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Revista de Odontologia da UNESP

On-line version ISSN 1807-2577

Rev. odontol. UNESP vol.45 no.6 Araraquara Nov./Dec. 2016  Epub Nov 24, 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1807-2577.08116 

Artigos Originais

Autoestima e cárie dentária em adolescentes: um estudo seccional

Self-esteem and dental caries in adolescents: a cross sectional study

Sandra Espíndola LUNARDELLIa  * 

Eliane TRAEBERTa 

Abelardo Nunes LUNARDELLIa 

Luiz Gustavo Teixeira MARTINSa 

Jefferson TRAEBERTa 

aUNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina, Palhoça, SC, Brasil

Resumo

Introdução

A cárie dentária na adolescência continua sendo um importante problema de saúde pública; entretanto, a sua relação com os fatores psicológicos é pouco estudada.

Objetivo

Estudar a possível associação entre aspectos de autoestima e cárie dentária em adolescentes.

Material e método

Estudo transversal envolvendo amostra de 409 adolescentes de 13 municípios do sul do Brasil. A cárie foi avaliada segundo critérios da Organização Mundial da Saúde e a autoestima, pela Escala de Rosenberg. O teste do qui-quadrado foi utilizado para determinar a significância estatística das associações. Para ajustar para variáveis de confusão, foi utilizada a regressão loglinear de Poisson com estimativa robusta.

Resultado

Foram observadas associações positivas entre presença de dentes cariados e alguns aspectos da escala de autoestima: “Às vezes, eu acho que não presto para nada” (p <0,001); “Eu gostaria de poder ter mais respeito comigo mesmo” (p=0,016), e “Eu, com certeza, me sinto inútil, às vezes” (p=0,022). Associação negativa foi observada com: “No conjunto, eu estou satisfeito comigo” (p=0,022). Na análise ajustada, os adolescentes com dentes cariados apresentaram maior prevalência de respostas positivas para a questão “Às vezes, eu acho que não presto para nada” [RP= 1,23 (IC 95% 1,05; 1,44)] e maior prevalência de respostas negativas para a questão “No conjunto, eu estou satisfeito comigo” [RP= 1,12 (IC 95% 1,02; 1,24)].

Conclusão

Aspectos da autoestima foram, independente e significativamente, associados com a presença de dentes cariados.

Descritores:  Cárie dentária; autoestima; adolescentes

Abstract

Introduction

Dental caries in adolescents remains an important public health problem, but its relationship with psychological factors are poorly studied.

Objective

To study the possible association between aspects of self-esteem and dental caries in adolescents.

Material and method

A cross-sectional study involving a sample of 409 adolescents from 13 Southern Brazilian municipalities was carried out. Dental caries status was assessed through the World Health Organization criteria. For questions related to self-esteem the Rosenberg Self-Esteem Scale was used. The outcomes were each question of the scale. The chi-square test was used to determine statistical significance of associations. To adjust for confounding variables, the Poisson loglinear with robust estimator was used.

Result

Positive associations were observed for the presence of decayed teeth and “At times, I think I am no good at all” (p<0.001), “I wish I could have more respect for myself” (p= 0.016), “I certainly feel useless at times” (p= 0.022) and negative association with “On the whole, I am satisfied with myself” (p= 0.022). In the adjusted analysis, adolescents with decayed teeth had a higher prevalence of positive responses to “At times, I think I am no good at all” [(PR= 1.23 (CI 95% 1.05; 1.44)], and negative responses for “On the whole, I am satisfied with myself” [(PR= 1.12 (CI 95% 1.02; 1.24)].

Conclusion

Aspects of self-esteem were significantly and independently associated with the presence of decayed teeth.

Descriptors:  Dental caries; self-esteem; adolescents

INTRODUÇÃO

Em todas as regiões do mundo, as doenças bucais são consideradas importantes problemas de saúde pública, devido à sua alta prevalência e à gravidade dos danos causados em termos de dor, sofrimento, comprometimento das funções orgânicas, bem como seu efeito sobre a qualidade de vida. O tratamento tradicional das doenças bucais é extremamente caro em vários países industrializados e de difícil acesso para a maioria da população dos países de médio e baixo desenvolvimento1.

A cárie dentária, embora tenha sofrido um declínio significativo nas últimas décadas, continua sendo importante problema em saúde bucal, afetando 60 a 90% das crianças em todo o mundo2.

Os efeitos adversos da cárie dentária podem influenciar no desenvolvimento geral das crianças e dos adolescentes, bem como no desempenho de suas atividades cotidianas. A presença de dor, as infecções, as perdas dentárias precoces e os distúrbios de ordem mastigatória restringem o consumo de uma alimentação adequada e afetam o crescimento, o aprendizado, a comunicação e as atividades recreativas e de lazer3.

Além destes efeitos de caráter biológico, a literatura tem mostrado que a cárie dentária interfere em aspectos psicológicos associados com a autoestima de crianças e adolescentes4.

Segundo Rosenberg5, a autoestima é um conjunto de pensamentos e sentimentos do indivíduo sobre seu próprio valor, sua competência e adequação, que reflete em uma atitude positiva ou negativa em relação a si mesmo. Trata-se de uma orientação positiva (autoaprovação) ou negativa (depreciação) de voltar-se para si e, nesta concepção, a autoestima é a representação pessoal dos sentimentos gerais e comuns de autovalor6. É um dos principais preditores de comportamentos positivos na adolescência e na vida adulta, tendo implicações em áreas, como sucesso ocupacional, relacionamentos interpessoais e desempenho acadêmico7, bem como pode se mostrar preditor de problemas indesejáveis, como agressividade, comportamento antissocial e delinquência8. A adolescência, como uma fase da vida marcada por profundas mudanças físicas, sociais e cognitivas, tem papel importante na construção e na manutenção da autoestima enquanto característica psicológica9.

A avaliação da autoestima tem sido mundialmente aferida por meio da Escala de Autoestima de Rosenberg (Rosenberg Self-Esteem Scale - RSES)5. É um instrumento que classifica o nível de autoestima em baixo, médio ou alto. A baixa autoestima se expressa pelo sentimento de incompetência, inadequação e incapacidade de enfrentar os desafios; a média autoestima é caracterizada pela oscilação do indivíduo entre os sentimentos de aprovação e rejeição de si; e a alta autoestima consiste no autojulgamento de valor, confiança e competência. A escala original foi desenvolvida para adolescentes e possui dez questões fechadas, sendo cinco referentes a “autoimagem” ou “autovalor” positivos, e cinco se referem a “autoimagem negativa” ou “autodepreciação”5.

Embora a autoestima tenha importância mundialmente reconhecida, tanto para o bem-estar individual quanto social, no Brasil, há escassez de estudos que abordem esta temática10, principalmente aqueles de base populacional, relacionados à saúde bucal.

O objetivo desta pesquisa foi observar a possível associação entre aspectos de autoestima e a presença da cárie dentária em escolares de 11 a 14 anos de idade, de municípios do sul do Brasil.

MATERIAL E MÉTODO

Foi realizado um estudo epidemiológico de delineamento transversal, envolvendo escolares de 11 a 14 anos de idade, de escolas públicas e privadas, de 13 municípios da região do meio-oeste do Estado de Santa Catarina.

O cálculo para definição do tamanho da amostra foi baseado nos seguintes parâmetros: poder de 80%, para demonstrar uma diferença significativa entre não expostos e expostos de 1:1,5; nível de significância de 5%, e 1,5 como fator de correção, devido ao desenho do estudo. Para compensar possíveis perdas, fez-se um acréscimo de 20%, o que resultou numa amostra de 409 escolares.

A seleção da amostra foi realizada em duplo estágio. Inicialmente, as escolas foram divididas em três grupos, de acordo com o número de alunos matriculados: escolas pequenas (com até 50 alunos), escolas de tamanho médio (de 51 a 100 alunos) e escolas grandes (acima de 100 alunos). Cada escola recebeu um número e todas foram agrupadas segundo o seu tamanho. Dentro de seu grupo, foram sorteadas utilizando-se uma tabela de números aleatórios. O número total de escolas sorteadas foi 20. Com uma listagem nominal dos estudantes fornecida pelas secretarias de cada escola, fez-se a seleção da amostra utilizando-se a técnica de amostragem casual simples.

Os dados clínicos foram coletados por intermédio de exames bucais por uma equipe de sete cirurgiões-dentistas previamente capacitados e calibrados, de acordo com metodologia descrita por Peres et al.11. Valores de Kappa maiores que 0,7 foram obtidos tanto na aferição interexaminadores quanto intraexaminadores. Os exames bucais foram realizados nas salas de aula, com os adolescentes deitados em carteiras dispostas em forma de maca, sob luz natural. Todos os procedimentos de biossegurança foram rigorosamente respeitados. A reprodutibilidade diagnóstica foi testada por intermédio de exames em duplicata em 10% da amostra, por cada um dos examinadores.

Para o diagnóstico de cárie dentária adotaram-se os critérios da Organização Mundial da Saúde12. Foi registrada a presença de elementos dentários cariados, perdidos ou restaurados.

A coleta dos dados não clínicos ocorreu por meio de entrevista estruturada, realizada logo após o exame bucal, contendo perguntas referentes à escolaridade da mãe e autoestima. A avaliação da autoestima do adolescente deu-se por meio da Escala de Rosenberg5, validada no Brasil10, composta pelas seguintes questões: 1) No conjunto, eu estou satisfeito comigo; 2) Às vezes, eu acho que não presto para nada; 3) Eu sinto que eu tenho várias boas qualidades; 4) Eu sou capaz de fazer coisas tão bem quanto a maioria das pessoas; 5) Eu sinto que não tenho muito do que me orgulhar; 6) Eu, com certeza, me sinto inútil, às vezes; 7) Eu sinto que sou uma pessoa de valor, pelo menos do mesmo nível que as outras pessoas; 8) Eu gostaria de poder ter mais respeito por mim mesmo; 9) No geral, eu estou inclinado a sentir que sou um fracasso, e 10) Eu tenho uma atitude positiva com relação a mim mesmo. Para cada uma destas questões, existiam quatro opções de respostas: concordo totalmente, concordo, discordo e discordo totalmente.

Com o objetivo de testar a metodologia proposta, foi realizado um estudo-piloto em um município vizinho, envolvendo 10% do total da amostra (n = 40). Não foi necessário fazer nenhum ajuste ao estudo.

Os resultados foram aferidos separadamente para cada questão da escala. O teste do qui-quadrado foi utilizado para determinar a significância estatística das associações entre as variáveis dependentes − representadas por respostas dos escolares que indicassem a ideia de autoimagem ou autovalor negativo − com as variáveis independentes: sexo, escolaridade da mãe e presença de dentes cariados. Razões de prevalência e respectivos intervalos de confiança foram estimados pela regressão loglinear de Poisson com um estimador robusto, pela qual as variáveis estudadas foram ajustadas entre si e também por idade do escolar. A análise estatística foi realizada utilizando-se o programa Statistical Package for the Social Sciences 16.0 (SPSS para Windows, versão 16.0, SPSS Inc., Chicago, IL, EUA).

O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa de Seres Humanos da Universidade do Oeste de Santa Catarina, sob o Processo/Parecer n.º 050/2007. Depois que a permissão foi concedida pela direção das escolas selecionadas, uma carta-convite foi enviada aos pais dos alunos. Nesta correspondência, estavam explícitos os objetivos, as características e a importância do estudo, bem como a solicitação da autorização para a participação de seu(sua)(s) filho(a)(s) na pesquisa.

RESULTADO

Foram examinados e entrevistados 404 escolares entre 11 e 14 anos de idade, o que representa uma taxa de resposta de 98,8%. Os exames em duplicata apontaram uma boa reprodutibilidade diagnóstica, representada por um valor de Kappa mínino de 0,80. Do total da amostra examinada, 50,8% eram do sexo masculino e 43,3% dos jovens apresentavam dentes cariados.

Foram observadas associações estatisticamente significativas e positivas entre a presença de dentes cariados e “Às vezes, eu acho que não presto para nada” (p <0,001), “Eu, com certeza, me sinto inútil, às vezes” (p= 0,022) e “Eu gostaria de poder ter mais respeito comigo mesmo” (p= 0,016). Associação estatisticamente significativa e negativa foi observada com a presença de dentes cariados e “No conjunto, eu estou satisfeito comigo mesmo” (p= 0,022) (Tabela 1). Os resultados dos estudos de associação com sexo e escolaridade da mãe também são mostrados na Tabela 1.

Tabela 1 Associação entre aspectos de autoestima com sexo, escolaridade da mãe e presença de dentes cariados 

ESCALA AUTOESTIMA SEXO ESCOLARIDADE DA MÃE
(EM ANOS)
PRESENÇA DE DENTES CARIADOS
Masculino
n (%)
Feminino
n (%)
p Até 8
n (%)
Mais de 8
n (%)
p Sim
n (%)
Não
n (%)
p
No conjunto, eu estou satisfeito comigo
Concordo totalmente/Concordo
Discordo/Discordo totalmente
174 (51,5)
31 (47,0)
164 (48,5)
35 (53,0)
0,503 192 (75,0)
32 (74,4)
64 (25,0)
11 (25,6)
0,935 138 (40,8)
37 (56,1)
200 (59,2)
29 (43,9)
0,022
Às vezes, eu acho que não presto para nada
Concordo totalmente/Concordo
Discordo/Discordo totalmente
55 (48,2)
150 (51,7)
59 (51,8)
140 (48,3)
0,529 74 (84,1)
150 (71,1)
14 (15,9)
61 (28,9)
0,018 67 (58,8)
108 (37,2)
47 (41,2)
182 (62,8)
<0,001
Eu sinto que eu tenho várias boas qualidades
Concordo totalmente/Concordo
Discordo/Discordo totalmente
191 (52,8)
14 (33,3)
171 (47,2)
28 (66,7)
0,017 195 (74,1)
29 (80,6)
68 (25,9)
7 (19,4)
0,405 154 (42,4)
21 (50,0)
208 (57,5)
21 (50,)
0,356
Eu sou capaz de fazer coisas tão bem quanto a maioria das pessoas
Concordo totalmente/Concordo
Discordo/Discordo totalmente
165 (52,5)
40 (44,4)
149 (47,5)
50 (55,6)
0,175 174 (76,0)
50 (71,4)
55 (24,0)
20 (28,6)
0,442 133 (42,4)
42 (46,7)
181 (57,6)
48 (53,3)
0,467
Eu sinto que não tenho muito do que me orgulhar
Concordo totalmente/Concordo
Discordo/Discordo totalmente
80 (49,4)
125 (51,7)
82 (50,6)
117 (48,3)
0,655 105 (80,8)
119 (70,4)
25 (19,2)
50 (29,6)
0,041 67 (41,4)
108 (44,6)
95 (58,6)
134 (55,4)
0,516
Eu, com certeza, me sinto inútil, às vezes
Concordo totalmente/Concordo
Discordo/Discordo totalmente
83 (52,2)
122 (49,8)
76 (47,8)
123 (50,2)
0,637 93 (85,3)
131 (68,9)
16 (14,7)
59 (31,1)
0,002 80 (50,3)
95 (38,8)
79 (49,7)
150 (61,2)
0,022
Eu sinto que sou uma pessoa de valor, pelo menos do mesmo nível que as outras pessoas
Concordo totalmente/Concordo
Discordo/Discordo totalmente
195 (53,7)
10 (24,4)
168 (46,3)
31 (75,6)
<0,001 196 (74,2)
28 (80,0)
68 (25,8)
7 (20,0)
0,460 156 (43,0)
19 (46,3)
207 (57,0)
22 (53,7)
0,680
Eu gostaria de poder ter mais respeito por mim mesmo
Concordo totalmente/Concordo
Discordo/Discordo totalmente
33 (51,6)
172 (50,6)
31 (48,4)
168 (49,4)
0,886 35 (64,8)
189 (77,1)
19 (35,2)
56 (22,9)
0,059 19 (29,7)
156 (45,9)
45 (70,0)
184 (54,1)
0,016
No geral, eu estou inclinado a sentir que sou um fracasso
Concordo totalmente/Concordo
Discordo/Discordo totalmente
23 (48,9)
182 (51,0)
24 (51,1)
175 (49,0)
0,792 30 (78,9)
194 (74,3)
8 (21,1)
67 (25,7)
0,540 21 (44,7)
154 (43,1)
26 (55,3)
203 (56,9)
0,841
Eu tenho uma atitude positiva com relação a mim mesmo
Concordo totalmente/Concordo
Discordo/Discordo totalmente
186 (50,8)
19 (50,0)
180 (49,2)
19 (50,0)
0,923 200 (74,3)
24 (80,0)
69 (25,7)
6 (20,0)
0,498 146 (42,6)
19 (50,0)
210 (57,4)
19 (50,0)
0,382

Os resultados da análise ajustada, observados nas Tabelas 2 e 3, indicam que os adolescentes diagnosticados com dentes cariados apresentaram prevalência 23% maior de respostas positivas para a questão “Às vezes, eu acho que não presto para nada” [RP = 1,23 (IC 95% 1,05; 1,44)] e 12% maior de respostas negativas para “No conjunto, eu estou satisfeito comigo mesmo” [RP = 1,12 (IC 95% 1,02; 1,24)].

Tabela 2 Razões de prevalência ajustadas e respectivos intervalos de confiança entre aspectos de autoestima – discordância – com sexo, escolaridade da mãe e presença de dentes cariados 

VARIÁVEIS DISCORDA COM
No conjunto, eu estou satisfeito comigo Eu sinto que eu tenho várias boas qualidades Eu sou capaz de fazer coisas tão bem quanto a maioria das pessoas Eu sinto que sou uma pessoa de valor, pelo menos do mesmo nível que as outras pessoas Eu tenho uma atitude positiva com relação a mim mesmo
RP (IC 95%) p RP (IC 95%) p RP (IC 95%) p RP (IC 95%) p RP (IC 95%) p
SEXO
Masculino
Feminino
1,00
0,98 (0,89;1,07)
0,646 1,00
0,90 (0,83;0,98)
0,015 1,00
0,96 (0,85;1,09)
0,544 1,00
0,88 (0,81;0,95)
0,002 1,00
1,01 (0,93;1,09)
0,839
ESCOLARIDADE DA MÃE (anos finalizados)
Menos de 8
8 ou mais
0,97 (0,87;1,08)
1,00
0,590 1,04 (0,95;1,14)
1,00
0,360 0,95 (0,81;1,11)
1,00
0,512 1,04 (0,96;1,13)
1,00
0,347 1,01 (0,94;1,11)
1,00
0,768
PRESENÇA DE DENTES CARIADOS
Não
Sim
1,00
1,12 (1,02;1,24)
0,023 1,00
1,04 (0,96;1,13)
0,359 1,00
1,04 (0,92;1,19)
0,509 1,00
1,03 (0,96;1,13)
0,466 1,00
1,02 (0,93;1,10)
0,768

RP = Razões de prevalência ajustadas pelas variáveis entre si e por idade.

Tabela 3 Razões de prevalência ajustadas e respectivos intervalos de confiança entre aspectos de autoestima – concordância – com sexo, escolaridade da mãe e presença de dentes cariados 

VARIÁVEIS CONCORDA COM
Às vezes, eu acho que não presto para nada Eu, com certeza, me sinto inútil, às vezes Eu gostaria de poder ter mais respeito por mim mesmo No geral, eu estou inclinado a sentir que sou um fracasso Eu sinto que não tenho muito do que me orgulhar
RP (IC 95%) p RP (IC 95%) p RP (IC 95%) p RP (IC 95%) P RP (IC 95%) p
SEXO
Masculino
Feminino
1,00
0,97 (0,84;1,12)
0,715 1,00
0,99 (0,84;1,18)
0,983 1,00
1,09 (0,68;1,76)
0,720 1,00
1,03 (0,95;1,13)
0,462 1,00
1,02 (0,84;1,25)
0,831
ESCOLARIDADE DA MÃE (anos finalizados)
Menos de 8
8 ou mais
1,87 (1,03;1,37)
1,00
0,021 1,34 (1,13;1,59)
1,00
0,001 1,63 (1,01;2,65)
1,00
0,048 1,02 (0,93;1,23)
1,00
0,612 1,25 (1,01;1,54)
1,00
0,038
PRESENÇA DE DENTES CARIADOS
Não
Sim
1,00
1,23 (1,05;1,44)
0,010 1,00
1,11 (0,92;1,33)
0,266 1,00
1,58 (0,92;2,70)
0,094 1,00
1,01 (0,92;1,13)
0,815 1,00
0,93 (0,76;1,14)
0,466

RP = Razões de prevalência ajustadas pelas variáveis entre si e por idade.

A escolaridade materna mostrou-se fortemente associada com aspectos da autoestima, mesmo após análise ajustada. Observou-se que adolescentes filhos de mães de menor escolaridade apresentaram aspectos negativos na sua autoestima, traduzidos pelas respostas: “Às vezes, eu acho que não presto para nada” [RP= 1,87 (IC 95% 1,03; 1,37)]; “Eu, com certeza, me sinto inútil, às vezes” [RP= 1,34 (IC 95% 1,13; 1,59)]; “Eu gostaria de poder ter mais respeito por mim mesmo” [RP= 1,63 (IC 95% 1,01; 2,65)] e “Eu sinto que não tenho muito do que me orgulhar” [RP= 1,25 (IC 95% 1,01; 1,54)]. Observou-se ainda associação estatisticamente significativa e independente de discordância de aspectos positivos de autoestima com o sexo feminino em “Eu sinto que eu tenho boas qualidades” [RP= 0,90 (IC 95% 0,83; 0,98)] e “Eu sinto que sou uma pessoa de valor, pelo menos no mesmo nível que as outras pessoas” [RP= 0,88 (IC 95% 0,81; 0,95)].

DISCUSSÃO

A alta taxa de resposta, os bons indicadores de reprodutibilidade diagnóstica de cárie apresentados e a utilização de uma escala de autoestima validada para utilização em adolescentes brasileiros apontam para boa validade interna do estudo. Este estudo mostrou associações significativas e independentes entre aspectos da escala de autoestima com sexo feminino, baixa escolaridade materna e presença de dentes cariados.

A autoestima representa um aspecto avaliativo do autoconceito e consiste num conjunto de pensamentos e sentimentos referentes a si mesmo6. O baixo desempenho escolar, a delinquência juvenil e a depressão psicológica, os três principais problemas da adolescência, estão intimamente relacionados com a autoestima13. Dessa forma, as condições de saúde bucal, em especial, a cárie dentária, influenciando na autoestima, podem ter um papel importante na ocorrência destes comportamentos indesejáveis.

Estudo com crianças japonesas institucionalizadas que apresentavam baixa autoestima, por serem vítimas de abusos e negligências, mostrou que, a partir do momento em que estas receberam tratamento restaurados de suas lesões de cárie, passaram a ter maior preocupação com sua saúde bucal, sugerindo que intervenções odontológicas possam melhorar a autoestima de crianças14. Se, por um lado, a intervenção odontológica recupera a estética, as funções de mastigação e fala, bem como a autoestima dos indivíduos, por outro lado, há de se considerar que é grande a dificuldade de acesso ao tratamento odontológico, especialmente nos países com maioria da população de média e baixa renda, o que acaba gerando graves consequências econômicas e sociais1.

Reforça-se que os indicadores clínicos em saúde bucal, quando utilizados isoladamente, não reportam todo o impacto das alterações e desordens bucais sobre a qualidade de vida dos indivíduos e populações. É importante que os aspectos clínicos aliados às dimensões sociais e psicológicas sejam avaliados como um todo, para que se possam definir, de maneira mais consistente, as prioridades na atenção pública odontológica.

Têm sido observados, mais recentemente, estudos epidemiológicos que têm procurado relacionar as doenças bucais com o impacto sobre a qualidade de vida. Pesquisa desenvolvida com estudantes de 11 a 14 anos de idade encontrou associação significativa entre a cárie dentária e o impacto negativo na qualidade de vida, em especial nos aspectos de bem-estar emocional e social (p= 0,004)4. Outro estudo desenvolvido com escolares de 7 a 10 anos de idade demonstrou que variáveis clínicas, sociodemográficas e de autoestima estiveram associadas à cárie dentária em crianças, e que programas de atenção odontológica podem impactar positivamente na qualidade de vida das mesmas. Estudantes brasileiros entre 11 e 14 anos de idade, que apresentavam cárie dentária, tiveram uma pior qualidade de vida quando comparados com aqueles livres de cárie. Indicadores de bem-estar social foram 40% piores nos adolescentes que apresentavam a doença15. Estudo de Jokovic et al.16 mostrou que a cárie dentária provocou impacto na vida diária de adolescentes entre 11 e 14 anos de idade. Aproximadamente 52% dos jovens relataram dificuldades para se alimentar e 24% tiveram problemas para falar. Os estados emocionais mais relatados foram irritação e frustração (50%), nervosismo (45%) e preocupação em relação ao que os outros pensam sobre seu estado de saúde bucal (45%). Mais de um terço mencionou estar envergonhado ou embaraçado com a sua condição bucal e 20% dos adolescentes mostraram preocupação com a possibilidade de serem menos atraentes que outras pessoas.

O inquérito sobre saúde bucal realizado no Brasil em 2010 mostrou que, entre jovens de 12 anos de idade, 34,5% relataram impacto negativo na qualidade de vida, relacionado a cárie, dor, sangramento gengival e má-oclusão. Em jovens com menor escolaridade, o impacto negativo na qualidade de vida foi maior17.

Estudo de Petersen1 afirma que a maior carga de doenças bucais recai sobre as populações desfavorecidas e socialmente marginalizadas. O presente estudo apontou que a autoestima dos adolescentes foi estatisticamente associada com a baixa escolaridade materna, reforçando o importante papel da escolaridade da mãe na saúde dos filhos. Este estudo mostrou também que adolescentes do sexo feminino tiveram uma menor autoestima quando comparadas aos meninos. Estudos18-21 explicam que as meninas apresentam mais conflitos durante o desenvolvimento da autoimagem, por valorizarem mais a imagem corporal, os relacionamentos interpessoais e a opinião das outras pessoas a seu respeito, o que pode levá-las a índices mais baixos de autoestima.

Embora o presente estudo tenha delineamento transversal, em que não se pode estabelecer relações de causa-efeito, inferências hipotéticas plausíveis podem explicar como a autoestima dos adolescentes pode ser influenciada pela cárie dentária. É comum a cárie dentária provocar dor, sofrimento, dificuldade na mastigação, restrição no consumo de uma alimentação adequada, diminuição do apetite e até perda de peso. Pode ainda dificultar atividades cotidianas do adolescente, como dormir, estudar, trabalhar, suas atividades de recreação e lazer; comprometer a estética e, consequentemente, um sorriso saudável, o que é indispensável no desenvolvimento de relações interpessoais e de autoestima.

Assim, para o enfrentamento do problema da autoestima e da cárie dentária na população adolescente, é indispensável que haja tanto uma abordagem biológica da etiologia do binômio saúde-doença quanto uma compreensão mais ampliada, na qual os determinantes sociais e comportamentais da vida destes jovens sejam considerados. Prevenindo e tratando a cárie dentária no adolescente, espera-se ter um ganho na sua qualidade de vida, pelo fato de que sua estética, suas atividades diárias e suas funções de mastigação, deglutição e fala não estariam comprometendo sua autoestima. Por outra via, com políticas públicas que busquem melhorar as condições socioeconômicas, por exemplo, garantindo maior acesso e qualidade à educação da mãe, ter-se-ia, hipotética e indiretamente, um ganho positivo em termos de autoestima dos jovens e, consequentemente, de todos os desdobramentos favoráveis em termos de equilíbrio emocional e sucesso acadêmico, no trabalho e nos relacionamentos interpessoais.

CONCLUSÃO

Pode-se concluir, portanto, que aspectos da autoestima foram, independente e significativamente, associados com a presença de dentes cariados, sugerindo que medidas de intervenção direcionadas à melhoria das condições de saúde bucal poderiam contribuir de forma mais efetiva na construção e na manutenção de um alto nível de autoestima do adolescente.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao PROSUP/CAPES pela concessão de bolsa de estudo de doutorado para os autores SEL, ET, ANL e LGTM.

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Received: April 12, 2016; Accepted: August 25, 2016

CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

*Sandra Espíndola Lunardelli, Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde, UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina, Avenida Pedra Branca, 25, Cidade Universitária Pedra Branca, 88137-270 Palhoça - SC, Brasil, e-mail: sandra.coe@terra.com.br

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