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Revista Dor

Print version ISSN 1806-0013

Rev. dor vol.13 no.2 São Paulo Apr./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-00132012000200011 

ARTIGO ORIGINAL

Avaliação do papel de opioides endógenos na analgesia do laser de baixa potência, 820 nm, em joelho de ratos Wistar*

 

 

Anamaria MeirelesI; Bruno Pogorzelski RochaI; Camila Thieime RosaI; Lígia Inez SilvaI; Maria Lúcia BonfleurII; Gladson Ricardo Flor BertoliniIII

IAcadêmicos do Curso de Fisioterapia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Cascavel, PR, Brasil
II
Doutora em Biologia Funcional e Molecular pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); Docente da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Cascavel, PR, Brasil
III
Doutor em Ciências da Saúde Aplicadas ao Aparelho Locomotor pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP); Docente da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Cascavel, PR, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A sensação de dor pode resultar em incapacidade, sendo associada à lesão estrutural. O laser de baixa potência mostra-se útil em terapias que objetivam a redução da dor articular e o reparo tecidual, mas ainda com algumas controvérsias. O objetivo deste estudo foi avaliar se a analgesia produzida pelo laser de baixa potência, 820 nm, sofre interferência pela aplicação de um inibidor de opioides endógenos.
MÉTODO: Foram utilizados 24 ratos Wistar submetidos à hiperalgesia e divididos em quatro grupos: G1: não tratados; G2: tratados com laser 820 nm; G3: prévio a lesão, injeção de naloxona e não tratados; G4: naloxona e tratados com laser 820 nm. Para a produção de hiperalgesia foi administrado 100 µL de formalina a 5% no espaço articular tíbio-femoral direito. A avaliação da nocicepção ocorreu pelo tempo de elevação da pata (TEP), em cinco momentos, sendo AV1 (pré-lesão), AV2 (15 min/pós), AV3 (30 min/pós), AV4 (1 hora pós) e AV5 (2 horas pós).
RESULTADOS: Todos os grupos apresentaram diferença significativa entre AV1 e AV2, mas, apenas G2 não apresentou diferença entre AV1 e AV3. Para os momentos seguintes não houve diferenças com relação à AV1.
CONCLUSÃO: A analgesia oriunda do laser de baixa potência, 820 nm, sofre interferências com aplicação de naloxona.

Descritores: Analgesia, Naloxona, Raios laser, Ratos.


 

 

INTRODUÇÃO

A dor pode estar associada à lesão tecidual real ou potencial, e causar incapacidade, pela redução da função do tecido lesado, devido à lesão estrutural e edema tecidual1,2.

O laser de baixa potência é um recurso amplamente utilizado em terapias que têm como objetivo, principalmente, a redução da dor1 e o reparo tecidual. Está técnica também apresenta efeitos na redução dos níveis de fibrinogênio, de edema e no conteúdo de células inflamatórias, sugerindo analgesia por redução do processo inflamatório3. Pode-se destacar a biomodulação, capacidade de estimular a divisão celular, vasodilatação, aumento da síntese proteica e de cortisol. Entretanto, ainda existem contestações quanto aos efeitos e forma que ocorre analgesia e sobre os parâmetros utilizados no tratamento4-6.

No que tange à atenuação da dor provocada por algum mecanismo desagradável ao organismo ou lesão tecidual, ela pode ser mediada por interações do sistema opioide endógeno. Este é responsável por modular a sensação dolorosa pela ação das encefalinas, bem como das β-endorfinas, incumbidas de induzir efeitos analgésicos e influenciar na percepção do estímulo nociceptivo devido a sua ação em receptores opioides7.

Uma das possibilidades aventadas para o efeito analgésico do laser de baixa potência é a liberação periférica de opioides das células do sistema imunológico, com significativa liberação de β-endorfina local8,9, além de efeito independente sobre receptor opioide10. Nesse contexto, estuda-se a ação de substâncias e fármacos antagonistas aos opioides endógenos, se contrapondo a seus efeitos, a fim de exemplificar pode-se citar a naloxona. Tal fármaco é caracterizado como um antagonista de receptor opioide inespecífico3.

Pautando-se em algumas discrepâncias na literatura, com respeito a parâmetros do laser de baixa potência e sua ação analgésica, provocada por β-endorfina periférica, objetivou-se neste estudo avaliar se analgesia produzida pelo laser de baixa potência, 820 nm, sofre interferências pela aplicação de um inibidor de opioides endógenos, como a naloxona.

 

MÉTODO

Estudo com 24 ratos da linhagem Wistar, mantidos em gaiolas de polipropileno, com livre acesso a água e ração ad libitum, com ciclo claro/escuro controlado de 12 horas e temperatura ambiente controlada (24 ± 1º C). O estudo realizou-se segundo as normas internacionais de ética em experimentação animal.

Os animais foram divididos aleatoriamente em quatro grupos:

• Grupo 1 (G1, n = 6) – submetidos à indução de hiperalgesia no joelho direito, e não tratados;

• Grupo 2 (G2, n = 6) – hiperalgesia no joelho direito e tratados com laser de 820 nm, com densidade de energia de 8 J/cm2;

• Grupo 3 (G3, n = 6) – hiperalgesia no joelho direito, com injeção de naloxona prévia a lesão;

• Grupo 4 (G4, n = 6) – hiperalgesia no joelho direito e naloxona, sendo tratados com laser (8 J/cm2).

Os animais foram contidos manualmente e administrado no espaço articular tíbio-femoral 100 µL solução de formalina a 5%, para a indução de hiperalgesia.

Os animais foram contidos manualmente e administrado 1 µg de naloxona, no espaço articular tíbio-femoral direito, nos animais de G3 e G4, 15 minutos antes da indução da hiperalgesia. Para G1 e G2 administrou-se solução fisiológica a 9%.

Avaliação da nocicepção

Utilizou-se o teste de incapacidade funcional, este teste tem como objetivo avaliar a nocicepção durante a marcha do animal e se caracteriza por um cilindro e um programa de computador com conexão a uma bota metálica adaptada à pata do animal.

O experimento iniciou com 5 dias de treino dos animais, eles deambularam sobre um cilindro com 30 cm de diâmetro, recoberto por tela de aço inoxidável, que por meio de um motor elétrico realizou 3 rpm. Foi acoplada, nos membros posteriores dos animais, uma bota metálica, que conduziu a informação, por meio de um fio conectando a bota ao computador, o qual possui um programa que mostrou os valores de tempo de falta de contato da pata do animal, deambulando sobre o cilindro, em um minuto (tempo de elevação da pata – TEP). A pata posterior esquerda também foi conectada a uma bota, porém sem entrada de informações para o computador, assim ambos os membros experimentaram a sensação de estar com a bota.

No dia posterior ao último treino, coletaram-se os valores de tempo da marcha normal (no momento pré-lesão: AV1), após 15 (AV2) e 30 (AV3) minutos da indução da hiperalgesia, realizaram-se reavaliações, bem como 1 hora (AV4) e 2 (AV5) horas.

Protocolo de tratamento

Após AV2, foi iniciado o tratamento, ou seja, após 15 minutos da indução da hiperalgesia. G1 e G3 não sofreram qualquer intervenção terapêutica, apenas simulação. Em G2 e G4 o tratamento consistiu na utilização do laser de baixa potência (Ibramed®), com comprimento de onda de 820 nm, potência de 30 mW, densidade de energia de 8 J/cm², com área de saída de 0,1160 cm², de forma pontual e contínua, sobre a região medial da interlinha articular do joelho. Logo após AV3 (30 minutos após a lesão), os animais receberam novo tratamento ou simulação. Após a última avaliação (AV5), todos os animais sofreram eutanásia por decapitação em guilhotina.

Análise estatística

Para análise estatística utilizou-se o teste ANOVA para medidas repetidas, nas comparações dentro dos grupos, e unidirecional para comparação intra-grupos, com pós-teste de Tukey. Em todos os casos o nível de significância aceito foi 5%.

Estudo aprovado pelo Comitê de Ética em Experimentação Animal e Aulas Práticas da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), processo nº 02911/2011.

 

RESULTADOS

Para G1, G3 e G4, houve aumento do TEP ao comparar AV1 com AV2 e AV3 (p < 0,05). Já para G2 houve diferença apenas entre AV1 e AV2 (p < 0,05). Para G2, G3 e G4 havia diminuição significativa do TEP ao comparar AV2 com AV4 e AV5, sendo que para G2 houve também diminuição já com respeito à AV3 (p < 0,05) (Gráfico 1).

 

 

Nas comparações entre os grupos, houve diferença significativa apenas em AV2 quando foram comparados G1 com G4 (p < 0,05).

 

DISCUSSÃO

Na busca por métodos analgésicos e anti-inflamatórios, o laser de baixa intensidade apresenta-se como um método interessante, por diminuir a dor, o processo inflamatório e produzir poucos efeitos colaterais8. Os efeitos do laser são dependentes da dose, não se obtendo a resposta esperada quando empregado em sub ou superdosagem, mas observando-se efeito analgésico eficaz quando utilizado em doses apropriadas11,12, apesar de uma imensa discrepância com respeito à dose e comprimento de onda adequados13, suscitando assim a necessidade de pesquisas para avaliar tais parâmetros dosimétricos. No estudo em questão, observou-se que a dose utilizada (8 J/cm²), com o laser de 820 nm, foi adequada para produzir efeito analgésico, conforme já observado em outro estudo1. O instrumento de avaliação utilizado também é uma forma já referenciada na literatura, mostrando que animais com aumento da nocicepção demonstram maior tempo de elevação da pata, ao deambular em um minuto, do que animais sem estímulo álgico14.

A naloxona foi o primeiro antagonista do receptor opioide amplamente utilizado em pesquisas e na prática clínica. No presente estudo foi possível observar que o efeito analgésico do laser de baixa potência, 820 nm, sofreu significativa interferência e foi antagonizado com a aplicação de naloxona. A fim de justificar esse efeito, infere-se que o grupo no qual foi realizado a associação entre naloxona e laser de baixa potência, os animais apresentaram manutenção do quadro álgico, na comparação intragrupos, para o terceiro momento de avaliação. Acredita-se então que o laser pode ter induzido a produção e liberação de opioides endógenos pelas células sanguíneas15, explicando os resultados observados.

Tal situação corrobora com os achados de um estudo que utilizou antagonistas de receptores opioides perifericamente, porém com comprimento de onda de 660 nm, ou seja, dentro do comprimento visível3. Porém, conforme já descrito com respeito às controvérsias, em outro estudo o efeito analgésico do laser, em modelo nociceptivo por carragenina, não foi antagonizado pela naloxona10. Em contrapartida, outros estudos apontam efeitos analgésicos do laser, mediados por opioides, antagonizados por naloxona sistemicamente, ou seja, injetados por via intraperitoneal8,9. Vale lembrar que no presente estudo a dose utilizada de naloxona foi baixa, sendo assim esperado apenas um efeito intra-articular do fármaco e não sistêmico.

Salienta-se que para o presente estudo foi utilizado somente a naloxona como antagonista de receptores opioides endógenos, sugerindo-se a utilização de outros fármacos em associação ao laser com o intuito de avaliar seus possíveis efeitos e eficácia sobre a analgesia e edema articular.

 

CONCLUSÃO

A analgesia oriunda do laser de baixa potência, 820 nm, sofre interferências com aplicação de um antagonista de opioide endógeno como a naloxona de forma periférica.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Dr. Gladson Ricardo Flor Bertolini
Rua Universitária, 2069 – Jardim Universitário
85819-110 Cascavel, PR.
E-mail: gladson_ricardo@yahoo.com.br

Apresentado em 02 de fevereiro de 2012.
Aceito para publicação em 27 de maio de 2012.

 

 

* Recebido do Laboratório de Estudos das Lesões e Recursos Fisioterapêuticos da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Cascavel, PR.