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Jornal Brasileiro de Pneumologia

Print version ISSN 1806-3713On-line version ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.31 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37132005000200016 

RELATO DE CASO

 

Rim intratorácico ectópico*

 

 

Claudinei Leôncio Beraldo; Eugênio Fernandes de Magalhães; Demétrius Tierno Martins; Douglas Silva Coutinho; Lívia Silva Tiburzio; Mário Ribeiro Neto

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O rim ectópico intratorácico é uma anomalia rara. De todas as ectopias renais é a mais rara (p = 0,005%). Relata-se um caso de ectopia renal intratorácica em um homem negro de 83 anos, que procurou atendimento médico com quadro clínico compatível com enfisema pulmonar. Foi solicitado radiograma de tórax, que evidenciou uma massa, diagnosticada por tomografia computadorizada como ectopia renal. A maioria dos casos de rim torácico aparece como uma tumoração intratorácica encontrada em radiogramas de tórax solicitados por qualquer outra razão alheia à suspeita dessa anomalia, e não necessita de tratamento específico.

Descritores: Ectopia. Renal. Torácica. Pulmão.


 

 

INTRODUÇÃO

O rim intratorácico é uma anomalia rara, e de todas as ectopias renais é a mais rara (p = 0,005%)(1-5).

O rim intratorácico é uma ectopia mais freqüente no sexo masculino do que no feminino, com uma proporção de 2:1, e mais documentada no hemitórax esquerdo(6-7). Na maioria dos casos, sua estrutura e funcionamento são totalmente normais(8-9) e sua descoberta tem sido feita ocasionalmente através de radiogramas de tórax(10).

 

RELATO DO CASO

Um paciente do sexo masculino, de 83 anos, procurou o ambulatório do Serviço de Pneumologia do Hospital das Clínicas Samuel Libânio com queixa de cansaço. Tabagista havia 60 anos (20 cigarros diários), relatava que havia aproximadamente um ano iniciara a apresentar dispnéia progressiva aos grandes e médios esforços, com piora do quadro havia um mês.

Relatava como fator de melhora o repouso, e o etilismo como fator de piora. O paciente não relatava trauma ou qualquer queixa anterior de moléstias respiratórias ou urinárias. Apresentava-se hidratado, normocorado, acianótico, anictérico, eupneico e afebril. Ao exame físico do tórax, apresentava aumento do diâmetro ântero-posterior (tórax em barril), diminuição da expansibilidade e som timpânico em ambas as bases pulmonares, caracterizando quadro clínico de enfisema pulmonar. Foram solicitados radiogramas de tórax em posição póstero-anterior e perfil, em que se evidenciou uma massa oval, radiopaca, na base do hemitórax esquerdo, bem delimitada e em aparente contato com a parede diafragmática (Figura 1). Posteriormente, foi solicitada tomografia computadorizada de tórax, na qual se evidenciou uma área ovalada, hiperdensa, na base do hemitórax esquerdo, que foi diagnosticada como ectopia renal (Figura 2).

 

 

 

 

DISCUSSÃO

O rim ectópico intratorácico é uma anomalia rara. Grenadir e Larsen relataram 85 casos até 1983, e, até 1987, apenas mais nove casos. Até 1940 todos os casos de rim intratorácico foram relatos de necropsias(3). Campbell encontrou 22 casos de rim ectópico, sendo apenas um intratorácico(4). Wollfromm foi quem descreveu o primeiro caso, diagnosticado mediante pielografia retrógada, em uma mulher de 43 anos(3).

O rim normal origina-se opostamente ao vigésimo oitavo somito, ao nível da quarta vértebra lombar, onde o ureter se une caudalmente. No feto a termo, o rim já ascendeu até o nível da primeira vértebra lombar ou até mesmo à décima segunda vértebra torácica(20). Essa ascensão do rim é causada não apenas pela real migração cefálica, mas também pelo crescimento diferencial na região caudal do corpo(1-2).

Durante o período inicial da ascensão (sétima a nona semanas), o rim desliza acima da bifurcação da artéria aorta e gira 90 graus. Sua borda convexa está direcionada lateralmente, e não dorsalmente. A ascensão prossegue mais lentamente até que o rim atinja sua posição final(11-12). O diafragma forma-se completamente até a nona semana, e a ascensão contínua do rim produz sua umbilicação intratorácica, em presença do diafragma incompletamente formado(13).

A baixa incidência de ectopia renal direita é explicada pela fusão precoce do canal pleuro-peritonial desse lado e pela presença do fígado como barreira(13).

O quadro anatômico de um rim intratorácico caracteriza-se por anomalias de rotação, ureter alongado, origem alta dos vasos renais e desvio medial do pólo inferior do rim(14-16-19). Ptister-Goedek e Brunir classificaram o rim intratorácico em quatro grupos(19): ectopia torácica renal com diafragma fechado; eventração do diafragma (relaxamento do diafragma); hérnia diafragmática, dividida em defeitos diafragmáticos congênitos e hérnia adquirida (hérnia de Bochdalek, com porcentagem menor que 0,25%); e ruptura traumática de diafragma com ectopia renal(17).

O rim intratorácico é geralmente assintomático e a grande maioria dos casos aparece como uma tumoração intratorácica encontrada em radiogramas de tórax solicitados por qualquer outra razão alheia à suspeita dessa anomalia(3-14).

Antes do advento da tomografia coputadorizada, a confirmação de rim intratorácico era realizada, na maioria dos pacientes, através de urografia excretora(18). A tomografia computadorizada foi previamente relatada por Grenadir e Larsen como procedimento diagnóstico, escolhida devido à qualidade e facilidade de investigação(1).

No diagnóstico diferencial de massa intratorácica deve-se pensar em rim intratorácico, que geralmente é assintomático e pode ser identificado, como no caso em questão, pela tomografia computadorizada de tórax. Essa entidade não necessita de tratamento específico

 

REFERÊNCIAS

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10. Marcano D, Aghilera S. Rinõn ectópico torácico: reporte de un caso. Invest Clin 1992; 33:95-100.        [ Links ]

11. Tanagho EA, McAninch JW, Embriologia. In: Smith urologia geral. 13 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1994; 13-4.        [ Links ]

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19. Pfister-Goedeke L; Brunier E. Intrathoracic kidney in childhood with special reference to secondary renal transport in Bochdalek's hernia. Helv Paediatr Acta 1979; 34: 345-57.        [ Links ]

20. Fariña LA, Salles M, Vidal B. Solitary crossed renal ectopia and congenital vertebral anomalies. Arch Esp Urol 1997; 50: 918-20.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Lívia Silva Tiburzio.
Rua Lázaro Aparecido Borges, 130
CEP 37550-000, Pouso Alegre, MG
Tel: 55 35 3423-4143
E-mail: mrnmario@yahoo.com.br

Recebido para pubicação, em 22/4/2004. Aprovado, após revisão, em 19/1/05.

 

 

* Trabalho realizado na Faculdade de Ciências Médicas "Dr. José Antônio Garcia Coutinho", Serviço de Pneumologia, da Universidade do Vale do Sapucaí – UNIVÁS.

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