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Cadernos EBAPE.BR

versão On-line ISSN 1679-3951

Cad. EBAPE.BR vol.11 no.4 Rio de Janeiro dez. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1679-39512013000400002 

APRESENTAÇÃO

 

Epistemologia e sociologia da ciência da administração

 

Epistemology and sociology of administration science

 

 

Maurício Serva

Doutor em administração pela EAESP/FGV; Professor da Universidade Federal de Santa Catarina; Coordenador do Núcleo Organizações, Racionalidade e Desenvolvimento (www.redeord.com); Editor da revista Ciências em Debate. Endereço: UFSC, Campus Trindade, Centro Socioeconômico, sala 229, CEP 88040-900, Florianópolis - SC. E-mail: mauserva@gmail.com

 

 

Há cerca de um século, alguns autores, notadamente nos Estados Unidos e na França, davam início ao processo de institucionalização da administração como uma ciência. Enquanto Frederick Taylor intitulava seu livro "Princípios de Administração Científica", Henri Fayol defendia enfaticamente que a administração deveria ser sistematizada numa doutrina e ensinada nas escolas: "o ensino da administração deve, por conseguinte, ser geral: rudimentar nas escolas primárias, um pouco mais extenso nas secundárias e muito desenvolvido nas superiores" (FAYOL, 1965, p. 14). Ao longo do século XX, a administração se desenvolveu rapidamente, expandindo-se como prática profissional em diversos países e alcançando o status de ciência, sendo alvo de formação específica em nível superior, muitas vezes compartilhando espaços em centros de formação tradicionais, tais como Direito e Economia. Na segunda metade do século, a referida institucionalização culmina com a criação de várias associações científicas tanto de caráter nacional como também em nível internacional, além do lançamento de muitas revistas científicas especializadas e de entidades de certificação de escolas e de regulação da produção científica. No âmbito das instituições de fomento à pesquisa científica, os pesquisadores atuantes no campo da administração passam a disputar e obter apoio como os demais pesquisadores de outras áreas do conhecimento.

Malgrado a expansão do ensino da administração e da inserção da área no universo institucional da ciência, o debate sobre os fundamentos epistemológicos desta nova ciência não fazia parte da pauta das discussões acerca do seu desenvolvimento teórico. Caracterizada desde a origem pela inspiração positivista e aperfeiçoada paulatinamente mediante o recurso ao funcionalismo triunfante nas ciências sociais, em grande parte do século passado, a administração repousou tranquila, pois sem grandes contestações, durante décadas numa espécie de "sono teórico" profundo. Nada parecia abalar o edifício erigido pela arquitetura funcionalista de suas abordagens. Apesar de algumas formulações marcadas por um requinte teórico incontestável, tais como as elaboradas por Mary Parker Follet, Richard Beckhard, Herbert Simon, Donald Schon, dentre outros autores, a ausência do debate aprofundado sobre as suas bases era clara, representando uma incômoda lacuna na trajetória da construção científica da administração.

O final dos anos 70 e os anos 80 foram marcantes para a reversão gradual desse quadro. Inegavelmente, o contexto de crise econômica e de crise social nos países industrializados — os mesmos países impulsionadores da expansão da administração — com fortes repercussões e questionamentos nas ciências humanas como um todo, acabaram por criar as condições para a instauração do debate e da reflexão crítica no campo da administração, sobretudo para a divulgação ampla dessa crítica. Em 1979, Gibson Burrel e Gareth Morgan alcançam significativo êxito com o lançamento do livro "Sociological Paradigms and Organizational Analysis", o qual mesmo não sendo um trabalho inteiramente dedicado à epistemologia, uma vez que se restringe à discussão paradigmática inspirada claramente na sociologia, promove um interessante debate sobre fundamentos da produção científica no campo da administração. No início da década de 80, Guerreiro Ramos (1989, p. 118) sinalizava a existência da lacuna acima citada e chamava a atenção para a sua gravidade, ao afirmar que "a disciplina organizacional contemporânea não desenvolveu a capacidade analítica necessária à crítica de seus alicerces teóricos [...] Dificilmente, um campo disciplinar atingirá o nível sofisticado de conhecimento requerido para o ensino em grau superior, se não for capaz de desenvolver um caráter crítico de si mesmo, extraídas as suas bases epistemológicas". Quase no mesmo ano, uma dupla de professores da Universidade de Amiens — Jacques Chevallier e Danièlle Loschak — publica um livro intitulado "La science administrative". No bojo da discussão sobre as origens da administração pública na França, é digna de nota a dedicação de dois capítulos desse livro aos temas "constituição do campo científico da administração" e "obstáculos epistemológicos a superar", numa nítida incursão pela disciplina epistemológica, embora ainda limitada e incipiente. Ainda na efervescência dos anos 80, o professor Alfred Houle organiza uma série de seminários internacionais sobre epistemologia da administração na Universidade Laval, em Quebec, culminando na publicação do livro "La Production des Connaissances Scientifiques de l'Administration". O livro traz textos em francês e em inglês e seu lançamento data de 1986; a coletânea foi organizada pelos professores Michel Audet e Jean-Louis Malouin, uma vez que Houle houvera falecido em 1984. Autores como Edgar Morin e Herbert Simon participam da coletânea. Este é o primeiro livro inteiramente dedicado à epistemologia da administração.

Desde então, vem se desenvolvendo uma epistemologia específica da administração, cujos epicentros dessa produção científica situam-se predominantemente na França e no Canadá.

A partir dos anos 80, florescem epistemologias concentradas em campos específicos (economia, geografia, sociologia, etc.) e elaboradas por pesquisadores pertencentes respectivamente a cada campo (BERTHELOT, 2001). Ressalto que o surgimento de epistemologias específicas acabou por se constituir um fenômeno de largo espectro. À montante desse fenômeno podemos indicar a intensificação do questionamento da ciência e de seus paradigmas dominantes, no contexto da crise multifacetada (institucional, social, econômica, ecológica) das sociedades ocidentais; a ciência, enquanto um dos pilares fundamentais dessas sociedades, não poderia ficar imune aos questionamentos que emergem em função da crise. À jusante do fenômeno em questão, podemos constatar uma espécie de um duplo deslocamento concernente à epistemologia: em primeiro lugar, de um campo do saber oriundo da filosofia e situado na fronteira desta com a ciência, a epistemologia passa também a ser um tema específico no interior de diversos campos científicos; em segundo lugar, nota-se que os atores responsáveis por esse deslocamento são os próprios pesquisadores dos respectivos campos, assim, a epistemologia deixa de ser um conhecimento quase que circunscrito à filosofia e amplia significativamente seu raio de ação ao ser produzida pelos cientistas envolvidos com o questionamento crítico de suas próprias disciplinas.

Sob um ponto de vista institucional, esse duplo deslocamento tem implicações dignas de registro: enquanto tema inserido na agenda das ciências, a epistemologia se desdobra em disciplinas oferecidas por professores não filósofos nos currículos de vários cursos de mestrado e doutorado; pouco a pouco, as epistemologias específicas vão ocupando um espaço no mundo editorial, seja com o lançamento de livros, seja pelo aumento da publicação de artigos discutindo questões ligadas ao tema; em razão da reflexão crítica reforçada pela epistemologia, o diálogo cada vez mais intenso com a sociologia da ciência inaugura novas vertentes no debate epistemológico, ampliando seus horizontes.

Nas últimas décadas, o interesse pela sociologia da ciência é crescente em diversos países. Os estudos desenvolvidos nesta área, após os trabalhos de Pierre Bourdieu sobre o campo científico e sobre a postura reflexiva do pesquisador, vem renovando a crítica da ciência, abrindo novas frentes, como, por exemplo, a antropologia da ciência. Em razão do diálogo entre a sociologia da ciência e a epistemologia, podemos constatar o enriquecimento da epistemologia contemporânea, agora não apenas concentrada na análise lógica dos fundamentos da ciência, mas também estendendo o seu exame à dimensão da prática do pesquisador. Cada vez mais ganha importância a análise do contexto em que a ciência é produzida, destacando as condições de produção desse tipo de conhecimento.

No Brasil, o interesse despertado pela reflexão crítica sobre a ciência e, em particular pela ciência da administração, acompanha o movimento evidenciado em outros países. Atestamos esse com base em fatos: desde os anos 90, alguns Programas de Pós-Graduação em Administração, como o da Universidade Federal do Paraná e o da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, já ofereciam a disciplina epistemologia da administração como obrigatória. Atualmente, diversos Programas já fazem o mesmo; em 2009, foi estabelecido o tema da epistemologia na área de Ensino e Pesquisa, no âmbito da ANPAD, sob a liderança do professor Ariston Azevedo; em 2010, o tema é criado na área de Estudos Organizacionais, sob a liderança dos professores Alexandre Carriere e Maurício Serva; desde 2011, vem sendo realizado anualmente o Colóquio Internacional de Epistemologia e Sociologia da Ciência da Administração, pelo Núcleo de Pesquisa em Organizações, Racionalidade e Desenvolvimento, situado na Universidade Federal de Santa Catarina.

O referido Colóquio vem congregando os esforços de diversos pesquisadores brasileiros e estrangeiros no sentido de fazer avançar conjuntamente tanto a epistemologia como a sociologia da ciência, ambas com foco na administração. Em 2013, durante a terceira edição do evento, a editoria do periódico eletrônico Cadernos EBAPE.BR propôs a organização desta edição especial com artigos apresentados no Colóquio, e que agora vai ao ar. Aqui se encontram reunidos alguns dos melhores trabalhos discutidos no evento ao longo das suas três edições. A iniciativa do Cadernos EBAPE.BR muito nos honra e atesta o evento como um ponto de encontro e referência para os pesquisadores dedicados à reflexão sistemática e crítica sobre os fundamentos, as condições sociais da produção e os caminhos possíveis para o desenvolvimento do conhecimento científico no campo da administração.

Por conseguinte, agradecemos à editoria do Cadernos EBAPE.BR pela oportunidade de ampliação dos debates gerados nas três edições do evento, aos colegas da Comissão Organizadora do Colóquio e aos colegas pesquisadores que, junto conosco, vêm impulsionando sistematicamente a prática reflexiva na construção da ciência em administração durante a realização do Colóquio desde 2011. Desejamos uma boa leitura dos trabalhos aqui divulgados. Esta edição é dedicada aos que acreditam e trabalham em prol da construção de uma ciência com consciência também no campo da administração.

 

Referências

AUDET, M.. ; MALOUIN, J. L. (Orgs.) La production des connaissances scientifiques de l'administration. Quebec: Les Presses de l'Université Laval, 1986.         [ Links ]

BERTHELOT, J. M.. (Org.). Épistémologie des sciences sociales. Paris: PUF, 2001.         [ Links ]

BURREL, G.; MORGAN, G. Sociological paradigms and organizational analysis. Londres: Heinemann, 1979.         [ Links ]

CHEVALIER, J. ; LOSCHAK, D. La science administrative. Paris: PUF, 1980.         [ Links ]

FAYOL, H. Administração industrial e geral. São Paulo: Atlas, 1965.         [ Links ]

GUERREIRO RAMOS, A. A nova ciência das organizações – uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: FGV, 1989.         [ Links ]

TAYLOR, F. Princípios de administração científica. São Paulo: Atlas, 1966.         [ Links ]

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