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Revista de Odontologia da UNESP

versão On-line ISSN 1807-2577

Rev. odontol. UNESP vol.46 no.6 Araraquara nov./dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1807-2577.06917 

ARTIGO ORIGINAL

Prevalência de traumatismos dentários em pacientes com distúrbio neuropsicomotor: estudo controlado

Prevalence of tooth injuries in patients with neuropsychomotor disorder

Anna Karyna Fernandes de Carvalho GALVÃOa  * 

Isabella Lima Arrais RIBEIROb 

Glória Maria Pimenta CABRALa 

Maria Cristina Duarte FERREIRAa 

Maria Teresa Botti Rodrigues SANTOSc 

aUniversidade Cruzeiro do Sul, São Paulo, SP, Brasil

bUFPB - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, PB, Brasil

cUNIFESP - Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil


Resumo

Introdução

Lesões dentárias por trauma constituem experiências angustiantes em crianças, que promovem alterações tanto físicas quanto emocionais e psicológicas.

Objetivo

Avaliar a prevalência de traumatismos dentários em pacientes com distúrbio neuropsicomotor e comparar a indivíduos normorreativos.

Material e método

Avaliaram-se 120 indivíduos, sendo 60 com alterações neuropsicomotoras (grupo de estudo) e 60 normorreativos (grupo controle), de ambos os sexos, de 2 a 15 anos de idade, assistidos na Fundação de Apoio ao Deficiente do Governo do Estado da Paraíba. Os dados foram coletados por meio de questionário estruturado e exame clínico. Foi realizada análise descritiva e inferencial (teste t-student; teste Exato de Fisher), adotando-se um nível de significância de 5%.

Resultado

A prevalência de traumatismos dentários observada em pacientes com distúrbio neuropsicomotor foi de 20,0%, enquanto que no grupo controle foi de 16,6% (p>0,05); no grupo controle a ocorrência foi maior no sexo masculino. Os grupos diferiram quanto ao tipo de atividade no momento do trauma (p<0,05) em relação à etiologia (p<0,05) e em relação ao local de ocorrência (p<0,05). Para ambos os grupos, os dentes mais afetados foram os incisivos centrais superiores. As fraturas de esmalte, seguidas pelas de esmalte e dentina sem exposição pulpar foram as lesões mais comuns nos dois grupos.

Conclusão

A prevalência de traumatismos dentários em indivíduos com alteração neuropsicomotora é similar à de indivíduos normorreativos, com maior ocorrência no sexo feminino, em fase anterior à adolescência, durante atividades de rotina.

Descritores:  Traumatismos dentários; traumatismos; diagnóstico neurológico

Abstract

Introduction

Traumatic dental injuries are distressing experiences in children, which promote both physical, emotional and psychological changes.

Objective

To evaluate the prevalence of dental trauma in patients with neuropsychomotor disorder and to compare to normoreactive individuals.

Material and method

120 individuals, 60 neuropsychomotor changes (study group) and 60 normorreatives (control group), of both sexes, from 2 to 15 years old, assisted in the Foundation of Support to the Disabled of the Government of the State of Paraíba. Data were collected through a structured questionnaire and clinical examination. Descriptive and inferential analysis (t-student test; Fisher's exact test) was performed, adopting a significance level of 5%.

Result

The prevalence of dental trauma observed in patients with neuropsychomotor disorder was 20.0%, whereas in the control group it was 16.6% (p>0.05); in the control group the occurrence was higher in males. The groups differed according to the type of activity at the moment of the trauma (p<0.05) in relation to the etiology (p<0.05), and in relation to the place of occurrence (p<0.05). For both groups, the most affected teeth were the maxillary central incisors. Enamel fractures, followed by enamel and dentin fractures without pulp exposure were the most common lesions in both groups.

Conclusion

The prevalence of dental trauma in individuals with neuropsychomotor alterations is similar to that of normorreative individuals, with a higher occurrence in females, in preteen phase, during routine activities.

Descriptors:  Tooth injuries; brain; neurological diagnostic

INTRODUÇÃO

O trauma dental é um problema que pode ter um impacto físico, estético e psicológico, não apenas na criança e adolescente, mas também na família1, e, por causar sofrimento físico e emocional, pode ter interferência negativa sobre as relações sociais, com impacto na qualidade de vida2-6.

No Brasil, existem vários estudos que avaliam as lesões dentárias traumáticas em pacientes normorreativos4-10. Pesquisadores de outros países também realizaram estudos para avaliar a prevalência de trauma dental em crianças e adolescentes, também normorreativos11-14, e, tanto no Brasil como em outros países, estudos sobre a prevalência de lesões dentárias traumáticas em indivíduos com deficiência ainda são muito escassos9,15-23.

Devido ao reduzido número de estudos publicados na literatura internacional sobre o tema “traumatismo dentário” em crianças com deficiência, observa-se que nenhum estudo até o momento abordou este aspecto na região Nordeste do Brasil. Desta forma, o presente estudo teve como objetivo avaliar a prevalência de traumatismos dentários em indivíduos com distúrbios neuropsicomotores, comparando-os a um grupo controle composto por indivíduos normorreativos.

MATERIAL E MÉTODO

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do UNIPÊ (Centro Universitário de João Pessoa), parecer nº 280.779, sob o número do CAAE: 15453613.1.0000.5176.

Trata-se de um estudo do tipo exploratório, descritivo, com delineamento transversal e abordagem quantitativa.

Inicialmente, realizou-se o esclarecimento dos pais ou representante legal dos menores sobre a pesquisa, seus objetivos e procedimentos utilizados para a coleta de dados, a fim de que tivessem as informações necessárias para decidirem sobre a participação ou não do menor na pesquisa. Os que concordaram em participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Foram convidados a participar do estudo os indivíduos com diagnóstico médico de distúrbio neuropsicomotor, que frequentavam a Fundação Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Deficiência (FUNAD) do Governo do Estado da Paraíba, sendo denominados grupo de estudo (GE).

O grupo controle (GC) foi constituído por indivíduos normorreativos, pareados por idade e gênero, alunos da Creche Delegada Maria Tereza de Souza Leite e da Escola Municipal Leonel Brizola, ambas situadas no município de João Pessoa – Paraíba.

Foram incluídos na pesquisa os indivíduos com diagnóstico médico de alguma patologia que afete o sistema neurológico, psicológico ou motor, que fossem menores de quinze anos e cooperassem para a realização do exame visual. Pacientes com ausência dos elementos dentários anteriores (incisivos centrais e laterais), causada por outros fatores que não o trauma dental, não foram incluídos na pesquisa.

Os dados de identificação das crianças/adolescentes de ambos os grupos foram coletados por meio de questionário estruturado, autoaplicável, desenvolvido para este estudo, direcionado aos responsáveis, contendo dados pessoais, diagnóstico da condição do pesquisado, uso de medicamentos e histórico de trauma dental. A avaliação da presença de trauma foi realizada por meio de exame clínico visual dos indivíduos de ambos os grupos.

O exame clínico foi realizado a fim de se identificar o tipo de dentição e a presença ou não de trauma nos tecidos dentários com auxílio de um espelho bucal plano nº 5 com cabo, espátulas de madeira e luz artificial de lanterna, sem uso de sonda exploradora ou sonda who. Foram observados e registrados em fichas próprias os sinais de trauma dentário nos 8 dentes anteriores (4 incisivos superiores e 4 incisivos inferiores).

O critério diagnóstico de Andreasen et al.24 (Tabela 1) foi utilizado para a classificação do traumatismo. Não foram consideradas as fraturas radiculares, pois não foi realizado exame radiográfico, assim como as concussões e subluxações, que necessitariam de exame no momento do trauma para identificação. O trauma dental foi registrado somente para os dentes presentes durante o exame (decíduos ou permanentes). Além de sinais de trauma como fraturas, deslocamentos e ausências dentárias decorrentes desses, foram anotados também dados referentes à alteração de cor dos elementos dentários e restaurações presentes em dentes que sofreram fraturas.

Tabela 1 Classificação das lesões dentoalveolares e de mucosa oral proposta por Andreasen et al.24  

Lesões aos tecidos duros dos dentes e à polpa Fratura incompleta de esmalte: lesão na estrutura dental sem perda de estrutura.
Fratura de esmalte: lesão na estrutura dental com perda de estrutura restrita apenas ao esmalte dentário.
Fratura não complicada de coroa: lesão com perda de estrutura envolvendo esmalte e dentina sem exposição do complexo pulpar.
Fratura complicada de coroa: lesão com perda de estrutura envolvendo esmalte e dentina com exposição do complexo pulpar.
Fratura coronorradicular: lesão com perda de estrutura envolvendo esmalte, dentina e o cemento sem exposição do complexo pulpar.
Fratura complicada de coroa e raiz: lesão com perda de estrutura envolvendo esmalte, dentina e cemento, com exposição do complexo pulpar.
Fratura radicular: lesão envolvendo cemento, dentina e polpa identificada que pode ser classificada de acordo com o deslocamento do fragmento coronário em cervical, média ou apical.

Os dados obtidos foram analisados mediante estatística descritiva e inferencial (teste t-Student; teste Exato de Fisher), adotando-se um nível de significância de 5%, no software estatístico IBM SPSS (21.0).

RESULTADO

O estudo contemplou uma amostra de 120 crianças com idades entre 2 e 15 anos (média de 6,2 anos, com desvio padrão de 3,2 anos) e que foram divididas igualmente em dois grupos: Normorreativos (GC = 50%) e com Distúrbios Neuropsicomotores (GE = 50%). Das 120 crianças estudadas, 72 (60%) eram do sexo feminino e 48 (40%) eram do sexo masculino.

Nos Grupos de Estudo e Controle, a prevalência de LTDs (Lesões Traumáticas Dentárias) foi de 12 (20,0%) e de 10 (16,6%), respectivamente (p= 0,637), não havendo diferença significativa entre as incidências dos traumas dentários dos dois grupos investigados.

Na Tabela 2, observa-se a distribuição do sexo, faixa etária e uso de medicamento entre os grupos estudados.

Tabela 2 Prevalência do trauma dentário, segundo o grupo estudado 

Perfil Estudo (n=60) Controle (n=60) Total (n=120)
Expostos Traumas (%) Expostos Traumas (%) Expostos Traumas (%)
Sexo
Feminino 36 6 16,67 36 9 25,00 72 15 20,83
Masculino 24 6 25,00 24 1 4,17 48 7 14,58
Faixa Etária
Até 4 anos 22 5 22,73 22 0 0,00 44 5 11,36
Entre 4 e 6 anos 13 2 15,38 13 1 7,69 26 3 11,54
Entre 6 e 8 anos 8 2 25,00 8 2 25,00 16 4 25,00
Entre 8 e 10 anos 12 2 16,67 12 3 25,00 24 5 20,83
Acima de 10 anos 5 1 20,00 5 4 80,00 10 5 50,00
Uso de Medicamento
Sim 35 7 20,00 -- -- -- 35 7 20,00
Não 25 5 20,00 -- -- -- 25 5 20,00

n: tamanho amostral; %: porcentagem.

No Grupo de Estudo, os pacientes apresentavam as seguintes condições, de acordo com o diagnóstico médico para o distúrbio neuropsicomotor: 31 (51,67%) Paralisia Cerebral; 10 (16,67%) Autismo; 9 (15,00%) Deficiência Intelectual; 4 (6,67%) Síndrome de Down; 3 (5,00%) Microcefalia; 1 (1,67%) Mielomeningocele; 1 (1,67%) Hipotireoidismo Congênito; e 1 (1,67%) Hidrocefalia. Desses, 35 utilizavam medicamentos e 7 (20%) sofreram algum tipo de trauma dentário. Sendo assim, pode-se dizer que a ocorrência dos traumas dentários independe do uso de medicamento (OR=1,00). Entretanto, as crianças que deambulam têm 67% (OR=1,67) mais chances de apresentarem traumas dentários em relação àquelas que não deambulam; da mesma forma, as crianças que convulsionam têm 43% (OR=1,43) mais chances de apresentarem traumas dentários em relação àquelas que não sofrem dessa patologia.

Na Tabela 3, tem-se a distribuição das médias de idade de ocorrência do trauma e dos indivíduos que realizaram ou não tratamento odontológico para o trauma. Observa-se que os traumas do grupo de estudo foram mais precoces que os do grupo controle, com uma diferença média de aproximadamente 4 anos nas idades de ocorrências dos traumas. Os grupos não apresentaram diferenças estatisticamente significativas em relação à presença de tratamento recebido.

Tabela 3 Comparação das proporções dos grupos em relação à idade do trauma, presença e tipo de tratamento 

Características Estudo (n=60) Controle (n=60) Sig.
Média DP Média DP
Idade do Trauma 4,92 ± 2,47 8,60 ± 2,41 0,002(1)
Tratamento n % n % 0,818(2)
Sim 3 100,00 0 0,00
Não 9 47,37 10 52,63

(1)Teste t de comparações de médias, a=5%;

(2)Teste Exato de Fisher, a=5%.

Na Tabela 4, estão distribuídas as frequências de indivíduos de acordo com as variáveis: atividade desenvolvida, local de ocorrência do trauma e a causa do trauma; observa-se que houve uma diferença significativa quanto às atividades desenvolvidas no momento do trauma, local onde ocorreu o trauma e suas causas (p<0,05). No grupo de estudo, a atividade desenvolvida durante o trauma foi a de rotina, o local onde mais ocorreu trauma dentário foi em casa e a causa foi queda de objeto alto. Já, no grupo controle, a atividade desenvolvida durante o trauma foi a de lazer, o local onde mais ocorreu o trauma foi na escola e a causa foi queda por correr.

Tabela 4 Comparação das proporções, para os casos em que houve trauma, do tipo de atividade desenvolvida, causa e local do trauma, segundo o grupo de estudo 

Características Estudo (n=12) Controle (n=10) Sig.
n % n %
Atividade Desenvolvida
Atividade de rotina 9 100,00 0 0,00 0,020
Atividade de lazer 2 16,67 10 83,33
Outras 1 100,00 0 0,00
Local onde Ocorreu o Trauma
Casa 10 76,92 3 23,08 0,048
Escola 1 20,00 4 80,00
Praças, parques, etc. 1 33,33 2 66,67
Outros locais 0 0,00 1 100,00
Causa do trauma
Queda por andar 1 100,00 0 0,00 0,049
Queda por correr 2 25,00 6 75,00
Queda contra objetos 1 100,00 0 0,00
Queda de objetos altos 6 100,00 0 0,00
Queda de objetos móveis 0 0,00 1 100,00
Outras causas 2 40,00 3 60,00

Teste de associação Exato de Fisher, Nível de significância=5%.

Na Tabela 5, está o comparativo dos tipos de lesões por trauma entre os grupos de estudo e controle, sendo mais prevalente a fratura de esmalte para ambos os grupos.

Tabela 5 Comparação das proporções, para os casos em que houve trauma, para o tipo de lesão, segundo o grupo de estudo 

Características Estudo (n=12) Controle (n=10) Sig.
n % n %
Fratura no Esmalte 6 42,86 8 57,14 0,049
Fratura no Esmalte e Dentina 4 100,00 0 0,00
Descoloração Dentária 2 40,00 3 60,00

Teste de associação Exato de Fisher, Nível de significância=5%.

DISCUSSÃO

Existem poucos estudos publicados, no Brasil e no mundo, sobre trauma dentário em pacientes com deficiência. No nordeste do Brasil e no Estado da Paraíba, nenhum estudo abordou essa temática, não havendo dados sobre sua prevalência.

No presente estudo, a prevalência de lesões dentárias traumáticas nos pacientes com distúrbio neuropsicomotor foi de 20,00%, que, embora seja um percentual elevado, foi inferior a resultados encontrados em algumas pesquisas realizadas em pacientes com paralisia cerebral22,23, autistas17, pacientes com deficiência20, em indivíduos com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade18,23 e com deficientes visuais16,23.

Foram avaliados 36 indivíduos do sexo feminino e 24 do sexo masculino e a maior prevalência de lesões dentárias traumáticas foi no sexo masculino (25,00%), corroborando vários estudos realizados em pacientes normorreativos7-12,15. Com resultado semelhante ao nosso estudo, em algumas pesquisas em indivíduos com deficiência, houve maior prevalência de trauma dentário no sexo masculino, fato este observado em estudos realizados em indivíduos com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade18, autistas17, pessoas com deficiência20. Porém, em outros trabalhos realizados em indivíduos com deficiência, a maior prevalência de trauma ocorreu no sexo feminino21,22.

No grupo de estudo, a idade de maior ocorrência do trauma dentário foi de quatro a seis anos de idade, ou seja, na primeira infância. Na literatura, existem alguns trabalhos que divergem desse dado encontrado, neles, a média de idade em que houve a ocorrência do trauma foi de 12,720 a 13,722 anos de idade. Nas crianças normorreativas, a ocorrência de trauma aumenta com a idade6,9,11. Isso se justifica pelo fato de os indivíduos com distúrbios neuropsicomotores avaliados virem realizando vários tipos de tratamento na instituição em que foi realizada a pesquisa, para melhorar sua alteração neurológica, psíquica e/ou motora, melhora essa conseguida com a evolução do tratamento. Enquanto que o indivíduo normorreativo, com o passar da idade, participou de esportes e brincadeiras que predispõem ao trauma.

Em relação aos medicamentos, a literatura afirma que o uso de anticonvulsivantes em indivíduos com paralisia cerebral diminuiu a ocorrência de trauma dental23. Os resultados deste estudo mostram que a ocorrência do trauma independe do uso de medicamentos. Era esperado que os indivíduos usuários de drogas como anticonvulsivantes, antipsicóticos, ansiolíticos e sedativos tivessem menor experiência de trauma pelo efeito das drogas, mas os resultados apontaram não haver correlação.

As principais causas de lesões dentárias traumáticas, no grupo de estudo, aconteceram devido a quedas de objetos altos, representando 50% dos traumas, seguidas de queda por correr (16,67%), outras causas (16,67%), queda por andar (8,33%) e queda contra objetos (8,33%); por isso, deve-se redobrar os cuidados durante as atividades de vida diária dos pacientes com deficiência. Nos pacientes do grupo controle, teremos como principal causa do trauma a queda por correr (60%), outras causas (16,67%) e queda de objetos móveis (10%). Os resultados acima são justificados pelo fato de as crianças com alterações neuropsicomotoras não desenvolverem atividades esportivas ou de lazer. Em trabalhos realizados em indivíduos com deficiência, as quedas foram identificadas como a principal causa das lesões18,21-23, ou mesmo como única causa22. Em indivíduos normorreativos, a maioria dos trabalhos afirma que a queda é a principal causa de LDTs4,7,8.

Analisando o local de ocorrência do trauma, a maioria dos episódios dentários traumáticos, no grupo de estudo, aconteceu em casa (83,33%), corroborando alguns estudos realizados22,23. A maioria das ocorrências de trauma no grupo controle ocorreu na escola (40%), seguida das na residência (30%). Sendo a diferença entre os grupos estatisticamente significativa. Essa divergência em relação ao local de ocorrência do trauma já era esperada, uma vez que a criança com distúrbio neuropsicomotor não participa de várias atividades, devido aos déficits de comunicação e déficits sociais. Nos indivíduos normorretivos, os locais mais comuns para ocorrer o trauma foram a residência6,8,9 e a escola23.

No presente trabalho, o tipo de atividade desenvolvida na ocasião do trauma no GE foram as atividades de rotina, totalizando 75%, no GC, eram atividades de lazer (100%). A diferença observada foi estatisticamente significativa, fato este justificado pela não participação de crianças com alterações neuropsicomotoras em atividades em grupo, jogos cooperativos e brincadeiras. Ratificando o resultado do trabalho de Santos e Souza20, em indivíduos com PC, foi constatado que apenas 10% das lesões traumáticas haviam ocorrido durante brincadeiras ou atividades de lazer. Estudos com crianças normorreativas concluíram que os eventos traumáticos ocorreram durante atividades de lazer, quedas de bicicleta ou durante atividades esportivas7,9,11.

As fraturas de esmalte foram as lesões que se apresentaram com as maiores porcentagens neste estudo, seguidas das fraturas envolvendo esmalte e dentina, tanto para o grupo de estudo (GE) quanto para o grupo controle (GC). Em alguns estudos realizados em pacientes com deficiência, a fratura de esmalte foi a lesão mais comum17,20-23, seguida pelas fraturas de esmalte e dentina22. Estudos com normorreativos observaram os mesmos fatos relatados para os grupos deste estudo, com as fraturas de esmalte se apresentando como lesões mais prevalentes, seguidas das fraturas de esmalte e dentina9,11,15.

CONCLUSÃO

A prevalência das LDTs em indivíduos com distúrbio neuropsicomotor foi maior no sexo masculino e as fraturas de esmalte seguidas pelas de esmalte e dentina foram as lesões mais comuns que ocorreram durante as atividades de rotina, por queda de objetos altos e em suas residências.

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Recebido: 21 de Agosto de 2017; Aceito: 16 de Novembro de 2017

CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

*Anna Karyna Fernandes de Carvalho Galvão, Rua Antônio Rabelo Júnior, 225, ap.1102, Bairro Miramar, 58032-090 João Pessoa - PB, Brasil, e-mail: annakaryna@gmail.com

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