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Jornal Brasileiro de Pneumologia

Print version ISSN 1806-3713On-line version ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.30 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37132004000500012 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Diagnóstico por imagem do tromboembolismo pulmonar agudo*

 

 

C. Isabela S. Silva; Nestor L. Müller

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O diagnóstico do tromboembolismo pulmonar agudo é baseado na probabilidade clínica, uso do dímero D (quando disponível) e na avaliação por imagem. Os principais métodos de imagem utilizados no diagnóstico são representados por cintilografia ventilação-perfusão, angiografia pulmonar e tomografia computadorizada (TC). Na última década vários estudos têm demonstrado que a TC espiral apresenta elevada sensibilidade e especificidade no diagnóstico de tromboembolismo pulmonar agudo. Uma melhor avaliação das artérias pulmonares tornou-se possível com a recente introdução dos equipamentos de TC espirais com multidetectores. Vários pesquisadores têm sugerido que a angiografia pulmonar por TC espiral deve substituir a cintilografia na avaliação de pacientes com suspeita clinica de tromboembolismo pulmonar agudo. Os autores discutem os principais métodos de imagem utilizados no diagnóstico de tromboembolismo pulmonar agudo enfatizando o papel da TC espiral.

Descritores: Diagnóstico por imagem. Emboliapulmonar/diagnóstico. Angiografia. Pneumopatias/cintilografia. Tomografia computadorizada de emissão de fóton único/métodos.


 

 

Siglas e abreviaturas utilizadas neste trabalho:
TC – Tomografia Computadorizada
TEP – Tromboembolismo Pulmonar Agudo
V/Q – Ventilação-Perfusão
US – Ultrassom
TVP – Trombose Venosa Profunda

 

INTRODUÇÃO

Tromboembolismo pulmonar (TEP) é uma entidade clinica comum que resulta em morbidade e mortalidade em um grande número de pacientes. Diagnóstico imediato e correto é importante por causa dos riscos de complicações do TEP e do tratamento com anticoagulantes. A base do diagnóstico é a probabilidade clínica para tromboembolismo pulmonar e o uso do dímero D (quando disponível). No entanto, o diagnóstico específico requer avaliação por métodos específicos de imagem(1).

Por muitos anos, a cintilografia ventilação-perfusão (V/Q) representou o principal método de imagem utilizado na avaliação de pacientes com suspeita clínica de TEP(2). A cintilografia de alta probabilidade fornece suficiente confiabilidade para confirmar o diagnóstico de TEP, enquanto que exame normal ou perto do normal, exclui, seguramente, o diagnóstico. Infelizmente só um terço dos pacientes pertencem a uma destas categorias; nos restantes dois terços dos pacientes os resultados da cintilografia são inconclusivos(2). Deve-se ressaltar também que, no Brasil, a cintilografia pulmonar não está disponível diariamente, limitando ainda mais o seu uso.

Tradicionalmente a angiografia pulmonar foi considerada o método padrão ouro para diagnóstico de TEP(2,3). Todavia, a angiografia pulmonar é um método invasivo, disponível em poucos centros e utilizado cada vez menos na avaliação destes pacientes, mesmo quando os outros exames não são conclusivos(4,5).

A introdução da tomografia computadorizada (TC) espiral no início dos anos 90 tornou possível avaliar todo o tórax num curto espaço de tempo, bem como analisar as artérias pulmonares durante o pico máximo de opacificação pelo meio de contraste. Vários estudos demonstraram elevada sensibilidade e especificidade da TC espiral para o diagnóstico de TEP (6-8). A acurácia da TC aumentou ainda mais com o recente advento dos equipamentos de TC espiral com multidetectores que permitem uma melhor avaliação das artérias pulmonares segmentares e subsegmentares. Em diversos centros, a TC espiral tornou-se a modalidade de escolha para o diagnóstico de TEP.

O objetivo deste trabalho é discutir as indicações e limitações dos principais métodos de imagem utilizados no diagnóstico de tromboembolismo pulmonar agudo com ênfase na tomografia computadorizada espiral.

Cintilografia pulmonar:

O diagnóstico do TEP na cintilografia é baseado na presença de ventilação em regiões sem perfusão distais a êmbolos obstrutivos. Os achados cintilográficos são classificados em termos de probabilidade da presença de embolismo em cintilograma, de alta probabilidade, probabilidade intermediária, baixa probabilidade, quase normal ou muito baixa probabilidade, e normal. Os exames de cintilografia de alta probabilidade fornecem suficiente confiabilidade para confirmar o diagnóstico de TEP enquanto que os exames de muito baixa probabilidade e normais permitem excluir o diagnóstico. A grande limitação da cintilografia V/Q está relacionada ao elevado número de pacientes em que os achados não são conclusivos. O estudo PIOPED (Prospective Investigation of Pulmonary Embolism Diagnosis), maior estudo prospectivo de avaliação de pacientes com suspeita clinica de TEP, demonstrou que em dois terços dos pacientes que realizaram cintilografia V/Q, ela foi incapaz de estabelecer ou excluir TEP. Neste estudo, nos exames indeterminados, presentes em 39% (364 de 931) dos pacientes, encontrou-se uma incidência de 30% de TEP, e nos exames de baixa probabilidade, identificados em 34% dos pacientes (312 de 931), observou-se uma incidência de 14%(2). Baseados nesses achados, os autores concluíram que exames indeterminados e de baixa probabilidade (ou seja, dois terços dos exames de V/Q do estudo PIOPED), foram incapazes de estabelecer ou excluir TEP. Uma outra limitação da cintilografia é a discordância entre diferentes observadores na interpretação dos exames. No estudo PIOPED embora tenha sido encontrado boa concordância entre observadores com grande experiência para os exames V/Q normais e de alta probabilidade, notou-se entre os observadores, 25 -30% de discordância na interpretação de exames de baixa probabilidade.(2)

Angiografia pulmonar:

Na angiografia pulmonar introduz-se um cateter por via endovenosa na artéria pulmonar proximal e o meio de contraste é injetado rapidamente. A técnica oferece uma elevada resolução espacial, permitindo avaliar diretamente o sistema arterial pulmonar. Os achados de defeito de enchimento da coluna de contraste são típicos de TEP. Todavia, a angiografia pulmonar é um método invasivo, com 5% de riscos de complicações cardíacas e pulmonares, e mortalidade de 0,3%[3]. Devido aos riscos potencias, existe considerável relutância por parte dos clínicos e radiologistas na realização de angiografia pulmonar para o diagnóstico de TEP. Mesmo nos grandes centros acadêmicos dos Estados Unidos e da Inglaterra, com disponibilidade de equipamento adequado e pessoal especializado, estima-se que somente 5 a 15% dos pacientes com exames de cintilografia indeterminados, são submetidos à angiografia pulmonar(4,5).

Tomografia computadorizada espiral

Interpretação das Imagens:

Os achados característicos de TEP agudo são:

1) defeito de enchimento parcial central ou periférico circundado por um pequeno halo de contraste (Figura 1);

2) completo defeito de enchimento com obliteração de todo o vaso avaliado(6-8).

 

 

Num evento de TEP agudo, as artérias pulmonares quando completamente obstruídas geralmente têm diâmetro aumentado (Figura 2A, 2B). Nos exames de pesquisa de TEP deve-se avaliar os achados vasculares e parenquimatosos. A avaliação da janela de pulmão é importante não apenas para identificar as artérias pulmonares devido sua proximidade com o brônquio, mas também para avaliar sinais complementares que podem ser úteis em sugerir o diagnóstico de TEP(9,10). O achado complementar de maior utilidade é a identificação de opacidade de feitio triangular e base pleural (Figura 3). Esta opacidade reflete a presença de hemorragia ou infarto distal ao embolismo. Atelectasias lineares também são identificadas com freqüência elevada nos exames de TC de pacientes com TEP agudo. Outros sinais tomográficos tais como áreas de atenuação reduzida e efusão pleural são de pouca utilidade em distinguir pacientes com e sem TEP agudo(9,10) .

 

 

Possíveis problemas relacionados à técnica, anatomia e ao paciente podem levar à falsa interpretação nas imagens de TC. Problemas técnicos ocorrem em 1 a 5% dos exames, e na grande maioria são decorrentes de artefatos de movimento em pacientes dispnéicos ou de opacificação inadequada dos vasos pelo meio de contraste.

Os tecidos linfáticos e conectivos localizados adjacentes às artérias pulmonares podem mimetizar a aparência de TEP. Este problema pode ser minimizado através de revisão cautelosa das imagens e uso de recursos adicionais de imagens, tais como o modo cine-view (usado por nós rotineiramente) e reconstruções multiplanares.

Acurácia Diagnóstica da TC Espiral

Os relatos da acurácia diagnóstica da TC espiral têm variado de acordo com a técnica utilizada e da população de pacientes avaliados. De modo geral, esses estudos têm mostrado uma sensibilidade de 90%, especificidade de 90%, valor preditivo positivo de 93% e valor preditivo negativo de 94% para TC espiral na avaliação de tromboembolismo pulmonar agudo(11) .

Deve-se salientar que embora a TC espiral tenha uma elevada sensibilidade para detectar trombos nas artérias pulmonares centrais (Figura 4), lobares e segmentares, ela tem valor limitado no diagnóstico de trombo subsegmentar. Todavia, o significado clínico de trombo subsegmentar isolado é controverso. Além de que, embora a angiografia pulmonar seja considerada o padrão ouro para diagnóstico de TEP, a concordância na avaliação das artérias pulmonares subsegmentares, mesmo entre observadores com grande experiência com a técnica é só de 66%(3). Resultados preliminares em modelos experimentais têm mostrado que a TC espiral é comparável a angiografia pulmonar no diagnóstico de TEP subsegmentar(12). No entanto, recentes trabalhos indicam que a acurácia da TC espiral no diagnóstico de trombo subsegmentar tem aumentado com o uso de cortes mais finos, tais como colimação de 1 ou 2 mm e uso de equipamentos de TC com multidetectores(13-15) . Os equipamentos de TC espiral com multidetectores permitem avaliar todo o tórax em poucos segundos com cortes de 1 mm de espessura e dessa maneira uma melhor avaliação das artérias segmentares e subsegmentares (Figura 5). Outra vantagem é a realização de imagens multiplanares de melhor qualidade que facilitam a confirmação ou exclusão do diagnóstico de TEP, nos casos em que o diagnóstico foi inconclusivo nas imagens convencionais (Figura 6) (13) .

 

 

Vários trabalhos demonstraram que uma TC espiral negativa, desde que as imagens sejam de boa qualidade, é suficiente para excluir TEP, e que o prognóstico dos pacientes com TC espiral negativa e não tratados com anticoagulante, é semelhante aos descritos para exames de angiografia e cintilografia negativos(15,16). Goodman et al compararam os achados de 198 pacientes com TC espiral negativas com os achados de cintilografia negativas (normal ou de baixa probabilidade) em 350 pacientes (15). Após três meses de follow-up, TEP subsegmentar foi encontrado em 1% dos pacientes do grupo de TC espiral comparado a 1,5% dos pacientes do grupo de cintilografia normal ou de baixa probabilidade(estatisticamente insignificante). Swensen revisou 1512 pacientes consecutivos encaminhados para TC com suspeita clinica de TEP agudo(16) . Novecentos e noventa e três desses pacientes tiveram exames de TC interpretados como negativos para TEP agudo e não receberam anticoagulante. Somente 0,5% desses pacientes desenvolveram tromboembolismo venoso num follow-up de 3 meses. Estes resultados são semelhantes aos descritos em pacientes com suspeita de TEP que tiveram angiografia negativa.Os autores concluíram que é seguro não utilizar terapia anticoagulante em pacientes com TC espiral negativa e sem evidência clínica de trombose venosa profunda(16).

Algoritmo diagnóstico

A literatura mais recente recomenda o seguinte algoritmo diagnóstico para a avaliação por imagem de pacientes com suspeita clínica de TEP agudo(17):

1.Todos os pacientes devem ter uma radiografia do tórax, cujo principal papel é excluir anormalidades tais como pneumonia que podem mimetizar TEP clinicamente.

2.Pacientes com sintomas ou sinais de trombose venosa profunda devem ser submetidos à avaliação dos membros inferiores, sendo o ultrassom (US) com Doppler colorido geralmente o método recomendado. Caso o exame de US com Doppler seja positivo para TVP, o paciente pode ser considerado como tendo TEP e geralmente não requer outra investigação.

3.Pacientes com suspeita clinica de TEP e sem sinais ou sintomas de TVP devem ser submetidos à angiografia pulmonar por TC espiral. Salienta-se que a realização desse exame requer a utilização de contraste iodado. Pacientes que têm contra- indicação à utilização do meio de contraste devem realizar cintilografia pulmonar. Deve-se também salientar que a cintilografia continua sendo o método de imagem principal em centros que não possuem TC espiral.

4.Pacientes com exames de TC de má qualidade e negativos para TEP, mas com elevada suspeita clínica, devem ser submetidos à angiografia pulmonar.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Nestor L. Müller
Department of Radiology, Vancouver General Hospital
899 W. 12th Avenue
Vancouver, BC V5Z 1M9, Canada
Phone: 1-604-875 – 4355 – Fax 1-604-875 4723
E-mail: nmuller@vanhosp.bc.ca

Recebido para publicação, em 15/12/03. Aprovado, após revisão, em 16/1/04.

 

 

* Trabalho realizado no Departmento de Radiologia, Vancouver General Hospital and University of British Columbia.

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