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Revista Dor

versão impressa ISSN 1806-0013versão On-line ISSN 2317-6393

Rev. dor vol.17 no.3 São Paulo jul./set. 2016

http://dx.doi.org/10.5935/1806-0013.20160067 

ARTIGOS ORIGINAIS

Nível de atividade física e percepção de dor musculoesquelética autorrelatada em homens mais velhos

Leandro Quadro Corrêa1 

Airton José Rombaldi2 

Marcelo Cozzensa da Silva2 

1Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, RS, Brasil.

2Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, RS, Brasil.

RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS:

Frente ao impacto social e econômico que a dor causa e aos indícios dos benefícios proporcionados pela prática de atividade física em indivíduos acometidos por essa sensação desagradável, o objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência de dor musculoesquelética autorrelatada e determinar a associação dessa variável com o nível de atividade física em homens de 40 anos de idade ou mais, residentes na zona urbana da cidade de Pelotas-RS.

MÉTODOS:

O estudo caracteriza-se como observacional, transversal de base populacional. O nível de atividade física foi mensurado por meio das sessões de lazer e deslocamento do Questionário Internacional de Atividades Físicas, sendo classificados como insuficientemente ativos aqueles com escore inferior a 150 minutos/semana. Para avaliar a autopercepção da dor utilizou-se uma questão da escala The Aging Male's Symptoms Scale. Foram classificados como tendo dores aqueles que relataram sentir dores moderadas, graves e intensas.

RESULTADOS:

A prevalência de autopercepção de dor foi de 27,0% (IC95% 22,7 - 31,3) e esteve significativamente associada ao nível de atividade física (p<0,001). Os homens que realizaram 150 minutos/semana ou mais de atividade física apresentaram uma proteção de 60% contra o relato de dor quando comparados aos que não atingiam esse ponto de corte, sendo que esse resultado se manteve significativo após ajuste para os fatores de confusão (p=0,02).

CONCLUSÃO:

O presente estudo demonstrou que atingir as recomendações de atividade física pode representar proteção contra a percepção da dor musculoesquelética nos homens estudados.

Descritores: Atividade física; Dor; Dor musculoesquelética; Epidemiologia; Homens

INTRODUÇÃO

A dor é considerada um importante problema clínico, social e econômico em comunidades ao redor do mundo1. Segundo a Associação Internacional para Estudo da Dor (IASP), é uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada com atual ou potencial lesão tecidual ou descrita nos termos da própria lesão2.

As dores musculoesqueléticas, principalmente as lombalgias e algias dos membros superiores (MMSS), ocupavam os primeiros lugares entre as doenças crônico-degenerativas no que diz respeito ao perfil de morbidade em diversos países3. Vários fatores, tais como condições sócio-demográficas, psicossociais, físicas e organizacionais têm sido relacionados ao desencadeamento, desenvolvimento e manutenção desse tipo de dor4.

Segundo Leveille et al. 5 a prevalência de dor musculoesquelética em adultos de meia idade e idosos atinge até 60% dessa população, sendo mais prevalente entre as mulheres6. Além disso, essa morbidade apresenta muitas implicações na saúde pública visto que é uma das causas mais comuns de deficiência e incapacidade, especialmente em pessoas mais velhas7.

Há evidência de que a prática de atividade física possa influenciar diretamente no mecanismo de liberação de opioides endógenos e seja capaz de induzir a analgesia8, havendo também indicativo de que essa prática possa agir como modulador da sensação desagradável da dor por meio da dopamina9. Nesse sentido, a atividade física pode ser considerada um tratamento não farmacológico para a dor musculoesquelética, pois quando realizada de forma adequada e respeitando-se as características individuais, pode reduzir a dor e os sintomas a ela associados10.

Alguns estudos têm demonstrado associação inversa da prática de atividades físicas e redução das dores musculoesqueléticas. Bruce et al. 11 demonstraram redução de 25% na dor musculoesquelética em praticantes de exercícios aeróbios em comparação a indivíduos sedentários. Já Stubbs et al. 12 verificaram que adultos mais velhos sem dor eram significativamente mais ativos em comparação a seus pares com dor musculoesquelética crônica.

Frente ao impacto social e econômico que a dor causa e aos indícios dos benefícios proporcionados pela prática de atividade física em indivíduos acometidos por essa sensação desagradável, percebe-se a importância de determinar a associação dessas variáveis. Soma-se a isso o fato que investigações epidemiológicas com amostras representativas são menos frequentes entre homens, provavelmente por serem menos acometidos por dores musculoesqueléticas do que as mulheres6.

Assim, o objetivo do estudo foi medir a prevalência de dor musculoesquelética autorrelatada e determinar a associação dessa variável com o nível de atividade física em homens de 40 anos de idade ou mais, residentes na zona urbana da cidade de Pelotas-RS.

MÉTODOS

Este estudo caracteriza-se como observacional com delineamento transversal e de base populacional e foi realizado no município de Pelotas/RS, sendo a coleta de dados realizada no decorrer de um ano. Pelotas situa-se no extremo sul do Rio Grande do Sul e na época da coleta de dados a população era de aproximadamente 323.034 habitantes, dos quais aproximadamente 153.180 (47% da população) eram do gênero masculino.

O município é dividido em 408 setores censitários urbanos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No presente estudo, a seleção dos setores que compuseram a amostra foi probabilística por conglomerado, onde foram sorteados 45 dos 404 setores censitários que contêm domicílios para serem incluídos no estudo. Em cada setor censitário sorteado foi identificado um ponto de partida do estudo, a partir do qual foram selecionados sistematicamente os domicílios a serem visitados.

Após a seleção do primeiro domicílio a ser incluído no estudo, os próximos foram selecionados de forma sistemática, respeitando-se o intervalo estipulado de cinco domicílios, até atingir 20 residências em cada setor. No total foram selecionadas 900 residências onde todos os homens que apresentassem idade igual ou superior a 40 anos foram inicialmente considerados elegíveis para o estudo. Foram excluídos do estudo indivíduos institucionalizados (asilos, hospitais, prisões e quartéis), indivíduos com incapacidade motora grave (tetraplégicos, paralisia cerebral, entre outras) e indivíduos que não tivessem capacidade de responder e/ou compreender as perguntas do questionário.

As características demográficas, socioeconômicas e de saúde dos indivíduos envolvidos no estudo foram avaliadas pela aplicação de um questionário padronizado pré-testado.

Para avaliar o desfecho - autopercepção da dor -utilizou-se a seguinte questão: "Você tem sentido dores nas articulações/juntas e/ou nos músculos? (Você tem sentido dor na parte de baixo das costas, dor nas articulações, dor no(s) braço(s) ou na(s) perna(s), dores nas costas em geral)". Essa questão faz parte da The aging males symptoms scale (AMS), escala utilizada para acessar os sintomas do envelhecimento masculino que foi validada por Heineman et al.13.

Foram lidas aos entrevistados as seguintes opções de resposta: "Não tenho sentido dores"; "Tenho sentido dores leves"; "Tenho sentido dores moderadas"; "Tenho sentido dores graves"; "Tenho sentido dores intensas", onde os entrevistados apontavam uma das alternativas para indicarem como estavam se sentindo em relação a essa sensação na última semana. Foram classificados como tendo dores aqueles que relataram sentir dores moderadas, graves e intensas.

Para definir o nível de atividade física (NAF) dos homens entrevistados, utilizou-se a versão longa do International Physical Activity Questionnaire (IPAQ)14, considerando-se apenas as práticas de atividade física do lazer e deslocamento que foram avaliadas em conjunto. Considerou-se como atingindo as recomendações os que relatavam o mínimo de 150 min/sem de atividades físicas, de acordo com as recomendações do ACSM15; esse escore mínimo deveria ser atingido no somatório das atividades de lazer e deslocamento.

As variáveis independentes foram idade (em anos completos), cor da pele (divididos em brancos; não brancos, conforme percepção do entrevistador), situação conjugal (com companheiro; sem companheiro), nível econômico - determinado segundo classificação da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (A- mais elevada; B; C; D/E)16, escolaridade (em anos completos de estudo), tabagismo (fumante atual; ex-fumante; nunca fumou) e autopercepção de saúde (excelente; muito boa; boa; regular; ruim). O estado nutricional foi determinado pelo índice de massa corporal (IMC), calculado pelo peso e altura referidos e classificado segundo critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS)17. A variável trabalho fora de casa (todo tipo de trabalho, regulamentado ou não) foi coletada de forma dicotômica (sim/não) e a autopercepção da redução da força foi investigada por meio de uma questão da escala dos sintomas do envelhecimento masculino13 e a classificação foi de forma dicotômica (normal/diminuída).

O instrumento foi aplicado face a face por entrevistadores de ambos os gêneros com, pelo menos, ensino médio completo, que receberam treinamento de 40h para aplicação do instrumento sem estarem informados dos objetivos nem das hipóteses do estudo. Os entrevistadores realizaram as entrevistas individualmente. Os supervisores do trabalho de campo refizeram as entrevistas em 10% da amostra, selecionados ao acaso, com um questionário reduzido, contendo questões-chave selecionadas do instrumento para controle de qualidade do estudo. O questionário foi testado em um estudo piloto realizado em um setor censitário não incluído na amostra final.

Análise estatística

O banco de dados foi construído no programa Epi Info 6.0, sendo realizada dupla digitação de cada questionário. Para análise dos dados utilizou-se o programa STATA 14.0. Foi feita uma análise descritiva dos sujeitos da amostra em termos de autopercepção da dor e das variáveis socioeconômicas, demográficas, comportamentais, nutricionais e de saúde. Na análise bivariada foi verificada a relação entre o desfecho e o nível de atividade física no lazer e deslocamento através dos testes de Qui-quadrado para heterogeneidade e para tendência linear. A análise multivariável controlada para fatores de confusão (nível socioeconômico, trabalho, redução da força, autopercepção de saúde) foi realizada por meio de regressão de Poisson com variância robusta, e as variáveis mantidas nessa análise foram as que apresentaram valor p<0,2 na análise bivariada. O nível de significância estabelecido foi 5%.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas sob o protocolo 005/2008. Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

RESULTADOS

Participaram do estudo 415 homens com média de idade de 54,5±10,5 anos variando entre 40 e 86 anos, sendo que 28,5% tinham 60 anos ou mais, a maioria (85,2%) era de cor da pele branca, 29,9% tinham entre zero e quatro anos de estudo, 41,9% pertencentes às classes socioeconômicas A e B, 67,1% apresentaram sobrepeso ou obesidade, 28,0% eram fumantes na época da coleta dos dados, 66,9% trabalhavam fora, 25,1% percebiam a saúde como regular ou ruim e 82,9% não atingiram as recomendações de atividade física. Em relação ao desfecho em estudo (prevalência de dor musculoesquelética autorrelatada), 27,0% (IC95% 22,7-31,3) dos respondentes relataram esse tipo de dor. A tabela 1 apresenta a associação do relato da presença de dor conforme as variáveis estudadas. Quanto à intensidade da dor, 17,4% relataram sentir dores moderadas, 8,0% graves e 1,6% intensas, o que representa, respectivamente, 64,4, 29,6 e 6,0% da prevalência total nos homens que foram classificadas como tendo dores.

Tabela 1 Análise bivariada da autopercepção da dor com as variáveis independentes estudadas (n=415) 

Variáveis Com dor Sem dor
n % n % Valor de p
Idade (anos) 0,43
40-49 37 23,0 124 77,0
50-59 37 27,6 97 72,4
60-69 25 32,5 52 67,5
70 ou mais 13 30,2 30 69,8
Cor da pele 0,66
Branco 96 27,3 256 75,4
Não branco 15 24,6 46 24,6
Escolaridade (anos completos) 0,04**
0 3 21,4 11 78,6
1 a 4 41 36,9 70 63,1
5 a 8 28 19,3 117 80,7
9 a 11 20 26,7 55 73,3
12 ou mais 20 28,6 50 71,4
Nível socioeconômico (ABEP) 0,04**
A (mais elevado) 3 9,4 29 90,6
B 45 32,9 92 67,2
C 52 27,2 139 72,8
D/E 10 21,3 37 78,7
Situação conjugal 0,86
Casado ou morando com 86 26,8 235 73,2
companheira
Sem companheira 26 27,7 68 72,3
IMC (kg/m2)# 0,02**
Normal 36 27,5 95 72,5
Sobrepeso 40 22,4 139 77,7
Obesidade 34 38,6 54 61,4
Tabagismo 0,46
Nunca fumou 31 24,8 94 75,2
Ex-fumante 52 30,2 120 69,8
Fumante atual 29 24,6 89 75,4
Autopercepção da força <0,001*
Normal 77 22,9 259 77,1
Diminuída 35 44,3 44 55,7
Trabalho fora de casa 0,01*
Não 48 35,0 89 65,0
Sim 64 23,0 214 77,0
Autopercepção de saúde <0,001**
Excelente 5 12,5 35 87,5
Muito boa 10 17,5 47 82,5
Boa 54 25,4 159 74,7
Regular 32 38,1 52 61,9
Ruim 11 55,0 9 45,0
Nível de atividade física <0,001*
(min/sem)
Não atinge as recomendações 105 30,5 239 69,5
Atinge as recomendações 7 9,9 64 90,1

ABEP = Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa; ; IMC = Índice de massa corporal;

#Variável com maior número de ausência (17);

*Qui-quadrado para heterogeneidade;

**Qui-quadrado para tendência linear.

Quando analisada a percepção de dor e o nível de atividade física, notou-se associação entre o desfecho e essa variável, sendo que 30,5% daqueles que não atingiam as recomendações de atividade física para benefícios à saúde (150 min/sem) relataram dor, enquanto o percentual dos que atingiam as recomendações foi de 9,9% (p<0,001). A percepção da dor também esteve associada com escolaridade, nível socioeconômico, IMC, redução da força, trabalho fora de casa e autopercepção de saúde.

No que diz respeito à associação entre a intensidade da dor e o nível de atividade física, verificou-se uma tendência (p=0,004) de aumento da percepção de dores mais intensas entre aqueles que não atingiam as recomendações de atividade física para benefícios à saúde em comparação aos que atingiam (Figura 1).

Figura 1 Intensidade relatada de dor de acordo com o nível de atividade física no lazer e deslocamento dos homens estudados (n=415) 

Esse tipo de associação também foi verificado quando a atividade física foi considerada por meio de um escore categorizado do quanto os participantes realizavam em minutos por semana (min/sem) atividades físicas, sendo que menos de 10% dos que faziam 500 min/ sem ou mais relataram sentir dor contra 32,4% dos que não faziam atividade física alguma ao longo da semana (p=0,005) (Figura 2).

Figura 2 Presença de dor nos homens estudados de acordo com o tempo despendido em atividades físicas no lazer e deslocamento (n=415) 

Na análise multivariável, quando se controlou no mesmo nível os fatores de confusão (escolaridade, nível socioeconômico, IMC, hábito tabagista, redução da força, trabalho fora de casa e autopercepção de saúde), a associação entre a percepção de dor e o nível de atividade física foi mantida (p=0,02), sendo que os indivíduos suficientemente ativos apresentaram proteção de 60% para o relato de dor em comparação àqueles que não atingiam as recomendações. Também nessa análise, sujeitos que perceberam redução na força e sua saúde como ruim, apresentaram riscos maiores de percepção de dor (60% e 180%, respectivamente) quando comparados aos grupos de referência (força normal e saúde excelente) (Tabela 2).

Tabela 2 Análise multivariável da autopercepção da dor e variáveis independentes em estudo (n=415) 

Análise ajustada*
Variáveis RP (IC 95%) Valor de p
Escolaridade (em anos completos) 0,8
0 1,0
1 a 4 2,7 (0,9 – 8,2)
5 a 8 1,5 (0,5 – 4,8)
9 a 11 2,1 (0,7 – 6,6)
12 ou mais 2,6 (0,8 – 8,4)
Nível socioeconômico (ABEP) 0,3
A (mais elevado) 1,0
B 3,4 (1,1 – 10,3)
C 2,5 (0,9 – 7,3)
D/E 1,9 (0,6 – 6,2)
IMC (kg/m2))# 0,3
Normal 1,0
Sobrepeso 1,0 (0,6 – 1,3)
Obesidade 1,4 (0,9 – 2,2)
Tabagismo 0,7
Nunca fumou 1,0
Ex-fumante 0,9 (0,6 – 1,3)
Fumante atual 1,0 (0,7 – 1,5)
Autopercepção da força 0,02**
Normal 1,0
Diminuída 1,6 (1,1 – 2,3)
Trabalho fora de casa 0,1
Não 1,0
Sim 0,8 (0,6 – 1,1)
Autopercepção de saúde 0,01***
Excelente 1,0
Muito boa 1,3 (0,5 – 3,6)
Boa 1,6 (0,6 – 4,1)
Regular 1,9 (0,7 – 5,2)
Ruim 2,8 (1,1 – 7,2)
Nível de atividade física (min/sem) 0,02**
Não atinge as recomendações 1,0
Atinge as recomendações 0,4 (0,2 – 0,9)

ABEP = Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa; IMC = Índice de massa corporal;

#Variável com maior número de ausência (17);

*Ajustada para escolaridade, nível socioeconômico, tabagismo, redução da força, trabalho fora de casa e autopercepção de saúde, mantidas na análise por apresentarem valor p≤0,2;

**Teste de Wald para heterogeneidade;

***Teste de Wald para tendência linear.

DISCUSSÃO

Os principais achados do presente estudo apontaram a associação da autopercepção de dor musculoesquelética, de redução da força e de saúde ruim com a prática de atividades físicas nos domínios do lazer e deslocamento.

Estudos realizados nessa mesma região do Brasil também verificaram os fatores associados a distúrbios osteomusculares ou à dor lombar crônica e não identificaram nenhuma associação dessas variáveis com a prática de atividades físicas, mas sim com outros desfechos como IMC, idade, situação conjugal, tabagismo, carregar peso e esforço repetitivo18,19.

Outros autores constataram que a prevalência de dor musculoesquelética aumenta com a idade20. Não há ainda consenso de que a atividade física seja fator protetor para esse tipo de morbidade21,22. No entanto, no presente estudo percebeu-se que aqueles homens que relataram apresentar diminuição da força tiveram um risco 60% maior de apresentar dor musculoesquelética em comparação aos que não apresentaram redução. Estudo de coorte23 também realizado com homens, porém mais jovens, demonstrou que aqueles que apresentaram pouca força muscular já apresentavam redução no risco de autorreferir dor musculoesquelética (RR 0,93; IC 95% 0,87 a 0,99), porém, o mesmo resultado não se manteve para aqueles com bastante força (RR 0,99; IC95% 0,93 a 1,05). Os autores apontaram que os resultados não fortaleceram a hipótese de que a pouca força seja um fator de risco para dor musculoesquelética futura23. A relação entre atividade física e dor musculoesquelética na presente pesquisa deve ser avaliada com restrições visto que se trata de um estudo transversal, passível de viés de causalidade reversa.

Em relação à associação da percepção de dor com o principal desfecho em estudo (nível de atividade física), o resultado encontrado diverge de estudo de coorte realizado no Japão22, com 4.559 adultos entre 40 e 79 anos (46% do gênero masculino), onde não se verificou tal associação. Cabe ressaltar que o presente estudo avaliou a presença de dor musculoesquelética em várias regiões do corpo enquanto o estudo japonês mensurou a presença de dor apenas em dois pontos específicos: na região lombar (onde a prevalência de dor relatada pelos homens foi de 49,9%) e nos joelhos (prevalência de 39,5%)22. Por outro lado, Stubbs et al. 12, em metanálise, identificaram que pessoas mais velhas, com dor crônica, eram menos ativas que aquelas que não apresentavam esse sintoma. Embora com uma diferença pequena, os autores sugeriram que a prática de atividades físicas para essa população pode ser clinicamente relevante, podendo servir como estratégia não farmacológica.

Na mesma direção que Stubbs et al. 12, o estudo de coorte realizado por Bruce, Fries e Lubeck11 acompanhou por 14 anos homens e mulheres de uma associação de corredores comparando-os com indivíduos de uma comunidade dos Estados Unidos. Os resultados apontaram que aqueles que sempre foram fisicamente ativos tiveram 25% menos dores esqueléticas em comparação com os que reportaram ser mais sedentários. Esse resultado apresentado pelos autores11 também corrobora os encontrados no presente estudo onde se verificou que os homens que atingiram as recomendações de atividade física relataram apresentar dores menos intensas em comparação àqueles que não atingiram as recomendações, bem como aqueles que fizeram 150 minutos/semana ou mais relataram menor intensidade de dor que aqueles que não atingiam este ponto de corte. Tais motivos ajudam a reiterar a importância da prática de atividades físicas para redução da ocorrência de dor bem como de sua intensidade. Limitações e pontos positivos deste estudo devem ser descritos. As questões utilizadas para verificação da dor e de sua intensidade apesar de fazer parte de um questionário validado para a população adulta masculina brasileira limitam-se a um único período de tempo e não definem qual a região específica. Além disso, deve-se salientar que o nível de atividade física foi autorrelatado e a transversalidade do delineamento não permitiu apontar a relação de causa-efeito (causalidade reversa). Por outro lado, a aplicação do questionário por entrevistadores bem treinados, a logística de realização da pesquisa e o baixo percentual de perdas e recusas são pontos a serem destacados.

CONCLUSÃO

Na amostra estudada, a intensidade da dor foi significativamente superior entre aqueles que não atingiram as recomendações de atividade física e realizar pelo menos 150 minutos de atividades semanais esteve associado estatisticamente à redução no relato de dor. Nesse sentido, o presente estudo sugere que atingir as recomendações de atividade física pode representar fator de proteção contra a percepção da dor musculoesquelética. Ainda, a percepção de força reduzida e a pior percepção de saúde podem ser fatores de risco para percepção da dor.

Fontes de fomento: não há.

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Recebido: 26 de Março de 2016; Aceito: 22 de Junho de 2016

Endereço para correspondência: Rua Luís de Camões, 625, 96055-630 Pelotas, RS, Brasil. E-mail: leandroqc@hotmail.com

Conflito de interesses: não há

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