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Cadernos EBAPE.BR

On-line version ISSN 1679-3951

Cad. EBAPE.BR vol.10 no.1 Rio de Janeiro Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1679-39512012000100002 

EDITORIAL

 

 

A Seção Opinião em homenagem ao Professor Marcelo Milano Falcão Vieira deve, no meu entendimento, falar por si mesma a cada um dos leitores. Portanto apresento a seguir as contribuições da seção, que se inicia com o poema "Indelével", de autoria de Ricardo Azambuja. O Observatório da Realidade Organizacional assina o texto "Marcelo Milano Falcão Vieira: síntese da trajetória de um homem generoso". Vânia Mattos da Silva é a autora da "Carta para lhe falar do meu bálsamo". Leonardo Vasconcelos Cavalier Darbilly e Diana Costa de Castro são coautores de "Memórias de nosso convívio com o Professor Marcelo". Rodrigo Gava e Bill Pereira assinam as cartas "Ao Professor Marcelo Milano Falcão Vieira". Paulo Emílio Matos Martins, Leonardo Vasconcelos Cavalier Darbilly e Diana Costa de Castro são coautores em "Marcelo Milano Vieira e a disciplina Administração Brasileira". A seção encerra-se com o texto "Relações de poder na dialética entre o lugar local e o lugar global", de autoria de Sergio Wanderley, Juliana Mansur, Frederico Bertholini e Vanessa Brulon.

Este primeiro número do volume 10 de 2012 inicia-se com o artigo "Por uma nova interpretação das mudanças de paradigma na administração pública". A autora, Carolina Andion, objetiva aprofundar a análise dos paradigmas no campo teórico da administração pública no Brasil. A hipótese central é de que, embora tenhamos assistido a mudanças paradigmáticas nas duas últimas décadas, o campo da administração pública ainda é dominado por uma concepção funcionalista da ciência. Mais especificamente, a autora analisa quatro correntes principais que compõem o campo, denominadas de Estadocêntrica; Pluralista; Nova Administração Pública e Novo Serviço Público, para identificar os paradigmas nos quais elas estão ancoradas.

No artigo "Interfaces epistemológicas sobre administração pública, institucionalismo e capital social", Edson Arlindo Silva, José Roberto Pereira e Valderí de Castro Alcântara promovem uma incursão teórica entre administração pública, institucionalismo e capital social, com o intuito de elucidar as contribuições do institucionalismo e do capital social para melhor compreensão da administração pública contemporânea. Alegam que as discussões em torno destas temáticas nos convidam a refletir sobre as mudanças ocorridas nas sociedades modernas, principalmente no que se refere às formas de governo e às tendências das relações entre Estado e sociedade que vêm ocorrendo no mundo globalizado.

O terceiro artigo, "Identidades, práticas discursivas e os estudos organizacionais: uma proposta teórico-metodológica", de autoria de Mariana Mayumi Pereira de Souza e Alexandre de Pádua Carrieri, tem como proposta uma visão da identidade nos estudos organizacionais que integre as ideias da identidade como prática cotidiana; da prática como prática discursiva; e da prática discursiva pautada por racionalidades. O artigo apresenta esta articulação teórica e indica caminhos metodológicos possíveis para sua operacionalização. Os autores sugerem que cabe ao pesquisador identificar os grupos, ou identidades coletivas, que emergem no contexto das organizações e analisar a relação entre as racionalidades coletivas e individuais envolvidas, para que sejam desvendadas as identidades em jogo.

Em "Autogestão e subjetividade: interfaces e desafios na visão de especialistas da ANTEAG, UNISOL e UNITRABALHO", Fernanda Mitsue Soares Onuma, Flávia Luciana Naves Mafra e Lilian Barros Moreira buscam compreender os desafios que se impõem aos trabalhadores e trabalhadoras que se propõem a trabalhar de maneira autogestionária. Os dados indicaram que a autogestão implica a necessidade de uma mudança de subjetividade desses trabalhadores e trabalhadoras acostumados ao modelo de trabalho hierarquizado e não democrático. Argumentam que, para uma melhor compreensão da dificuldade de implantação da autogestão nas organizações, é necessária a adoção de um conceito de subjetividade que englobe não só o seu caráter individual, mas também seu caráter coletivo. 

"Esquemas interpretativos de dirigentes e fornecedores com relação a estratégias e ações de responsabilidade social: o caso da empresa O Boticário", de autoria de Regina Mitiko Nakayama e Rivanda Meira Teixeira, traz a análise do significado atribuído pelos dirigentes e pelo stakeholder fornecedor às estratégias e ações de responsabilidade social na empresa O Boticário. Destacam entre os valores e crenças mencionados pelos dirigentes entrevistados: mito do fundador, valorização dos funcionários, respeito às leis, transparência e confiança. É evidente a preocupação dos dirigentes com a legitimidade da empresa, ou seja, que sua reputação, imagem e qualidade atendam às expectativas do que a sociedade tem como empresa ideal. Tal preocupação estende-se aos fornecedores pela verificação de todos os aspectos legais dos parceiros de negócios.

No artigo "A presença de agentes intermediadores na formação de redes interorganizacionais: uma análise sob a perspectiva temporal", Julio Araujo Carneiro da Cunha, João Luiz Passador e Cláudia Souza Passador objetivam verificar, por meio da formalização do Arranjo Produtivo Local (APL) de calçados de Birigui-SP, se a presença de agentes intermediários é essencial para a formação da rede interorganizacional. Relatam que os interesses dos participantes do APL eram predominantemente comerciais, sem que houvesse um nível de capital social e de institucionalização desenvolvidos a ponto de se criarem associações provenientes de vontade das próprias organizações. Concluem que a coordenação realizada por um agente intermediador tem poder de articulação limitado na formação de redes interorganizacionais se não existir uma institucionalização prévia que envolva, principalmente, valores e normas de capital social.

"Etnometodologia: desvelando a alquimia da vivência cotidiana", de autoria de Samir Adamoglu de Oliveira e Ludmilla Meyer Montenegro, apresenta uma análise introdutória sobre a etnometodologia. Os autores discutem o contexto histórico do surgimento, evidenciando origens, conceitos principais, elementos filosóficos constitutivos, os métodos e os tipos de pesquisa abrangidos e desenvolvidos por essa abordagem ao longo das últimas décadas; bem como críticas e pontos de convergência com outras abordagens de pesquisa social. Sugerem a abertura de diálogo entre a etnometodologia e os estudos organizacionais que versam no terreno das práticas sociais porque entendem que a etnometodologia pode ser uma abordagem de pesquisa válida para o estudo qualitativo das organizações.

Henrique Muzzio e Francisco José da Costa, focados em estudos culturais organizacionais, propõem, em "Para além da homogeneidade cultural: a cultura organizacional na perspectiva subnacional", um modelo teórico de análise baseado em uma nova dinâmica espacial que leva em consideração as interações sociais marcadas pela relação entre o global e o local. A importância decorre da proposição de um modelo por meio do qual se analisa a cultura organizacional de um prisma subnacional, superando a visão homogênea de cultura nacional. São discutidas ainda implicações práticas desta abordagem em algumas áreas organizacionais que são naturalmente mais influenciadas pelo contexto cultural.

No artigo "Novas gerações no mercado de trabalho: expectativas renovadas ou antigos ideais?", Flávia de Souza Costa Neves Cavazotte, Ana Heloisa da Costa Lemos e Mila Desouzart de Aquino Viana afirmam que as mudanças no âmbito das carreiras e o ingresso no mercado de trabalho dessa nova geração motivaram a realização do estudo apresentado, cujo objetivo foi o de conhecer as expectativas de jovens profissionais em formação quanto às recompensas tangíveis e intangíveis que desejam obter no trabalho. A análise dos relatos sugere que há mais em comum entre os membros da geração Y e seus antecessores do que a literatura não acadêmica nos faria crer.

Em "A elaboração da face em comunidades virtuais de marca: um estudo de caso sobre uma comunidade virtual de consumidores da Coca-Cola", Grayci Kelli Alexandre de Freitas e André Luiz Maranhão de Souza Leão partem de uma realidade na qual o uso massivo da internet e o surgimento das comunidades virtuais são enfatizados, para fazer um recorte de uma comunidade virtual da marca Coca-Cola como terreno, com o objetivo de compreender as faces elaboradas pelas pessoas quando se utilizam de signos marcários como mediadores em interações virtuais. As catorze faces identificadas são descritas por meio de exemplos extraídos das observações, os quais são elucidativos do papel da marca estudada na dinâmica de negociação interacional entre os participantes, que caracteriza o processo de elaboração de faces.

Finalmente, os autores do artigo "Estudo observacional do comportamento empreendedor de Irineu Evangelista de Sousa da ótica de Filion no filme 'Mauá – o Imperador e o Rei'", Fátima Regina Ney Matos, Waleska Vasconcelos Queiroz, Kátia Lene de Araújo Lopes, Gleildes dos Santos Lima Frota e Valdênia Maria Lima Leandro Saraiva afirmam que a escolha do tema deveu-se ao pouco conhecimento dos alunos de graduação e pós-graduação em administração sobre os empreendedores brasileiros e seu papel na evolução econômica do país. Após exibições do filme, foi realizado um estudo observacional, tipo de observação de "segunda mão", indireta e não participante, com produtivas discussões em equipe. Na revisão bibliográfica buscou-se contextualizar, de maneira sucinta, as características do comportamento empreendedor da ótica de Filion (1991). Os autores concluem que as características empreendedoras propostas nesta tipologia apresentam-se com vigor no comportamento do Barão de Mauá.

Encerro este editorial com um agradecimento a todos que colaboraram direta (Editor convidado e autores publicados na Seção Opinião deste número) e indiretamente (a equipe composta pela assistente editorial, revisores e diagramadora) com a organização da seção especial em homenagem ao Professor Marcelo Milano Falcão Vieira. Destaco a importância de registrarmos este momento com poemas, cartas, memórias e debates daqueles que com ele conviveram, para que sua marca permaneça "indelével" neste periódico e nas reflexões da comunidade acadêmica.

Ana Lucia Guedes
Editora