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ARS (São Paulo)

Print version ISSN 1678-5320On-line version ISSN 2178-0447

ARS (São Paulo) vol.15 no.29 São Paulo Jan./June 2017

http://dx.doi.org/10.11606/issn.2178-0447.ars.2017.131502 

Artigos

Medicados e satisfeitos

Medicated and satisfied

Ricardo Lísias* 

* Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

RESUMO

O texto trata das intersecções entre literatura e artes visuais em The Illogic of Kassel de Enrique Vila-Matas e Leaving the Atocha Station de Ben Lerner. Ambos autores são “aliados da arte contemporânea”, como o próprio Lísias confessa ser, e seus livros considerados romances, assim como obras plásticas.

Palavras-Chave: Arte e literatura; Estação Atocha; Não há lógica em Kassel

ABSTRACT

The text deals with the intersections between literature and visual arts in The Illogic of Kassel by Enrique Vila-Matas and Leaving the Atocha Station by Ben Lerner. Both authors are "allies of contemporary art", as Lysias himself admits being too. Their books, which are considered novels, are also seen as fine arts works.

Key words: Art and literature; Atocha Station; The Illogic of Kassel

Nuno Ramos, Balada, 1995. Livro, pólvora e bala. 

São muitas as formas com que a literatura, desde sempre, dialoga com as artes plásticas. Um escritor como Sergio Sant’Anna, por exemplo, utiliza a écfrase como motor em alguns de seus melhores contos. João Cabral de Melo Neto e Laura Erber impõem à sua poesia um diálogo profundo e criativo com a plasticidade do vocábulo e o alcance da superfície em que vão impressos. A poesia concretista tem as artes plásticas como base. O romancista W. G. Sebald lida com imagens de uma forma absolutamente particular e, sem exagero, quase inaugura um gênero narrativo novo. Mesmo o complexo diálogo que as artes plásticas acabaram enredando com o mercado de capitais é alvo de diversas narrativas, das que ficam na blague às que terminam em denúncias.

Recentemente, o Brasil publicou a tradução de dois romances que dialogam com a arte contemporânea de forma bastante inusitada e cheia de nuances e sugestões. Estação Atocha de Ben Lerner, chegou ao Brasil em 2015, depois de sair nos Estados Unidos há alguns anos e receber uma série de elogios.1 Antes de publicar esse primeiro romance , o autor lançou alguns volumes de poesia igualmente bem recebidos e mantinha uma ativa produção como crítico de arte. Atualmente, além de continuar essas atividades (seu último título publicado é o ensaio The Hatred of Poetry.2) Lerner é professor no Brooklyn College.

Enrique Vila-Matas, por sua vez, já era bem conhecido no Brasil. Não há lógica em Kassel3 é, salvo engano, seu décimo título publicado por aqui, todos pela extinta editora CosacNaify. Escritor prolífico e seguro em vários gêneros, vem criando uma obra de forte capacidade de intervenção nas discussões sobre o alcance da literatura na vida cotidiana, os limites da linguagem e, mais amplamente, da forma e das possibilidades de expressão literária.

De fato, Não há lógica em Kassel , da forma particular que a ficção permite, coloca uma série de reflexões sobre a arte contemporânea, discutindo sobretudo o conceito de vanguarda. Ao ser convidado para participar da Documenta 13, em 2012, na cidadezinha alemã que dá título ao livro, Vila-Matas visita várias obras em exposição tentando não exatamente emitir um juízo de valor enfático sobre elas, mas observando o que criações às vezes muito estranhas podem despertar nele. Suas reações são diferentes conforme o estado de espírito, a companhia e o diálogo que a atividade que ele desempenhava na Documenta (ficar escrevendo em um restaurante chinês afastado e conversar com quem aparecesse) impunha. Como sabe que lida com um material muito novo e de difícil apreensão, Vila-Matas logo avisa que não compartilha do mau humor de muita gente para com tudo que é contemporâneo. O escritor quer acompanhar um por um dos trabalhos, dar uma chance a eles e ver o que acontece. Como ao mesmo tempo, é parte da exposição, fica claro por fim que para ele o que importa bastante no ambiente artístico contemporâneo é a experiência.

No caso do romance de Ben Lerner, Estação Atocha, a discussão fica praticamente toda voltada para as relações entre a arte e política. Ao receber uma bolsa para realização de um projeto artístico na Espanha (que incluía também o estudo do espanhol), o narrador passa o tempo entre o quarto em um sótão, as ruas de Madri e uma galeria de arte. Suas companhias, como aliás as de Vila-Matas, são todas do meio artístico. Empolgados com o talento do novo amigo, os galeristas propõem publicar uma edição limitada com a tradução para o espanhol de alguns de seus poemas e boa parte do romance se passa com a realização dessa obra.

Há aqui uma discussão sobre os mecanismos de financiamento da arte, aliás centro do excelente romance de Laura Erber, Os esquilos de Pavlov, mas não é a parte mais importante do livro. Estação Atocha parece girar em torno de uma questão: como reagir no mundo contemporâneo? No início, para o narrador, as respostas que a arte oferece são todas reduzidas e pouco efetivas: “Nutria profundo ceticismo a respeito das pessoas que alegavam que um poema ou uma música tinham ‘mudado a vida delas’, especialmente porque, observando-as antes e depois dessa experiência, não conseguia detectar a menor mudança”4.

Como nesse caso a política é um elemento hard da narrativa, um evento radical tinha que ocorrer. Aliás, ele está no título do livro: o atentado de Atocha, realizado por terroristas em 2004, leva o narrador e seus amigos para um turbilhão de urgências. Agora, o mundo se transforma em uma correria de reações e consequências.

Os artistas reagem como podem, alterando por exemplo a fisionomia de uma exposição, o que aliás tinha sido ideia no nosso narrador: “Eu me ouvi dizendo que ele deveria cobrir um dos quadros maiores com um pano preto em sinal de luto, um momento de silêncio visual. Ele achou a ideia genial e começou a discuti-la com Teresa numa rapidez incompreensível”5.Ele continua cético e distante de algum tipo de empolgação para com o objeto artístico, mas no dia do lançamento de sua plaquete de poemas na galeria, por fim admite que aquele universo, se não oferece nenhum tipo de redenção ou resposta mais completa, deixa-o feliz.

De certa maneira, e destacando que a conclusão vale com muito mais ênfase para o narrador de Vila-Matas do que o de Ben Lerner, é possível dizer que os dois são aliados da arte contemporânea e sentem que ela faz bem para eles. Gosto muito desses livros porque comigo acontece exatamente a mesma coisa.

Os narradores são bastante parecidos. Estão longe de casa e se debatem contra o idioma do lugar que lhes acolhe. Sentem-se deslocados e acabam acolhidos, como eu já disse, pelo ambiente das artes plásticas. A inserção nesse meio ainda tem a intenção de gerar textos, de gêneros diferentes, mas voltados para essa experiência artística singular.

A presença da política é forte, mas de naturezas um pouco diferentes em cada um dos dois. Se Ben Lerner mergulha narrador e personagens nos conflitos contemporâneos, Vila-Matas está imerso na questão do Holocausto, como sempre, aliás, com tudo o que diz respeito à Alemanha. Mesmo assim o desarranjo político do nosso tempo obviamente respinga no seu mergulho na Documenta.

Os dois narradores sofrem de certo transtorno psicológico. Mais arejado, o de Vila-Matas toma alguns calmantes e precisa administrar o sono e o cansaço com cuidado. Já o de Ben Lerner é quase hipocondríaco, está sempre acompanhado de algum comprimido e usa haxixe quase com a mesma frequência com que toma café. Mesmo assim, vive tenso.

Além disso, ambos lidam com a “mentira” como certa prática rotineira. Usei a palavra entre aspas pois acho que embora ela esteja nos dois romances, não pode ser encarada com os seus sentidos mais corriqueiros. Na verdade, acho que o engano funciona como uma espécie de ponte não só entre o narrador e as pessoas, mas entre elas e a arte e, de maneira ainda mais ampla, essa construção toda e o mundo.

Vila-Matas, logo no começo, se vê diante de uma pessoa que se apresenta como curadora da Documenta de Kassel, mas depois é informado de que se tratava apenas de sua assistente. Ela trocara a identidade para que o escritor não se ofendesse por ser recebido por uma pessoa de posição hierárquica supostamente inferior e com isso talvez não aceitasse o convite. Depois, esse jogo de identidades continua e se torna mais complexo.

No caso de Estação Atocha, é o narrador que se apresenta de maneiras diferentes para as pessoas aparentemente procurando observar como essas várias performances irão alterar o comportamento de suas companhias. Tanto no romance de Ben Lerner quanto em Não há lógica em Kassel, o procedimento é um pouco diferente do componente lúdico que ocupa parte da literatura contemporânea. Não tem nada a ver com o OULIPO, por exemplo. Não se trata de algum tipo de tentativa de ampliar os limites da linguagem através de restrições e de, com isso, colocá-la em teste.

Aqui, o que fica embaralhado, no jogo que vai da assinatura do autor ao narrador e dele para com a obra, é a própria identidade da literatura: ela também mente quando se prende à mera ficção mimética. É falsa a afirmação de que a realidade é apreensível pelas palavras. Os livros em análise não representam o real, mas sim tomam parte dele, assumindo mais de uma criação e várias identidades, portanto. A experiência de redação é a obra.

Dessa forma, minha resenha tratou de dois romances, sem dúvida, mas ao mesmo tempo de duas obras plásticas.

1. O título em português retirou o verbo “leaving” do original em inglês, Leaving the Atocha Station, e com isso atenuou um pouco a imediata impressão de evasão que o romance inteiro irá cultivar.

2.Traduzido como “O ódio pela poesia” por Leonardo Fróes, o ensaio acaba de ser publicado no Brasil. Cf. Serrote 25. Rio de Janeiro: IMS, 2017. Há também um livro de poemas de sua autoria traduzido no Brasil como Ângulo de guinada por Ellen Maria Vasconcelos. Cf. LERNER, Ben. Ângulo de guinada. São Paulo: e-galaxia, 2015.

3. VILA-MATAS, Enrique. Não há lógica em Kassel. São Paulo: CosacNaify, 2016. Tradução de Antonio Xerxenesky.

4. LERNER, Bem. Estação Atocha. Tradução de Gianluca Giuliando. São Paulo: Radio Londres, 2015. p. 9.

5.Idem. p. 147.

Recebido: 15 de Fevereiro de 2017; Aceito: 15 de Março de 2017

Ricardo Lísias é doutor em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorando pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Escritor, autor de, entre outros romances, Divórcio e A vista particular e do livro-objeto Inquérito policial – família Tobias.

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