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Ambiente Construído

versão On-line ISSN 1678-8621

Ambient. constr. vol.12 no.2 Porto Alegre abr./jun. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1678-86212012000200006 

ARTIGOS

 

Método para avaliação da qualidade de processos construtivos em empreendimentos habitacionais de interesse social

 

Method for evaluating the quality of construction processes in social interest housing projects

 

 

Letícia Ramos BerrI; Carlos Torres FormosoII

INúcleo Orientado para a Inovação da Edificação - Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Rua Osvaldo Aranha, 99, Centro - Porto Alegre - RS - Brasil CEP 90035-190 Tel.: (51) 3308-3518 E-mail: leticia.berr@ufrgs.br
IINúcleo Orientado para a Inovação da Edificação - Universidade Federal do Rio Grande do Sul E-mail: formoso@ufrgs.br

 

 


RESUMO

As dificuldades em controlar, manter e melhorar a qualidade de execução de obras na construção civil têm sido evidenciadas em diversos trabalhos, apesar da disseminação da certificação de sistemas de gestão da qualidade no Brasil. Especificamente no segmento de habitação de interesse social, as empresas construtoras atuam em um contexto de elevado nível de atividade e limitada margem de lucro, exigindo que a qualidade dos processos seja controlada, de forma a evitar perdas. O presente trabalho propõe um método para a avaliação da qualidade de processos construtivos em termos de conformidade em empreendimentos de habitação de interesse social. Buscou-se identificar os processos que mais impactam na qualidade do produto habitação, baseado na bibliografia, na percepção de especialistas e nas reclamações de usuários. Como principais contribuições do trabalho, destacam-se o método proposto e os resultados obtidos com sua operacionalização na forma de indicadores de conformidade das obras. Os dados foram coletados em empreendimentos da Região Metropolitana de Porto Alegre e das cidades de Caxias do Sul e Pelotas, no Estado do Rio Grande do Sul.

Palavras-chave: Indicadores de qualidade. Conformidade. Medição de desempenho. Habitação de interesse social.


ABSTRACT

The difficulties of controlling, maintaining and improving the quality of construction processes have been pointed out in several studies, despite the dissemination of the certification of quality management systems in Brazil. In the case of the social interest housing subsector, construction companies operate in a context of high level of activities and limited profit margins, which demands the quality of processes to be controlled in order to avoid waste. This research work proposes a method for assessing quality of construction processes in terms of conformance in social interest housing projects. The processes that most affect the quality of housing projects were identified based on the literature, on the perception of experts, and on complaints from users. The data obtained results in a set of quality indicators related to the conformance of construction processes. The main contribution of this investigation is the proposed method, and the indicators of process compliance obtained during its implementation. Data were collected in projects from the Metropolitan Region of Porto Alegre, and from Caxias do Sul, and Pelotas, in the State of Rio Grande do Sul.

Keywords: Quality Indicators. Conformance. Performance measurement. Social interest housing.


 

 

Introdução

Nos últimos anos o setor da construção vem realizando esforços para a elevação da qualidade de seus produtos e serviços por meio de ações voltadas à redução de prazos e custos. Muitas empresas construtoras vêm buscando melhorar seu desempenho, principalmente para a obtenção de certificação com base na série de normas ISO 9000 (ABNT, 2008) e no Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade no Habitat (PBQP-H).

Especificamente no segmento de habitação de interesse social, as empresas construtoras necessitam controlar a qualidade dos processos de maneira eficaz, para atuar em um contexto diferenciado de empreendimentos com limitadas margens de lucro. Também, neste segmento, a Caixa Econômica Federal (Caixa), como agente de políticas habitacionais do Governo Federal, necessita de informações sobre a qualidade das habitações, de maneira a apoiar as ações de aprovação e controle dos empreendimentos. Com esse propósito, a Caixa realiza periodicamente vistorias à produção das unidades habitacionais visando verificar o avanço físico das construções, sua qualidade, bem como o desempenho das construtoras (BARTZ, 2007).

Entretanto, existem dificuldades no controle da qualidade dos processos construtivos em empreendimentos habitacionais de interesse social (EHIS) que são fortemente relacionadas a obstáculos tecnológicos e organizacionais das empresas, tais como dificuldades de implementação dos sistemas de gestão da qualidade (SGQ), deficiências no gerenciamento dos canteiros de obras (JESUS, 2004), e ineficácia dos mecanismos de fiscalização e acompanhamento da execução das obras (REIS; MELHADO, 1998; JESUS, 2004). Tais problemas podem ser agravados caso não existam sistemas de informação capazes de identificar rapidamente as falhas nos processos de produção (ARDITI; GUNAYDIN, 1997), comprometendo a disseminação do conhecimento interna e externamente às empresas (ROY; LOW; WALLER, 2005). Para Jesus (2004), as ações de controle da qualidade dos agentes públicos em obras de interesse social também são falhas por enfatizarem a liberação de recursos financeiros. De fato, os estudos de Bartz (2007) e Richter (2007) indicaram que as ações das construtoras, dos órgãos promotores e de fomento destinadas à elevação da qualidade das habitações possuem limitações. Os resultados do Projeto de Tecnologia e Gestão no Processo de Produção de Habitação de Interesse Social (TECNOLOGIA..., 2009) reforçaram a ocorrência desses problemas, apontando a existência de esforços isolados e de baixo impacto por parte dos agentes do setor para a melhoria da qualidade. Alguns estudos têm relacionado as falhas na gestão da qualidade de empreendimentos habitacionais de interesse social no Brasil, tanto na etapa de projeto como de execução, à elevada incidência de manifestações patológicas nas edificações (ANDRADE; DAL MOLIN, 1998; FIESS et al., 2004; RICHTER, 2007; ALEXANDRE, 2008). Esse tipo de problema também tem sido identificado no segmento de habitação de interesse social de outros países (ROY; LOW; WALLER, 2005).

Apesar da importância desse tema, é escassa a literatura sobre a construção de sistemas de controle da qualidade de execução dos processos que produzam informações de maneira sistemática e expedita. Nesse sentido, o uso de tecnologia da informação para as atividades de coleta, processamento, distribuição e análise pode contribuir com a redução de tempo, esforços e recursos, facilitando a utilização das informações pelos diversos agentes envolvidos (COSTA, 2003; SCHEER et al., 2006).

O presente artigo apresenta um método de avaliação da qualidade de processos construtivos empregados em EHIS, cujo objetivo é auxiliar nas ações de melhoria da qualidade dos empreendimentos. O desenvolvimento desse método parte da premissa de que um processo sistematizado e ágil de acompanhamento de obras por parte de um agente externo pode fornecer informações para apoiar a tomada de decisão dos diferentes agentes envolvidos com a provisão de EHIS. Esse método foi testado em 24 empreendimentos vinculados ao Programa de Arrendamento Residencial (PAR) e Minha Casa Minha Vida (MCMV) no Rio Grande do Sul.

 

Medição de desempenho em qualidade

A medição de desempenho constitui-se em um dos requisitos da norma ISO 9000 (ABNT, 2008), sendo esta um elemento importante dos sistemas de gestão da qualidade (SGQ), visando à análise e melhorias nos processos, produtos, além do SGQ em si. Assim, a exigência de certificação de SGQ vem disseminando no setor a medição de desempenho (COSTA, 2003), visando indicar a necessidade de melhorias internas, estabelecer metas para comparar com o desempenho de outras organizações, e indicar as intervenções mais importantes ou viáveis (SINK; TUTTLE, 1993; NEELY, 2004). Nesse sentido, a última revisão da norma ISO 9001, em 2008, reforçou a necessidade de análise e ações de melhorias dos processos abordados nos SGQ.

Segundo Souza e Abiko (1997), medidas de desempenho são expressões quantitativas que representam uma informação obtida a partir da medição e análise de uma estrutura produtiva, de seus processos e produtos. Os mesmos autores classificam os indicadores de desempenho em dois grupos, produtividade e qualidade, sendo o último referente ao desempenho do processo ou produto no atendimento às necessidades dos clientes internos e externos (SOUZA; ABIKO, 1997).

Para Lantelme (1994), qualquer indicador de desempenho deve atender a alguns requisitos básicos, como seletividade, representatividade, simplicidade e validação. Segundo Koskela (1992), as medidas devem ser simples, visando reduzir os esforços em sua obtenção, já que não agregam diretamente valor ao produto. Plossl (1991) sugere medidas mais agregadas para a gestão dos processos e a disseminação delas em formatos que possibilitem uma análise visual. Garvin (2002) sugere que os sistemas de informação sobre a qualidade devem atender a alguns requisitos: especificidade e detalhe dos dados, rapidez no feedback, e a clara identificação do nível hierárquico no qual as informações são relatadas (GARVIN, 2002). Juran e Gryna (1988) enfatizam também a necessidade de planejar bases de dados sobre qualidade, de forma a considerar a necessidade de entrega de informações a todos os níveis hierárquicos, alterando somente seu formato.

Para Slack et al. (1997), o controle da qualidade é uma abordagem sistemática de detecção e tratamento dos problemas de qualidade da produção. Garvin (2002) salienta que esse controle necessita de informações confiáveis em tempo oportuno, sendo importante o monitoramento do progresso alcançado nos programas de melhorias. Assim, o desenvolvimento de sistemas de medição de desempenho deve identificar o fluxo de informações para apoiar a tomada de decisão em pontos-chave ao longo do processo de desenvolvimento do produto (COSTA, 2003), fornecendo informações aos diferentes níveis de gestão. Para isso, a compreensão dos problemas e de suas causas (GARVIN, 2002), o conhecimento das reais necessidades de informação (LANTELME, 1994) e a implementação de ciclos de controle (CAMPOS, 1992) são necessários para que a medição seja eficaz, assim como as ações preventivas e corretivas provenientes destas.

As informações sobre as etapas da construção podem retroalimentar o sistema de gestão da qualidade das empresas construtoras de forma proativa ou reativa (SOUZA; ABIKO, 1997; OLIVEIRA, 1999). Por um lado, os indicadores de qualidade podem avaliar os processos internos da empresa, permitindo uma análise mais localizada sobre aspectos operacionais (GRANDO; GODOY; WACHHOLZ, 1998; OLIVEIRA, 1999), ou seja, auxiliando em decisões que previnam ou atenuem a propagação de erros em seus momentos iniciais (HOPKINS, 2007). Por outro lado, o uso de medidas reativas que quantifiquem ações que já ocorreram (HOPKINS, 2007) podem apoiar atividades de planejamento de projetos futuros, ao invés de colaborar com a retificação do problema identificado. Mesmo assim, as medidas reativas são úteis nos SGQ e indicam a preocupação efetiva da organização em aprender com erros cometidos (OLIVEIRA, 1999).

 

Método de pesquisa

Neste estudo, optou-se pela estratégia de pesquisa denominada constructive research ou pesquisa construtiva. Essa estratégia tem sido aplicada em diversas áreas do conhecimento, entre as quais a administração, a medicina e a tecnologia da informação. Segundo Beitz (1994), tal estratégia visa a analisar sistemas técnicos (produtos e processos) e sua relação com o ambiente (humano, natureza e outros sistemas) utilizando métodos científicos. Lukka (2003) divide a pesquisa construtiva em seis grandes fases:

(a) identificação de problemas relevantes do mundo real;

(b) obtenção de um conhecimento profundo sobre o assunto;

(c) produção de um artefato inovador para a solução do problema;

(d) análise do escopo de aplicação do artefato;

(e) vínculo entre a pesquisa, o artefato e o conhecimento teórico existente; e

(f) reflexão dos resultados obtidos diante da teoria existente.

A pesquisa foi organizada em quatro fases, alinhadas com a divisão proposta por Lukka (2003), como mostra a Figura 1:

(a) análise de pesquisas anteriores;

(b) estudo inicial;

(c) desenvolvimento do artefato (método); e

(d) análise das contribuições do artefato.

Ao longo de todo o trabalho, foi realizada uma revisão bibliográfica.

Na primeira fase buscou-se entender o problema prático que foi considerado como ponto de partida para este trabalho, relacionado à falta de conformidade das obras a partir de uma revisão bibliográfica com foco em EHIS.

Na segunda fase, foram estabelecidas as premissas para a construção do método de coleta, processamento e análise de informações sobre a qualidade dos EHIS. Essas premissas constituem-se em um conjunto de objetivos que foram estabelecidos para o desenvolvimento do método proposto, considerando as limitações que existem na atividade de acompanhamento de obras e oportunidades de melhorias existentes. As premissas foram identificadas por meio de entrevistas não estruturadas com profissionais com experiência em controle das obras de habitação de interesse social e na revisão bibliográfica.

Em paralelo, buscou-se entender o processo produtivo dos EHIS, a partir de dados secundários sobre características técnicas e materiais utilizados em empreendimentos já entregues e na revisão bibliográfica sobre técnicas construtivas. Também, a partir de questionários e participação em reuniões, buscou-se obter a percepção de um grupo de profissionais do setor sobre os problemas mais recorrentes nos processos construtivos investigados. Ainda, foram analisados dados de reclamações de usuários após a ocupação de empreendimentos, relacionadas à falta de conformidade das edificações. Esse conjunto de atividades contribuiu para a identificação dos processos construtivos críticos, bem como para a construção da matriz de recomendações técnicas. Ao final dessa fase foi definida a tecnologia a ser empregada para a informatização do método proposto com base nas premissas para sua construção e nas possibilidades de desenvolvimento de softwares que pudessem atender às necessidades do estudo.

A fase de desenvolvimento do artefato foi dividida nos seguintes grupos de atividades:

(a) três ciclos de aplicação, avaliação e melhorias; e

(b) análises finais.

O primeiro ciclo ocorreu a partir da proposta piloto dos instrumentos de coleta de dados (IC). Os IC foram aplicados em campo, visando avaliá-los a partir da medição dos tempos de coleta, das dificuldades de compreensão do conteúdo, de observação e de medição por parte da equipe de pesquisa, além da avaliação da escala de respostas empregada. O segundo ciclo objetivou o aprimoramento dos IC, com foco na consistência interna. Assim, eles foram submetidos à avaliação por um grupo de especialistas. Também nessa etapa foi elaborado o planejamento estatístico da coleta, que incluiu os constructos de resposta estatística, a definição do cálculo amostral e a formulação de indicadores de conformidade. Já a avaliação em campo contribuiu para testar as melhorias implementadas e o cálculo amostral inserido nesta versão. A avaliação dos especialistas, por sua vez, contribuiu para a análise técnica do conteúdo dos IC e para identificar o impacto de cada item de verificação dos IC sobre a qualidade de execução dos processos em estudo. Ao final desse ciclo, foram definidos os requisitos do método para o desenvolvimento da versão em mídia digital. No último ciclo desenvolveu-se um plano de distribuição de informações, a partir de identificação das necessidades de seus potenciais usuários, bem como da definição do formato de entrega dessa informação. Também foram aplicados em campo os IC na versão final, em mídia impressa e digital.

Nas análises finais, o método foi avaliado por seus usuários, sendo estes os pesquisadores que o utilizaram ao longo da pesquisa e os técnicos da Caixa que avaliaram a proposta final. Também foi elaborado um diagnóstico do processo de acompanhamento de obra e analisados os resultados obtidos com a aplicação do método. Os objetivos dessas atividades foram:

(a) avaliar a versão digital do método que foi utilizada em paralelo com a versão impressa;

(b) verificar a qualidade em uso da versão digital do método;

(c) identificar possíveis alterações na forma de atuação da Caixa, devido às alterações em programas habitacionais promovidos pelo governo; e

(d) avaliar as possibilidades de apresentação de dados, utilizando os gráficos e as estatísticas geradas.

Ao final, o método foi avaliado com base em evidências surgidas ao longo do trabalho e nos resultados obtidos com sua aplicação a partir dos constructos utilidade e aplicabilidade.

 

Resultados

Neste item, são apresentadas as características do ambiente de implantação para o qual o método foi desenvolvido, bem como a identificação dos requisitos dos usuários dele. Também são descritas as principais etapas de construção do método e apresentados os resultados obtidos com sua aplicação.

Ambiente de implantação do método proposto

O processo de acompanhamento de obras da Caixa-RS é coordenado pela Gerência de Desenvolvimento Urbano (Gidur), setor da Caixa que também avalia e aprova novos empreendimentos. Esse processo possui uma estrutura organizada em quatro vistorias distintas:

(a) vistoria extraordinária;

(b) vistoria de medição;

(c) vistoria de entrega do imóvel; e

(d) monitoria de alvenaria estrutural.

O Quadro 1 apresenta os objetivos de cada vistoria, bem como o tipo e o destino das informações obtidas nessas atividades. O método foi desenvolvido para ser utilizado nos dois primeiros tipos de vistorias, nas quais são feitas medições de avanço físico e avaliações da qualidade da obra, normalmente apenas com base em observação visual, de maneira não sistemática e sem o auxílio de instrumentos. Essas vistorias têm duração média de uma hora por empreendimento, sendo feitos registros fotográficos de partes da obra julgadas importantes pelos técnicos. A Caixa emite relatórios às empresas construtoras apenas no caso de serem identificados problemas na obra que comprometam sua entrega. O único tipo de retroalimentação documentada entregue às empresas vem dos relatórios de monitoramento da alvenaria estrutural. Estes possuem recomendações para a melhoria da qualidade desse processo, mas as informações geradas não são utilizadas de forma sistemática pela Caixa para gerar uma retroalimentação ampla sobre a qualidade do conjunto de obras em andamento.

De maneira geral, este estudo ratificou as conclusões do diagnóstico sobre o processo de acompanhamento de obras realizado por Bartz (2007), apontando problemas semelhantes, tais como a falta de padronização dos relatórios de vistoria das obras; a inexistente complementaridade entre as informações das diferentes vistorias; a ausência de disseminação das informações das vistorias para os demais setores da Caixa e para as empresas construtoras; e a inexistência de uma base de dados contendo informações formalizadas e sistemáticas sobre a qualidade das obras para uso interno da Caixa. Ou seja, as informações coletadas têm apenas um uso local, sendo utilizadas para analisar a obra em questão, sem uma avaliação longitudinal do desempenho da empresa, pelo conjunto de obras, o que possibilitaria uma comparação entre diferentes empresas ou regiões.

 

Resultados do estudo inicial

Premissas para a construção do método

As premissas para a construção do método foram divididas em três categorias:

características da atividade de acompanhamento de obras;

definição de critérios de avaliação da qualidade dos empreendimentos e do desempenho das construtoras; e

características dos instrumentos de coleta e processamento dos dados.

O Quadro 2 descreve o conjunto de premissas adotado.

Identificação dos processos construtivos críticos

Os processos construtivos usuais em HIS foram identificados a partir das especificações técnicas da Caixa e de um banco de dados de reclamações de usuários, que continha as características construtivas de 45 empreendimentos já entregues. Foi então elaborada uma lista de processos construtivos críticos, considerando uma análise de frequência de reclamações de usuários, a partir do banco de dados, e também através da revisão da bibliografia sobre estudos de patologias construtivas em EHIS. Essa lista de processos construtivos foi discutida em um evento técnico sobre alvenaria estrutural promovido pela Caixa, cujos participantes concordaram com a hierarquização apresentada. A partir desse debate, optou-se por incluir também a execução das fundações na lista de processos críticos, mesmo não tendo sido identificada na bibliografia e nas reclamações de usuários consultadas. Na ocasião, os participantes apontaram a importância de melhorar a verificação da qualidade em fundações devido à elevada gravidade das manifestações patológicas nesse elemento construtivo.

O Quadro 3 apresenta a lista final de processos construtivos escolhidos para o estudo e seu vinculo com os sistemas da edificação.

 

 

Construção dos instrumentos de coleta piloto

O IC de alvenaria estrutural foi o primeiro a ser desenvolvido e serviu de referência para a construção dos demais. A escolha da alvenaria estrutural ocorreu devido a suas características de processo principal e a sua relação e interferência com os demais processos na etapa de produção, bem como seu uso predominante em EHIS.

Nessa atividade definiram-se os itens de verificação e formato do conjunto de IC com base em materiais, em técnicas construtivas e nas reclamações de usuários relacionadas a não conformidades de execução identificadas na etapa anterior, bem como nas premissas formuladas. O Quadro 4 apresenta um trecho da matriz de recomendações técnicas obtidas principalmente a partir da revisão bibliográfica, que serviu de base para a construção do IC piloto. Os itens de verificação foram organizados em listas separadas para cada processo investigado. Cada um desses itens serve de referência para verificar a qualidade dos processos em execução e produtos finais de cada etapa construtiva.

O Quadro 5 apresenta um trecho da proposta piloto do IC de alvenaria estrutural. Os itens de verificação foram separados em macroetapas de produção. Essa divisão buscou facilitar a coleta de dados e agrupar itens de verificação afins, de forma que cada conjunto de itens avaliasse a qualidade de uma macroetapa e que o conjunto de macroetapas avaliasse a qualidade do processo completo. Essa divisão facilita a avaliação dos processos que estão em execução, uma vez que nem sempre todos os processos são executados simultaneamente.

Cada instrumento foi subdividido, em média, em cinco macroetapas, com 30 itens de verificação. A forma de coleta dos dados foi inicialmente definida por atributos - estar ou não conforme com as especificações, ou não se aplica. Também, cada item de verificação apresenta um campo contendo instruções para auxiliar e padronizar a coleta e avaliação do item.

Avaliação de especialistas em alvenaria estrutural

O conteúdo do IC piloto foi avaliado por dois especialistas em alvenaria estrutural. Essa avaliação considerou as referências bibliográficas utilizadas, os critérios de aceitação dos itens, a conduta de verificação dos itens, bem como o alinhamento do conteúdo deles com o fluxo de produção das edificações, visando facilitar a coleta de dados. Ainda, os especialistas avaliaram a interferência de outros processos na execução da alvenaria estrutural, tais como a instalação elétrica e hidrossanitária, e sugeriram formas de avaliar a qualidade nesses pontos de interferência.

Estrutura do método proposto

O diagrama (Figura 2) representa uma proposta de sistemática de gestão das informações sobre a qualidade das obras a ser adotada pela Caixa. Nessa estrutura, tanto a definição dos processos construtivos a serem investigados durante uma vistoria quanto a avaliação de desempenho das empresas construtoras ocorrem a partir da análise de dados qualitativos e quantitativos

preestabelecidos pela Gidur/Caixa. Nessa análise são incluídas as informações coletadas ciclicamente com o método proposto. Com base nesses dados, a Gidur pode estabelecer níveis customizados de aferição da conformidade dos processos, com o intuito de otimizar suas ações. Assim, a configuração dos instrumentos de coleta é desenvolvida para cada um dos processos construtivos em análise, e o tamanho das vistorias é ajustado de acordo com o ranking das construtoras. Dessa maneira, as empresas com um bom desempenho recebem uma aferição simplificada nas vistorias e têm apenas seus processos mais críticos avaliados, enquanto empresas com pior desempenho podem receber uma aferição mais detalhada, considerando um número maior de processos construtivos. As informações são padronizadas e armazenadas em uma base de dados sobre a qualidade de execução de obras, ciclicamente atualizada, possibilitando análises representativas de conjuntos de obras realizadas por empresa, por região ou por programa habitacional. Por fim, as informações obtidas com o método, sobre a conformidade de execução de processos construtivos usuais em EHIS, podem ser distribuídas pela Caixa aos demais envolvidos nesse tipo de empreendimento.

 

Construção dos instrumentos de coleta de dados

Ciclos de aplicação, avaliação e melhorias

Após a construção da proposta inicial dos IC, ocorreram três ciclos de aplicação, avaliação e melhorias. Inicialmente, um estudo piloto avaliou as dificuldades de aferição e interpretação dos IC, além do tempo de aplicação, visando adequar os IC ao tempo normalmente disponível para as vistorias da Caixa. Dois pesquisadores avaliaram simultaneamente a consistência dos IC durante a coleta de dados. Dessa forma, diferentes interpretações dos itens e o momento adequado de obra para a coleta do dado eram então discutidos no local, com a participação dos responsáveis pelas obras. Também foram identificadas melhorias no conteúdo dos instrumentos de coleta referentes à validade estatística, à descrição dos itens e seus limites de aceitação. No segundo ciclo foram realizadas novamente as avaliações do primeiro ciclo, juntamente com a avaliação do tamanho amostral, definido para cada instrumento de coleta. Constatou-se, ao final dessa avaliação, a necessidade da elaboração de desenhos explicativos visando uniformizar a nomenclatura dos processos, componentes, partes e materiais abordados nos IC. Após a organização e os ajustes finais dos IC de cada processo construtivo na versão impressa, iniciou-se o desenvolvimento dos softwares que compõem a versão digital, seguido de sua avaliação. No último ciclo, já com a versão final do método, coletaram-se dados para a obtenção de índices de conformidade de processos construtivos para uma primeira amostra de obras. Também foi desenvolvida uma matriz que identifica os usuários prováveis das informações e o tipo de informação gerada pelo método. Assim como essa matriz, o conjunto dos instrumentos de coleta está disponível na dissertação de mestrado da primeira autora.

Definições estatísticas para os instrumentos de coleta

Para atender à necessidade de validade estatística do método, buscou-se identificar uma forma de definir a população a ser considerada na avaliação global dos processos. Para Downing e Clark (2005), se a amostra representa de fato a população, pode-se então utilizar as características de seus elementos para estimar as características de toda a população. Nesse sentido, para cada um dos processos construtivos estudados foi necessário identificar o conjunto de elementos que corresponde à população-alvo. O Quadro 6 apresenta o desdobramento dessa definição a partir de um diagrama de afinidades que vincula a resposta estatística esperada à população-alvo a partir de três níveis de constructos.

Dessa forma, a qualidade do processo construtivo pode ser aferida pela observação do conjunto de macroatividades que o configuram, apresentado no nível secundário e que é avaliado a partir de dados de campo vinculados à população que está apresentada no nível terciário de afinidades. Por fim, a técnica escolhida foi a amostragem probabilística sistemática, realizada para cada item de verificação.

Em paralelo às definições estatísticas, buscou-se avaliar e refinar o conteúdo dos IC. Assim, foram enviados questionários para especialistas de cada processo construtivo estudado. O procedimento de análise de dados dos questionários foi executado da mesma forma para todos os processos construtivos - a partir da amplitude de respostas, média e moda. Os especialistas avaliaram o conteúdo, a linguagem e o formato dos itens. Com base no valor médio das respostas dos questionários, definiu-se um peso para cada item de verificação dos instrumentos de coleta, que foram utilizados na formulação dos indicadores.

Formulação de indicadores

A construção da proposta inicial dos IC visou à obtenção de indicadores de conformidade como resultado e a possibilidade de utilizar as informações em diferentes hierarquias de decisão. Nesse sentido, foram consideradas recomendações da bibliografia sobre as características das medidas e as necessidades dos usuários das informações.

A construção dos indicadores baseou-se nos pesos e na amostra estabelecida para cada item de verificação, sendo geradas as médias ponderadas denominadas de indicadores de conformidade de execução do item. Esses são valores de base para a formulação das demais medidas. O Quadro 7 apresenta as fórmulas dos indicadores desenvolvidos, bem como a relação entre eles e o nível de tomada decisão em que podem auxiliar.

Visão geral do conjunto de instrumentos de coleta

O conjunto de instrumentos de coleta segue um padrão de formato, de conduta de coleta e de cálculo dos indicadores. O conteúdo deles é alterado de acordo com as características da obra, mas respeitando a estrutura geral do IC.

Para exemplificar esse padrão, o Quadro 8 apresenta um trecho do instrumento de coleta de esquadrias. Na primeira parte são descritas as características gerais da obra e, depois, um questionário quantitativo, a ser respondido pelo responsável da obra, que permite definir o tamanho da amostra, bem como calcular as médias ponderadas dos indicadores.

Cada item de verificação possui um campo de recomendações que orienta a conduta de coleta e de aceitação do item por parte do pesquisador. Ainda, cada item deve ser observado com base no número amostral indicado. Os itens são respondidos de acordo com as características da obra, tais como, por exemplo, se existem itens específicos para instalação de janelas com ou sem contramarco.

Apresentação do método na versão digital

A versão digital do método é um dos resultados deste trabalho e refere-se ao conjunto software e dispositivo móvel, que agiliza a obtenção de informações sobre a conformidade da produção. A construção dessa versão baseou-se em uma matriz de decisões que relaciona os itens de verificação da conformidade com as características do empreendimento, formando diferentes configurações dos instrumentos de coleta.

A coleta de dados nessa versão ocorre por um dispositivo móvel no qual já foram inseridas as informações das empresas, das obras, da equipe de vistoria, bem como possíveis atualizações nos formulários dos IC a partir do software de administração do sistema, apresentado na dissertação da primeira autora. Ao acessar o sistema (Figura 3), e com base no preenchimento das telas iniciais, os IC são personalizados com as informações específicas da obra em vistoria. Para esse fim, abrem-se as telas de tipificação, caracterização da obra e quantificação da população (Figura 4, Figura 5 e Figura 6), também utilizada no cálculo amostral automatizado.

 

 

 

 

 

 

 

 

Durante a coleta de dados, cada item de verificação é apresentado em separado na tela, e o pesquisador pode avançar entre os itens de verificação para efetuar o preenchimento conforme sua necessidade (Figura 7). Nessa mesma tela é informado o tamanho da amostra a ser observada e o número de observações já efetuadas daquele item.

 

 

Por fim, o sistema gera automaticamente um relatório contendo os índices obtidos na vistoria. A Figura 8 apresenta a primeira tela de relatório com a nota geral da vistoria e a nota de cada macroetapa do processo. Em uma segunda tela (Figura 9) são apresentadas as boas práticas do processo e os itens críticos identificados durante a vistoria. Esse relatório é apresentado à equipe de produção ao final da vistoria, propiciando um feedback em tempo real, que pode contribuir com ações de melhoria imediatas.

 

 

 

 

Avaliação do método proposto

Parte das avaliações ocorreu ao longo do desenvolvimento do método proposto dentro dos ciclos descritos no item anterior, bem como durante as análises finais do artefato. Nesse item, é apresentado o conjunto das atividades de avaliação.

Avaliações iniciais

Para as avaliações iniciais foram coletados dados de quatro obras utilizando simultaneamente as duas versões do método (mídia impressa e digital) e comparados os resultados obtidos para a eliminação de inconsistências entre elas. A versão digital obteve melhor desempenho por possibilitar a obtenção do tamanho da amostra in loco, diferentemente da versão impressa, que necessita das informações sobre a produção em um momento anterior à vistoria para que sejam efetuados os cálculos amostrais e imprimidas as planilhas em papel. Dessa maneira, a versão digital torna mais precisa a coleta de dados, pelo fato de confirmar visualmente as informações da população durante a vistoria. A versão digital também obteve boa receptividade por parte dos responsáveis das obras devido ao tipo de informação disponibilizada no relatório apresentado ao final da vistoria.

Outra avaliação foi elaborada a partir da inserção dos dados previamente coletados com a versão impressa no sistema digital, que possibilitou a conferência geral do conteúdo da nova versão. Ao finalizar esse lançamento de dados, foram gerados os indicadores de conformidade e comparados com os resultados já processados em planilhas eletrônicas ExcellTM, confirmando a coerência entre as duas versões.

Avaliação do método proposto por parte dos usuários

Essa avaliação ocorreu de maneira distinta para os diferentes usuários do método - os pesquisadores que utilizaram as ferramentas de coleta e técnicos da Caixa. A avaliação dos pesquisadores utilizou critérios da NBR ISO/IEC 9126-1 (ABNT, 2003), tendo em vista o foco no desenvolvimento do software para a operacionalização do método proposto. A avaliação dos técnicos da Caixa-RS, por sua vez, foi focada no conteúdo, procedimentos e resultados fornecidos pelo método. Dessa forma, a avaliação ocorreu em fases distintas e foi construída a partir de um conjunto de eventos promovidos para a apresentação e discussão dos indicadores iniciais gerados, treinamento e uso do método. De maneira geral, constatou-se que ambas as versões propostas (impressa e digital) são adequadas para o uso na Caixa, uma vez que o método pode ser implementado de imediato pela versão impressa e planejada a liberação de recursos para aquisição de equipamentos e programas para a versão digital. Além disso, para a Caixa, a versão impressa pode ser utilizada pelos técnicos mais resistentes ao uso de novas tecnologias sem comprometer a qualidade dos dados coletados. Ainda, a Caixa-RS identificou a oportunidade de padronização das análises dos empreendimentos a partir do método, facilitando a definição de um procedimento interno de análise de projetos e empreendimentos. Por fim, para a Caixa, o método adapta-se às atividades da vistoria extraordinária, não necessitando de alterações de escopo dela.

Resultados obtidos com a aplicação do método

A Figura 10 apresenta os indicadores de conformidade por processos construtivos. Cabe ressaltar que o número de aplicações do método para cada processo foi diferente e em quantidades que não fornecem validade estatística para uma avaliação da conformidade do conjunto de EHIS, mesmo que os instrumentos de coleta proporcionem validade estatística interna para cada obra. Contudo, a partir de uma amostra representativa, esse tipo de gráfico possibilita direcionar ações de melhoria setoriais para os processos que apresentem menor desempenho.

A Figura 11 apresenta o indicador de conformidade do processo de revestimento de argamassa e possibilita a comparação de desempenho de obras ou empresas com relação ao mesmo. Essa informação pode ser utilizada pela Caixa para a identificação de problemas sistêmicos ou pontuais em cada processo, e também para a negociação de aceitação ou rejeição de etapas de obra a partir de medidas com validade estatística. Ainda, empresas podem estabelecer metas de melhorias a partir da comparação com as demais construtoras.

A partir das macroetapas é possível analisar detalhadamente (Figura 12) o desempenho das empresas em processos específicos. No exemplo, com dados da empresa E1, verificam-se respectivamente o melhor e o pior desempenho na produção do revestimento e na preparação da base, sendo a última uma macroetapa antecedente que pode comprometer a vida útil do revestimento. Essas informações possibilitam que a empresa redirecione seus esforços de melhoria para os pontos mais críticos do processo.

Por fim, o indicador de conformidade de execução das obras (Figura 13) possibilita classificar as empresas em grupos para receber maior ou menor esforço de vistorias da Caixa. Também, pode ser utilizado para a promoção de mecanismos de benchmarking - pela Caixa ou outro agente setorial que utilize e administre o método -, uma vez que proporciona a comparação entre as empresas a partir de uma medida representativa do segmento de EHIS.

 

Conclusões

As informações sobre o desempenho de processos e técnicas construtivas durante a execução obtidas sistematicamente com o método podem auxiliar no redirecionamento das atividades de gestão, treinamento e controle da qualidade das empresas, da Caixa e demais agentes públicos.

A construção do método buscou fornecer informações embasadas em dados e fatos, representativas do segmento, ser de simples aplicação e análise, e ágil na entrega de informações aos agentes, bem como possibilitar análises detalhadas e agregadas sobre uma mesma base de dados, como recomenda a bibliografia. Dessa forma, oferece diversas possibilidades de estratificação dos dados, atendendo às necessidades de diferentes agentes e níveis de análise. Para a construção dos IC foram consultadas diversas fontes bibliográficas na tentativa de obter consenso entre os envolvidos. Todavia, essa atividade poderia ser simplificada com o uso dos referenciais tecnológicos ou códigos de prática que definissem critérios de avaliação de processos construtivos (CLETO et al., 2011). Entretanto, estes ainda não estão disponíveis para os processos avaliados neste trabalho.

Também, foram verificadas dificuldades de avaliar a qualidade, tanto no nível operacional quanto no nível tático, com o uso do método proposto. Como dificuldades práticas destacam-se as diferentes interpretações e nomenclaturas que as partes das edificações e os itens de verificação recebem em diferentes regiões. Dessa forma, o estabelecimento de um glossário formal de termos utilizados nos instrumentos de coleta é um pré-requisito para garantir a padronização e a homogeneidade da coleta e dos dados coletados. Durante a construção do método buscou-se identificar e unificar a nomenclatura de itens e materiais verificados. Entretanto, essa unificação restringiu-se ao estado do Rio Grande do Sul, sendo necessário rever tais questões para o uso em outras regiões do país.

No que diz respeito às dificuldades no nível tático de avaliação da qualidade, estas podem estar vinculadas às diferentes interpretações do que deva ser a qualidade medida em obra pelos técnicos da Caixa. Entre elas destaca-se a dificuldade em diferenciar a conduta de coleta para a aferição da qualidade de um processo (o produto em sua fase de produção) e de um produto final. Entretanto, a Caixa avalia o andamento das obras com base na avaliação do produto final durante a execução. Assim, estabelecer uma conduta de aferição da qualidade com o foco nos processos em execução poderia eliminar problemas de conformidade ocultos sob outros processos subsequentes e possibilitar ações de caráter mais proativo. Outra dificuldade está em definir parâmetros de aceitação e rejeição uniformizados das etapas de obras.

Essas dificuldades podem estar atreladas à ausência de um conceito de qualidade consolidado na instituição no nível estratégico, bem como de divergências sobre o papel da Caixa como órgão fiscalizador. As dificuldades fazem com que haja muita diversidade de percepção por parte dos técnicos sobre o conceito de qualidade adotado e também com relação aos parâmetros de aceitação nas aferições. Nesse sentido, existe a necessidade de criar mecanismos para padronizar as avaliações efetuadas, facilitando a agregação dos dados coletados e a disseminação das informações sobre a conformidade das obras. Assim, de maneira mais estruturada, as informações obtidas durante as vistorias podem colaborar proativamente nos esforços de melhoria das empresas, possibilitar um uso mais eficiente dos recursos humanos da Caixa, bem como disponibilizar essas informações para os demais agentes envolvidos no desenvolvimento dos EHIS.

Por fim, embora o método proposto tenha sido desenvolvido para o uso de órgãos externos envolvidos na avaliação da qualidade de EHIS, tais como a Caixa, durante seu desenvolvimento, constatou-se também a possibilidade de seu uso por empresas incorporadoras que avaliam a conformidade dos empreendimentos a partir de vistorias sistemáticas. Dessa forma, as incorporadoras, assim como as empresas construtoras, poderiam avaliar processos construtivos com base em parâmetros predefinidos, eliminando diferentes interpretações sobre a qualidade de etapas de obra.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem à Caixa-RS pelo empenho; aos envolvidos com a Rede Habitare; ao Projeto Sistema de Indicadores de Qualidade e Procedimentos para Retroalimentação na Habitação de Interesse Social1 (QualiHIS), desenvolvido pelo grupo Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação (Norie), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); à Capes e ao CNPq, pela bolsa de mestrado concedida; aos especialistas, por avaliar os instrumentos de coleta propostos; e às empresas construtoras, pelos dados disponibilizados.

 

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Recebido em 05/08/11
Aceito em 12/04/12

 

 

1 O projeto QualiHIS, desenvolvido entre 2007 e 2009, foi financiado pelo programa Habitare, com recursos do CNPq e da Finep, com contrapartida da Caixa Econômica Federal e órgãos promotores de construção habitacional.