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Revista Brasileira de Ensino de Física

Print version ISSN 1806-1117

Rev. Bras. Ensino Fís. vol.34 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-11172012000400020 

PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA

 

Metáforas científicas no discurso jornalístico

 

Scientific metaphors in the journalistic discourse

 

 

Osame Kinouchi1; Juliana M. Kinouchi; Angélica A. Mandrá

Laboratório de Divulgação Científica e Cientometria, Departamento de Física, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil

 

 


RESUMO

A educação e divulgação científicas não apenas ampliam o vocabulário e o repertório de conceitos científicos de uma população, mas, ao mesmo tempo, promovem a difusão de certas metáforas conceituais e cognitivas. Neste trabalho, descrevemos este processo e propomos uma classificação em termos de metáforas visíveis, invisíveis, básicas e derivadas. Focalizamos nossa atenção em metáforas físicas aplicadas a fenômenos psicológicos e sócio-econômicos, estudando dois casos exemplares através do exame exaustivo do conteúdo online de grandes portais jornalísticos brasileiros. Finalmente, apresentamos implicações e sugestões da teoria de metáforas cognitivas de Lakoff e Jonhson para o processo de educação e divulgação científicas.

Palavras-chave: divulgação científica, jornalismo, metáforas, analogias, terminologia científica, cognição, psicologia cognitiva.


ABSTRACT

Scientific education and divulgation not only amplify people's vocabulary and repertory of scientific concepts but, at the same time, promote the diffusion of certain conceptual and cognitive metaphors. Here we describe this process and propose a classification in terms of visible, invisible, basic and derived metaphors. We focus our attention on physical metaphors applied to psychological and socio-economical phenomena, by studying two exemplar cases through an exhaustive exam of the online content of large Brazilian journalistic portals. Finally, we present implications and suggestions from Lakiff and Johnson's cognitive metaphor theory for the scientific education and communication process.

Keywords: scientific communication, journalism, metaphor, analogy, scientific terminology, cognition, cognitive psychology.


 

 

Good mathematicians see analogies between theorems or theories; the very best ones see analogies between analogies
Stefan Banach, citado por S.M. Ulam.

 

1. Introdução

A linguagem coloquial, o padrão jornalístico, a norma culta e a linguagem científica não constituem universos estanques, mas interagem de maneiras as mais diversas e por vezes imprevisíveis. Ao longo de sua vida, estudantes e cidadãos irão tomar contato, em maior ou menor grau, com esses diferentes universos linguísticos. Neste trabalho, faremos algumas considerações sobre como certos conceitos científicos acabam por se transferir para a linguagem comum através de um uso metafórico dos mesmos e que implicações tal fato pode ter para as atividades de divulgação e educação científicas.

Embora a difusão social de conceitos e termos científicos seja um processo complexo e multifacetado mediado pela educação formal, pela cultura popular (desenhos animados, cinema, videogames, quadrinhos, música pop etc.), pela mídia tradicional (jornais, revistas, jornalismo televisivo, documentários etc.) e pelas novas mídias (sites, blogs, videologs etc.), centraremos nossa atenção na questão da difusão de certos conceitos de física, ou pelo menos do vocabulário a eles associado, através de metáforas presentes em textos jornalísticos.

Neste trabalho, o termo "metáfora'' será usado em um sentido cognitivo em vez de apenas no sentido linguístico ("figura de linguagem''). Adotaremos a posição da teoria cognitiva de Lakoff e Johnson na qual a essência da metáfora é "compreender e experimentar um tipo de coisa em termos de outra'', um mapeamento entre um domínio fonte concreto e um domínio alvo abstrato [1,2]. Embora conscientes da existência de outras teorias da metáfora em Linguística, nossa preocupação aqui é chamar a atenção para um fenômeno pouco estudado, mas potencialmente relevante para o ensino e divulgação científicos, em vez de querer atingir um consenso teórico prematuro.

O foco deste trabalho em metáforas jornalísticas se justifica por motivos sociais e metodológicos. Em termos sociais, o jornalismo tem papel importante na manutenção de certos normas linguísticas e continua a ser um dos principais intermediários entre a comunidade acadêmica e o grande público. Em termos metodológicos, a existência de grandes portais jornalísticos possuindo ferramentas de busca por palavras-chave permite uma amostragem relativamente completa do uso de termos e metáforas científicas nesses ambientes.

O artigo é organizado da seguinte forma. Na seção 2, discutimos a definição de metáfora científica a ser usada neste trabalho e propomos uma classificação preliminar em termos de metáforas visíveis, invisíveis, básicas e derivadas. Na seção 3, apresentamos alguns exemplos de metáforas científicas originárias da física clássica, examinadas segundo a classificação proposta, com ênfase em metáforas aplicadas a fatos sociais e econômicos. Um estudo um pouco mais quantitativo de metáforas jornalísticas que utilizam termos de física é apresentado na seção 4, o qual sugere que as metáforas de origem científica aparecem com grande frequência na linguagem jornalística. Na seção 5, propomos que a educação e a divulgação científicas, para além da transmissão literal de conteúdos, desempenham um papel relevante na ampliação do vocabulário de metáforas conceituais à disposição de uma população, aumentando seu poder de descrição, expressão e mesmo cognição de fatos políticos, econômicos e sociais. Em nossas conclusões, propomos que o exame das metáforas científicas na linguagem jornalística e coloquial pode abrir novas perspectivas com relação à questão da relevância social da aprendizagem formal e informal de ciências.

 

2. Metáforas comuns e metáforas cientificamente inspiradas

Nas teorias cognitivas da metáfora [1-3] faz-se a distinção entre uma expressão metafórica, que é uma figura estilística de linguagem (por exemplo, "a máquina do Estado'') e uma metáfora conceitual, a qual permite, afeta e limita a própria cognição ("o Estado é um tipo de máquina''). Por simplicidade, usaremos neste trabalho o termo genérico "metáfora'' em ambos os casos, qualificando o seu sentido apenas quando necessário.

2.1. Metáforas comuns e linguagem científica

Na literatura em ensino de física já existe uma série de trabalhos sobre o uso de metáforas e analogias como instrumentos pedagógicos [4-9]. Por exemplo, é possível fazer uma analogia (parcial) entre corrente elétrica em um fio condutor e corrente de água dentro de um cano, e tentar prosseguir a analogia encontrando paralelos entre a diferença de pressão ao longo do cano e diferença de voltagem ao longo do fio, o papel similar da viscosidade e da resistência elétrica etc. [10-11]. Precisamos enfatizar aqui que este tipo de analogia pedagógica não é o tema deste trabalho e não corresponde ao que queremos dizer por "metáfora científica''.

Existe também um processo de criação de terminologia e mesmo de conceitos científicos a partir do uso metafórico de expressões da linguagem comum. Ainda usando o exemplo anterior, os termos "carga'', "corrente'', "fio'', "pressão'', "resistência'', "campo'' etc. são etimologicamente anteriores ao seu uso científico, e tal uso se origina de uma ampliação do sentido original por via metafórica e analógica (e posterior definição de um novo sentido técnico literal). Também não chamaremos tais expressões de "metáforas científicas'', pois são metáforas da linguagem comum L aplicadas à terminologia científica C, ou seja, são mapeamentos do tipo L C.

Outros exemplos de termos em física construídos a partir de metáforas comuns seriam: barreira entrópica, relevo de energia, poço de potencial, ruído branco, paisagem rugosa, rede cristalina, árvore de Cayley, bacia de atração, buraco negro, supercordas, dinâmica de avalanches etc. Note-se que, em geral, o termo coloquial é um substantivo simples com forte apelo imagético/sensorial (barreira, relevo, poço, ruído, rede, árvore, bacia, buraco, cordas, avalanches etc.) e que o mesmo é adjetivado, qualificado ou complementado a fim de formar uma expressão da terminologia científica.

Observamos que, se o uso de palavras comuns na criação de um termo científico pode trazer vantagens (em visualização, memorização, heurística analógica etc.), ela também pode acarretar desvantagens por remeter a sentidos que fogem ao desejado. Exemplos clássicos são as palavras "aceleração'', "força'', "peso'', "trabalho'', "energia'', "calor'', cujos sentidos coloquiais interferem com o aprendizado do sentido técnico no ensino de física [2, 6, 12- 14]. A fim de evitar este perigo, é comum a criação terminológica de neologismos com um mínimo de sentido metafórico: quark, próton, entropia, entalpia, fractal, quasar etc. Isso não significa que tais termos não possam, no futuro, ser transferido metaforicamente para a linguagem comum, como parece já estar ocorrendo com os termos entropia (como metáfora para desordem) e fractal (como metáfora para organização em vários níveis).

2.2. Linguagem comum e metáforas científicas

Chamaremos de metáfora científica (ou, se for necessário uma maior distinção, de "metáfora cientificamente inspirada'' - MCI) o processo inverso ao discutido na seção anterior, ou seja, onde termos científicos com sentido técnico bem definido se transformam em expressões coloquiais através de um uso basicamente metafórico, um mapeamento C L. Ou seja, conceitos científicos são mapeados, pelo discurso comum, para outros domínios mais abstratos a fim de descrever sistemas complexos (usualmente psicológicos, biológicos, sociais e econômicos). Mostraremos a seguir que este processo é surpreendentemente comum para termos de física e matemática, embora muitas vezes passe despercebido. Discutiremos mais tarde sua potencial relevância para a questão do ensino e da divulgação científica.

Já observamos que o processo de criação de expressões comuns e termos técnicos não é unidirecional: um termo técnico pode ser construído a partir de termos totalmente coloquiais (por exemplo, "Big Bang'', "mundo pequeno'', "buraco negro'', "efeito borboleta'', "túnel de minhoca''), adquirir um sentido muito bem definido dentro do contexto científico e retornar ao vocabulário comum carregando, parcialmente que seja, o novo significado adquirido e gerando metáforas cientificamente inspiradas.

Assim, consideraremos que haverá uma metáfora científica se uma expressão com sentido técnico bem definido for usada metaforicamente em outros contextos, quer essa expressão seja um neologismo terminológico quer tenha ela mesma uma origem metafórica a partir de palavras comuns, conforme o processo descrito no item 2.1.

2.3. Metáforas visíveis e invisíveis, derivadas e básicas

Lakoff e Jonhson [1] distinguem metáforas estilísticas (uma figura de linguagem) de metáforas cognitivas (modelos usados para mapear um domínio abstrato em um domínio concreto da experiência). Algumas dessas metáforas cognitivas, que chamaremos de metáforas básicas, são muito profundas e resilientes, tendo sido adquiridas em tenra idade, através dos primórdios da linguagem e da interação corpo-ambiente.

Chamaremos de metáforas derivadas às metáforas estilísticas que denotam a presença ou o uso, talvez inconsciente, de uma metáfora cognitiva básica. Note que, em nossa classificação, todas as metáforas derivadas são metáforas estilísticas mas nem todas as metáforas estilísticas são derivadas de metáforas cognitivas básicas. Por exemplo, nossa própria terminologia sobre "metáforas básicas e derivadas'' sugere a presença da metáfora cognitiva "o conhecimento é como um edifício que possui alicerces (bases) e estruturas suplementares (derivadas, estilísticas)''.

Algumas expressões metafóricas foram incorporadas há tanto tempo pela linguagem comum e mesmo pelo léxico oficial que perdem grande parte de seu impacto de novidade semântica, de reorganização criativa do pensamento. São chamadas de "metáforas mortas'', confundindo-se, em certo limite, com catacreses (expressões incorporadas ao léxico e usadas na falta de vocábulos específicos, por exemplo, "folha de papel'', "pés da mesa'' etc.). Preferimos descreve-las como "metáforas invisíveis'' porque concordamos com Lakoff e Johnson [1] que as mesmas ainda podem afetar o pensamento e o comportamento por difundirem e reforçarem metáforas cognitivas (definidas a seguir) ou mesmo visões ideológicas. Em contraste, chamaremos de "metáforas visíveis'' (na literatura, "metáforas vivas'') àquelas que ainda produzem um choque semântico consciente, gerando novas percepções, analogias e mudanças conceituais. Estas serão tratadas na seção 4.

Notemos que o uso de termos da geometria euclidiana são comuns em metáforas invisíveis, por exemplo:

1. Ponto de vista
2. Linha de raciocínio
3. Traçar um paralelo
4. Analisar por outro ângulo
5. Volume de conhecimentos
6. Plano pessoal
7. Círculo de amizades
8. Triângulo amoroso
9. Esfera de influência
10. Pirâmide social

Este uso mais antigo e incorporado na linguagem comum pode se dever ao fato de que a geometria euclidiana faz parte da educação acadêmica desde o mundo greco-romano, mantendo-se também proeminente no trivium medieval. Ou seja, os termos da geometria euclidiana (em contraste com a geometria não-euclidiana e a geometria fractal, por exemplo) sempre fizeram parte do vocabulário das classes educadas e tiveram tempo suficiente para se difundir socialmente a partir delas.

Uma explicação alternativa, que não exclui a observação anterior de que a educação limita o repertório conceitual, se refere ao fato de que os termos de geometria euclidiana são fortemente icônicos, e expressões relacionadas à visão e à óptica formam uma rede de metáforas derivadas de uma "metáfora epistemológica básica'' [1,2] que relaciona conhecimento com visão: "ver a luz'', "enxergar um problema'', "esclarecer uma dúvida'', "refletir sobre um assunto'', "iluminar uma questão'', "o foco do estudo'', "um assunto com vários aspectos'', "ideia luminosa'', "visão ideológica'', "visão de mundo'', "quadro mental'', "sob essa lente'', "sob esse prisma'', "Iluminismo'', "trevas da ignorância'', "buscar a Iluminação'' etc. A palavra teoria vem do grego theoria com os significados de contemplar e especular (no sentido de espelhar). A própria ideia Cartesiana de que devemos pensar usando "ideias claras e distintas'' em vez de metáforas é ela mesma uma expressão metafórica.

Ou seja, as expressões metafóricas 1-4 acima seriam metáforas derivadas da metáfora cognitiva básica "conhecer = ver'' na medida em que tais figuras geométricas permitem descrever o processo de pensamento em termos visuais. Cabe notar que nossa própria terminologia de metáforas "visíveis'' e "invisíveis'' deriva desta metáfora básica.

Uma segunda metáfora epistemológica básica é a do canal de ideias, ou seja, os pensamentos seriam como objetos ou talvez como um fluido, e a comunicação se faz por "meios de transporte'' (canais) que "carregam'' a informação, a qual pode ser "armazenada'' em recipientes como livros e mídias digitais. O uso do termo geométrico em "volume de conhecimentos'' (metáfora 5 da lista acima) talvez se relacione com isso, embora o fato de que livros, por ocuparem espaço físico, sejam organizados em "volumes'', também reforce a metáfora de que ideias possuem volume físico e ocupem espaço, que a informação pode ser "comprimida'' etc. A teoria da informação de Shannon transforma essa metáfora básica do "canal para o fluido do pensamento'' no termo técnico "canal de informação''. Curiosamente, o próprio termo "pensar'', e o sinônimo "ponderar'', tem origem etimológica na palavra latina pensare, que se refere ao ato de "pesar (as ideias) em uma balança'', como se ideias tivessem peso e massa.

Já o uso disseminado de metáforas geométricas (metáforas 6-10 acima) para representar relacionamentos sociais sugere a existência de uma terceira metáfora básica, talvez de origem antropológica, entre relação social e proximidade física (distância espacial em geometria). Metáforas derivadas da mesma metáfora básica seriam: "parente próximo'', "primo distante'', "amigo chegado'', "manter a distância patrão-empregado'', "centro das atenções'', "isolamento psicológico'', "ator periférico'', "inclusão social'' etc. Notamos também que, além de ter sua origem na geometria, a expressão "triângulo amoroso'' também sugere o grafo mais simples usado na teoria de redes complexas aplicada à sociologia, onde a noção de distância entre duas pessoas é medida pelo número de pessoas intermediárias ou "graus de separação'' [15]. Acreditamos que a teoria de redes complexas deverá gerar várias metáforas científicas de uso comum nos próximos anos, por exemplo, a ideia de "hub'' ou pessoa hiperconectada em uma rede social livre de escala [15].

 

3. Física clássica e metáforas sociais

Assim como as metáforas geométricas, a maior parte das metáforas originárias de termos da física clássica também perderam sua novidade semântica e possuem agora mais um caráter de metáforas invisíveis e convencionais: forças políticas, equilíbrio de poder, fonte de atrito, tensão social, magnetismo pessoal etc. já quase não remetem aos sentidos originais. O uso de metáforas físicas (e também geométricas e biológicas) quase passa despercebido quando lemos em um comentário econômico que [16]:

"Quando os saques ocorreram, eles simplesmente implodiram a pirâmide de papel, espalhando a crise por meio de contágios bancários. O colapso do comércio transmitiu o choque, tanto que a Alemanha e o Japão sofreram o impacto inicial ainda maior que os Estados Unidos e a Espanha'',

onde uma vaga noção da lei de conservação do momento linear parece estar presente.

O uso de metáforas físicas nas ciências sociais é bem documentado, tendo sua origem na "física social'' do século XIX ou mesmo antes [17-20]. A terminologia de várias ciências sociais, em especial a sociologia, a ciência política e a economia, incorporaram de forma metafórica termos originários especialmente da física newtoniana. Especialmente na linguagem jornalística, encontramos com frequência termos mecânicos como correlação de forças, movimentos sociais, deslocamento do centro de gravidade do poder, fase do ciclo econômico, turbulência financeira, equilíbrio fiscal, pressão social, tensão social, inércia governamental etc., além de termos relacionados com o modelo mental hidrodinâmico de Freud e outros termos de origem termodinâmica muito presentes em Marx e Engels [17-18].

Novamente, propomos duas explicações complementares para a onipresença de termos de física clássica no discurso social: em primeiro lugar, tais metáforas agora invisíveis refletem a presença compartilhada de uma metáfora básica, onde a sociedade ou a economia são vistas como grandes máquinas ou, pelo menos, como um sistema (Newtoniano) de muitos corpos interagindo por forças. Reconhecer isso não significa que tais metáforas básicas sejam especialmente pobres ou limitadas: a segunda metáfora, a de um sistema de muitas partículas fortemente interagentes (no sentido da física estatística ou teoria de sistemas dinâmicos) capaz de apresentar fenômenos coletivos emergentes, transições de fase, dinâmica de avalanches, caos multidimensional etc. é uma abordagem científica promissora para o entendimento de vários fenômenos sociais [19-24]. Notamos finalmente que existem também influentes metáforas básicas de origem biológica na conceituação da sociedade: "a sociedade como um (super)organismo'', "um grupo social como um corpo humano'', "a grande cidade como uma selva'', "evolução tecnológica como evolução biológica'' e "economia como ecossistema''.

A presença da metáfora básica "a sociedade é um sistema de muitas partículas interagindo através de forças'' não explica, porém, o fato de que as expressões metafóricas utilizadas no discurso jornalístico tenham um caráter antiquado, restringindo-se à mecânica, hidrodinâmica e termodinâmica clássicas. A explicação mais simples é a de que jornalistas e colunistas tiveram como formação cultural uma literatura de ciências sociais ou humanidades, onde as metáforas da física clássica são usuais por terem sido usadas originalmente pelo Marxismo e pela Psicanálise. De forma complementar, o leitor médio para o qual os jornalistas se dirigem provavelmente teve acesso apenas a essa terminologia de física clássica no ensino médio (atrito, força resultante, pêndulo, centro de gravidade, inércia, pressão, temperatura etc.), de modo que a familiaridade com tais termos facilita o entendimento das expressões metafóricas jornalísticas. Uma discussão sobre o descompasso histórico entre novas tecnologias e as metáforas tecnológicas antigas usadas para descrevê-las pode ser encontrada em [9].

Como exemplo de uso não trivial de metáforas Newtonianas no Marxismo, reproduzimos uma ilustração que Engels faz visando esclarecer a relação entre ação individual e ação coletiva na visão do materialismo histórico [18]:

A história se faz ela mesma de tal maneira que o resultado final é sempre oriundo de conflitos entre muitas vontades individuais, cada uma das quais, por sua vez, é moldada por um conjunto de condições particulares de existência. Existem inumeráveis forças que se entrecruzam, uma série infinita de paralelogramos de forças que dão origem a uma resultante: o fato histórico. Este, por sua vez, pode ser considerado como o produto de uma força que, tomada em seu conjunto, trabalha inconscientemente e involuntariamente. Pois o desejo de cada indivíduo é frustrado pelo de outro, e o que resulta disso é algo que ninguém queria.

Assim é que a história se realiza como se fosse um processo natural e está sujeita, também, essencialmente às mesmas leis de movimento. Mas, do fato de que as diversas vontades individuais - cada uma das quais deseja aquilo a que a impelem a constituição física dos indivíduos e as circunstâncias externas (sejam pessoais ou da sociedade em geral que, em última instância, são econômicas) - não atinjam o que querem, mas se fundam numa média coletiva, numa resultante comum, não se deve concluir que o seu valor seja igual à zero. Pelo contrário, cada uma dessas vontades individuais contribui para a resultante e, nesta medida, está incluída nela. Eu pediria ao senhor que estudasse mais profundamente esta teoria nas suas fontes originais e não em fontes de segunda mão. Marx raramente escreveu alguma obra em que ela não tivesse seu papel, mas especialmente o "18 Brumário de Louis Bonaparte'' é um excelente exemplo de sua aplicação (carta de Friedrich Engels a Konrad Schmidt, 5/8/1890).

Embora representar vontades por vetores (às quais se aplicaria o princípio da superposição linear e a soma vetorial dada por paralelogramos de força) seja um exagero metafórico, Engels descreve um programa de física estatística aplicado à sociologia que não difere, em princípio, de abordagens recentes em econofísica e sociofísica [19-23]. Por exemplo, Engels enfatiza a importância de transições de fase econômico-sociais ("revoluções'', conceituadas a partir do exemplo de transições de fase físicas), ideia resumida em sua primeira lei da Dialética na qual "o aumento quantitativo em certa grandeza ("parâmetro de controle'') pode levar a uma mudança qualitativa em alguma característica do sistema ("parâmetro de ordem'').

Graças ao contato mais recente de jornalistas e público com a divulgação científica (na forma de revistas, livros e documentários), porém, é possível que metáforas de origem física ou matemática incorporem, em um futuro próximo, termos de física contemporânea como fractais, bifurcações, caos, transições de fase, avalanches, atratores, "efeito borboleta'', itinerância caótica [19-24] etc. para descrever fenômenos mentais, econômicos e sociais. É preciso levar em conta o processo de difusão social das metáforas, que pode ser muito rápido dado que jornalistas são formadores de opinião com forte influência na aceitação de novas expressões linguísticas. Por sua vez, tais expressões irão veicular novas maneiras de conceituar e interpretar o mundo.

 

4. Metáforas cientificamente inspiradas no discurso jornalístico

Existem inúmeras metáforas de física clássica e algumas de física moderna e contemporânea circulando no discurso comum e no discurso jornalístico. Examinaremos em detalhe o uso metafórico de um termo de física clássica ("pêndulo'') e um termo de física contemporânea ("buraco negro'') a fim de exemplificar, de forma concreta, o que entendemos por metáforas cientificamente inspiradas (MCI) em contraste com metáforas e analogias usadas na ciência mas que possuem origem não científica. Devemos notar que este é um estudo exploratório que apenas exemplifica uma metodologia (a busca exaustiva por palavras-chave em sites jornalísticos) que poderia ser usada em um estudo mais aprofundado das MCIs presentes no discurso comum.

4.1. O pêndulo e suas metáforas

Uma busca em portais jornalísticos brasileiros para o termo "pêndulo'' no período de 2003 a 2009 retorna 109 textos na Folha Online, 68 no Estado de São Paulo Online e 57 no Portal G1. Nesta busca foram excluídos os textos repetidos. Na Fig. 1 mostramos a frequência entre usos próprios (literais) e usos metafóricos do termo "pêndulo'' nessas diversas fontes. A proporção de uso de metáforas é: Folha = 57%, Estado = 62% e G1 = 29%. O fato de que Folha e Estado apresentem quase a mesma proporção é interessante e sugere uma consistência que talvez decorra da natureza similar desses dois jornais em termos de público e corpo de jornalistas/colunistas. Em contraste, o Portal G1 parece conter uma maior proporção de press releases científicos e menos artigos de colunistas (que em geral usam metáforas para tornar seu texto mais atraente).

 

 

Exemplificamos a seguir os usos metafóricos mais proeminentes. Os significados metaforicos não são excludentes, mas possuem variações na ênfase que dão a diferentes aspectos do movimento pendular. Outros termos metafóricos de física e matemática que apareceram em conjunto com a metáfora pendular também foram colocados em negrito. Por economia de espaço, as citações não serão referenciadas, mas podem ser recuperadas usando-se máquinas de busca como o Google.

a. Pêndulo como oscilação (quase) periódica:

Novo filme de Samira Makhmalbaf está no Festival do Rio: Hana afirma que o pêndulo das relações profissionais para as familiares oscila com naturalidade entre eles.

Um "Romeu e Julieta'' novo, em vários sentidos: Romeu e Julieta devem ser vistos como um pêndulo que oscila entre o amor e o ódio o tempo inteiro.

b. Pêndulo como mudança recorrente, não necessariamente periódica:

Relação com Chávez afeta Kirchners: (...) construiu por muito tempo, particularmente até 2005, um vínculo com Hugo Chávez, sempre com muitas oscilações. Um pêndulo que vibrava para o lado do presidente venezuelano, mas que, às vezes, pendia com mais intensidade para o lado de Lula e (...)

Federalismo truncado será o maior desafio: Isso significa levar o pêndulo da descentralização até o fim e fazer a reforma tributária (...) examinar nossa história, vai notar um pêndulo entre movimentos de centralização e descentralização. A Constituição jogou o pêndulo para a descentralização (...)

c. Pêndulo como alternância:

Grupo Sutil põe "véu da memória'' em "Nostalgia'': Trata-se de estrutura dramatúrgica que privilegia a sobreposição de planos, pêndulo do passado e do presente, invariavelmente sob o ponto de vista de um (...)

Paixões em triângulo de fogo e dor: Nesse pêndulo de frustrações e sonhos femininos, Ana Carolina de Lima ilumina a outra metade do jogo.

d. Pêndulo como movimento entre dois polos antagônicos:

Intelectual é fonte de pensamento independente no jornal: (...) ilusão de que essa seria uma saída para a tensão entre jornalistas e acadêmicos que tem caracterizado o pêndulo do jornalismo cultural nos últimos 30 anos.

EUA mudarão política de clima, diz Gore: Em política sempre há um pêndulo balançando da esquerda para a direita, e sempre que as pessoas percebem que o pêndulo foi longe demais para a direita elas o puxam de volta.

e. Pêndulo como movimento cíclico:

Confiança do mercado se dissolve com pressão da dívida federativa: Mesmo assim, a ruptura desse círculo - a ou desse pêndulo - vicioso só deve vir com alguma grande notícia, como um nome para a nova (...)

Retrato de uma artista: (...) se torna ruim, a cultura entra em ebulição. Quando o frenesi do dinheiro se acalma, a criatividade emerge. Isso é um pêndulo, um ciclo natural que vai permitir à moda evoluir e se moldar em novo formato.

f. Pêndulo como indecisão entre alternativas:

O sucessor: Mas na hora da eleição, isso não tem um peso tão grande. Realmente há uma oscilação, uma espécie de pêndulo. Isso deve acontecer e os cardeais estarão pensando no bem da Igreja e não em como eleger uma pessoa que seria agradável (...)

Deportações de imigrantes da Flórida cresceram em um ano: (...) considerado Estado-pêndulo (comumente indeciso entre republicanos e democratas).

g. Pêndulo como movimento entre diversos polos:

D.O.M. é o melhor sul-americano, segundo 'Restaurant': Parece que o pêndulo do gosto oscila, neste ano, entre os nórdicos e americanos, com paradas na Espanha e na Inglaterra.

h. Pêndulo como sistema fora do ponto de equilíbrio:

Reconciliação interna é o grande desafio, diz político boliviano: Para nós, a saída da Assembléia é conseguir um equilíbrio, que o pêndulo não vá ao Ocidente nem ao Oriente.

Aula de yoga: Descobri que a minha [vida] é como um pêndulo, às vezes está tudo centradinho e, de repente, pziiiin, lá se vai o ímã desgovernado para a direita. Concentro-me, corrijo as falhas, e o marcador retrocede obediente. Ele pára no meio, no ponto perfeito, mas não sei por que, pziiiin, novamente escorrega para o outro lado. Entrei na yoga para aprender a dominar o meu pêndulo interior.

É possível que a metáfora pendular caia em desuso, dado que hoje em dia poucas crianças terão contato com relógios de pêndulo (para uma visão alternativa, ver [9]). Nota-se que nessas aplicações, o pêndulo simples é uma metáfora inadequada devido ao seu movimento estritamente periódico. A inadequação da metáfora poderia ser superada caso o pêndulo caótico viesse a ser mais conhecido como exemplo paradigmático de movimento recorrente porém não periódico [27]. A referência, na última metáfora, a um pêndulo que contém um imã poderia ser um reflexo do contato da autora com o pêndulo caótico, hoje vendido em lojas de curiosidades, além de estar presente em vídeos na internet. Em outras situações, o jornalista parece querer se referir a sistemas bi-estáveis ou multi-estáveis, com transições estocásticas (em vez de periódicas) entre seus atratores, porém seu repertório conceitual só lhe permite usar o pêndulo simples como metáfora.

4.2. Buracos negros e suas metáforas

Uma busca para o termo buraco negro nos anos de 2008-2009 retorna 52 textos na Folha de São Paulo Online, 117 no Estado de São Paulo Online e 105 no Portal G1. Devemos notar que este período é bem menor que o período de 2002 a 2009 onde foram coletadas as expressões envolvendo o pêndulo, porém retorna um número similar de textos: 216 para pêndulo e 274 para buraco negro.

Na Fig. 2 mostramos a proporção entre usos próprios e usos metafóricos do termo buraco negro. Nota-se um uso menos frequente pela Folha (que aparentemente tem uma cobertura menor de notícias científicas que os outros portais). Entretanto, a proporção de uso metafórico é similar ao do portal do Estado de São Paulo e, novamente, uma diferença editorial em relação ao portal G1: Folha = 54% de metáforas, Estado = 46% e G1 = 35%. Essa alta proporção de uso metafórico mostra como as MCI podem ser extremamente comuns, às vezes superando a frequência do uso literal. Os sentidos metafóricos mais comuns e que contemplam diferentes aspectos do conceito científico de buraco negro são arrolados e exemplificados a seguir.

 

 

a. Buraco negro como sumidouro que engole e faz desaparecer:

Europa pede provas de que presos de Guantánamo não são ameaça à segurança: (...) Irlanda e Suíça também disseram estar dispostos a receber os prisioneiros que, graças a um buraco negro legal criado pelos EUA, ficam anos presos sem acusação formal ou (...).

Twitter implementa opção de listas para facilitar organização: "No que diz respeito ao ambiente corporativo, o uso desses sites está se tornando claramente um buraco negro para a produtividade'', disse Philip Wicks ao jornal Financial Times.

Alegria do futebol: Hoje esses jovens brilham uma, duas temporadas, e somem no buraco negro dos euros. Mas encantam enquanto passam, como cometas.

Frases: "Não vou injetar dinheiro público em um buraco negro'', Barack Obama, presidente dos EUA, prometendo não desperdiçar verba governamental.

b. Buraco negro como depressão econômica profunda:

Sob efeito de crise nos EUA, Bovespa fecha com queda de 3,19%: (...) derretimento (a quebra) do sistema financeiro americano - o que agiria como uma espécie de buraco negro na economia global, arrastando outros países para níveis mais agudos da (...).

Ventos pedem isonomias: Desoneram-se tributos para investimentos produtivos no exterior, pois arrecadar menos é um esforço para deter o buraco negro da deflação.

Todo dia é 11 de Setembro: Nessas horas, se alguém diz que o universo está prestes a ser sugado por força gravitacional para um buraco negro em Wall Street, quem tem dinheiro na bolsa se atira pra ver se salva o seu. E aí, meu amigo, é um 11 de Setembro (...).

c. Buraco negro como depressão psicológica profunda:

Em biografia, goleiro Buffon revela ter sofrido de depressão: Buffon, 30, conta como passou por um buraco negro durante seis meses. "Não estava satisfeito com minha vida e com o futebol (...)''.

Uma nação dividida pela raiva: Daquele momento em diante, Britney se meteu num buraco negro. É um desastre após o outro.

d. Buraco negro como lugar ou situação de difícil saída:

A educação dos sem-futuro: Que desafio podem ter crianças e adolescentes para sair do buraco negro da ignorância, para estudar e aprender (...).

Ipatinga perde para o guarani e entra na zona de rebaixamento: O Ipatinga entrou no buraco negro da primeira divisão: é o penúltimo colocado.

e. Buraco negro como pessoa ou objeto importante e que atrai:

Em festa de 50 anos, Zeca lota a Cidade do Samba: Estava lá Lulu Santos, o roqueiro polêmico, para prestigiar o samba popular. "Como não estar aqui. Zeca é o buraco negro da galáxia. Ele é tudo isso que atrai essa vida patrocinada pela alegria. Ele é tudo''.

Europeu ou americano, aqui é xis-queique: (...) É um buraco negro de cremosidade, usando uma definição do crítico da revista americana Gourmet Francis Lam.

f. Buraco negro como região do espaço não visível e da qual não se obtém informação:

Voo Rio-Paris da Air France enfrenta emergência sobre Atlântico: (...) de Dacar, no Senegal, que é o responsável pela navegação aérea na região, conhecida como buraco negro pela falta de cobertura de radares aéreos.

g. Buraco negro como lugar onde a informação é perdida ou esquecida:

Especialistas apoiam ideia mas temem repressão: Vieira de Oliveira, do Instituto Fernand Braudel. Hoje, os casos de violência registrados nas escolas entram no buraco negro dos boletins de ocorrência.

O luto no futebol: (...) em vez de evitar a lembrança da derrota, de relegá-la ao buraco negro do esquecimento, acho que os jogadores deveriam discuti-la a fundo, ver e rever o teipe do jogo fatídico.

Novamente, observamos que o uso metafórico nem sempre respeita as propriedades do sentido literal original: afinal, é possível sair de buracos negros metafóricos, mas não dos literais. Em todo caso, o termo parece ter sido rapidamente adotado por causa de sua força icônica, seu impacto conceitual: ao contrário dos tradicionais termos metafóricos depressão e poço sem fundo, aplicados a fenômenos econômicos e psicológicos, um buraco negro é mais ativo, pois ele atrai, suga, segura, impede a saída. Ou seja, velhas metáforas são substituídas por uma nova, mais expressiva e descritiva, criada a partir da apropriação pelo jornalista de um termo técnico da astrofísica.

 

5. Sugestões para a divulgação científica e o ensino formal de ciências

Termos científicos tanto se originam como, posteriormente, se transferem para a linguagem comum através de um uso metafórico. A partir da observação da onipresença de metáforas cientificamente inspiradas, gostaríamos de levantar questões e fazer algumas sugestões para a divulgação científica e o ensino de ciências.

5.1. Além de uma divulgação científica cientocêntrica: difusão de conceitos e vocabulário científicos como fator de ampliação de redes metafóricas cognitivas

As mais variadas justificativas para a divulgação científica e a popularização da ciência têm sido apresentadas ao longo do tempo. Dentre elas destacamos [25]:

  • As descobertas científicas fazem parte da herança cultural comum da humanidade e constituem uma grande aventura intelectual. Assim como as artes, deveriam ser acessíveis a todas as pessoas;

  • A divulgação científica estimula o despertar de jovens talentos científicos;

  • Os cientistas precisam dar conta ao público dos resultados de suas pesquisas, dado que grande parte delas são financiadas pelo Estado;

  • A cultura científica, por enfatizar o pensamento lógico e o ceticismo, estimularia o pensamento crítico na população;

  • Grandes problemas da sociedade atual relacionados com fontes de energia, doenças infecciosas, engenharia genética, novas terapias, redes de informação etc. possuem forte componente científico e o debate democrático sobre tais problemas necessita de cidadãos razoavelmente informados cientificamente.

Acreditamos que todas essas razões têm o seu mérito. No entanto, são justificativas cientocêntricas, ou seja, atendem primariamente aos interesses da comunidade científica e secundariamente ao público (mesmo os últimos dois itens podem ser reformulados para que isso fique mais evidente).

A visão que defendemos neste trabalho pretende ser um pouco menos cientocêntrica: se a teoria cognitiva das metáforas estiver correta, então nossa capacidade de expressão e mesmo de pensamento é refém do repertório de metáforas à nossa disposição. Dado que as metáforas cognitivas básicas estão relacionadas com nosso corpo interagindo com o ambiente físico desde a mais tenra idade, as metáforas físicas e biológicas se tornam onipresentes em nosso discurso, principalmente na conceituação de temas mais abstratos como os sociais, políticos e filosóficos.

Parafraseando Engels, que disse que "todo cientista é escravo de um filósofo morto'' [18], podemos defender igualmente a recíproca de que "todo filósofo - e talvez toda pessoa comum - é escrava de um cientista morto''. Usamos em nosso discurso diário uma profusão de metáforas mecânicas simples para descrever a história e sistemas socioeconômicos complexos (o exemplo da metáfora "pendular'' exemplifica isso). Nosso repertório metafórico não apenas limita nossa capacidade de falar sobre tais sistemas, mas afeta nossa maneira de concebê-los, entendê-los e interagir com eles.

A divulgação científica atual, mesmo sem ter esta intenção, acaba gerando novas metáforas sociais e psicológicas que podem ser mais ricas, mais descritivas, mais apropriadas que as metáforas da mecânica do século XVIII e mesmo da termodinâmica do século XIX [17]. Por exemplo, conceber o processo histórico como uma dinâmica com criticalidade auto-organizada onde avalanches de eventos de todos os tamanhos são importantes [19,23] parece ser um avanço frente a concepções simplistas como a história Whig de grandes personagens (metáfora do "política como ação de única partícula'') ou uma história determinada apenas por conflitos de classes sociais (metáfora da "política como forças de ação e reação entre agregados de partículas''). Lembremos que a questão da metáfora no discurso social amplo não é escolher entre um pensamento literal versus um metafórico, mas sim entre metáforas novas, mais complexas e descritivas, e metáforas antiquadas e muitas vezes inadequadas para descrever a complexidade do sistema social a ser referido e entendido.

Acreditamos que esse papel da divulgação científica, até agora pouco estudado ou mesmo negligenciado, constitui um aspecto menos cientocêntrico da mesma: em vez de conteúdos científicos explícitos, a serem absorvido por receptores passivos, os jornalistas e o público aparecem como agentes que apropriam novos conceitos científicos e criam metáforas cientificamente inspiradas a serem usadas como ferramentas de pensamento e expressão. Neste processo, não são os conteúdos científicos literais que são primariamente transmitidos, mas sim o conjunto de metáforas científicas que constituem a cultura (ou visão de mundo) científica de uma época. Nesse sentido, não apenas o meio é a mensagem, mas a metáfora é a mensagem.

5.2. Relação com os estudos de pré-concepções científicas

5.2.1. Metáforas como difusoras de vocabulário científico e criadoras de pré-concepções científicas

No âmbito da educação científica formal, o uso de metáforas cientificamente inspiradas por jornalistas, colunistas, intelectuais etc. produzirá um resultado ambíguo. De um lado, haverá uma difusão de certo vocabulário que pode facilitar a aprendizagem informal de certos conceitos [2]: por exemplo, dado que metáforas envolvendo a palavra energia são muito mais comuns que a palavra entropia, é possível que isso contribua para que se possa pelo menos formar-se um conceito e falar sobre energia no discurso coloquial, o que não é o caso do termo entropia. Ou seja, pode-se debater no discurso jornalístico sobre energia elétrica e energia nuclear mesmo quando tanto jornalistas como leitores não possuem uma definição tecnicamente refinada desses conceitos.

Por outro lado, o uso metafórico implica que o sentido técnico já não está sendo necessariamente respeitado. Ou seja, embora o uso metafórico contribua para que um termo científico seja mais usado ou conhecido pela população, também contribui para que tais termos sejam usados de forma equivocada em um contexto de aprendizagem científica. Estudos mostram que os sentidos metafóricos podem interferir com a aprendizagem ou a fixação do sentido técnico no contexto da aprendizagem formal [13,26]. O caso da palavra energia seria então um exemplo clássico tanto do efeito facilitador como de interferência semântica que pode criar pré-concepções às vezes difíceis de serem superadas [2, 14].

5.2.2. Detecção e exame crítico de metáforas científicas invisíveis: um exercício de ensino formal para prevenção de pré-concepções científicas

É plausível que muito da assim chamada estabilidade ou resiliência das "pré-concepções científicas equivocadas'' estudadas na literatura [12-14, 26] se deva ao fato de que os termos científicos correspondentes são homônimos a termos da linguagem comum ou aplicados metaforicamente na linguagem comum. Afinal, estudantes não apresentam "pré-concepções equivocadas'' sobre momento angular, momento de inércia, dipolo, entalpia, geodésica ou outros termos incomuns. Acreditamos que se os estudantes e professores reconhecerem previamente, através de exercícios, a onipresença das metáforas cientificamente inspiradas no discurso comum, o aprendizado do sentido literal técnico e a prevenção de equívocos científicos seriam imensamente facilitados. Esta nossa proposta pode ser estudada empiricamente.

Para a prevenção desses efeitos de interferência, propomos que a ubiquidade das MCI, especialmente as derivadas de metáforas cognitivas básicas, seja reconhecida e enfrentada ativamente. Para este fim sugerimos dois exercícios que podem ser realizados como trabalhos extra-classe.

Exercício I - Examinando o uso metafórico de termos técnicos. Neste exercício o procedimento é similar ao que realizamos na seção 4.

  • Detectando termos físico-matemáticos na linguagem cotidiana: o estudante escolhe um dado termo técnico (por exemplo, "centro de gravidade'', "calor'' ou "energia'') e examina seus usos metafóricos. Isso pode ser feito usando-se máquinas de busca genéricas (Google, Bing, etc.), mas sugerimos o uso de ambientes mais controlados como portais jornalísticos.

  • Examinando o significado científico original dos termos: isso pode ser feito a partir do livro-texto ou de dicionários/enciclopédias científicas confiáveis disponíveis na internet.

  • Detectando o uso metafórico e classificando metáforas: o estudante deve separar expressões onde o termo científico é usado tecnicamente de outras expressões onde este é usado metaforicamente. Deve considerar se a metáfora linguística é ainda visível ou se já se tornou morta ou invisível.

  • Avaliando a qualidade do uso metafórico de termos de física (ou outras disciplinas): finalmente, o estudante deverá opinar sobre a qualidade do mapeamento metafórico, ou seja, quais aspectos do sentido técnico do termo.

Exercício II - Detectando metáforas derivadas e metáforas cognitivas básicas.

No exercício anterior, metáforas usando um mesmo termo são buscadas em diferentes textos. Neste exercício, escolhe-se apenas um texto rico em metáforas e propõe-se que as mesmas sejam localizadas e examinadas. Como exemplo, realizamos a análise metafórica do seguinte texto retirado de uma importante teórica da Análise do Discurso [28]:

É a ideologia que produz esse efeito de evidência, e de unidade, sustentando sobre o já dito os sentidos institucionalizados, admitidos como 'naturais'. Há uma parte do dizer, inacessível ao sujeito, e que fala em sua fala. Mais ainda: o sujeito toma como suas as palavras da voz anônima produzida pelo interdiscurso (memória discursiva). Pela ideologia, se naturaliza assim o que é produzido pela história: há transposição de certas formas materiais em outras, isto é, há simulação (e não ocultação de 'conteúdos') em que são construídas transparências (com se a linguagem não tivesse sua materialidade, sua opacidade) para serem interpretadas por determinações históricas que aparecem como evidências empíricas.

Redefinindo, assim, a ideologia discursivamente, podemos dizer que não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia. A ideologia, por sua vez, é interpretação de sentido em certa direção, direção determinada pela relação da linguagem com a história em seus mecanismos imaginários. A ideologia não é, pois, ocultação, mas função da relação necessária entre a linguagem e o mundo. Linguagem e mundo se refletem, no sentido da refração, do efeito (imaginário) necessário de um sobre o outro. Na verdade, é o efeito da separação e da relação necessária mostrada nesse mesmo lugar. Há uma contradição entre mundo e linguagem e a ideologia é trabalho desta contradição. Daí a necessidade de distinguirmos entre a forma abstrata (com sua transparência e o efeito de literalidade) e a forma material, que é histórica (com sua opacidade e seus equívocos)'' .

Neste texto é fácil detectar as duas metáforas epistemológicas básicas de "conhecer = ver'' (transparências, ocultação, opacidade, refletem, refração, forma, evidências, aparecem) e "idéias = objetos materiais espacialmente localizados que podem ser deslocados e trabalhados'' (materialidade, trabalho, transposição, direção, forma material, conteúdo, separação, lugar, deslocamento). Grande parte dessas metáforas estão mortas ou invisíveis.

Existe também uma adesão às metáforas mecânicas deterministas típicas da mecânica clássica (determinações históricas, produzido, determinada pela relação, mecanismos, função necessária, efeito, efeito necessário, relação necessária). Uma visão do processo histórico onde acaso e caos (mesmo o caos determinista) teriam papel relevante está totalmente ausente. Assim, fazendo-se uma análise das metáforas usadas, fica evidente a onipresença de termos de óptica geométrica (às vezes impropriamente usados, como no caso do termo refração) e de mecânica clássica, explicitando-se metáforas cognitivas relacionadas a uma ideologia mecânica determinista talvez assumidas inconscientemente pela autora do texto.

Para a detecção das metáforas cognitivas, sugerimos que se elabore uma rede das metáforas explicitas (estilísticas, derivadas) com nodos e ligações entre metáforas com temas similares, como num mapa conceitual. Os agregados de metáforas mais interconectadas irão sugerir que metáforas conceituais estão presente. No exemplo acima, teríamos pelo menos três metáforas cognitivas: "Conhecer = Ver'', "Ideias = Objetos Manipuláveis'', "história = Processo Determinista''.

No caso dos exemplos da seção 4, tanto a metáfora pendular como a metáfora gravitacional, quando aplicadas a sistemas sociais, são derivadas de uma metáfora cognitiva onde o sistema social é conceituado como um sistema de partículas não intencionais interagindo por forças deterministas. Esta pode ser uma boa metáfora para se pensar certos fenômenos sociais, mas uma metáfora pobre para ser utilizada em outros contextos [19-22].

 

6. Conclusões e perspectivas

Todo ser humano usa metáforas: não apenas como recurso expressivo, para tornar seu discurso mais comunicativo ou icônico, mas sim porque, segundo Lakoff e Johnson, o próprio pensamento se dá pela aquisição, elaboração e navegação em redes de metáforas cognitivas. Usamos metáforas para fazer o mapeamento entre domínios-origem concretos para domínios-alvo abstratos. De forma mais radical, talvez sejamos prisioneiros das metáforas cognitivas de que dispomos para pensar e nos expressar, as "metáforas pelas quais vivemos'' [1] e até morremos.

Ao enriquecer o repertório conceitual de uma população, a educação e a divulgação científicas inevitavelmente irão produzir o surgimento de novas metáforas no discurso comum, especialmente aquelas relacionadas à tentativa de descrição de sistemas complexos como os sistemas sociais e econômicos. Em nossa sociedade midiática, esse processo é catalisado pelo discurso jornalístico enquanto difusor de novas metáforas linguísticas e cognitivas. Esse processo não precisa ser visto como uma apropriação tosca ou indevida da terminologia científica, mas sim como uma atualização e substituição de metáforas científicas antigas, ultrapassadas e invisíveis por outras mais descritivas, visíveis e semanticamente mais ricas. O objetivo deste trabalho foi chamar a atenção para este papel positivo, embora negligenciado, da educação e divulgação científicas.

As metáforas científicas veiculam tanto metáforas cognitivas básicas, por vezes ideológicas, como novas concepções capazes de renovar nossa visão de mundo. Estar atentos à sua onipresença em nosso pensamento, fala e escrita, tornar visíveis e criticar as metáforas invisíveis que assumimos tacitamente, as metáforas ideológicas que podem constranger e limitar nosso pensamento e ação, pode ser um exercício libertador para cientistas, educadores, divulgadores de ciência, jornalistas e estudantes.

 

Agradecimentos

O.K. agradece discussões com Mauro Copelli, Nestor Caticha, Antônio Carlos Roque da Silva e Roberto M. Takata, e comentários de Mauro Rebelo, Lacy Barca, Tatiana Nahas e Luciano Bachmann. Os autores agradecem o apoio do CNPq.

 

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Recebido em 7/6/2010; Aceito em 27/1/2012; Publicado em 10/12/2012

 

 

1 E-mail: osame@ffclrp.usp.br.

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