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Revista Ciência Agronômica

versão impressa ISSN 0045-6888versão On-line ISSN 1806-6690

Rev. Ciênc. Agron. vol.46 no.4 Fortaleza out./dez. 2015

https://doi.org/10.5935/1806-6690.20150057 

Engenharia Agrícola

Zoneamento agroclimático da cultura do açaí (Euterpe oleracea Mart.) para o estado do Espírito Santo

Agroclimatic zoning of acai crop (Euterpe oleraceaMart.) for the state of Espírito Santo

Kaio Allan Cruz Gasparini 2   *  

Mariana Duarte Silva Fonseca 2  

Milena Scaramussa Pastro 2  

Leonardo Cassani Lacerda 2  

Alexandre Rosa dos Santos 3  

2Programa de Pós-Graduação em Ciências Florestais, Universidade Federal do Espírito Santo, Av. Governador Lindemberg, nº 316, Jerônimo Monteiro-ES, Brasil, 29.550-000, kaioallangasparini@gmail.com, duarte.123@hotmail.com, milenascaramussa@hotmail.com, leonardo.lacerda@fibria.com.br

3Departamento de Engenharia Rural, Centro de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Espírito Santo, Alegre-ES, Brasil, mundogeomatica@yahoo.com.br


RESUMO

Os produtos do açaí (Euterpe oleracea Mart.) apresentam grande importância econômica e cultural no Brasil com um crescente mercado consumidor. Com intuito de fornecer bases para ampliação desse cultivo em outros estados, buscou-se elaborar o zoneamento agroclimático para essa cultura no estado do Espírito Santo. Para tanto, utilizou-se de dados meteorológicos de 110 estações de órgãos governamentais e da ferramenta geotecnológica ArcGIS 10.1 para espacializar os dados de temperatura, precipitação e déficit hídrico e depois reclassificá-las para a geração do zoneamento. Os resultados demonstraram que 20,74% da área total do Espírito Santo possui zonas aptas a essa cultura, localizadas nas regiões Nordeste, Serrana e Sul, sendo Linhares o município com maior aptidão. Embora a maior parte do estado tenha algum tipo de restrição que limita o cultivo, seja da variável déficit hídrico, seja da precipitação, algumas técnicas podem minimizar tais restrições. Logo, torna-se viável a implantação da cultura do açaí no estado do Espírito Santo de acordo com as variáveis temperatura, precipitação e déficit hídrico.

Palavras-chave: Geotecnologias; Déficit hídrico; Temperatura; Classes de aptidão

ABSTRACT

The products of acaí (Euterpe oleracea Mart.) have great economic and cultural importance in Brazil with a growing consumer market. Seeking to provide a basis for the expansion of this crop in other states, we sought to develop the agroclimatic zoning for this crop in the state of Espírito Santo. Therefore, we used data from 110 meteorological stations and governmental geotecnologic's tool ArcGIS 10.1 for spatialize temperature data, precipitation and water deficit and then reschedule them for the generation of zoning. The results showed that 20.74% of the total area of the Espírito Santo has areas suitable to this culture, located in the Northeastern, Southern and mountainous, with Linhares the municipality with the highest fitness. Although most of the state has some kind of constraint that limits the cultivation, whether the variable is water deficit precipitation, some techniques can minimize such restrictions. Thus, it becomes feasible to implement the culture of acai in the state of Espírito Santo according to the variables temperature, precipitation and water deficit.

Key words: Geotechnologies; Water deficit; Temperature; Aptitude classes

INTRODUÇÃO

A polpa do açaí é um produto alimentar típico do Brasil, proveniente do fruto da palmeira, denominada açaizeiro (Euterpe oleraceae Mart.). Ela se distribui nas regiões do baixo Amazonas, Maranhão, Tocantins e Amapá, alcançando as Guianas e a Venezuela (SOUZA et al., 1996).

O açaí desempenha importante papel sócioeconômico-ambiental para as regiões produtoras. Silva, Santana e Reis (2006) verificaram aumentos dos retornos sociais da cultura no Pará, após a inserção tecnológica na produção na ordem de 238 milhões de reais, no ano de 2005. O extrativismo do açaí é uma atividade típica da agricultura familiar, demandante de mão-de-obra e que exige muita habilidade para o manejo, colheita e extração. Cerca de 80% dos frutos do açaí é obtido do extrativismo, enquanto apenas 20% provêm de açaizaismanejados e cultivados (NOGUEIRA; FIGUEIRÊDO; MÜLLER, 2006).

Desde a década de 1990 têm sido realizadas ações de manejo de açaizais nativos e de cultivos sustentáveis, tanto em várzea quanto em terra firme. Assim, do desenvolvimento de pesquisas de melhoramento genético da espécie, originou-se a cultivar BRS-Pará, desenvolvida pela Embrapa Amazônia Ocidental para plantios em condições de terra firme, ou seja, sem alagamento (OLIVEIRA; FARIAS NETO, 2004). Contudo, as pesquisas de melhoramento ainda estão sendo aprimoradas com a seleção genotípica de progênies e de indivíduos de açaizeiro (FARIAS NETO et al., 2012).

Na literatura científica é relatado que há a necessidade de ampliação das informações referentes a esta cultura, sendo o maior número das pesquisas voltadas à região Norte do Brasil, onde o açaizeiro é nativo e, portanto, concentra-se sua produção. No estado do Espírito Santo existem cultivos dessa espécie para a exploração comercial do palmito e, principalmente, dos frutos, a exemplo da região em torno da cidade de Alto Rio Novo (INSTITUTO CAPIXABA DE PESQUISA, ASSISTÊNCIA TÉCNICA E EXTENSÃO RURAL, 2012).

Diante da importância comercial do açaizeiro, a expansão de seu cultivo em outros locais com características favoráveis ao seu desenvolvimento torna-se desejável. Para que o sucesso da implantação de determinada cultura seja mais garantido, faz-se necessário estudos sobre a aptidão agrícola dessa cultura para região. O zoneamento é um instrumento para a identificação de áreas mais favoráveis ao desenvolvimento da cultura em estudo, locais estes que em condições agroclimáticas e econômicas adequadas podem proporcionar desenvolvimento significativo da espécie (OMETTO, 1981). Tal método baseia-se no levantamento de fatores que definem as aptidões agroclimáticas encontradas em diferentes faixas da região estudada (SANTOS et al., 2000). O zoneamento agroclimático tem sido largamente utilizado em pesquisas científicas para diversas culturas tais como, café (PEZZOPANE et al., 2010), algodão (AZEVEDO; SILVA, 2007), cana-de-açúcar (WREGE, 2005), pessegueiro e nectarina (CARAMORI et al., 2008), acerola (SOUZA et al., 2006), manga (PORTELA et al., 2008), pinhão-manso (DALLACORT et al., 2010), pinus (CASTRO et al., 2010) e seringueira (PILAU et al., 2007).

Segundo Pezzopane et al. (2012), a temperatura e a precipitação são as variáveis meteorológicas mais importantes a serem consideradas nos estudos dos processos produtivos. Convergente a isso, a utilização de geotecnologias, como os Sistema de Informações Geográficas (SIG's) auxiliam nos estudos de zoneamento, reunindo e disponibilizando tais informações em mapas temáticos. Desse modo, o zoneamento se faz necessário por possibilitar melhor uso dos recursos naturais e facilitar o manejo da cultura, promovendo uma atividade sustentável e geradora de renda.

Mediante os fatos expostos, o objetivo deste trabalho foi definir áreas de maior aptidão agroclimática para o cultivo do açaizeiro no estado do Espírito Santo por intermédio do zoneamento agroclimático.

MATERIAL E MÉTODOS

Caracterização da área

A área de estudo é o estado do Espírito Santo que se encontra na região Sudeste do Brasil, entre as coordenadas 17°52' e 21°19' de latitude Sul e 39°38' e 41°50' de longitudes Oeste. O estado apresenta clima Tropical Úmido, de acordo com a classificação de Köppen, com temperaturas médias anuais em torno de 23 ºC e precipitação anual superior a 1.400 mm, concentradas no verão. O relevo é acidentado e apresenta variação espacial do litoral, a Leste, à região Serrana, a Oeste (GOVERNO DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO, 2013).

Espacialização dos dados meteorológicos

Nesta etapa, utilizou-se uma planilha eletrônica com os dados do balanço hídrico climatológico, de acordo com Thornthwaite e Mather (1955), a qual foi convertida em arquivo vetorial do tipo ponto no formato shapefile (*shp). Os dados para a confecção da planilha foram provenientes de estações meteorológicas da Agência Nacional de Águas (ANA), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e do Instituto Capixaba de Assistência Técnica e Extensão Rural (INCAPER) no estado do Espírito Santo, como também de estações de estados vizinhos (Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia) (CASTRO et al., 2010); totalizando 110 estações, com 30 anos de dados médios mensais, de 1977 a 2006, de precipitação pluviométrica, temperatura do ar, evapotranspiração real, excedente hídrico e deficiência hídrica (Figura 1).

Figura 1 Distribuição espacial das estações meteorológicas, localizados no Espírito Santo e estados vizinhos 

Espacialização da temperatura

De posse dos dados meteorológicos em formato vetorial, foi calculada uma regressão linear múltipla, onde foi adotada como variável dependente a temperatura média anual, e como variáveis independentes a longitude e altitude. A latitude não foi considerada, pois possui colinearidade com a longitude. Após aquisição dos coeficientes da regressão linear múltipla (Tabela 1), foi utilizada álgebra de mapas, de acordo com a Equação 1, obtendo-se assim a imagem matricial da temperatura média para o estado do Espírito Santo.

Tabela 1 Estatística da regressão linear múltipla, para estimar temperatura média para o estado do Espírito Santo 

Variáveis Coeficientes Estatística-t Valor-p
Intercepto 23,284204 5,566978 0*
Longitude -0,051679 -0,501606 0,61698
Altitude -0,00645 -33,302015 0*

*valor-p significativo (p<0,05)

Em que,

Temp: temperatura média (°C);

β0: Intercepto;

β1: Coeficiente;

λ: Longitude (graus decimais);

β2: Coeficiente; e

Z: Altitude (m).

A imagem matricial de elevação, conhecida como Modelo Digital de Elevação (MDE), foi obtida no sítio Brasil em Relevo, da Embrapa Monitoramento por Satélite (EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA, 2013). Esses dados são provenientes da missão SRTM, (Shuttle Radar Topograph Mission), da Agência Espacial Norte Americana (NASA), a qual mapeou a elevação de toda superfície terrestre. O método de coleta foi por interferometria de radar, produzindo MDE's de 90 metros de resolução espacial. A NASA disponibiliza esses dados gratuitamente e a Embrapa fez o tratamento adaptando para o Brasil.

Espacialização da Precipitação

Por meio da extensão Geoestatistical Analyst, tendo como entrada os campos de precipitação média anual, aplicou-se a interpolação espacial pelo método da krigagem ordinária, com ajuste estatístico do semivariograma exponencial, conforme Cecílio et al.(2012), com o objetivo de gerar a imagem matricial da precipitação média anual.

Espacialização do déficit hídrico

Com os dados de déficit hídrico anual, foi utilizado esse campo para aplicação da interpolação espacial pelo método da krigagem ordinária, com ajuste estatístico do semivariograma exponencial de acordo com Cecílio et al. (2012), com o objetivo de gerar a imagem raster contínuo de saída de déficit hídrico anual.

Reclassificação dos raster's

Após a espacialização das variáveis meteorológicas temperatura, precipitação e déficit hídrico, as imagens matriciais obtidas foram reclassificadas, de acordo com a exigência da cultura (Tabela 2).

Tabela 2 Restrições da cultura do açaí de acordo com a variável climática 

Variáveis Regiões Aptas Regiões Inaptas
Temperatura (Tm) 22 °C≤ Tm ≤28 °Ca 22 °C > Tm >28 °C
Precipitação (P) 1300 mm ≤P ≤3000 mmb 1300 mm > P > 3000 mm
Déficit hídrico (Dh) Dh ≤200 mma Dh > 200 mm

Fonte:

a(BRASIL, 2010)

b(NOGUEIRA; FIGUEIRÊDO; MÜLLER, 2006)

Zoneamento

De posse das imagens matriciais reclassificados, a espacialização do mapa temático para o zoneamento foi realizada pela combinação das três imagens de aptidão/ inaptidão reclassificadas, sendo que os valores dentro do intervalo de aptidão receberam o valor 1 (classe apta) e de inaptidão valor 2 (classe inapta). O fluxograma metodológico contendo todas as etapas necessárias para a espacialização do zoneamento agroclimático do açaí está apresentado na Figura 2.

Figura 2 Fluxograma metodológico para espacialização do zoneamento agroclimático do açaí 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Figura 3 representa a altitude e o comportamento das variáveis meteorológicas, temperatura, déficit hídrico e precipitação em todo o estado do Espírito Santo. As variáveis de temperatura, déficit hídrico e precipitação serviram de base à reclassificação, mediante as combinações entre as características do estado, com as exigências impostas pela cultura em questão.

Figura 3 Mapas de altitude (A), déficit hídrico (B), temperatura (C), e precipitação (D) para o estado do Espírito Santo 

Observa-se que os mapas de altitude e temperatura possuem uma relação direta. As maiores altitudes localizam-se na região Centro Sul e Sudoeste do estado e os menores valores encontram-se principalmente na faixa litorânea. Nota-se que nas regiões Centro Sul e Sudoeste, também se encontram as menores temperaturas. Castro et al. (2010) encontraram para a região com altitude entre 0-300 m temperaturas superiores à média anual de 24 °C, que são as regiões Norte, faixa litorânea e vale do rio Itapemirim. Já na região serrana ao Sul, a temperatura média anual está entre 18 e 22 ºC.

Verificam-se na Figura 3 (B) que as regiões Centro Sul e Sudoeste possuem menores valores de deficiência hídrica, pelo fato destas regiões possuírem maiores altitudes, colaborando para menores temperaturas, ocasionando menor evapotranspiração dos vegetais. Castro et al. (2010) verificaram que no extremo Oeste do estado, a deficiência hídrica registrada foi de aproximadamente 400 mm, semelhante ao encontrado neste estudo. Apesar da região Norte do estado conter maior déficit hídrico, à medida que aproxima-se do litoral, esse efeito é invertido, pois, mesmo com a demanda evaporativa maior, a precipitação também é maior (Figura 3 D), colaborando com menores valores de deficiência hídrica.

Com relação a precipitação observa-se que o estado não possui áreas com problemas de escassez de chuva, destacando-se os maiores índices nas regiões Centro Sul, Sudoeste e Litoral Norte, corroborando com os resultados de Silva et al. (2011a), que realizaram a interpolação espacial da precipitação no estado, e Sant'anna Neto (2005), em estudo sobre a climatologia no Sudeste brasileiro.

A Figura 4 ilustra os mapas com as características de temperatura, déficit hídrico e precipitação, onde os dados foram reclassificados às exigências da cultura do açaí para o desenvolvimento no estado do Espírito Santo. Para a variável temperatura (Figura 4A), observa-se que a maior distribuição das áreas inaptas encontra-se na região serrana do estado e regiões com maiores altitudes. Tomando como fator de restrição o déficit hídrico (Figura 4B), a classe apta abrangeu uma faixa da região Sul Serrana, Litoral Leste até Litoral Nordeste do estado, com algumas áreas de aptidão também a Noroeste. O mapa de restrição à precipitação (Figura 4C) demonstra que as áreas aptas compreendem partes das regiões Litorais Nordeste, Litoral Oeste e Sul Serrana do estado.

Figura 4 Áreas de restrição à temperatura (A), déficit hídrico (B) e precipitação (C) para a cultura do açaí para o estado do Espírito Santo 

O açaizeiro, naturalmente ocorrendo na região Amazônica, é adaptado a locais com clima quente e úmido e pequena amplitude térmica (OLIVEIRA et al., 2002). Calbo e Moraes (2000) avaliando o efeito da deficiência de água em plantas de açaí, concluíram que esta espécie é capaz de tolerar uma falta moderada de água. Além disso, a utilização de cultivares como a Pará, adaptadas para solos não encharcados é uma opção que já foi estudada na fase de viveiro, para o estado de São Paulo (CONFORTO; COTIN, 2009).

O zoneamento para a cultura do açaizeiro para o estado do Espírito Santo é apresentado na Figura 5. Observa-se que o estado possui áreas propícias ao cultivo do açaizeiro, sendo essas encontradas nas regiões Nordeste, Serrana e Sul.

D - déficit hídrico; P - precipitação

Figura 5 Zoneamento da cultura do açaí visando a áreas de aptidão e inaptidão ao seu desenvolvimento no estado do Espírito Santo 

Baseando-se na área total do estado confeccionou-se a Tabela 3 contendo os valores das dimensões territoriais das classes.

As áreas aptas para o cultivo do açaizeiro correspondem a 20,74% do território do estado, enquanto que 23,78% apresentam-se inaptas. Todavia, a maior zona observada (41,86%) encontra-se na condição inapta por déficit hídrico e precipitação. Observa-se também que mais de 55% da área total possui alguma das restrições estudadas, contudo estas condições podem ser compensadas ou revertidas mediante o emprego de um sistema de irrigação.

Tabela 3 Área das classes de aptidão para a cultura do açaí no estado do Espírito Santo 

Classes Área (km2) Área (%)
Apta 9.529,63 20,74
Inapta 10.925,55 23,78
Inapta a D 262,18 0,57
Inapta a P 5.998,19 13,05
Inapta a P e D 19.234,45 41,86
Total 45.950,00 100,00

D - déficit hídrico; P - precipitação

O plantio do açaí com cultivares adaptadas à terra firme amplia as possibilidades dos espaços de cultivos no estado do espírito Santo e contempla a diminuição da pressão sobre ambientes alagados ou de várzea. Além disso, plantios em área de terra firme permitem o uso de irrigação e o emprego adequado de adubação do solo, práticas estas que podem propiciar o aumento da produção e produtividade, como também a obtenção do açaí em várias épocas do ano e em condições de colheita menos adversas que nas várzeas (HOMMA et al., 2006).

Segundo Silva et al. (2011b), realizando o zoneamento agroclimático do palmiteiro juçara (E. edulis), espécie nativa da Mata Atlântica, considerada de alto valor econômico no estado do Espírito Santo e pertencente ao mesmo gênero do açaí, indicaram que 54,21% das áreas do estado, são aptas ao cultivo desta palmeira. Os autores ainda ressaltam que esta espécie pode ser cultivada em áreas de maiores altitudes, mas possui inaptidão ao litoral Norte e as áreas de baixa altitude. Confrontando tal pesquisa com o presente estudo, observa-se que as áreas consideradas inaptas para E. edulis são aptas para o cultivo de E. oleracea, demonstrando que pode haver inserção de açaizeiro para produção de frutos e de palmito, sem que uma cultura interfira no nicho da outra, assim assegurar diversificação e ampliação econômica.

Analisando a porcentagem da classe de aptidão contida em cada município, em relação à área total do estado (Tabela 4), observa-se que 37 municípios do total de 78 (47,44%) apresentam alguma aptidão. Os municípios que apresentaram os maiores valores de área foram Linhares (2,65%), São Mateus (1,71%), Aracruz (1,41%), Cachoeiro de Itapemirim (1,39%), Jaguaré (1,29%), Serra (1,18%) e Sooretama (1,06%).

Tabela 4 Porcentagem de áreas de aptidão em cada município em relação à área total do estado do Espírito Santo 

Município Áreas (%)
Apta Inapta Inapta a D Inapta a P Inapta a P e D
Afonso Cláudio 0,00 1,42 0,00 0,14 0,52
Água Doce do Norte 0,00 0,40 0,00 0,36 0,28
Águia Branca 0,00 0,08 0,00 0,36 0,54
Alegre 0,97 0,71 0,00 0,00 0,00
Alfredo Chaves 0,37 0,97 0,00 0,00 0,00
Alto Rio Novo 0,00 0,38 0,00 0,03 0,09
Anchieta 0,56 0,02 0,14 0,00 0,15
Apiacá 0,04 0,12 0,04 0,00 0,21
Aracruz 1,41 0,00 0,00 1,69 0,00
Atílio Vivácqua 0,00 0,03 0,04 0,05 0,37
Baixo Guandu 0,00 0,43 0,00 0,00 1,55
Barra de São Francisco 0,00 0,15 0,00 0,37 1,51
Boa Esperança 0,00 0,00 0,00 0,00 0,93
Bom Jesus do Norte 0,01 0,02 0,10 0,00 0,07
Brejetuba 0,00 0,74 0,00 0,00 0,00
Cachoeiro de Itapemirim 1,39 0,11 0,30 0,00 0,10
Cariacica 0,51 0,08 0,00 0,00 0,00
Castelo 0,68 0,77 0,00 0,00 0,00
Colatina 0,00 0,13 0,00 0,02 2,95
Conceição da Barra 0,00 0,00 0,00 0,29 2,25
Conceição do Castelo 0,13 0,66 0,00 0,00 0,00
Divino de São Lourenço 0,00 0,38 0,00 0,00 0,00
Domingos Martins 0,15 2,51 0,00 0,00 0,00
Dores do Rio Preto 0,00 0,33 0,00 0,00 0,00
Ecoporanga 0,00 0,27 0,00 2,54 2,12
Fundão 0,57 0,03 0,00 0,00 0,00
Governador Lindenberg 0,00 0,02 0,00 0,00 0,76
Guaçuí 0,00 1,01 0,00 0,00 0,00
Guarapari 0,81 0,16 0,01 0,14 0,16
Ibatiba 0,00 0,52 0,00 0,00 0,00
Ibiraçu 0,36 0,08 0,00 0,00 0,00
Ibitirama 0,00 0,72 0,00 0,00 0,00
Iconha 0,30 0,14 0,00 0,00 0,00
Irupi 0,00 0,40 0,00 0,00 0,00
Itaguaçu 0,00 0,18 0,00 0,00 0,97
Itapemirim 0,09 0,00 0,04 0,00 1,08
Itarana 0,00 0,37 0,00 0,04 0,24
Iúna 0,01 0,99 0,00 0,00 0,00
Jaguaré 1,29 0,00 0,00 0,11 0,03
Jerônimo Monteiro 0,30 0,05 0,00 0,00 0,00
João Neiva 0,33 0,04 0,00 0,14 0,08
Laranja Da Terra 0,00 0,13 0,00 0,00 0,86
Linhares 2,65 0,04 0,00 3,87 1,01
Mantenópolis 0,00 0,46 0,00 0,13 0,09
Marataízes 0,00 0,00 0,00 0,00 0,29
Marechal Floriano 0,00 0,62 0,00 0,00 0,00
Marilândia 0,00 0,01 0,00 0,00 0,65
Mimoso Do Sul 0,39 0,37 0,05 0,13 0,94
Montanha 0,00 0,00 0,00 0,00 2,38
Mucurici 0,00 0,00 0,00 0,00 1,17
Muniz Freire 0,26 1,22 0,00 0,00 0,00
Muqui 0,46 0,21 0,04 0,00 0,01
Nova Venécia 0,00 0,02 0,00 0,34 2,78
Pancas 0,00 0,30 0,00 0,09 1,39
Pedro Canário 0,00 0,00 0,00 0,00 0,93
Pinheiros 0,00 0,00 0,00 0,00 2,12
Piúma 0,06 0,00 0,09 0,00 0,00
Ponto Belo 0,00 0,00 0,00 0,31 0,46
Presidente Kennedy 0,00 0,00 0,00 0,08 1,19
Rio Bananal 0,00 0,00 0,00 0,29 1,10
Rio Novo do Sul 0,32 0,11 0,01 0,00 0,00
Santa Leopoldina 0,81 0,74 0,00 0,00 0,00
Santa Maria do Jetibá 0,01 1,58 0,00 0,00 0,00
Santa Teresa 0,10 0,93 0,00 0,16 0,31
São Domingos do Norte 0,00 0,00 0,00 0,00 0,65
São Gabriel da Palha 0,00 0,00 0,00 0,00 0,94
São José dos Calçados 0,25 0,29 0,05 0,00 0,00
São Mateus 1,71 0,00 0,00 1,01 2,36
São Roque do Canaã 0,00 0,09 0,00 0,00 0,65
Serra 1,18 0,01 0,00 0,00 0,00
Sooretama 1,06 0,00 0,00 0,06 0,16
Vargem Alta 0,21 0,69 0,00 0,00 0,00
Venda Nova do Imigrante 0,00 0,41 0,00 0,00 0,00
Viana 0,62 0,06 0,00 0,00 0,00
Vila Pavão 0,00 0,00 0,00 0,00 0,94
Vila Valério 0,00 0,00 0,00 0,00 1,00
Vila Velha 0,26 0,00 0,00 0,09 0,10
Vitória 0,16 0,00 0,00 0,00 0,00

D - déficit hídrico; P - precipitação

A pesquisa é base para ampliação das áreas produtoras desta palmeira e proporciona apoio a produtores e órgãos governamentais que pretendam implantar áreas de plantio no estado de estudo.

CONCLUSÃO

As regiões inaptas à deficiência hídrica e precipitação, podem se tornar viáveis à implantação do açaí, por meio do uso de manejo adequado de sistema de irrigação ou qualquer alternativa que ofereça as condições necessárias à cultura. Estudos mais detalhados e com outras variáveis agroclimáticas são requeridos para uma melhor compreensão e abrangência do conhecimento do zoneamento da cultura do açaí para o estado do Espírito Santo.

Pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Espírito Santo, Campus Jerônimo Monteiro

AGRADECIMENTOS

À CAPES e à FAPES, pelo apoio financeiro, e ao Programa de Pós-graduação em Ciências Florestais da Universidade Federal do Espírito Santo pelo incentivo acadêmico e científico.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 07 de Abril de 2014; Aceito: 29 de Junho de 2015

* Autor para correspondência

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