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Revista Ciência Agronômica

Print version ISSN 0045-6888On-line version ISSN 1806-6690

Rev. Ciênc. Agron. vol.47 no.1 Fortaleza Jan./Mar. 2016

http://dx.doi.org/10.5935/1806-6690.20160011 

Fitotecnia

Extrato vegetal, fosfito e sulfato de zinco no controle do oídio em eucalipto1

Plant extract, zinc phosphite and zinc sulphate in the control of powdery mildew in the eucalyptus

André Costa da Silva2  * 

Mário Lúcio Vilela de Resende2 

Paulo Estevão de Souza2 

Kátia Ferreira Pôssa3 

Manoel Batista da Silva Júnior2 

2Departamento de Fitopatologia, Universidade Federal de Lavras/UFLA, Caixa Postal 3037, Lavras-MG, Brasil, 37.200-000, andrec_agro@yahoo.com.br, mlucio@dfp.ufla.br, pauleste@dfp.ufla.br, mjunior_agroufla@yahoo.com.br

3Departamento de Biotecnologia Vegetal/Universidade Federal de Lavras/UFLA, Caixa Postal 3037, 37.200-000, Lavras-MG, Brasil, katiafpossa@gmail.com

RESUMO

O objetivo do trabalho foi avaliar a eficácia de um extrato vegetal obtido a partir de folhas de cafeeiro infectadas por Hemileia vastatrix (NEFID), do fosfito de zinco, sulfato de zinco e da mistura desses nutrientes com o extrato NEFID, no controle do oídio em eucalipto. O experimento foi conduzido em minijardim clonal, contendo minicepas do híbrido Eucalyptus urophylla x Eucalyptus grandis (“urograndis”), considerado altamente suscetível ao oídio. Os tratamentos consistiram da aplicação do extrato NEFID, do sulfato ou fosfito de zinco e a combinação desses nutrientes com o extrato nas proporções de 50:50, 25:75 e 75:25, respectivamente. As aplicações dos tratamentos e as avaliações da severidade da doença foram feitas a cada 14 dias. Foram avaliados também os efeitos dos tratamentos sobre a produção e a porcentagem de enraizamento das mini-estacas, além da ação fungitóxica direta dos tratamentos sobre o Oidium eucalypti através da microscopia eletrônica de varredura. Todos os tratamentos foram eficientes no controle do oídio em minicepas de eucalipto, obtendo controles que variaram de 45-70% da doença. O extrato vegetal NEFID, o fosfito de zinco, a mistura desses dois produtos e o tratamento contendo 25% Sulfato de zinco + 75% NEFID foram os que obtiveram melhores controles do oídio, sendo mais eficiente que o fungicida à base de piraclostrobina + epoxiconazole usado no controle do patógeno. Verificou-se que todos os tratamentos foram fungitóxicos, causando grandes modificações na sua morfologia. Os tratamentos não afetaram negativamente a produção de mini-estacas e a porcentagem de enraizamento.

Palavras-chave: Oidium eucalypti; Eucalyptus spp; Controle alternativo; Microscopia eletrônica de varredura; Produção e enraizamento de miniestacas

ABSTRACT

The aim of this study was to evaluate the efficacy of a plant extract obtained from the leaves of the coffee tree infected Hemileia vastratrix (NEFID), zinc phosphite, zinc sulfate and the mixture of these nutrients with the extract NEFID in controlling powdery mildew in eucalyptus. The experiment was conducted in minigarden containing clonal ministumps hybrid Eucalyptus urophylla x Eucalyptus grandis (“urograndis”) acesita-144 considered highly susceptible to powdery mildew. The treatments consisted of NEFID extract, zinc sulfate or zinc phosphite and the combination of these nutrients with the extract in the proportions of 50:50, 25:75 and 75:25 respectively. The application of treatments and evaluations were made every 14 days. We also evaluated the effects of treatments on the production of cuttings and their rooting and direct fungitoxic action of treatments on Oidium eucalypti by scanning electron microscopy. All treatments were effective in controlling powdery mildew in ministumps eucalyptus, getting a control that ranged from 45-70% of the disease. The plant extract NEFID, zinc phosphite, the mixture of these two products and the treatment containing 25% zinc sulfate + 75% NEFID were those who had better control of powdery mildew, being more efficient than the fungicide pyraclostrobin + epoxiconazole used for pathogen control. It was found that all treatments were fungitoxic, causing major changes in their morphology. The treatments did not affect the production of mini-cuttings and rooting.

Key words: Oidium eucalypti; Eucalyptus spp; Alternative control; Scanning electron microscopy; Production and rooting of mini-cuttings

INTRODUÇÃO

No mundo, onde se pratica agricultura comercial, faz-se o uso de defensivos agrícolas para o controle de pragas e doenças de plantas. O uso indiscriminado desses produtos, em curto prazo, tem efeito benéfico para os produtores, no entanto, em longo prazo, pode ocorrer a seleção de novas raças resistentes de patógenos, além de promover a contaminação do ambiente e causar danos à saúde humana (DALIO et al., 2012).

Na eucaliptocultura, um dos principais patógenos de ocorrência em viveiros e nos minijardins clonais é Oidium eucalypti Rostrup. que tem se destacado devido à variedade de espécies e híbridos de eucalipto suscetíveis, intensidade e danos causados (ALFENAS et al., 2009). Apesar de não haver produtos químicos registrados para o controle do oídio em eucalipto no Brasil, o uso de defensivos químicos é uma prática rotineira para o controle desse patógeno. Um dos grandes problemas do uso de defensivos em minijardins clonais, é o manuseio diário de coletores de mini-estacas para produção de mudas de eucalipto. Com isso, há uma grande preocupação e uma demanda do setor florestal, por produtos que sejam menos tóxicos aos trabalhadores, ambiente e ao mesmo tempo eficiente no controle dos fitopatógenos.

Hoje, pesquisadores têm se empenhado em encontrar medidas alternativas para implementar um manejo fitossanitário mais sustentável. Os Estados Unidos e a União Europeia estão reduzindo drasticamente a utilização de pesticidas convencionais (DELIOPOULOS et al., 2010). Futuramente essas mudanças afetarão também o Brasil, em função das restrições de entrada dos produtos nacionais nesses países.

Tendo em vista tais problemas e com base na literatura, é evidente que os extratos de plantas e os sais inorgânicos emergem como uma alternativa promissora aos defensivos convencionais (BARGUIL et al., 2005; DALIO et al., 2012; MEDEIROS et al., 2009; SANTOS et al., 2007; SILVA et al., 2013; 2014). Outro fator importante dos sais inorgânicos é que possuem perfil de segurança favorável para os seres humanos e ao ambiente, bem como baixa toxicidade em mamíferos, além do seu baixo custo (OLIVIER; MACNEIL; LORIA, 1999; REUVENI; REUVENI, 1995). O uso de sais inorgânicos, extrato de planta e a mistura desses dois componentes, podem apresentar como uma alternativa eficiente e menos tóxica aos trabalhadores no controle do oídio em minijardim clonal.

Com isso, o objetivo deste trabalho foi verificar a capacidade do extrato vegetal NEFID, do fosfito de zinco, sulfato de zinco e a combinação do extrato com esses nutrientes no controle do Oidium eucalypti em minijardim clonal.

MATERIAL E MÉTODOS

Os experimentos foram conduzidos em viveiro de produção de mudas de eucalipto, localizado na fazenda Bela Vista Florestal, no município de Campo Belo/MG e no Departamento de Fitopatologia da Universidade Federal de Lavras, Lavras/MG.

Em janeiro de 2010, foram montados ensaios para avaliar a eficiência do extrato vegetal NEFID, do fosfito de zinco e sulfato de zinco e da mistura destes dois nutrientes com NEFID sobre o oídio do eucalipto. Os tratamentos foram testados em minicepas do híbrido Eucalyptus urophylla x E. grandis, “urograndis” acesita-144, considerado altamente suscetível ao oídio do eucalipto em minijardim clonal.

Para obtenção do extrato vegetal NEFID, foram utilizadas folhas de cafeeiro naturalmente infectadas por Hemileia vastatrix Berk & Br. caídas no solo em plantações de café. Essas folhas foram secas ao ar e moídas até formar um pó fino em um moinho eletrônico. O pó foi adicionado em água na concentração de 1:10 m/v e mantido sob fervura durante 2 h em constante agitação. O extrato foi filtrado em uma peneira de 500 mesh e armazenado como solução estoque a -40 ºC. Para o emprego nos ensaios, o extrato foi diluído em água a 10%.

Os tratamentos consistiram do extrato NEFID a 10%, do fosfito de zinco (34% P2O5 + 10% Zn) na concentração de 2 mL L-1 , sulfato de zinco (ZnSo4.7H2O) a 2 g L-1 , da mistura do sulfato de zinco ou fosfito de zinco com o extrato NEFID, nas proporções de 50:50, 25:75 e 75:25, respectivamente e do fungicida comercial à base de piraclostrobina + epoxiconazole (Opera®, BASF) a 0,5 mL L-1 . Estas concentrações foram definidas através de testes preliminares. Todos os tratamentos receberam adição de KCl a 0,1%, para uma melhor absorção dos produtos pelas plantas e óleo mineral (Assist®, BASF) a 2,5 mL L-1 para reduzir a tensão superficial e a evaporação, além de melhorar a distribuição dos produtos nas folhas. A escolha da concentração fungicida é justificada pelo fato de que provocou fitotoxidez quando aplicados em 1,0 mL L-1 em conjunto com o óleo mineral Assist a 2,5 mL L-1. O experimento também contou com dois tratamentos controle, um contendo água mais a adição de KCl a 0,1% e óleo mineral (Assist®) a 2,5 mL L-1 e um controle absoluto, sem nenhum tratamento. Os tratamentos foram aplicados quando mais de 95% das folhas das minicepas estavam infectadas. As aplicações foram realizadas na parte da manhã, utilizando-se um pulverizador manual com um bico de ejeção cônica até o ponto de escorrimento. As avaliações da severidade do oídio e a aplicação dos tratamentos foram feitas a cada 14 dias, num total de cinco aplicações e seis avaliações. A severidade foi avaliada utilizando a escala diagramática proposta por Lima, Lopes e Café Filho (2004). Os valores médios da área abaixo da curva do progresso da doença (AACPD) foram calculados de acordo com Shaner e Finney (1977).

Através da microscopia eletrônica de varredura, foi avaliado o efeito direto dos tratamentos sobre o oídio do eucalipto. Vinte quatro horas após a primeira aplicação dos tratamentos foram coletadas folhas infectadas com o patógeno. O preparo e a análise das amostras seguiram a metodologia descrita por Medice et al. (2007).

Outro fator avaliado foi o efeito dos tratamentos sobre a produção média e a porcentagem de enraizamento das mini-estacas. Para tanto, foram realizadas duas coletas no minijardim clonal, sendo a primeira coleta feita oito dias após a primeira aplicação dos tratamentos e a segunda, um dia após a segunda aplicação. Para avaliar a porcentagem de enraizamento das mini-estacas coletadas, elas foram adicionadas em caixa de isopor para evitar temperatura excessiva e perda de água por transpiração e levadas imediatamente para a casa de enraizamento. As mini-estacas foram colocadas em um substrato de enraizamento composto por uma mistura de casca de pinus, casca de arroz carbonizada e vermiculita (50:25:25), enriquecida com Ciclus NKS®, FTE BR-12 e KCl (200:100:100 g m-3) e 1 kg de superfosfato simples m-3. Logo após, as mini-estacas foram levadas para a câmara de enraizamento, onde permaneceram durante 32 dias. Após este período, o número de mini-estacas enraizadas foi contado.

Os ensaios foram montados em blocos casualizados, com três repetições. A parcela experimental foi constituída de 1 x 0,5 m do canaletão, contendo aproximadamente 100 minicepas, sendo considerada a parcela útil as10 plantas centrais.

Os dados obtidos nos ensaios foram submetidos à análise de variância (ANOVA) e outros procedimentos de inferência estatística. Os valores médios, quando significativos, foram separados pelo teste de Scott-Knott ou Tukey a 5% de probabilidade. As análises estatísticas foram realizadas utilizando o programa R Development Core Team. Avaliação da normalidade e homogeneidade foi realizada com os resíduos de onde não se verificou desvios das pressuposições envolvidas na análise.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Todos os tratamentos foram eficientes no controle do oídio em minicepas de eucalipto, obtendo um controle que variou de 45-70% da doença em relação ao controle absoluto (Tabela 1). O extrato vegetal NEFID, o fosfito de zinco, a mistura desses dois produtos e o tratamento contendo 25% Sulf. Zn + 75% NEFID foram os que obtiveram melhores controles do oídio, sendo mais eficiente que o próprio fungicida usado no controle do patógeno. O sulfato de zinco e a mistura contendo 75% Sulf. Zn + 25% NEFID foram tão eficientes quanto ao fungicida.

Tabela 1 Valores médios da área abaixo da curva do progresso da doença (AACPD) e a porcentagem de controle da doença, com o uso do extrato vegetal NEFID, misturado ou não com fosfito de zinco ou sulfato de zinco no controle do oídio em minicepas de eucalipto 

Tratamentos* AACPD** % de controle***
NEFID 2220,7 d 59,7
Fosfito de zinco 2427,9 d 55,9
25% Fosf. Zn + 75% NEFID 2264,5 d 58,9
50% Fosf. Zn + 50% NEFID 1655,1 d 70,0
75% Fosf. Zn + 25% NEFID 2265,2 d 58,9
25% Sulf. Zn+ 75% NEFID 2042,6 d 62,9
Sulfato de zinco 3014,2 c 45,3
75% Sulf. Zn + 25% NEFID 2769,2 c 49,7
Fungicida 2907,8 c 52,7
Testemunha (água) 3695,3 b 32,9
Testemunha (sem pulverização) 5512,5 a 0,0
CV(%) 8,59

*Todos os tratamentos receberam adição de óleo mineral Assist® (2,5 mL L-1) e KCl (0,1%), exceto o controle sem pulverização. A dose do fungicida à base de piraclostrobina + epoxiconazole foi de 0,5 mL L-1, do fosfito de zinco de 2 mL L-1, do sulfato de zinco de 2 g L-1 e a concentração do extrato NEFID foi de 10%;

**Médias seguidas pela mesma letra na coluna, não diferem entre si pelo teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade;

***Porcentagem de controle da doença, em relação a testemunha, no qual não foi aplicado nenhum produto

Alguns trabalhos já vêm demonstrando a eficácia do extrato vegetal NEFID no controle de fitopatógenos, como Phoma costarricensis (BARGUIL et al., 2005), Hemileia vastatrix, Cercospora coffeicola e Phoma tarda (SANTOS et al., 2007), Xanthomonas vesicatoria (MEDEIROS et al., 2009) e possível indução dos mecanismos de resistência no hospedeiro com o uso desse extrato (BARGUIL et al., 2005; MEDEIROS et al., 2009; SANTOS et al., 2007). Já Bizi et al. (2008) não obtiveram controle do oídio do eucalipto usando produtos derivados de plantas, como taninos, óleos obtidos de Pinus spp., Corymbia citriodora e de E. globulus e os extratos vegetais de alfavaca (Ocimum gratissimum L.), manjericão (O. basilicum L.), ginkgo (Ginkgo biloba L.), hortelã (Mentha x villosa Huds.) e eucalipto (E. globulus e E. citriodora). O fato do extrato NEFID controlar o oídio em eucalipto e outros extratos não serem eficazes, pode ser devido aos diferentes princípios ativos presentes nesses extratos. Futuros estudos são necessários para analisar os constituintes presentes no extrato NEFID.

O fosfito de zinco também se apresentou como uma alternativa eficiente no controle do oídio em minicepas de eucalipto, com aproximadamente 56% de controle da doença (Tabela 1). Muitos trabalhos têm demonstrado a eficiência dos fosfitos no controle de fitopatógenos, como Alternaria alternata (REUVENI; SHEGLOV; COHEN, 2003), Penicillium expansum (AMIRI; BOMPEIX, 2011), Venturia pirina (PERCIVAL; NOVISS; HAYNES, 2009), Monilinia fructicola (MOREIRA; MAY-DE-MIO, 2009) e principalmente patógenos pertencentes ao grupo dos oomicetos em diferentes culturas (GUEST; GRANT, 1991; McDONALD; GRANT; PLAXTON, 2001; SILVA et al., 2011). Embora não tenha sido evidenciado que as plantas se beneficiem do fosfito como fonte de fósforo, alguns pesquisadores defendem a ideia de que os elementos que acompanham essa molécula nos produtos à base de fosfitos, como por exemplo, zinco (fosfito de zinco) poderia atuar na nutrição, fornecendo esse elemento à planta (DALIO et al., 2012), agindo diretamente sobre o patógeno (SILVA et al., 2013) e o fato de que os micronutrientes funcionam como cofatores das enzimas envolvidas na síntese de compostos fenólicos (SILVA et al., 2008). No entanto, Bizi et al. (2008) observaram que o fosfito de potássio a 0,6 mL L-1 e o fosfito de cobre a 0,2 mL L-1 não foram eficientes no controle do oídio em eucalipto. Já Silva et al. (2013) verificaram que mesmo com uma dose de 3 mL L-1 , o fosfito de potássio não foi eficiente no controle desse patógeno, mas os fosfitos de cobre e potássio/manganês na concentração de 3 mL L-1 foram eficientes em controlar o fungo. Os fosfitos apresentam uma vantagem de serem defensivos sistêmicos que translocam pela planta via floema e xilema (GUEST; GRANT, 1991; SAINDRENANT et al., 1988) e não são metabolizados pelas plantas (McDONALD; GRANT; PLAXTON, 2001) e assim, acumulam-se nas regiões de crescimento rápido, tais como raízes e brotos (WHILEY et al., 1995), potencialmente permanecendo lá por meses ou anos (GUEST; GRANT, 1991; MALUSA; TOSI, 2005). Esta capacidade é importante para o controle de oídio, pois o agente causal ao infectar principalmente brotos e folhas novas, pode ser diretamente exposto ao fosfito acumulado durante o processo de infecção.

O uso do sulfato de zinco pode apresentar efeito positivo ou negativo no controle de fitopatógenos, dependendo das concentrações testadas e do patossistema. Segundo Carvalho et al. (2008), concentrações de sulfato de zinco na faixa de 0,6-0,75% apresentaram menor severidade da ferrugem e com o aumento nas concentrações, aumentou a incidência de cercosporiose, manchas foliares (phoma e ascochyta) e a desfolha dos cafeeiros. Neste trabalho foi verificado que o sulfato de zinco na concentração de 2 g L-1 foi eficiente no controle do oídio do eucalipto em relação aos tratamentos controle (Tabela 1).

Outro objetivo do presente trabalho foi avaliar se a mistura do extrato NEFID com o sulfato de zinco ou fosfito de zinco aumentaria a eficiência do extrato no controle do oídio em minicepas de eucalipto. Não foi verificada uma melhoria na eficiência com o uso das combinações (Tabela 1). Apenas o sulfato de zinco melhorou sua eficiência quando misturado na proporção de 25% sulfato de zinco + 75% NEFID, mas essa melhoria provavelmente se deve à maior proporção do extrato NEFID na mistura, pois o uso do extrato puro foi mais eficiente que a mistura.

O tratamento contendo água mais KCl a 0,1% e óleo mineral a 2,5 mL L-1 controlou 32% da doença, em relação ao controle absoluto que não recebeu nenhum tipo de tratamento, porém foi menos eficiente que os outros tratamentos (Tabela 1). Neste caso, a mistura pode ter apresentado um efeito tóxico ou a água livre na superfície da folha pode ter prejudicado o desenvolvimento do oídio. Já é muito praticado e indicado o uso da água como uma forma de controle de oídio.

Através das imagens obtidas da microscopia eletrônica de varredura (MEV) foi confirmada a ação fungitóxica direta do extrato NEFID, do sulfato de zinco, fosfito de zinco (Figura 1) e das combinações desses nutrientes com o extrato sobre o oídio do eucalipto (Figura 2). Pôde-se observar que todos os tratamentos causaram modificações na morfologia do oídio, como lise da parede das hifas e conidióforos e murchamento dos conídios do fungo (Figuras 1 e 2). Também foi observado que os danos causados no fungo pelo extrato NEFID foram mais intensos em relação às minicepas tratadas com o fungicida à base de piraclostrobina + epoxiconazole. Essas alterações e ruptura das estruturas fúngicas podem provocar a liberação de moléculas elicitoras, levando a uma indução de mecanismos de defesa das plantas (KING et al., 2010; PEREZ et al., 1995). Segundo Ferreira et al. (2007), os fosfitos podem atuar diretamente sobre os organismos patogênicos, causando poros na membrana celular, conduzindo ao efluxo de conteúdo celular e alterações no potencial da membrana. Eles podem também atuar através de alterações da transcrição em vários genes que codificam proteínas envolvidas na biossíntese dos componentes da parede celular, na síntese de aminoácidos, no metabolismo de proteínas, na desintoxicação e stress oxidativo, como observado em P. cinnamomi (KING et al., 2010). Já os extratos de plantas possuem uma série de compostos ativos (GODARD et al., 2009) que podem apresentar diferentes modos de ação contra patógenos. O tratamento controle à base de água + KCL + óleo mineral levou a uma ligeira alteração dos conídios, conidióforos e hifas (Figura 1 E), mas esta alteração foi muito pequena em comparação com as que foram induzidas pelos outros tratamentos.

Figura 1 Imagens de microscopia eletrônica de varredura da estrutura morfológica de Oidium eucalypti, infectando folhas de Eucalyptus urophylla x E. grandis, após tratamento com extrato vegetal NEFID a 10% (A), fungicida à base de piraclostrobina + epoxiconazole, a 0,5 mL L-1 (B), Fosfito de zinco a 2 mL L-1 (C), Sulfato de zinco a 2g L-1 (D) e os tratamentos controle, contendo água + KCl (0,1%) + óleo mineral (2,5 mL L-1) e outro absoluto, sem aplicação de qualquer produto (E e F respectivamente) 

Figura 2 Imagens de microscopia eletrônica de varredura da estrutura morfológica de Oidium eucalypti, infectando folhas de Eucalyptus urophylla x E. grandis, pulverizadas com 75% NEFID + 25% Fosfito de zinco (A), 50% NEFID + 50% Fosfito de zinco (B), 25% NEFID + 75% Fosfito de zinco (C), 75% NEFID + 25% Sulfato de zinco (D) e 25% NEFID + 75% Sulfato de zinco (E) 

Em relação à produção de brotos e a porcentagem de enraizamento, verificou-se que as minicepas de eucalipto que não receberam nenhum tratamento foram as que menos produziram mini-estacas por planta (Tabela 2). Isso mostra a capacidade do oídio em reduzir a produção de brotos em minicepas de eucalipto. Os outros tratamentos não diferiram entre si. Foi observado também que não houve diferença entre os tratamentos e o controle absoluto na porcentagem de enraizamento das mini-estacas. Esse fato pode ser devido ao alto índice de molhamento foliar das mini-estacas durante o período de enraizamento, criando condições adversas ao oídio presente nas mini-estacas coletadas. Silva et al. (2013) verificaram que o fungicida à base de piraclostrobina + epoxiconazole interferiu negativamente na porcentagem de mini-estacas enraizadas nos clones de E. urophylla x E. camaldulensis. Ferreira et al. (2008) observaram que o número médio de mini-estacas diminuiu em um dos três clones de E. urophylla x E. grandis testados após a aplicação do fungicida piraclostrobina + epoxiconazole. Os autores também confirmaram que este fungicida reduziu o enraizamento em mini-estacas e a produção de biomassa radicular em um dos clones testados. Neste trabalho não foi observado um efeito negativo do fungicida e dos tratamentos na produção de brotos e enraizamento do híbrido de E. urophylla x E. grandis, acesita-144, o que indica que o efeito negativo do fungicida nessas variáveis esteja ligado ao clone avaliado. É de interesse obter produtos que sejam eficientes no controle do oídio em eucalipto, mas que não tenham efeitos negativos sobre a produção de brotos e no enraizamento das mini-estacas.

Tabela 2 Produção média de mini-estacas por planta e porcentagem de enraizamento das mini-estacas coletadas, oito dias após a primeira aplicação dos tratamentos e um dia após a segunda aplicação 

Tratamentos* Produção média de mini-estaca/ planta na primeira coleta** Produção média de mini-estaca/ planta na segunda coleta** Porcentagem de enraizamento das mini-estacas na primeira coleta** Porcentagem de enraizamento das mini-estacas na segunda coleta**
NEFID 1,91 a 1,95 a 93,4 a 82,4 a
Fosfito de Zinco 1,69 a 1,74 a 85,9 a 86,1 a
25% Fosf. Zn + 75% NEFID 1,86 a 1,79 a 87,0 a 83,5 a
50% Fosf. Zn + 50% NEFID 1,71 a 1,84 a 82,6 a 89,6 a
75% Fosf. Zn + 25% NEFID 1,87 a 2,15 a 91,6 a 80,9 a
Sulfato de Zinco 1,75 a 1,84 a 89,4 a 86,4 a
25% Sulf. Zn+ 75% NEFID 1,64 a 1,77 a 86,7 a 81,2 a
75% Sulf. Zn + 25% NEFID 1,88 a 1,45 a 90,6 a 77,0 a
Fungicida 1,61 a 1,48 a 87,4 a 85,7 a
Testemunha (água) 1,69 a 1,78 a 91,4 a 83,1 a
Testemunha (sem pulverização) 0,39 b 0,27 b 86,5 a 83,4 a
CV (%) 9,8 6,2 5,3 21,3

*Todos os tratamentos receberam adição de óleo mineral Assist (2,5 mL L-1) e KCl (0,1%), exceto o controle sem pulverização. A dose do fungicida à base de piraclostrobina + epoxiconazole foi de 0,5 mL L-1, do fosfito de zinco de 2 mL L-1, do sulfato de zinco de 2 g L-1 e a concentração do extrato NEFID foi de 10%;

**Médias seguidas pela mesma letra na coluna, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade

Este trabalho demonstra a capacidade dos produtos aqui testados em controlar o oídio em minicepas de eucalipto, indicando a possibilidade de testá-los sobre outras espécies de oídio, como o oídio da roseira que segundo Silva et al. (2001) são semelhantes. O uso desses produtos no controle do oídio, tanto em roseira como em minicepas de eucalipto, seria de grande importância, pois são plantas manuseadas diariamente por trabalhadores, evitando assim, o contato direto com o fungicida.

Como não há fungicidas registrados no Brasil para o controle do oídio em eucalipto e com os resultados obtidos neste trabalho, poderiam integrar principalmente o fosfito de zinco, o extrato NEFID e a combinações desses dois produtos em um programa de manejo integrado do oídio, a fim de reduzir a quantidade de produtos químicos aplicados em viveiros e minijardins clonais para controlar a doença e evitar futura resistência do patógeno. O extrato NEFID está sendo desenvolvido para futura comercialização como uma alternativa eficiente e menos tóxica no controle de fitopatógenos.

CONCLUSÃO

Com base nos resultados obtidos neste estudo, pode-se concluir que:

  1. O extrato vegetal NEFID, o fosfito de zinco, sulfato de zinco e a mistura do sulfato de zinco ou fosfito de zinco com o extrato NEFID, inibem a infecção do oídio em minicepas de eucalipto e causam alterações na estrutura morfológica desse fungo;

  2. Os referidos tratamentos não interferem negativamente na produção e na porcentagem de enraizamento de mini-estacas de eucalipto.

Parte da Tese de Doutorado do primeiro autor apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Fitopatologia da Universidade Federal de Lavras/UFLA

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa de estudo atribuída ao primeiro autor, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelo apoio financeiro para o projeto e ao laboratório de microscopia eletrônica da Universidade Federal de Lavras pelo apoio técnico.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 23 de Novembro de 2013; Aceito: 07 de Setembro de 2015

* Autor para correspondência

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