United Fruit. Cardoza y Aragón será bem recebido tanto pelos escritores neoconservadores do grupo Contemporáneos (em particular Salvador Novo e Xavier Villaurrutia), quanto pelos pintores simpatizantes do Partido Comunista, recentemente proscrito (em particular Rivera, Siqueiros e Orozco, sendo este o artista de sua preferência). Irmãos em letras, irmãos em armas, Cardoza ganha, no entanto, a sua vida no jornal governista El Nacional, onde também Artaud publicará as traduções dos seus poucos e minguados textos propriamente mexicanos.

2. A astrologia dita o futuro

O retrato nítido e preciso de homem “delgado, eléctrico y centelleante”, – pintado por Cardoza y Aragón, d’après “El Desdichado”, de Gérard de Nerval, – contrasta escandalosamente com o autorretrato otimista que Artaud esboça em carta datada do dia 7 de fevereiro do mesmo ano e endereçada ao doutor Allendy. Trata-se, possivelmente, da primeira carta que escreve já na capital mexicana. Tracemos os antecedentes desta carta para melhor compreender o descompasso entre o retrato sofrido e o autorretrato iluminado, bem como o contraste entre os dois.

No dia 10 de janeiro de 1936, antes de tomar no porto de Antuérpia o navio que o levaria ao México, Artaud escrevera e enviara carta ao doutor Allendy, em que lamentava não poder ter-se despedido, como era desejado, dos amigos parisienses e, ao mesmo tempo, solicitava um favor ao doutor e também astrólogo.

Vous me feriez un immense plaisir, et c’est un service de la dernière utilité que je vous demande, si vous pouviez consulter mon ciel et tirez de mon horoscope quelques précisions détaillées sur ce qui m’arrivera là-bas [no México]. Puisqu’une partie de vos prédictions s’est déjà réalisée. Je pense que cela doit vous donner une indication précieuse concernant la façon d’interpréter le reste. Si vous voyez un événement saillant en tant que fait, évidemment je serai heureux de l’apprendre (...)

Interrompo a frase e a citação e retomo-as em seguida, pois nesta segunda parte delas Artaud define o modo como compreende a astrologia:

(...) mais en général vous savez comment je considère l’astrologie: non comme un moyen de basse divination analytique et objective. Mais comme une série d’indications intérieures. Des trajets et des modifications affectives. Une orientation synthétique des vertus des astres. Ce sont ces mouvements me concernant que j’aimerais apprendre en fonction d’un départ qui s’est effectué.

Ao final da carta, fornece a data prevista para o desembarque no México, 8 de fevereiro, e pede ao correspondente para endereçar a resposta aos cuidados da Légation de France, onde irá buscar o correio.

Não é de todo artificioso indicar que as previsões astrológicas4 do doutor Allendy estão por detrás da forte carga de otimismo que alicerça tanto o autorretrato iluminado quanto o projeto político-cultural de viagem ao México. Em anotações do dia 14 de novembro de 1935, que se encontram precedidas e seguidas por notas e esquemas didáticos sobre várias religiões e vários sistemas esotéricos5, Artaud transcreve previsões feitas pelo citado doutor (“Dicté par Allendy”, eis o que está escrito no cabeçalho da entrada): “Mercure concerne voyage qui répondra à espèce d’intuition et sentiment occultes prémonitions. Le voyage se fait à travers difficultés grâce à un effort. Grande puissance éloquence et persuasion”. Essas anotações otimistas sobre a necessidade da viagem ao México, e outras mais, substantivam o papel que a astrologia (e o ocultismo de maneira geral) tinha na condução da vida de Artaud naqueles anos decisivos.

Poucas folhas depois da passagem citada, Artaud escreve: “si un homme n’a pas la notion de Vénus, peu importe de savoir quand Vénus entre dans telle ou telle maison et passe à tel dégré du Zodiaque, etc./ Révolution des astres est un fait d’une cardinale précision.” E depois de uma leitura dos astros, anota no mesmo maço de folhas soltas: “Ceci ne règle pas mon tempérament, mais me donne des possibilités d’agir d’après ce signe, j’absorbe, j’ai des intuitions...”

Apesar de não se ter o texto da carta enviada por Allendy aos cuidados da Légation de France no México, a resposta de Artaud à mesma, datada, como vimos, de 7 de fevereiro, não deixa dúvidas de que aquela continha bons fluidos. Basta ler as palavras iniciais: “Votre lettre me bouleverse par son amitié attentive et par l’émouvante clarté de ses vues, qui rejoint tout ce merveilleux qui m’entoure étonnament. Pas une de vos paroles qui ne corrobore ce qui m’arrive.” Com o apoio espiritual das palavras do médico e astrólogo, o poeta está pronto para enfrentar galhardamente os percalços da viagem a um país estrangeiro onde espera operar uma urgente transmutação dos valores ocidentais. O maravilhoso otimismo reinante é tanto mais afirmativo, porque, durante a curta estadia do navio no porto de Havana6, Artaud conhecera um “sorcier noir” que lhe tinha oferecido uma espada mágica, ensinando-lhe, ao mesmo tempo, o que ele devia compreender da vida “pour que le monde d’images qui est en [lui] se décide dans un certain sens”. Em outra carta, Artaud reafirma o poder dos ritos dos negros cubanos como auspicioso fio condutor de sua vida futura: “Je ne vais pas au hasard, mais j’ai depuis Cuba un étrange filon. J’ai une chose précieuse à trouver...”, acrescentando: “Je suis venu au Méxique pour rétablir l’équilibre et briser la malchance”. Finalmente, ainda na citada carta ao doutor Allendy, não pode passar despercebido o fato de Artaud afirmar que tinha se “desintoxicado”7 durante a travessia do Atlântico.

Para o que nos interessa mais de perto, a primeira frase da carta enviada da Cidade do México é a mais definitiva de todas: “J’arrive à Mexico un Vendredi et un 7 et nous sommes en février 1936”. Madeleine Turrell Rodack, em sua tese de doutorado Antonin Artaud et la vision du Mexique, foi a primeira a decodificá-la, reiterando também o tom “otimista” da carta. Diz ela:

On peut trouver l’explication [da frase] dans le langage des nombres où ceci représente la combinaison de deux “trois”. Le cinquième jour de la semaine [sexta-feira] ajouté à la date [dia 7] donne 12=3, selon la réduction cabbalistique. Le deuxième mois [fevereiro] ajouté au chiffre de l’année [1936] donne 21=3. C’est ainsi un trois à rebours. On trouve de cette manière deux ternaires qui peuvent se représenter par les deux triangles, l’un droit, l’autre renversé, qui forment l’hexagramme du Sceau de Salomon, bien connu d’Artaud et du docteur Allendy.

Como informam os livros especializados, o selo de Salomão “totaliza, verdadeiramente, o pensamento hermético” e aparece “como a síntese dos opostos e a expressão da unidade cósmica, assim como a sua complexidade”. Não há nada a temer. Na Cidade do México, o sonho do passado aguarda Antonin Artaud. A mise-en-scène da metamorfose do passado no futuro, da cultura nacional em utopia universal será de sua responsabilidade.

3. A história impõe o presente

Como o poeta e dramaturgo Antonin Artaud, tão consciente da difícil tarefa de persuasão das autoridades nacionais e tão seguro do caminho que deveria imprimir ao México índio e revolucionário, transforma-se no “desdichado” que perambula solitário e drogado pelas ruas da capital do México? Será que a posição que adota (a que prolonga, como vimos, a tradição secular dos índios e permanece rebelde a todo progresso), em meados da década de 1930, é a menos rentável e a mais perigosa cultural e politicamente?

Os encontros interculturais proporcionados pelos artistas em viagem ao estrangeiro nem sempre são felizes. A história das letras e das artes tende a valorizar somente os encontros que dão certo. Nesses casos, existe de uma parte e da outra um campo aberto de possibilidades comuns que torna possível o congraçamento produtivo entre pares. Realiza-se uma espécie de intercâmbio rentável, segundo princípios de uma economia primitiva, do escambo, onde os elementos de troca de uma e da outra cultura encontram atores simpáticos e carentes, flexíveis e permeáveis à outra cultura. Os elementos culturais heterogêneos se combinam, então, em produtos homogêneos e híbridos, originais e ricos de seiva que, por sua vez, servirão de combustão para outros e novos produtos.

Dois artistas conterrâneos, vivendo na mesma cidade estrangeira, diariamente convivendo no mesmo local de trabalho, interessados em princípio por uma mesma estética, já que são e continuarão sendo parceiros em trabalhos artísticos, não reagem, não se interessam e não se intrometem no novo meio sociocultural da mesma forma. Haja vista o caso do poeta e dramaturgo Paul Claudel e do compositor e músico Darius Milhaud. O primeiro foi embaixador da França no Brasil durante dois anos (1917-1918) e o segundo, seu secretário durante o mesmo período. Claudel considera o país como “un paradis de tristesse” e só encontra companhia entre os colegas diplomatas, como os ingleses, ou entre as grandes figuras da arte europeia que se apresentam na cidade do Rio de Janeiro (como Nijinski e os balés russos, Anna Pavlova, Arthur Rubinstein etc.). Por demais eurocêntrico e elitista, por demais católico e conservador, Claudel não consegue enxergar nem ouvir a riqueza desse outro Brasil, negro e pouco contaminado pela arte europeia, que está presente na música popular. Depois de ter participado duma noitada no Assyrio, anota no Journal: “les femmes qui dansent convulsivement, et de l’orchestre partent tout à coup des chants et des rires de damnés qui vous donnent froid dans le dos” [grifo nosso].

Já Darius Milhaud conviverá no Rio de Janeiro tanto com músicos eruditos, quanto com músicos negros, anônimos ou quase. Deixar-se-á impregnar tão totalmente pela música erudita e popular brasileira8 que de algumas composições desta extrairá temas que farão parte das suas próprias composições. É o caso, por exemplo, de Le boeuf sur le toit, ou da suíte Saudades do Brasil, em que cada peça leva um nome de bairro do Rio de Janeiro.

Não falta a Artaud a curiosidade pela história e pela vida cotidiana na cidade do México. Não falta a Artaud o desejo de chegar sem nada em cima ao México. Não falta a Artaud o desejo de conhecer políticos e artistas mexicanos para melhor dialogar com eles e se integrar a seu modo de vida. Chega a escrever e publicar uma petulante “Carta aberta aos Governadores dos Estados”. Cardoza y Aragón surpreende com rara felicidade o papel e o peso que o real tinha no seu dia a dia: “Vivía tanto en el mundo que se ahogaba de realidad”. Sem ouvidos para as suas palavras, Artaud se aproxima do povo anônimo e conversa com qualquer um nas ruas boêmias e malandras ao redor da praça Garibaldi; entrega-se como nunca às drogas, chegando a constantes humilhações para obter o indispensável, e pouco convive com artistas e figuras da elite mexicana. Desiludido com a pobreza da vida cultural metropolitana, não falta a Artaud o interesse por conhecer aquilo do México que escapa à influência europeia. A almejada e desesperada viagem que fará, ao final da sua estada, ao país dos Tarahumaras confirma o seu interesse. O melhor amigo de Artaud, Cardoza y Aragón não nos desmente: “No soy testigo de Artaud en México, calcinado por la droga y el sufrimiento. No hubo testigo alguno de su perenne vigia, de su afasia tantálica”. As únicas testemunhas serão os distantes índios Tarahumaras. Deles, nos resta o silêncio.

Falta a Cardoza y Aragón, sobra a Artaud o interesse em intervir na realidade mexicana. Ele quer transformá-la segundo uma direção utópica que reanimaria de vida o glorioso passado indígena numa espécie de redenção da grande destruição feita pelos colonizadores europeus. Aos olhos dos donos do poder, essa direção parecia contraproducente e perigosa. No México dos anos 1930 o futuro pertence ao presente, e o presente pertence ao PRN, então sob as ordens do presidente general Lázaro Cárdenas. Depois da Revolução russa e da crise mundial instaurada pela Depressão de 1929, os países periféricos tomam a dianteira na reforma agrária e comandam o processo econômico nacional, alicerçando o futuro e robusto Estado Nação. Implantam políticas de desenvolvimento próprio e soluções a curto prazo para os problemas sociais. O protecionismo econômico se alia ao paternalismo social. Os índios tarascos deram o apelido correto para Cárdenas: Tata [Papai] Lázaro.

Não há dúvidas de que Artaud sabe que está na terra do historiador e humanista José Vasconcelos, criador dos professores “saltimbanquis” que, em missões culturais pelo interior abandonado, falavam aos índios da Ilíada e dos Diálogos de Platão. Artaud sabe disso e quixotescamente contra-ataca, combatendo a europeização do índio pela lavagem cerebral.

Essas questões, de maneira implícita e explícita, fazem parte da sua primeira apresentação pública. Na conferência “El hombre contra el destino”, proferida no Anfiteatro Bolívar da Escuela Nacional Preparatoria, Artaud fala primeiro do desconhecimento que o homem moderno tem do saber, para em seguida afirmar que se alguém falasse, entre cientistas mecanizados às voltas com os seus microscópios, de um determinismo secreto baseado em leis superiores do mundo, despertaria risadas. Artaud é esse alguém. Continua ele:

Quand on parle aujourd’hui de culture les gouvernements pensent à ouvrir des écoles, à faire marcher les presses à livres, couler l’encre d’imprimerie, alors que pour faire mûrir la culture il faudrait fermer les écoles, brûler les musées, détruire les livres, briser les rotatives des imprimeries.

Continua ele: pensamento e razão, quando querem dar conta de Deus, da natureza, do homem, da vida, da morte e do destino, contribuem para a “perda do conhecimento”.

Na capital do México, Artaud queria modelar um império do saber esotérico. No Palácio de los Pinos, Cárdenas cuidava, com zelos de pai dos pobres, de um país periférico. Para isso, mandara instalar no próprio gabinete um telégrafo. Seria a maneira de todo e qualquer um se comunicar diretamente com o presidente.

“El hombre contra el destino” parece ter sido escrito por alguém que conhecia de cor a biografia do presidente Cárdenas (e do historiador José Vasconcelos) e estava disposto a contrariá-la. Desde a época em que era governador de Michoacán, Cárdenas tinha transformado as missões culturais, criadas por José Vasconcelos, em algo bem menos literário e filosófico e muito mais prático e palpável. Segundo Enrique Krause,

su cometido principal era ‘desfanatizar’ y ‘desalcoholizar’ [os camponeses e os índios]. Lo intentaban como los curas, mediante pequeñas representaciones teatrales. Esta obra se complementaba con clases de jabonería, conservación de frutas y fomento deportivo”.

Nessa mesma época, a Confederación Revolucionaria Michoacana del Trabajo, ainda segundo o mesmo autor, “decidió llevar a cabo una depuración ideológica dentro del ámbito normalista para excluir a todos los maestros que carecían de una ‘ideologia avanzada’.” Por outro lado, como bom discípulo do presidente Calles, Cárdenas media “el progreso en metros lineales, cuadrados y cúbicos”.

Artaud talvez tenha tido a “buena dicha” de se beneficiar de um período pacífico na administração Cárdenas. No dia seguinte ao dia mágico em que chega à Cidade do México, no dia 8 de fevereiro, o presidente anota em seu diário: “Hoy expedí la Ley de Indulto para todos los procesados políticos, civiles y militares, cuyo número pasa de diez mil personas, que han tomado parte en rebeliones o motines en administraciones pasadas”. Logo depois da chegada de Artaud, regressam ao país as grandes figuras da oposição. Mas se Artaud se beneficiou da “paz” foi minimamente, tendo apenas as traduções de poucos escritos seus aceitos aqui e ali no jornal governista. Na verdade, Artaud era pouco perigoso e facilmente neutralizável. O mesmo não ocorria com o antigo mestre do presidente, o general Plutarco Elías Calles. Este, no dia 9 de abril de 1936, contrariando o texto da “Ley de Indulto”, é obrigado a partir para o exílio nos Estados Unidos.

Plutarco Elías Calles sabotava o poder presidencial. Antonin Artaud, “el desdichado”, deixava definitivamente a metrópole para se embrenhar no distante país dos Tarahumaras na condição semioficial de “saltimbanco” às avessas. Praticamente o único pedaço de terra que Cárdenas, durante a viagem a todos os cantos da República que precedeu a sua escolha como presidente, não visitou. Onde o presidente não pôs os pés, ali Artaud reinou.

1.Cf. ARTAUD, Antonin. “Lettre ouverte aux Gouverneurs des Etats du Mexique”. Artaud segue: “Pour moi la culture de l’Europe a fait faillite et j’estime que dans le développement sans frein de ses machines l’Europe a trahi la véritable culture; et moi, à mon tour, je me veux traître à la conception européenne du progrès.”

2.Para uma compreensão do papel da embriaguez no universo de Cardoza y Aragón, recomenda-se a leitura do seu extraordinário Elogio de la Embriaguez (1931).

3.Cf. ARTAUD, Antonin. “La culture éternelle du Mexique”: “Je connais presque tout ce qu’enseigne l’Histoire sur les diverses races du Mexique et j’avoue m’être permis de rêver en poète sur ce qu’elle n’enseigne pas. Entre les faits historiques connus et la vie réelle de l’âme mexicaine il y a une marge immense où l’imagination – et j’oserai même dire l’intuition personnelle – peut se donner libre cours”.

4.Para uma reprodução do tema astrológico de Artaud e sua leitura, consultar Obliques (Paris, n. 10-11, p. 246-248, 4e trimestre 1976).

5. ARTAUD, Antonin. Pages de Carnet. Notes Intimes. In: Oeuvres Complètes, v. VIII.

6. Apesar de pouco ou nada se saber da curta estada de Artaud em Cuba, deve-se assinalar, no tocante a esse encontro com um “sorcier noir” e valendo-se de informações tomadas a Fernando Ortiz, que os estivadores de Havana, todos eles fiéis de Iemanjá, são conhecidos pelas suas práticas de santería no outro lado da baía, em Regla, e que no dia 2 de fevereiro, dia em que certamente ele lá estava, se comemora o dia de Nossa Senhora da Candelária, dia de oferendas para os giri. Apoiado na descrição da espada feita por Artaud em carta a André Breton e, levando em consideração o meio cubano onde ficou, tudo indica que o presente recebido foi uma espada de Ogum.

7.Nesse sentido, assinale-se que, desde setembro de 1935, Artaud escreve ao doutor Toulouse a fim de ser aceito de novo, agora por vontade própria, no Hospital Henri-Rousselle,. a fim de se desintoxicar. Só em novembro do mesmo ano é que ele se interna.

8.Consultar Notes sans musique (Paris, Julliard, 1949). De um lado, “Oswald [Guerra] composait de la musique imprégnée d’influence française, sa femme Nininha, douée surtout pour la composition, était surtout une excellente pianiste. [...] Ils m’initièrent à la musique de Satie que je connaissais alors très imparfaitement et je la parcourus avec Nininha, qui déchiffrait exceptionnellement bien tout la musique contemporaine”. Do outro lado, “Les rythmes de cette musique populaire m’intriguaient et me fascinaient. Il y avait dans la syncope une imperceptible suspension, une respiration nonchalante, un léger arrêt qu’il m’était très difficile de saisir. J’achetai alors une quantité de maxixes et de tangos [chorinhos, em português atual]; je m’efforçai de les jouer avec leurs syncopes qui passent d’une main à l’autre”.

Recebido: 05 de Fevereiro de 2017; Aceito: 18 de Abril de 2017

*

Silviano Santiago é autor do romance Viagem do México (Rocco, 1995), que narra a viagem de Antonin Artaud àquele país no ano de 1936. O artigo foi apresentado na Stanford University, por ocasião de simpósio “Movements of the Avant-Garde”, realizado em maio de 1997, e publicado com o título Los astros dictan el futuro. La historia impone el presente na revista Zama, em 2012.

Silviano Santiago é escritor, crítico literário, ensaísta, poeta e professor. Em 2017, lançou Machado (Companhia da Letras) e Genealogia da ferocidade: ensaio sobre Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa (Companhia Editora de Pernambuco).

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