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Einstein (São Paulo)

Print version ISSN 1679-4508

Einstein (São Paulo) vol.10 no.2 São Paulo Apr./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1679-45082012000200001 

EDITORIAL

 

Neurociências e o Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein

 

 

Edson Amaro Junior

Editor convidado

 

 

É bem verdade que temos observado grande progresso em número de publicações e, mais recentemente, citações de textos científicos produzidos no Brasil, na área de neurociências. Em números, ocupamos o 13º lugar em volume de artigos científicos na área de neurociências e o 18º lugar em citações (Scopus: www.scimagojr.com / ISI: www.webofknowledge.com). É importante notar que, somadas todas as áreas de conhecimento, o Brasil ocupa o 15º lugar em volume de artigos científicos, e o 21º em citações entre os países. Na América Latina, apenas na área de neurociências, o país tem aproximadamente 3,2 vezes o número de publicações e 2,8 vezes o número de citações do país segundo colocado, o México. Quando olhamos para a produção de todas as áreas de conhecimento, o país tem 2,6 e 2,4 vezes em publicações e em citações, respectivamente, o total apresentado pelo segundo colocado, novamente o México. A área de neurociências está, portanto, entre as áreas de conhecimento acima da média nacional. Aqui vale a máxima "os números falam por si mesmos". Mas será que falam tudo? Certamente não falam de como chegamos lá.

A mensuração de produtividade científica, ou "cientometria" é indubitavelmente uma necessidade, e certamente requer atenção e cuidado. Porém é também conhecido que qualquer parâmetro de medida contém um erro, muitas vezes não passível de estimativa. Dois itens, em geral, não são quantificados (até poderiam): um diz respeito aos recursos que existem para suporte à pesquisa e, certamente, o outro à análise de que o ciclo de pesquisa é mais longo que o de muitas áreas de setores produtivos da sociedade.

Há alguns pontos que gostaria de aqui me concentrar. Quando falamos de neurociências no país (e creio que isso se aplica à qualquer outra área) há mais fatos relevantes que os listados a seguir, e os escolhi por sua representatividade. O país conta com 14 Institutos do Cérebro, três deles integrados em projetos comuns [Universidade Federal de Natal, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Instituto do Cérebro (InCe) do Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo]. Ainda, neste estado, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) abriga um programa de Cooperação Interinstitucional de Apoio a Pesquisas do Cérebro (CInAPCe) que congrega as três principais universidades públicas no Estado (USP, UNICAMP e UNIFESP) e mais uma instituição não acadêmica, o Hospital Israelita Albert Einstein. Talvez de capital importância seja observar um fenômeno particular dentro das neurociências, a produção científica na área de aplicação médica: as publicações de neurociências envolvendo a neurologia cresceram mais que o dobro do que em outras áreas. Dissecando as neurociências e suas manifestações científicas (mensuradas pelas agências internacionais) é destaque que o crescimento de ciências básicas é menor que o de ciências aplicadas (www.scimagojr.com). Artigos na área principal de "neurologia" ocupam o primeiro lugar na lista de publicações das neurociências no Brasil, mesmo se desconsiderando o item "miscelâneas" (diga-se de passagem, palavra da qual não se sabe o significado: 'um balaio de gatos' ou 'algo a que não sabemos dar nome', ou a mistura dos dois...).

É relevante observar que o Hospital Israelita Albert Einstein construiu ao longo desses últimos oito anos uma base para pesquisa de neurociências. E sendo um hospital, é natural que a área de neurologia seja um destaque na sua produção. Dessa maneira, é de se esperar que estejamos preparados para gerar conhecimento de ponta nas neurociências, em particular, em neurologia. Estamos sim, prontos para isso. A seguir coloco alguns pontos para reflexão.

O hospital alberga um centro de pesquisa onde todas as plataformas de neurociências disponíveis na instituição estão agrupadas e o intercâmbio entre ciências básicas e aplicadas foi planejado desde a sua criação: essa é a função do InCe. Essa iniciativa, única na instituição quando foi criada, é um modelo de verticalização de pesquisa em uma área de conhecimento. Cada acerto e erro servirão para nortear iniciativas semelhantes em instituições não acadêmicas com interesse em desenvolver pesquisa, como parece ser um caminho seguido por outros hospitais neste país e no exterior. Há desafios para trazer ao médico neurologista a possibilidade de realizar pesquisa em uma instituição que não foi estruturada academicamente, mas sim, existe um modelo diferente que procuramos seguir. Esse modelo é pautado pela meritocracia, com mais representatividade nos processos de decisão. Essa organização pode e a nosso ver deve ser o resultado de decisões colegiadas. Certamente não há como trazer avanços sem organização de gestão e metas determinadas. Daí o InCe ter um Comitê Gestor, onde estão representadas vertentes de pesquisa, chegando agora ao final de um ciclo de gestão. Já está implantada a estrutura de base para pesquisa com instrumentos de ponta. Já estão em andamento, com resultados práticos (publicações e captação de recursos), acordos para pesquisa em neurociências com instituições do país e do exterior. A nova fase caminha para maior integração com a clínica e sua expansão, principalmente da base de pesquisadores, alinhada com a grande temática para pesquisa do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein: estudo do envelhecimento. É hora de dar um salto para trazer mais médicos à pesquisa clínica e utilização dos recursos que foram aqui incorporados, não sem o esforço de uma equipe jovem e dedicada.

O que um grande hospital ganha com isso: gera conhecimento em neurociências. Não apenas conta com profissionais que aplicam conhecimentos, guiados por evidências, mas agora, gera o conhecimento. As plataformas para pesquisa em genética, nanotecnologia, psicofarmacologia experimental, imagem molecular, estrutural e funcional, estimulação cerebral e bioinformática estão estabelecidas no InCe. Essa nova fase das plataformas de pesquisa em neurociências deve ter gestão mais participativa. Passamos por uma fase de implantação de estruturas para pesquisa básica e aplicada, onde jovens pesquisadores que chegaram à instituição agora buscam espaço para crescer. Mas esse não é apenas um desafio para o InCe, mas para a Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein e também para o país: manter e atrair cérebros. Seguir adiante nessa iniciativa requer mais ousadia e agora é uma época decisiva: precisamos crescer. Seja para acompanhar, permanecendo na liderança de outros grupos de neurociências do país, seja para contribuir para as diretrizes institucionais, cabe agora determinar investimentos para fixar jovens talentos. O InCe pode ser a sede para implantar um modelo.

As instituições precisam estar preparadas para aproveitar esse momento de crescimento do país, das neurociências inclusive. O InCe representa a sede desse processo no Hospital Israelita Albert Einstein. É necessário procurar caminhos para seguir crescendo. Nesse sentido, este número da einstein representa uma importante iniciativa, no qual o leitor poderá encontrar resultados de algumas de nossas atuais linhas de pesquisa.

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