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Revista Ciência Agronômica

On-line version ISSN 1806-6690

Rev. Ciênc. Agron. vol.43 no.4 Fortaleza Oct./Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-66902012000400016 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Calagem e silicatagem superficiais e a disponibilidade de cátions hidrossolúveis em culturas anuais e braquiária

 

Lyme and silicate surface application and water-soluble cation availability in annual crops and Brachiaria

 

 

Gustavo Spadotti Amaral Castro*; Carlos Alexandre Costa Crusciol; Marcella Leite de Campos Menegale

Departamento de Produção Vegetal, Setor Agricultura da Faculdade de Ciências Agronômicas, Universidade Estadual Paulista/UNESP, Campus Botucatu, Caixa Postal 237, Botucatu-SP, Brasil,18.610-307, gsacastro@hotmail.com, crusciol@fca.unesp.br, marcella_lcm@hotmail.com

 

 


RESUMO

A eficiência da aplicação superficial de corretivos pode ser melhorada por meio de compostos orgânicos, quantificados através dos cátions hidrossolúveis, liberados por resíduos vegetais. Porém, não se sabe se os teores desses compostos podem ser modificados pela aplicação de calcário e silicato. Objetivou-se com este trabalho avaliar o efeito da aplicação superficial de calcário e silicato no teor de cátions solúveis e condutividade elétrica do extrato da parte aérea das culturas de soja, milheto, aveia branca, braquiária, milho, feijão e guandu. O experimento foi conduzido entre 2006 e 2008 em um Latossolo Vermelho distroférrico em Botucatu-SP, em sistema de semeadura direta consolidado. O delineamento experimental foi em blocos casualizados, com dezesseis repetições. Os tratamentos foram 3,8 t ha-1 de calcário dolomítico, 4,1 t.ha-1 de silicato de cálcio e magnésio e uma testemunha, sem aplicação de corretivos no solo. Foram determinados os teores de cátions hidrossolúveis e a condutividade elétrica da parte aérea das culturas. Variações nos teores e na somatória de cátions hidrossolúveis não foram detectadas pela condutividade elétrica dos extratos vegetais da parte aérea das culturas. A aplicação dos corretivos elevou os teores de Ca2+ e Mg2+ solúveis nos extratos dos resíduos de soja, aveia e milheto; para o milho, houve elevação nos teores de Mg2+; além de aumento nos teores de Mn2+ nos resíduos do primeiro ano de braquiária, não havendo, entretanto, influência nos teores nas culturas de feijão, guandu e braquiária no segundo ano.

Palavras-chave: calcário. silicato de cálcio e magnésio. resíduos vegetais. acidez do solo. sistema de semeadura direta.


ABSTRACT

The efficiency of the surface application of correctives can be improved by means of organic compounds, quantified by water-soluble cations released by plant residue. However, it is unclear whether the levels of these compounds can be modified by the application of limestone and silicate. The aim of this study was to evaluate the effect of the surface application of limestone and silicate on the levels of soluble cations and the electrical conductivity of the extract from the shoots of soybean, millet, oats, brachiaria, maize, beans and pigeon pea. The experiment was carried out between 2006 and 2008 in dystrophic red latosol in Botucatu SP, under a system of consolidated direct seeding. The experimental design was of randomized blocks, with sixteen replications. The treatments were 3.8 t ha-1 of dolomitic limestone, 4.1t ha-1 of calcium silicate and magnesium, and a control with no application of correctives to the soil. The levels of water-soluble cations, and the electrical conductivity of the crop shoots were determined. Variations in the levels and sum of water-soluble cations were not detected through the electrical conductivity of the shoot extract. The application of correctives increased the levels of soluble Ca2+ and Mg2+ in extracts from the residue of soybean, oats, and millet; for maize, there was an increase in the concentrations of Mg2+; in addition to increased levels of Mn2+ in the first-year brachiaria residue, with no influence however, on the levels in bean, pigeon pea and brachiaria crops in the second year.

Key words: limestone. calcium and magnesium silicate. plant residue. soil acidity. direct-seeding system.


 

 

INTRODUÇÃO

Resíduos vegetais produzidos por culturas anuais possuem efeito comprovado sobre a mobilidade de cátions no solo, variando de acordo com a espécie (FRANCHINI et al., 2003) e, possivelmente, com o manejo das culturas. A permanência destes resíduos na superfície do solo, aliada à ausência de revolvimento do mesmo, reduzem a taxa de decomposição dos ligantes orgânicos por microrganismos, fazendo com que os compostos orgânicos possam ser solubilizados e lixiviados (MIYAZAWA; PAVAN; FRANCINI, 2000), auxiliando no carreamento dos produtos da dissociação dos corretivos de acidez do solo.

A capacidade dos resíduos vegetais em mobilizar cátions em solos ácidos está intimamente relacionada com o teor de ácidos orgânicos de baixo peso molecular, como os ácidos cítrico e málico. Na planta, tais compostos estão na forma de ânions orgânicos para manutenção da eletroneutralidade química, devido à absorção de cátions básicos (PIERRE; BANWART, 1973); além disso, apesar da existência de ânions inorgânicos (NO3-, SO42-, H2PO- e Cl-) no tecido vegetal, estes estão presentes em teores pouco significativos. Assim, como a determinação de cátions no tecido vegetal é relativamente mais fácil do que a de ânions orgânicos, a somatória de cátions é um dos melhores indicadores dos efeitos de resíduos na química da solução de solos ácidos (CASSIOLATO et al., 2000; MIYAZAWA; PAVAN; FRANCINI, 2000).

Dessa forma, a determinação da soma de cátions solúveis pode indicar o potencial de mobilização de cátions e as quantidades de H+ e Al3+ que podem ser neutralizadas pelos resíduos vegetais, permitindo, assim, carrear Ca trocável para subsuperfície e diminuir o Al trocável do solo (FRANCHINI et al., 1999). A lixiviação de Ca2+ e Mg2+ é facilitada pela ligação desses cátions a compostos orgânicos, tornando-os quimicamente neutros, evitando sua adsorção aos coloides do solo. Na presença de H+ ou Al3+, estes cátions ligados aos compostos orgânicos tendem a ser substituídos por H+ ou Al3+, formando assim, compostos estáveis protonados ou complexo Al-orgânico (MIYAZAWA; PAVAN; FRANCHINI, 2000), atóxicos às plantas, liberando Ca2+ e Mg2+ em profundidade. Neste sentido, Diehl, Miyazawa e Takahashi (2008) verificaram que os compostos orgânicos dos extratos vegetais apresentam correlação significativa com as alterações de pH, Al trocável, H+Al e a saturação por bases nas colunas de solo.

O material mais utilizado no Brasil como corretivo de acidez do solo é o calcário, porém os silicatos provenientes das escórias de aciaria são materiais que se comportam de forma semelhante aos calcários. De acordo com Korndörfer, Pereira e Camargo (2002), os silicatos de Ca e Mg, por apresentarem composição semelhante a dos carbonatos, podem substituir os calcários com vantagens, podendo assim sua recomendação de aplicação ser baseada em qualquer um dos métodos utilizados para recomendação de calagem. Além disso, a presença do Si no material, elemento benéfico, leva à formação de dupla camada de sílica-cutícula e sílica-celulose quando depositado na parede celular da epiderme das folhas, podendo alterar a composição bioquímica das culturas e também a taxa de decomposição dos seus restos vegetais (MA; YAMAJI, 2006).

Desta forma, objetivou-se comparar os efeitos da aplicação superficial de calcário e de silicato nos teores de cátions solúveis e na condutividade elétrica dos extratos vegetais da parte aérea das culturas da soja, milheto, aveia, braquiária, milho, feijão e guandu, na época do florescimento.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Localização e Caracterização da Área Experimental

O experimento foi conduzido durante duas safras agrícolas, entre outubro de 2006 e julho de 2008, na Fazenda Experimental Lageado, pertencente à Faculdade de Ciências Agronômicas - UNESP, localizada no município de Botucatu (SP), nas coordenadas geográficas de 22º51' S e 48º23' W, com altitude de 765 m. O solo do local é do tipo Latossolo Vermelho distroférrico típico argiloso, profundo, ácido (EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA, 2006). De acordo com a classificação de Köeppen, o clima predominante na região é do tipo Cwa, caracterizado por clima tropical de altitude, com inverno seco e verão quente e chuvoso.

Para a determinação das características químicas do solo, amostrou-se a camada 0-20 m, seguindo a metodologia descrita por Raij et al. (2001). Os resultados foram: matéria orgânica de 18,25 g dm-3, pH (CaCl2) de 4,2, P (resina) de 3,62 mg dm-3, K, Ca, Mg e CTC de 0,76, 11,62, 5,75 e 74,98 mmolc dm-3, respectivamente, e V% de 24,2%.

Delineamento Experimental e Tratamentos Empregados

O delineamento experimental utilizado foi em blocos casualizados com dezesseis repetições para cada cultura estudada. Para comparação entre as culturas, foi realizada a comparação de médias pela análise conjunta dos dados. As parcelas (5,4 x 10 m) foram constituídas por uma testemunha e dois corretivos, aplicadas superficialmente, em 14/10/2006, nas quantidades 3,8 t ha-1 do calcário e 4,1 t ha-1 do silicato.

Os materiais corretivos utilizados foram o calcário dolomítico (PRNT = 90%, CaO = 36% e MgO = 12%) e o Agrosilício® (silicato de cálcio e magnésio/ PRNT = 80%, CaO = 34%, MgO = 10% e SiO2 = 22%). As doses dos corretivos foram calculadas objetivando elevar a saturação por bases (V%) a 70%.

Instalação e Condução do Experimento

A cultura da soja, cultivar Embrapa 48, foi semeda no dia 29 de novembro de 2006, sobre 4,0 t ha-1 de biomassa aérea de milheto previamente dessecado com 1.800 g de i.a. de glyphosate por hectare, obedecendo um espaçamento de 0,45 m nas entrelinhas e 22 plantas por metro. Para a adubação de base nos sulcos foram utilizados 250 kg ha-1 da formulação 04-20-20, levando-se em conta as características químicas do solo e as recomendações para a cultura da soja (RAIJ et al., 1997). Decorridos cinquenta dias da semeadura, ocorreu o florescimento da cultura.

Na entressafra, a área experimental foi seccionada em quatro faixas, sendo três delas ocupadas por culturas e uma mantida em pousio. As culturas de entressafra (milheto, aveia branca e braquiária) foram semeadas no dia 10 de abril de 2007, obedecendo também o espaçamento de 0,45 m. Para a semeadura do milheto (cultivar BRS 1501) utilizou-se 25 kg de sementes por hectare, objetivando população de 300 mil plantas por hectare. Aos cinqüenta dias após a semeadura ocorreu o florescimento pleno da cultura. Para a aveia branca, utilizou-se a cultivar IAC 7, sendo semeadas 133 sementes viáveis por metro quadrado. A cultura também floresceu cinqüenta dias após a semeadura. Por fim, como forrageira, utilizou-se a Brachiaria ruziziensis, na densidade de semeadura de 10 kg ha-1 para o valor cultural de 25%, com o objetivo de semear 2,5 kg de sementes puras viáveis por hectare. A braquiária permaneceu vegetando até dezembro de 2007, antes da instalação da cultura de verão. As culturas de entressafra não receberam qualquer tipo de adubação.

No segundo ano agrícola, na área em pousio, posteriormente ao cultivo da soja, semeou-se (2/12/2007) o híbrido de milho 2B570, de ciclo médio e exigente em fertilidade do solo, no espaçamento de 0,45 m entrelinhas e sementes necessárias para se obter 3 plantas por metro. A adubação de semeadura foi 300 kg ha-1 da formulação 08-28-16, levando-se em conta as características químicas do solo e as recomendações para a cultura do milho (RAIJ et al., 1997). Posteriormente, em 10 de janeiro de 2008, realizou-se adubação de cobertura com 200 kg ha-1 de uréia na entrelinha das parcelas. O florescimento pleno do milho ocorreu 64 dias após sua emergência e a colheita foi realizada no dia 1 de abril de 2007.

Nesta entressafra, assim como na anterior, a área experimental foi seccionada em quatro faixas, sendo uma mantida em pousio e três delas ocupadas pelas culturas feijão, guandu e braquiária. As culturas de entressafra foram semeadas no dia 5 de abril de 2008, seguindo o espaçamento de 0,45 m. Na cultura do feijão a cultivar Pérola foi semeada utilizando-se 18 sementes por metro, e seu florescimento pleno ocorreu 47 dias após a semeadura. Para a cultura do guandu semeou-se 20 sementes por metro da cultivar IAPAR 43. O florescimento pleno ocorreu 87 dias após a semeadura (1/07/2008). A cultura da braquiária foi implantada na mesma densidade e espaçamento utilizados no primeiro ano, permanecendo em livre crescimento até outubro de 2008.

Amostragens e Avaliações Realizadas

Para a determinação dos teores de cátions hidrossolúveis das culturas anuais, foram coletadas amostras de folhas no momento do florescimento, exceto para a braquiária que foi amostrada antes da dessecação para semeadura da cultura de verão. As folhas foram colocadas para secagem em estufa com circulação forçada de ar a 60-70 ºC, por 72 horas, sendo em seguida moídas em moinho tipo Willey. Para extração dos compostos hidrossolúveis (ácidos orgânicos de baixo peso molecular), 1 g dos resíduos foi transferido para frascos de 100 mL, em seguida, adicionados 50 mL de água destilada, agitando-se por 4 horas a uma velocidade de 200 rpm, com posterior filtragem em papel-filtro qualitativo de filtragem rápida.

De posse dos extratos vegetais, foi realizada a leitura dos teores de Ca2+, Mg2+, Mn2+, Cu2+, Fe3+ e Zn2+ por espectrometria de absorção atômica; já a leitura dos teores de K+ foi realizada por fotometria de chama. Os resultados foram expressos em mmolc kg-1, de forma individual para cada elemento e na forma de soma de cátions (Σ Ca2+, Mg2+, K+, Mn2+, Cu2+, Fe3+ e Zn2+). A partir do extrato vegetal, determinou-se, também, a condutividade elétrica da solução (CE) por condutivimetria, em µS cm-1, segundo metodologia descrita por Miyazawa, Pavan e Franchini (2000).

Análise Estatística

Os resultados foram submetidos à análise de variância, sendo as médias referentes à aplicação dos corretivos comparadas pelo teste t (DMS) a 5%. Posteriormente, para a comparação entre as espécies realizou-se a análise conjunta dos dados, uma vez que a razão entre o maior e o menor quadrado médio residual não foi superior a sete (BANZATTO; KRONKA, 1995).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para a cultura da soja (Tabela 1) observou-se elevação dos teores de Ca2+ e Mg2+ solúveis quando submetidos à aplicação de corretivos. Este resultado pode ser explicado pelo fato de ambos os materiais empregados serem fontes desses nutrientes, ocasionando, portanto, maior acúmulo dos mesmos. Os teores de K+, Mn2+, Cu2+, Fe3+ e Zn2+ não foram alterados pela aplicação dos corretivos. No entanto, os baixos valores de K podem ser explicados pela ocorrência de chuvas ao longo do período que antecedeu a coleta das folhas, favorecendo, assim, a lavagem do nutriente do material vegetal (ROSOLEM et al., 2007), já que este é um nutriente altamente móvel no floema que forma ligações com complexos orgânicos de fácil reversibilidade (MALAVOLTA, 1997).

A aplicação de corretivos proporcionou aumento na soma de cátions solúveis nos extratos do resíduo da soja, principalmente por aumentar o teor de Ca2+ e Mg2+ solúveis no resíduo. Como a soma de cátions solúveis indica a quantidade de H+ e Al3+ que pode ser neutralizada pelos resíduos vegetais (MIYAZAWA, PAVAN; FRANCINI, 2000), a calagem e a silicatagem em superfície podem também melhorar a capacidade dos resíduos das plantas cultivadas na área em mobilizar cátions e imobilizar o Al3+ da solução do solo, além de agirem diretamente na correção da acidez do solo e na elevação dos teores de Ca2+ e Mg2+ do solo.

Por outro lado, não se observou correspondente aumento da condutividade elétrica do extrato. Possivelmente a quantidade de sais não foi suficiente para alterar significativamente o valor desta variável, o que pode indicar a necessidade da quantificação de outros cátions solúveis. Tais resultados concordam com os obtidos por Soratto e Crusciol (2007), que trabalharam com doses de calcário em um solo de mesma classificação, e constataram ausência de resposta na soma de cátions e da condutividade elétrica do extrato vegetal de feijão, mesmo com a redução dos teores de Mg2+ solúveis 18 meses após a aplicação superficial do corretivo. Neste estudo, os referidos autores quantificaram apenas os valores de K+, Ca2+, Mg2+ e Mn2+ solúveis. Porém, mesmo com a quantificação dos cátions Cu2+, Fe3+ e Zn2+ no presente trabalho, ainda não foram observadas alterações que causassem efeito no somatório de cátions, sugerindo que a quantificação de outros cátions, como o Na+ e o NH4+, possam ser necessárias para detectar alterações nesta variável.

Na cultura da braquiária, em seu primeiro ano de cultivo, somente o Mn2+ foi influenciado pela aplicação dos corretivos (Tabela 2), levando a uma diminuição nos seus teores. Silva e Lemos (2008) observaram a mesma situação quando analisaram extratos de resíduos de feijão cv. Pérola mediante aplicação superficial de calcário, onde o teor de Mn2+ dos resíduos foi menor quando comparado à testemunha, sem aplicação do corretivo. A redução dos teores desse elemento pode ser explicada pela diminuição da disponibilidade desse nutriente à medida que o pH do solo é elevado pela aplicação dos corretivos, principalmente na camada superficial (HARMSEN; VLEK, 1985).

Os valores de somatório de cátions e de condutividade elétrica dos extratos não foram alterados pela aplicação dos tratamentos. Isso ocorreu devido ao efeito do teor de Mn2+, que corresponde a menos de 5% do valor do somatório de cátions, pouco influenciando o resultado final do mesmo.

Na cultura da aveia branca, constatou-se aumento significativo nos teores de Ca2+ e Mg2+ (Tabela 3), como observado na soja. Soratto e Crusciol (2007) observaram aumento no teor de Ca2+ e diminuição no teor de Mg2+ em plantas de aveia preta mediante aplicação de calcário e concluíram que, o excesso de Ca2+ pode ter prejudicado a absorção de Mg2+ pela cultura. Diehl, Miyazawa e Takahashi (2008) verificaram que os resíduos de aveia foram eficientes na neutralização da acidez e mobilização de cátions polivalentes devido ao seu alto teor de K+ iônico. Por outro lado, Marques (2011) observou aumento nos teores de Mg2+, e diminuição nos teores de Fe3+ em plantas de aveia branca mediante aplicação de calcário. O autor justificou o resultado pela elevação do pH do solo decorrente da aplicação do calcário, que forneceu Mg2+, porém reduziu os valores de Fe3+ disponíveis à planta. Da mesma forma que para a cultura da soja, o aumento nos teores de Ca2+ e Mg2+ no extrato vegetal da aveia branca refletiu em aumento da somatória de cátions, não alterando, porém, os valores de condutividade elétrica.

Analisando-se os resultados de milheto (Tabela 4), o único cátion que sofreu influência dos tratamentos foi o Ca2+, onde as plantas que receberam aplicação dos corretivos continham valores superiores ao da testemunha. Entretanto, tal aumento não foi suficiente para alterar a somatória de cátions, nem a condutividade elétrica. Silva e Lemos (2008), avaliando os extratos de plantas de milheto mediante aplicação de doses de calcário em Latossolo Vermelho distrófico, observaram que não houve diferença no teor de Ca2+ solúvel do extrato vegetal. Tal fato comprova que, em certos experimentos, mesmo com modificações químicas no solo provocadas pela aplicação de corretivos, os teores de cátions na parte aérea das culturas podem ser inalterados (CAIRES; BLUM; BARTH, 2003).

Na cultura do milho (Tabela 5), somente os teores de Mg2+ foram alterados pela aplicação de corretivos. A elevação dos teores de Mg2+ foi decorrente da presença desse elemento nos corretivos, pois ambos possuem quantidades significativas de MgO. No entanto, os teores de Ca não foram alterados, possivelmente pelo suprimento adequado da área que não recebeu os corretivos, pois o teor original de Ca2+ do solo foi considerado alto (RAIJ et al. 1997). Como a concentração de Mg2+ solúvel na folha foi muito inferior a dos outros dois principais cátions (K+ e Ca2+), a alteração proporcionada pelos corretivos não refletiu na elevação da soma de cátions nem na condutividade elétrica dos extratos.

No segundo ano de cultivo da Brachiaria ruziziensis a aplicação dos corretivos também não alteraram os teores de cátions solúveis (Tabela 6), assim como ocorreu no primeiro ano (Tabela 2), com exceção para o Mn2+. Ressalta-se que a forrageira utilizada é caracterizada como planta rústica, sendo considerada moderadamente tolerante à acidez do solo e com boa capacidade de se desenvolver em solos pobres (RAIJ et al., 1997), justificando assim a ausência de efeito sobre os cátions solúveis em função da aplicação dos corretivos.

Para as culturas do feijão (Tabela 7) e do guandu (Tabela 8), não foram detectadas diferenças significativas nos teores dos cátions solúveis, somatória de cátions e condutividade elétrica, da mesma forma que foi constatado por Silva e Lemos (2008) para as culturas do milheto, feijão e aveia preta. Com relação específica ao feijão submetido às doses de calcário, Soratto e Crusciol (2007) constataram ligeira alteração nos teores de Ca2+ e Mn2+ solúveis, positiva e negativa respectivamente, porém tal variação não foi suficiente para promover alteração na condutividade elétrica dos extratos. Também trabalhando com doses de calcário em amendoim, Marques (2011) constatou diminuição nos teores de Mn2+ e Fe3+ solúveis nos extratos, sendo explicado pela elevação do pH do solo que provoca redução na disponibilidade desses cátions.

Pela análise conjunta dos dados, pode-se notar grande variação nos teores médios de cátions de cada cultura (Tabela 9). Observando-se estes valores, é possível inferir que as culturas gramíneas deste estudo apresentam comportamento diferente entre si, variando de espécie para espécie, evidenciando as constatações de Soratto e Crusciol (2007) e Meda et al. (2001), que não observaram semelhanças entre as gramíneas por eles estudadas.

Segundo Franchini et al. (2003), os resíduos vegetais que apresentam maior capacidade para mobilizar Ca2+ no perfil do solo são aqueles com alto teor de K+ solúvel em seus tecidos, em especial a aveia preta e o nabo forrageiro. Já resíduos com maiores teores de Ca2+ e Mg2+ solúveis, por sua vez, são mais eficientes em imobilizar o Al3+ da solução do solo, ocasionando uma maior neutralização desse elemento no perfil do solo. Desta forma, Moraes et al. (2007) constataram que 20 t ha-1 de nabo forrageiro apresentaram influência relativamente pequena na mobilização de Mg para as camadas inferiores e na neutralização ou remoção do Al3+, sendo efetivo na mobilização de K+ no perfil do solo.

Assim, as culturas com maior potencial de mobilização de Ca2+, segundo os dados obtidos no presente estudo, foram as leguminosas, feijão e guandu, e as gramíneas, braquiária e aveia branca. Quanto à neutralização de Al3+ a soja e o feijão foram as que apresentaram maior potencial.

A condutividade elétrica dos extratos vegetais determina a concentração dos íons dissolvidos na solução, onde os valores podem variar de acordo com a determinação da soma de cátions (MIYAZAWA, PAVAN; FRANCHINI, 2000). Para os valores referentes à condutividade dos extratos vegetais, não houve diferença significativa em todas as culturas avaliadas, em função da aplicação dos corretivos.

Comparando-se os extratos vegetais, nota-se que não existe uma correlação direta entre o somatório de cátions e a condutividade elétrica dos extratos vegetais. Tal correlação seria interessante, pois a determinação de condutividade elétrica é um método mais rápido e barato, que simplificaria a estimativa da quantidade de H+ e Al3+ que pode ser neutralizada pelo material vegetal. Torna-se então necessária a quantificação dos cátions hidrossolúveis para expressar o potencial de mobilização de cátions e a neutralização de Al3+.

 

CONCLUSÕES

1. A concentração de cátions hidrossolúveis na parte aérea de culturas anuais foi igualmente influenciada pela aplicação de calcário e o silicato;

2. Culturas leguminosas possuem maior somatória de cátions quando comparadas às gramíneas;

3. A condutividade elétrica dos extratos vegetais não detecta variações nos teores e na somatória de cátions hidrossolúveis na parte aérea das culturas;

4. Os resíduos de feijão, guandu, braquiária e aveia branca são mais predispostos à lixiviar cátion no perfil do solo, já os de soja e feijão apresentam maior potencial de neutralizar o alumínio tóxico.

 

AGRADECIMENTOS

À FAPESP, pelo financiamento do projeto e pela concessão de bolsa de mestrado ao primeiro autor, e ao CNPq, pela concessão de bolsa de produtividade em pesquisa ao segundo, e iniciação científica ao terceiro.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido para publicação em 01/08/2011; aprovado em 16/03/2012
Projeto financiado pela FAPESP

 

 

Parte da Dissertação de Mestrado do primeiro autor apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Agricultura da Universidade Estadual Paulista junto à Faculdade de Ciências Agronômicas, Botucatu-SP
* Autor para correspondência