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Revista Dor

Print version ISSN 1806-0013On-line version ISSN 2317-6393

Rev. dor vol.17 no.2 São Paulo Apr./June 2016

http://dx.doi.org/10.5935/1806-0013.20160018 

EDITORIAL

Reflexões sobre medicina pseudo-científica

Luis C. L. Correia1 

1Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Hospital São Rafael

A imagem do médico atual se confunde com a de um cientista. Desejando corresponder a esta expectativa, o médico normalmente evita justificar suas condutas com base em crença ou fé, procurando trazer argumentos lógicos para suas decisões. O problema é quando nos deparamos com argumentos pseudo-científicos em prol de condutas fantasiosas. Acredito que a origem disso esteja na carência de entendimento quanto à essência do pensamento científico.

Diferente do que acredita o senso comum, essa essência não está na presunção de entender o universo, mas sim na humildade de reconhecer a incerteza de nossas crenças. Essa humildade se apresenta na mente científica sob a forma do ceticismo. A palavra cético vem do Grego skeptikos, que significa "aquele que reflete, que indaga, vistoria". Sendo assim, o cético não é o chato que não acredita em nada, mas sim aquele que deseja se aproximar de uma verdade consistente.

Diferente do cético, o crente já tem sua verdade e procura apenas encontrar justificativas que a respalde. O crente é presunçoso, dogmático, enquanto o cético tem a humildade de reconhecer sua ignorância, que poderá ser reduzida caso apareçam evidências da existência do fenômeno em questão. Baseada no ceticismo, a ciência assume o papel de construir o quebra-cabeça de entendimento do universo a partir de peças que tenham a credibilidade de não concluir com base em pseudo-evidências.

E o que são pseudo-evidências? Uma forma comum de tentar convencer alguém é apresentar uma explicação mecanicista. É como se a explicação do porquê garantisse algo ser verdade. Porém, a existência de uma razão não é prova do crime. Por exemplo, alguns propõem que vitaminas possuem ação anti-cancerígena porque têm efeito antioxidante. Mas não é porque oxidação predispõe a câncer, que vitamina reduz incidência de câncer. Na verdade, as evidências de melhor qualidade metodológica indicam a ausência dessa ação protetora1.

A segunda forma de pseudo-ciência é se deixar enganar pelas ilusões do mundo real, causadas por vieses ou efeito do acaso. Um dos tipos mais comuns de viés é o efeito de confusão. Está demonstrado que países europeus com maior população de cegonhas possuem maior taxa de natalidade2. No entanto, a conexão cegonhas-natalidade é mediada por um terceiro fator, de confusão. Países com muitas cegonhas têm mais cidades rurais e nelas os casais se sentem mais à vontade para procriar. Não eram as cegonhas, eram os tipos de cidade.

Para filtrar essas ilusões, foi criado no início do século passado o método científico, um conjunto de procedimentos que minimizam as ilusões da observação do universo em seu estado natural. Quanto menos rígido for o método científico, mais suscetível o estudo fica às ilusões do mundo real. Assim, mesmo as condutas mais fantasiosas dispõem de estudos concluindo a seu favor. O que precisamos fazer é separar o joio do trigo, escolhendo evidência de qualidade para testar nossas hipóteses.

Não que seja errado adotar condutas por fé, pois isso também faz parte da equação da vida. O inadequado é travestir estas decisões de científicas. O equívoco é denominar certas coisas de medicina.

REFERÊNCIAS

1 Bjelakovic G, Nikolova D, Gluud C. ANtioxidant supplements to prevent mortality. JAMA. 2013;310(11):1178-9. [ Links ]

2 Matthews R. Storks deliver babies (p= 0.008). Teaching Statistics. 2000;22(2):36-8. [ Links ]

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