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Jornal Brasileiro de Pneumologia

Print version ISSN 1806-3713

J. bras. pneumol. vol.38 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37132012000500021 

CARTA AO EDITOR

 

Urina em cavidade pleural: um achado inesperado

 

 

Melike DemirI; Gülistan KaradenizII; Ebru UzIII

IPneumologista, Sanatoryum Cd, Kecioren, Ancara, Turquia
IIPneumologista, Sanatoryum Cd, Kecioren, Ancara, Turquia
IIINefrologista, Sanatoryum Cd, Kecioren, Ancara, Turquia

 

 

Ao Editor:

O urinotórax é uma causa incomum de derrame pleural e é causado pelo vazamento de urina para a cavidade pleural através de um defeito anatômico no diafragma ou através do sistema linfático.(1) O urinotórax é geralmente secundário a uropatias obstrutivas ou lesão (geralmente iatrogênica) traumática do sistema urinário.(2)

Uma mulher de 61 anos com uma história de nefrolitíase foi internada em nossa instituição com febre alta, diminuição da produção de urina, falta de ar progressiva, e dor no peito à direita por dois dias. A paciente havia sido submetida a nefrolitotomia percutânea à direita três dias antes da admissão e não tinha histórico de doença pulmonar.

O exame físico revelava palidez e temperatura corporal de 38,4ºC. Movimentos torácicos estavam diminuídos. A ausculta do hemitórax direito revelava macicez à percussão e abolição de sons respiratórios, que são achados consistentes com derrame pleural. Não foram encontradas alterações em relação aos outros sistemas.

A radiografia de tórax demonstrou significativo derrame pleural do lado direito (Figura 1), e TC de tórax revelou derrame pleural à direita, septos finos, e atelectasia do pulmão subjacente (Figura 2). Os níveis séricos de uréia e creatinina foram 132 mg/dL e 3,9 mg/dL, respectivamente. Visto que o desconforto respiratório desenvolveu-se subitamente e logo após a nefrolitotomia percutânea, houve a suspeita de urinotórax. O diagnóstico foi confirmado após toracocentese, que produziu aproximadamente 1.100 mL de líquido pleural, com uma relação entre o conteúdo de creatinina no líquido pleural e aquela no soro foi de 1,78 (normal, < 1). Um dreno de 28 Fr foi inserido no quinto espaço intercostal direito a fim de drenar o derrame.

 

 

 

 

A paciente foi tratada com antibióticos de largo espectro e cuidadosamente observada. A urografia intravenosa não revelou uropatia obstrutiva causada por pedras nos rins. Como o diagnóstico de urinotórax tinha sido confirmado, não realizamos cintilografia para demonstrar uma ligação entre o sistema urinário e a cavidade pleural. Houve um aumento gradual na produção de urina, acompanhado por uma redução simultânea dos níveis séricos de ureia e creatinina. A drenagem da urina a partir do dreno ocorreu por sete dias, e o tubo foi retirado. No nono dia de internação, a paciente era assintomática e recebeu alta, permanecendo assintomática durante um período de quatro semanas de acompanhamento. As características clínicas e os resultados das radiografias de tórax, bem como os níveis séricos de ureia e creatinina, foram normais.

O urinotórax é provavelmente mais comum do que se supõe, porque geralmente não é incluído no diagnóstico diferencial de derrame pleural. Para o diagnóstico definitivo de urinotórax, o nível de creatinina deve ser determinado no líquido pleural e no soro, e uma relação creatinina pleural/creatinina soro > 1 é considerada como diagnóstico da condição.(3) Visto que a creatinina não é rotineiramente medida no líquido pleural, alguns pacientes com urinotórax podem se recuperar sem ter sido corretamente diagnosticados. A história da nefrolitotomia percutânea em nossa paciente nos levou a determinar os níveis de creatinina, e o diagnóstico foi estabelecido. Tivemos sorte que a condição tenha se desenvolvido apenas alguns dias após o procedimento.

Em resumo, dado que o urinotórax pode se desenvolver várias semanas após procedimentos urológicos ou sem causa aparente em casos de uropatia obstrutiva, enfatizamos a importância da suspeita clínica de urinotórax para o seu diagnóstico e tratamento precoces. Uma vez que o urinotórax for definitivamente diagnosticado, recomendamos que, com algumas exceções, a cintilografia não seja realizada, evitando assim a exposição à radiação e custos desnecessários.

 

Referências

1. Handa A, Agarwal R, Aggarwal AN. Urinothorax: an unusual cause of pleural effusion. Singapore Med J. 2007;48(11):e289-92. PMid:17975679.         [ Links ]

2. Garcia-Pachon E, Padilla-Navas I. Urinothorax: case report and review of the literature with emphasis on biochemical diagnosis. Respiration. 2004;71(5):533-6. PMid:15467335. http://dx.doi.org/10.1159/000080642        [ Links ]

3. Hooper C, Lee YC, Maskell N; BTS Pleural Guideline Group. Investigation of a unilateral pleural effusion in adults: British Thoracic Society Pleural Disease Guideline 2010. Thorax. 2010;65 Suppl 2:ii4-17.         [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 04/02/2012.
Aprovado, após revisão, em 22/02/2012.