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Revista Dor

Print version ISSN 1806-0013

Rev. dor vol.14 no.2 São Paulo Apr./June 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-00132013000200004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Pesquisa em dor: análise bibliométrica de publicações científicas de uma Instituição de Pesquisa do Brasil*

 

 

Eliseth Ribeiro LeãoI; Rita Lacerda AquaroneII; Edna Terezinha RotherIII

IDoutora em Ciências. Pesquisadora do Instituto de Ensino e Pesquisa, Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). São Paulo, SP, Brasil
IIMestranda da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Enfermeira Sênior do Centro de Reabilitação, Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). São Paulo, SP, Brasil
IIICoordenadora do Sistema Einstein Integrado de Bibliotecas, Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). São Paulo, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


ABSTRACT

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Análises bibliométricas das publicações científicas sobre dor são escassas na literatura. O objetivo foi analisar a produção científica sobre a temática da dor de um instituto de pesquisas.
MÉTODO: Estudo de coorte retrospectivo que analisou artigos publicados em periódicos indexados, de profissionais afiliados a um instituto de pesquisas de um hospital geral, filantrópico, da cidade de São Paulo, no período de 2008 a 2011. As bases de dados utilizadas foram Medline, Scopus, Web of Science, Scielo e LILACS.

RESULTADOS: No período analisado 47 artigos abordaram a temática da dor, com média de 11 artigos/ano em linha de tendência ascendente. Quanto à autoria intelectual, essas publicações envolveram 258 autores, com predominância da categoria profissional médica (77%). Foram realizados em colaboração com outras instituições 24 estudos e, desses, 22 em parceria com universidades. Enxaqueca (25,7%) e cefaleia (14,9%) foram os subtemas mais estudados e desenhos epidemiológicos foram os mais observados (47%). A maioria das pesquisas realizadas (71%) foi publicada em periódicos com fator de impacto, sendo 27 artigos (57,4%) divulgados em oito revistas especializadas em dor. A média do fator de impacto das publicações foi de 2,32. Receberam citações 20 artigos (42,4%): 102 na Web of Science e 135 na Scopus. Dois artigos receberam cinco citações na Scielo.

CONCLUSÃO: Embora os estudos sobre a temática da dor constituam pequena parcela da produção total do instituto analisado, estes demonstram potencial de crescimento. A maioria dos artigos foi publicada em periódicos internacionais e com fator de impacto e citações que indicam a qualidade do conhecimento produzido.

Descritores: Dor, Indicadores bibliométricos, Publicações científicas.


 

 

INTRODUÇÃO

O fenômeno da dor acompanha a história da humanidade e da própria medicina. Relatos muito antigos demonstram a preocupação não só em compreender o fenômeno doloroso, mas em encontrar recursos para tratá-lo e controlá-lo de forma eficaz.

Com o passar do tempo, teorias foram sendo propostas e, a partir dos anos 1970, as pesquisas sobre dor ganharam maior fôlego com a criação da International Association for the Study of Pain (IASP). Os mecanismos dolorosos e tratamentos diversos têm sido enfocados em publicações científicas, bem como resultados de pesquisa são divulgados em eventos por todo o mundo, tornando crescente a produção do conhecimento nessa área1.

Por produção científica deve ser levada em consideração toda e qualquer forma de pesquisa e produção textual desenvolvida para ganhos de progresso tecnológico, social e humano. É por meio da publicação que o trabalho científico tem maior expressão e perenidade, na medida em que traz a público o seu processo de produção de saberes, a partir de quaisquer paradigmas em consideração2.

Produzir e comunicar o conhecimento pode garantir o exercício da investigação, o intercâmbio de ideias e possíveis soluções para problemas humanos, em particular no alívio da dor e do sofrimento que dela decorre.

Grupos de estudiosos têm-se destacado, nas últimas décadas, na pesquisa científica, assim como no ensino e na assistência em serviços especializados, em uma perspectiva multiprofissional. Análise bibliométrica da literatura relativa ao período 1990 - 2001 aponta a dor entre os cinco tópicos mais pesquisados em ensaios clínicos controlados randomizados3.

No Brasil, a Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), fundada por iniciativa de um grupo de médicos em 1982, com o passar dos anos, tem aproximado profissionais de várias especialidades, interessados no estudo e tratamento da dor. Além disso, grandes centros de excelência no atendimento à saúde também têm despendido especial atenção ao manuseio da dor, quer seja incorporando-a como 5º sinal vital, que pressupõe a avaliação regular e sistematizada, quer pelos tratamentos de que dispõem ou, ainda, pela geração de conhecimento de seus pesquisadores em seus institutos de pesquisa. Todavia, publicações sobre o perfil e evolução da literatura científica sobre dor, mesmo internacionais, são escassas1, o que dificulta apreender, ainda mais, a contribuição nacional dos pesquisadores brasileiros, em particular, as geradas extramuros das universidades públicas. O avanço do conhecimento produzido pelos pesquisadores deve ser transformado em informação acessível para a comunidade científica. A bibliometria é um meio de situar a produção de um país em relação ao mundo, de uma instituição, a seu país e, até mesmo, de cientistas em relação às suas próprias comunidades. Existem ainda muitas lacunas no conhecimento da dor, principalmente no Brasil, portanto, é preciso estabelecer o estado da arte do seu conhecimento, mapeando recursos humanos, assistências e pesquisa para saber onde está o conhecimento.

A instituição em estudo tem grande influência na propagação de conhecimento por se tratar de um centro de excelência em pesquisa e em prestação de assistência, com núcleos para tratamento da dor (Grupo de Dor Crônica, Grupo da Dor, Grupo de Cefaleia, Grupo da Coluna). Além disso, é fomentador de pesquisa, tendo sido reconhecido, em 2012, pelo Prêmio SciVal Brasil, que consagra instituições brasileiras de ensino e pesquisa que se destacam pela excelência de sua produção científica, recebendo o prêmio na categoria Citações por documento.

A questão de interesse deste estudo é: o conhecimento que é gerado localmente apresenta algum impacto para o estado da arte da produção científica em dor ou se encontra restrito à resolução de questões isoladas na prática assistencial do serviço onde se origina?

O objetivo deste estudo, portanto, foi analisar e caracterizar a produção científica sobre a temática da dor de um instituto privado de ensino e pesquisa.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo realizado por meio de levantamento da produção de artigos publicados em periódicos indexados, por pesquisadores e/ou profissionais da assistência e do corpo clínico que atuam junto ao instituto de pesquisas de um hospital geral, filantrópico, da cidade de São Paulo. Este instituto de pesquisas foi fundado em 1998 e tem como missão "ser referência em pesquisa, geração e difusão de conhecimentos na área da saúde, para benefício da sociedade". É responsável pela gestão da produção científica institucional tanto do seu quadro de pesquisadores, quanto do corpo clínico e equipe multiprofissional da instituição.

Em janeiro de 2012 foram analisados artigos publicados no período de 2008 - 2011. Os dados foram obtidos do monitoramento de publicações executado pela biblioteca do instituto de pesquisa.

O monitoramento das publicações foi realizado por meio de um serviço de alerta com sintaxes ou estratégias de buscas por nome de pesquisadores e por nome da instituição, em todas as suas variações. As estratégias de busca foram registradas nas bases de dados bibliográficas Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline), Scopus, Institute of Scientific Information Web of Knowledge Database (Web of Science), Scientific Electronic Library Online (Scielo) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) que estratificam por pesquisadores e instituições afiliados às publicações. Mediante as notificações eletrônicas diárias ou semanais recebidas dessas bases de dados, os resultados foram comparados e foi realizada a consistência de cada um dos elementos dos registros recuperados (autor, título, fonte, paginação etc.) a fim de evitar duplicação de registros.

Os registros recuperados foram processados e indexados em banco de dados que, além do registro da informação bibliográfica, gera informação sobre citações, fator de impacto, participação de outras instituições, acesso direto ao artigo eletrônico e vínculos com projetos de pesquisa aprovados na instituição.

Foram considerados apenas os artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais indexadas nas respectivas bases de dados. Duplicações e outras publicações, que não artigos científicos, foram excluídos.

A produção científica foi analisada segundo: nº de artigos/ano; nº de autores; categoria profissional dos autores; colaboração com outras instituições; subtemas e tipos de estudo; fator de impacto do periódico (Journal Citation Reports - JCR - Web of Science); classificação Qualis/Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes); e nº de citações (Web of Science, Scopus e Scielo). Para análise dos dados foi utilizado o Programa Microsoft Excell 2007 e estatística descritiva.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Pesquisa Institucional sob nº 1651/2012.

 

RESULTADOS

Produção científica e autoria intelectual

No período analisado de quatro anos a produção total do instituto correspondeu a 1.366 artigos. Destes, 47 (3,4%) abordaram a temática da dor. A distribuição da produção por ano está demonstrada no gráfico 1, em que dados indicam que a produção científica sobre dor, embora tímida (média de 11 artigos/ano), vem crescendo, conforme reflete a linha de tendência.

 

 

Em relação à autoria intelectual, essas publicações envolveram 261 autores distribuídos por categoria profissional, conforme demonstrado no gráfico 2.

 

 

Em 36 artigos houve participação de médicos, o envolvimento de enfermeiros foi observado em 13 artigos e em apenas três publicações foi evidenciada a presença de outros profissionais (educador físico, fisioterapeuta, psicólogo e farmacêutico). Foram produzidos por uma equipe multiprofissional 14 artigos; 24 estudos (51%) foram realizados em colaboração com outras instituições, sendo 22 deles (46%), em parceria com universidades nacionais e internacionais.

Subtemas e tipos de estudo

Quanto à distribuição dos subtemas estudados se destacaram: enxaqueca (25,7%); cefaleia (14,9%); tratamento farmacológico (10,7%); dor pós-operatória (8,6%); dor pélvica (6,5%); avaliação da dor (4,2%); artrite (4,2%); dor musculoesquelética (4,2%). Com menor expressão outros 10 temas foram abordados: coping e dor; endometriose; fibromialgia; genética; tratamento não farmacológico; dor oncológica; dor pediátrica; placebo; procedimentos dolorosos; e espiritualidade e dor (21%, 2,1% para cada um dos temas).

Quanto ao delineamento dos estudos, conforme o gráfico 3, observa-se maior número de pesquisas epidemiológicas (47%), correspondentes a estudos de coorte, caso-controle e transversais.

 

 

Periódicos, fator de impacto e idioma

Os artigos foram publicados em 24 periódicos em sua maioria internacionais, cuja distribuição, classificação Qualis e fator de impacto estão apresentados na tabela 1. Quanto ao idioma, 73% deles foram publicados em inglês, 19% em português e inglês e 8% em português.

 

 

A maioria das pesquisas realizadas (66%) foi publicada em periódicos com fator de impacto, com destaque para 27 artigos (57,4%) divulgados em oito das (aproximadamente) 40 revistas especializadas em dor. A média do fator de impacto das publicações foi de 2,32 (variação de 0,273 a 4,851).

Embora o fator de impacto ou qualquer outra classificação de periódicos busque assegurar a qualidade do veículo de divulgação e do processo de revisão por pares, nem sempre configura a qualidade do artigo individualmente. Os indicadores quantitativos em dor podem ser vistos apenas como o interesse científico em desenvolver atividades de pesquisa nesse campo e necessitam ser complementados com indicadores que qualifiquem o mérito do conteúdo, como, por exemplo, a análise das citações1, demonstradas na tabela 2.

Vinte artigos (42,5%) receberam citações: 102 na Web of Science e 135 na Scopus. Dois artigos foram citados na Scielo (total de cinco citações).

 

DISCUSSÃO

A análise das publicações científicas sobre dor produzidas por essa instituição verifica um alinhamento da estrutura organizacional em relação aos grupos de atendimento e assistência estratégicos, mas observa também que se segue a tendência e perfil das publicações mundiais.

Dados revelam que a produção brasileira em 1977 era de três artigos; em 1987, dois artigos; em 1997, 40 artigos; e em 2007, 95 artigos. A crescente produção fez com que o Brasil passasse a ocupar o 15º lugar no ranking mundial (com destaque para dor orofacial, que não reflete a realidade brasileira por estar ligada a pesquisadores e grupos de ponta nessa área), conforme dados publicados em 2010, sobre a evolução da literatura científica sobre dor em 30 anos (1976-2007)1.

No entanto, esses resultados são passíveis de incremento. Estudo de coorte retrospectivo que avaliou os 348 trabalhos apresentados no 9º Congresso Brasileiro de Dor identificou que apenas 31 foram publicados (8,9%), em sua maioria em revistas nacionais (64,5%), sendo considerado como muito inferior à média internacional. O autor apontou, ainda, a necessidade de encorajar os profissionais que atuam na área da dor a publicar seus trabalhos, uma vez que constitui a melhor maneira de expor suas ideias e experiências ao mundo científico4.

É observado, entretanto, que a produção nacional, de maneira geral, apresenta grandes desafios não só quantitativos, mas qualitativos, pois a qualidade dessa produção - medida pelo número de citações que um artigo gera, nos trabalhos de outros cientistas, após vir a público - continua abaixo da média mundial.

Embora não existam dados comparativos na literatura voltados à categoria profissional, acredita-se que o perfil de autoria em outros países apresente distribuição semelhante. A participação de maior número de pesquisadores da área médica tem sido observada, quando se trata de pesquisas que envolvem questões clínicas. Acredita-se, ainda, que outros profissionais, como, por exemplo, aqueles que se dedicam à dor orofacial, não apareceram neste estudo tendo em vista as particularidades estratégicas de um hospital quaternário ao que o nosso instituto de pesquisas está inserido, não caracterizando uma demanda específica para esse profissional em um grupo tão restrito de estudiosos dessa temática na instituição.

Na base corrente do Diretório de Grupos de Pesquisa no Brasil, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a busca do tema dor, estratificada por área (na grande área Ciências da Saúde), revela a seguinte distribuição: 62 grupos em Medicina, 26 em Odontologia, 21 em Fisioterapia e Terapia Ocupacional, 17 em Enfermagem e oito em Farmácia.

As dores do segmento cefálico foram as mais investigadas nos estudos analisados e segue uma tendência mundial que denota sua ocorrência frequente. Aproximadamente metade a três quartos dos adultos com idade entre 18 e 65 anos refere ter tido dor de cabeça no último ano. Isso é demonstrado em estudos de todos os continentes, exceto a África, onde a prevalência estimada de um ano é menor em 22%. Enxaqueca é relatada em mais de 10% dos adultos nessa faixa etária, também exceto na África e no Mediterrâneo Oriental. Dor de cabeça em 15 ou mais dias, a cada mês, afeta 1,7% - 4% da população adulta do mundo. Em muitas regiões, os dados são incertos por causa de uma escassez de bons estudos epidemiológicos5.

No Brasil, estudo epidemiológico da dor desenvolvido no município de São Paulo demonstrou que dos 2.401 participantes, 22% das pessoas têm dor nos membros inferiores, 21% nas costas e 15% dor na cabeça, para as quais muitas delas não buscam tratamento. A dor de cabeça/enxaqueca foi apontada, ainda, como a segunda comorbidade mais frequente em indivíduos com dores crônicas (31,2%)6.

Neste estudo, os desenhos epidemiológicos prevaleceram seguidos das revisões de literatura. A análise das pesquisas publicadas na Pain - IASP revelou que esse tipo de estudo se tem mantido estável ao longo de 30 anos e estudos farmacológicos (comportamento animal) foram os que mais cresceram. Não se sabe, entretanto, se o número de ensaios clínicos é relativamente menor em virtude de um número menor de pesquisadores nessa área, como também se estudos dessa natureza são menos submetidos ou menos aceitos por diretrizes editoriais7.

Para avaliação de pesquisas e pesquisadores, o fator de impacto tem sido amplamente utilizado, assim como constitui um critério para concessão de fomento para as universidades. Tem sido utilizado, ainda, como um indicador importante no processo de tomada de decisão em programas de pós-doutoramento8.

A média mundial de fator de impacto da literatura sobre dor é de 3,11, sendo que a média nacional dos 20 países com maior produção variou de 1,89 a 3,73. Em 2006, a média de fator de impacto brasileira era de 3,009. Embora a média do presente estudo tenha ficado um pouco abaixo (2,32) das médias internacional e nacional disponíveis, vale ressaltar que os estudos foram publicados em periódicos relevantes e por um número restrito de pesquisadores, ou seja, produção quantitativamente compatível ao restrito número de pesquisadores voltados à temática, mas com alta qualidade científica.

De 1995 a 2004, observa-se que neurocientistas brasileiros têm publicado em dois conceituados periódicos dentre os considerados top-20, Cephalalgia e Headache10, tendência observada também nos pesquisadores da instituição estudada, com oito artigos publicados. Uma análise de 6.360 artigos relacionados à dor demonstrou distribuição de publicação em 1.071 periódicos, sendo a revista Pain o periódico com maior número de publicações (294), seguida muito de perto pela Headache (278) e pela Cephalalgia (235)9.

Cabe ainda ressaltar que na literatura mundial é possível observar também a existência de diversos periódicos locais, como é o caso da Revista Dor, da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), em que também foram publicados oito artigos. Esses periódicos nacionais, mesmo que não publicados em inglês são importantes por constituírem um elo fundamental entre os pesquisadores de alto nível e os profissionais de saúde que atuam diretamente na assistência1. Nesse sentido, a produção analisada apresenta uma distribuição dos artigos dirigida tanto para a comunidade científica internacional (62%) quanto para a formação/atualização dos estudantes e profissionais de saúde em nosso meio (38%).

No Brasil há também um modelo criado pela Capes, denominado Qualis que classifica os periódicos científicos e é utilizado na divulgação da produção intelectual dos programas de pós-graduação stricto sensu. Esse sistema tem exercido papel indutor na escolha de onde o pesquisador ligado ao ambiente acadêmico deve publicar, por constituir o item de maior peso no processo de análise dos programas. A classificação adota sete estratos: A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C, ao qual o estrato A1 é atribuído o maior peso (100) e ao estrato C o menor valor (zero), o que acaba por exercer papel condutor onde o pesquisador deve publicar11. O que se observa é que revistas com maior fator de impacto correspondem, também, às mais bem classificadas na Capes.

A Web of Science foi durante muitos anos o principal instrumento utilizado para avaliar a evolução da produção científica em todo o mundo. Com base nas publicações nela referenciadas, foram desenvolvidos muitos indicadores bibliométricos para avaliar a produção de países, de regiões, de universidades, de departamentos ou laboratórios ou de investigadores individuais. Em 2004, a editora Elsevier B.V. lançou no mercado a Scopus que, apesar de ainda não ter o impacto internacional da Web of Science tem sido considerada uma boa alternativa. A Scopus é uma base de dados com mais de 33 milhões de registros extraídos de mais de 15.000 revistas com revisão por pares de 4.000 editoras e inclui mais de 1.200 "Open Access Journals" e, ainda, 500 "Conference Proceedings", mais de 600 "Trade Publications" e 200 "Books Series". As diferenças entre as duas bases podem estar ligadas às políticas de inclusão de revistas que são manifestamente diferentes, mas também à classificação dos documentos como artigos, resumos de apresentação em congresso etc. Para análise de citações. a Scopus oferece 20% mais cobertura do que a Web of Science12.

Alguns autores recomendam, ainda, para melhor avaliação de realidades locais, a avaliação da divulgação científica em bases nacionais como a Scielo1, entre outras bases alternativas, tendo em vista as limitações relativas à inclusão dos periódicos na base de dados Web of Science e as críticas existentes tanto de países desenvolvidos como em desenvolvimento8,13. As bases, de forma geral, possuem seus próprios critérios de avaliação para indexação de periódicos e variam em função do objetivo da apreciação e da área de conhecimento11.

Na literatura, a análise das citações tem focalizado principalmente as chamadas citações clássicas, como, por exemplo, a Teoria do Portão, publicada na Science em 1965, com 154 citações. Outro dado que se destaca indica que o número total de citações de todas as pesquisas publicadas vem decrescendo, observando-se, em contraponto, o crescimento do número de artigos7. É possível inferir que, quanto maior o número de artigos, as citações por autores das pesquisas de menor relevância científica ou de menor impacto tendem a receber um menor número de citações por estarem diluídas entre outros artigos disponíveis. Todavia, neste estudo observou-se elevado número de citações (237 quando somadas as duas principais bases), o que enfatiza o alcance dessas publicações extramuros da instituição e as suas contribuições não só para o importante prêmio mencionado na introdução deste artigo, mas também para a comunidade científica internacional.

Vale ressaltar que todas as formas de classificação discutidas apresentam limitações. Avaliações multidimensionais sobre o impacto da geração de saberes são difíceis de serem operacionalizadas e constituem um desafio. Medidas de avaliação das implicações sociais do conhecimento gerado também precisam ser desenvolvidas e configuram um campo a ser explorado.

A principal limitação deste estudo recai sobre o fato de a análise das publicações representar um pequeno grupo de pesquisadores de uma mesma instituição, ainda que 51% dos estudos tenham a participação de outras instituições, principalmente acadêmicas. A análise qualitativa da geração de conhecimento e das principais contribuições científicas de cada publicação pode ser explorada em avaliações futuras e um estudo nacional e multicêntrico também deve ser alvo de estudiosos do tema capitaneado talvez por centros especializados em dor e/ou em parceria com a SBED. Todavia, os resultados apontam a importância de se conhecer o interesse no desenvolvimento de pesquisas nessa área, em contextos diversos, inclusive, naqueles em que outras linhas de pesquisa são predominantes. O cenário nacional carece de dados que revelem como a pesquisa em dor tem se desenvolvido fora dos centros especializados, os quais também respondem por parcela significativa do atendimento à população com queixas dolorosas e, portanto, merecem um olhar mais acurado. Este estudo espera ter contribuído nesse sentido.

 

CONCLUSÃO

Embora os estudos sobre a temática da dor constituam pequena parcela da produção total do instituto analisado, estes demonstram potencial de crescimento. A categoria profissional predominante na autoria intelectual é constituída por médicos, o que indica a necessidade de maior engajamento da equipe multiprofissional no estudo da dor para geração de conhecimentos específicos de cada área de atuação.

Os desenhos epidemiológicos foram os mais prevalentes e voltados ao estudo de algias do segmento cefálico. A maioria dos artigos foi publicada em periódicos internacionais e com fator de impacto e citações que indicam a alta qualidade do conhecimento produzido, o que sugere, portanto, que o conhecimento gerado contribuiu para o estado da arte da produção científica em dor, sem estar restrito a questões locorregionais.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Eliseth Ribeiro Leão
Av. Albert Einstein, 627/701
05651-901 São Paulo, SP
E-mail: eliseth.leao@einstein.br

Apresentado em 08 de novembro de 2012.
Aceito para publicação em 26 de abril de 2013.
Conflito de interesses: Nenhum.

 

 

* Recebido do Instituto de Ensino e Pesquisa, Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). São Paulo, SP.

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