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Revista Brasileira de Ensino de Física

versão impressa ISSN 1806-1117versão On-line ISSN 1806-9126

Rev. Bras. Ensino Fís. vol.37 no.2 São Paulo abr./jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-11173720001 

Carta ao Editor

A técnica da escrita científica

Osvaldo N. Oliveira Jr. 1   1 

1Instituto de Física de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, SP, Brasil

Cientistas precisam se comunicar com a sociedade, o que se dá principalmente através de artigos científicos, e em alguns casos de divulgação. Estes últimos podem ser mais difíceis de produzir, pois o cientista precisa manter a precisão da informação ao mesmo tempo em que tem que tornar o texto acessível a um público não especializado. A escrita de um artigo científico, em particular, deve obedecer a critérios semelhantes àqueles do método científico, uma vez que a publicação só é justificável se houver contribuições relevantes. Ou seja, o artigo deve ser resultado de um trabalho de pesquisa sistemático, criteriosamente planejado para resolver problemas científico-tecnológicos que tragam avanços significativos ao campo de pesquisa. O conhecimento da literatura e o domínio da metodologia apropriada são essenciais para atingir tal objetivo.

Um artigo científico deve conter novas ideias, conceitos, interpretações, modelos teóricos, e não apenas um relato de resultados. Obviamente que em áreas como a física, não se concebe publicação de ideias que não sejam consubstanciadas por resultados, experimentais ou teóricos. Entretanto, o que deve ser enfatizado são os conceitos, as ideias inovadoras; os resultados servem para comprovar essas ideias e conceitos [1].

O estudo e a aprendizagem da escrita científica são hoje baseados numa área denominada linguística de corpus, em que fenômenos linguísticos são estudados a partir da análise de grande volume de textos. Um corpus é uma coleção de textos – falados ou escritos – organizados ou indexados para um propósito específico. São exemplos os corpus com textos traduzidos de uma língua para outra usados no desenvolvimento de tradutores automáticos.

A aplicação de metodologias de linguística de corpus levou a observações importantes. O texto científico é altamente estereotipado, e um artigo tem uma estrutura praticamente fixa. Deve conter as seguintes seções: Título, Resumo, Introdução, Materiais e Métodos, Resultados, Discussão, Conclusão, Agradecimentos e Referências, nessa ordem. Há áreas com alguma variação, por exemplo incluindo uma seção para destacar trabalhos relacionados na literatura ou detalhamento de uma teoria. Mas a estrutura principal é mantida. Além disso, o fluxo de texto num artigo científico deve obedecer a um movimento bem definido. A Introdução começa do tema mais geral, e afunila para mencionar a contribuição do artigo, num movimento do geral para o específico. A Conclusão, ao contrário, deve ter o movimento oposto, iniciando-se com o retomar dos principais resultados do artigo e terminar com as implicações das contribuições para uma área mais geral ou mesmo para a sociedade, dependendo do tipo de trabalho.

O Resumo é o componente mais importante do artigo, por vários motivos. Em muitas bases de dados científicas, apenas o título e resumos são fornecidos, de forma que um artigo só será lido se o leitor julgar relevante a partir do resumo. Este deve trazer a síntese das ideias e concepções inovadoras do trabalho. Há dois estilos principais de resumo: os descritivos e os informativos. Para um artigo que traz resultados originais, o resumo deve ser obrigatoriamente informativo, e conter as principais contribuições do trabalho. Sua estrutura também é relativamente fixa, tendo como componentes: Contextualização, Lacuna, Propósito, Metodologia, Resultados e Discussão, e Conclusão e Perspectivas. Quando a revista limita o tamanho do Resumo, normalmente os dois primeiros componentes são eliminados, iniciando-se com o Propósito.

Na Contextualização, menciona-se o tópico geral de que trata o artigo, particularizando para a pesquisa em questão. Limitações ou restrições da área são mencionadas na Lacuna, que será preenchida com o trabalho cujo Propósito vem logo a seguir. Este último é obrigatório, pois informa os objetivos principais da pesquisa. Os meios para atingir esses objetivos constituem a Metodologia, podendo incluir procedimentos experimentais, análises teóricas ou estatísticas. As principais contribuições do trabalho devem estar contidas no componente Resultados e Discussão, inclusive com dados quantitativos se for o caso, e com a interpretação dos resultados mais relevantes. Ressalte-se que o resumo, assim como o artigo científico, deve ter o material organizado de forma lógica, privilegiando a transformação dos resultados em ideias e conceitos. A ordem lógica pode não coincidir com a cronológica em que a pesquisa foi realizada. O componente Conclusões e Perspectivas encerra o resumo, colocando-se as principais contribuições do artigo no contexto mais abrangente do tópico de pesquisa e apontando-se suas implicações.

Os resumos descritivos são úteis para sumarizar o conteúdo de livros, capítulos de livros e artigos de revisão da literatura, pois nestes casos as contribuições mais relevantes podem não ser originais ou mesmo estar contidas em trabalhos de outros autores, discutidos no texto. O resumo tem o papel de descrever como o tópico em questão será abordado. Para os resumos descritivos, a estrutura é menos fixa do que nos informativos, mas o leitor precisa ser informado de que se trata de revisão da literatura ou dissertação sobre determinado assunto.

Quanto ao texto do artigo propriamente dito, devese buscar concisão e precisão na informação. Precisão é essencial, pois muitos termos têm significados específicos em física (ou em ciência), que podem diferir de seu uso corriqueiro. Por exemplo, a palavra “interferência” é muito empregada em linguagem coloquial para uma diversidade de situações. Mas em física tem significado específico, no fenômeno de interferência de ondas. A busca por concisão, por outro lado, deve ser incansável, especialmente porque autores tendem a exagerar no uso de clichês e em palavras desnecessárias. Há várias recomendações para ganhar concisão: reduzir ao mínimo o número de adjetivos e advérbios, particularmente evitando aqueles que não trazem precisão para a informação. Em física, palavras como grande, pequeno, amplamente, extensamente, extremamente não contribuem para transmitir informação precisa. O mesmo se aplica a expressões como sendo assim, quase sempre dispensável.

Como se pode depreender, os conceitos relevantes da escrita científica são independentes da língua em que o artigo é escrito. Entretanto, como hoje é o inglês a língua franca para a ciência, tecnologia, comércio, turismo e quase qualquer área da atividade humana, existe o desafio adicional de escrever bem numa língua estrangeira para cerca de 90% da população mundial. Para os brasileiros, em particular, apesar de o português e o inglês compartilharem muitas características, as estruturas gramaticais e o uso de coligações podem ser bastante distintos. A propósito, a influência da língua materna é uma das maiores limitações para a escrita de qualidade numa língua estrangeira. Não é incomum que um aprendiz, conhecedor do vocabulário e gramática de uma segunda língua, escreva sentenças gramaticalmente corretas que soam estranhas para um nativo da língua.

Uma possível solução para esta dificuldade em escrever textos com o padrão próximo daquele produzido por escritores nativos e experientes também pode ser encontrada na linguística de corpus. Trata-se de uma estratégia, delineada detalhadamente num livro recente [2], que consiste em aprender por exemplos a partir de um corpus montado pelo próprio aprendiz. Inclui treinamento intensivo com leitura de textos científicos em inglês, publicados preferencialmente por nativos da língua, e anotação da função de expressões e sentenças. Para montar o corpus, o pesquisador deve ler cuidadosamente grande quantidade de textos, e anotar como expressões transmitem conceitos e ideias. De fato, é correta a percepção de que para escrever bem é preciso ler muito. Porém, não se trata de leitura qualquer; deve ser sistemática e meticulosa, concentrando-se mais na forma do que no conteúdo do texto.

O estudo sistemático pode ser facilitado se os textos compilados para o corpus forem classificados de acordo com as seções e componentes de um artigo, e se forem anotadas as funções retóricas das expressões. É útil para qualquer escritor em língua estrangeira saber executar funções retóricas como “descrever”, “contrastar”, “definir”, “concluir”, etc, para que possa se expressar com a mesma proficiência que o faz na língua materna. Mencione-se que esse trabalho de identificação de subcomponentes e funções já constitui ótimo exercício de aprendizado em escrita científica, independentemente da língua.

A estratégia inspirada em linguística de corpus só é bem sucedida se o aprendiz já tiver um conhecimento mínimo de inglês, pois caso contrário não será capaz de identificar as expressões e funções relevantes. Além disso, a tarefa de aprender escrita científica em inglês, a partir de um corpus que precisa ser construído, não é simples e nem rápida. Exige dedicação e tempo, pois não há fórmulas mágicas para aprender escrita científica com pouco esforço, como também não as há para aprender física.

Referências

Osvaldo N. Oliveira Jr., As Linguagens do Conhecimento (Editora Cubo, São Carlos, 2014). [ Links ]

Ethel Schuster, Haim Levkowitz and Osvaldo N. Oliveira Jr. (eds) Writing Scientific Papers in English Successfully: Your Complete Roadmap (Gráfica e Editora Compacta, São Carlos, 2014). [ Links ]

1E-mail: chu@ifsc.usp.br.

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