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Revista de Odontologia da UNESP

Print version ISSN 0101-1774On-line version ISSN 1807-2577

Rev. odontol. UNESP vol.49  Araraquara  2020  Epub Dec 16, 2020

https://doi.org/10.1590/1807-2577.06720 

Artigo Original

Alterações bucais associadas à presença de atopia em crianças: um estudo transversal

Oral changes associated with the presence of atopy in children: a cross-sectional study

Bruna Mara RUASa 
http://orcid.org/0000-0003-4310-8057

Marianne de Oliveira NASCIMENTOb 
http://orcid.org/0000-0001-7926-820X

Marceli DE FRANÇAc 
http://orcid.org/0000-0003-1505-7811

Camila Stofella SODRÉd 
http://orcid.org/0000-0002-5520-2262

Patricia Nivoloni TANNUREb  c  * 
http://orcid.org/0000-0002-5129-8615

Dennis de Carvalho FERREIRAc  e 
http://orcid.org/0000-0003-4166-3284

aUSP – Universidade de São Paulo, Bauru, SP, Brasil

bFaculdade São Leopoldo Mandic-RJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

cUVA – Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

dUFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Departamento de Clínica Médica, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

eUniversidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


Resumo

Introdução

É por meio da interação entre ambiente, indivíduo, sua predisposição à atopia e exposição a alérgenos que surgem as doenças alérgicas. Em crianças atópicas, foi observada uma alta prevalência de padrão respirador bucal, assim como resposta positiva a testes alérgicos. Essas alterações respiratórias possuem uma associação com deformidades orofaciais, especialmente as maloclusões.

Objetivo

Identificar a frequência de crianças e adolescentes portadores de alergias e buscar uma provável associação entre atopia e maloclusão, traumatismos dentoalveolares e hábitos bucais viciosos.

Material e método

Foram avaliados prontuários de crianças e adolescentes atendidos em duas instituições particulares de ensino da cidade do Rio de Janeiro no período compreendido entre agosto de 2017 e julho de 2018. Foram coletados dados do prontuário relacionados ao histórico médico, odontológico e de alergias. Os dados foram analisados descritivamente e por meio do teste qui-quadrado (p<0,05).

Resultado

Um total de 136 prontuários foi considerado elegível para avaliação. Durante a anamnese, 49 responsáveis (36%) relataram histórico de alergias em suas crianças e adolescentes. A prevalência de hábitos bucais viciosos foi verificada em 87 pacientes (64%), sendo presente em 65,3% de crianças e adolescentes que apresentavam atopia (p<0,05).

Conclusão

A prevalência de alergias relatada nesta população foi de 34,6%, e foi observada ainda uma alta prevalência de hábitos bucais viciosos e traumatismos dentoalveolares nesses pacientes. Foram constatadas associações significativas entre presença de atopias e histórico de traumatismos dentários, maloclusão e hábitos viciosos, demonstrando haver correlação entre atopia e alguns aspectos de saúde oral.

Descritores:  Alergia; maloclusão; rinite alérgica; asma; boca

Abstract

Introduction

Allergic diseases appear through the interaction between the environment, the individual, their predisposition to atopy and exposure to allergens. In atopic children there is a high prevalence of mouth breathers, as well as positive response to allergic prick tests. These respiratory changes have an association with orofacial deformities especially malocclusions.

Objective

To identify the frequency of children and adolescents that have atopies and search for a probable association between atopy and oral aspects like malocclusion and vicious oral habits.

Material and method

Medical records were taken of children and adolescents seen at two educational institutions in the city of Rio de Janeiro in the period between August 2017 and July 2018. Data were collected from medical records related to medical history, history of atopies and dental history. The data were transmitted descriptively through the chi-square test (p<0.05).

Result

A total of 136 records were considered eligible for evaluation. During the anamnesis, 49 (36.0%) parents reported a history of atopy in their children adolescents. The prevalence of vicious oral habits was found in 87 children and adolescents (64.0%), being presented in 65.3% of the patients who had atopy (p<0.05).

Conclusion

It can be observed that the prevalence of atopy reported in this population was 34.6% and there was also a high prevalence of vicious oral habits and dento-alveolar trauma in these patients. Relevant associations between the presence of atopies and history of dental trauma, malocclusion and the presence of oral vicious habits were observed, demonstrating a correlation between atopy and some aspects of oral health.

Descriptors:  Allergy; malocclusion; allergic rhinitis; asthma; mouth

INTRODUÇÃO

A atopia caracteriza-se como uma disfunção do sistema imunológico, que pode manifestar-se individualmente ou em associação com imunodeficiências ou demais estados das doenças autoimunes. As doenças alérgicas (rinite alérgica, asma, eczema atópico, urticária, entre outras) surgem pela interação entre uma tendência atópica e o ambiente (que expõe o indivíduo a múltiplos alérgenos). A prevalência de alergias no mundo aumentou nas últimas décadas, e entre os fatores que contribuíram para esse aumento estão a exposição ambiental a alérgenos, as mudanças no estilo de vida, os fatores infecciosos e socioeconômicos e a grande concentração de poluentes externos1.

A alergia tem etiologia multifatorial, e a interação entre fatores genéticos e não genéticos determina a expressão da doença. Muitos estudos têm avaliado o risco de uma criança tornar-se alérgica, com base na história familiar de alergia2. As principais comorbidades associadas à rinite alérgica são: asma, conjuntivite alérgica, rinossinusite aguda e crônica, otite média com efusão, alterações bucais do desenvolvimento craniofacial em crianças que apresentam respiração oral, além de apneia e hipopneia, presentes tanto em crianças como em adultos3,4.

A maloclusão dentária pode produzir alterações nos dentes ou face, sendo considerada um problema relacionado ao crescimento e desenvolvimento dos ossos maxilares ou mandibulares durante a infância e adolescência. Esse tipo de anomalia pode ter efeitos funcionais, estéticos ou psicossociais envolvendo a mastigação, a fonação e a oclusão, com impacto negativo na vida diária dos indivíduos afetados. Sua causa se deve a interação entre fatores ambientais, congênitos, morfológicos e biomecânicos5,6. Vem sendo observada uma alta prevalência de crianças atópicas com resposta positiva ao teste alérgico, além de apresentarem padrão de respiração bucal. Alterações respiratórias possuem uma relação com deformações orofaciais, como as maloclusões, especialmente a mordida cruzada. Hábitos de respiração oronasal e de chupar chupeta evidenciaram efeitos negativos na qualidade de vida de crianças e de seus familiares7. Dessa maneira, o objetivo deste estudo foi avaliar a frequência de pacientes portadores de alergias atendidos em Clínica de Odontopediatria de instituições de ensino e a provável associação entre atopias, maloclusão, traumatismos dentoalveolares, prematuridade e hábitos bucais viciosos.

MATERIAL E MÉTODO

Este estudo obteve a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Veiga de Almeida, sob parecer número 2.369.137, e do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade São Leopoldo Mandic, sob parecer número 3.404.295. Foram avaliados prontuários de todos os pacientes que procuraram atendimento odontológico nas Clínicas de Odontopediatria da Universidade Veiga de Almeida e da Faculdade São Leopoldo Mandic, unidade Rio de Janeiro, ambas instituições de ensino particulares, durante o período de julho de 2017 a agosto de 2018.

Foram coletados dados referentes ao sexo, idade, histórico médico relacionado à gestação do paciente, parto, prematuridade, histórico médico atual, presença de reação alérgica, histórico de alergias, dentição atual, presença de maloclusão (mordida aberta, mordida cruzada e apinhamento dentário), traumatismo dentário e hábitos viciosos. Todos os atendimentos foram realizados por alunos do curso de graduação em Odontologia da Universidade Veiga de Almeida e do curso de especialização em Odontopediatria da São Leopoldo Mandic sob supervisão docente.

Para análise e tratamento estatístico dos dados, foi usado o programa SPSS-21.0 por meio do método estatístico qui-quadrado, tendo como nível de significância o valor de p<0,05.

RESULTADO

A amostra final foi composta de 136 crianças que receberam atendimento odontológico no período estudado. A faixa etária dos pacientes variou de 2 a 15 anos de idade, com uma média de 7,28 anos (±3,43). A maioria das crianças era do sexo masculino (74; 54,4%) e saudáveis (109; 80,1%).

Na Tabela 1 é observada a frequência absoluta e relativa relacionadas ao histórico médico das crianças, assim como dados relativos à gestação e ao parto. Na Tabela 2 é verificada a frequência absoluta das variáveis individuais dos participantes relacionadas à dentição. A Tabela 3 aponta a frequência absoluta e relativa referente às variáveis maloclusão, hábitos bucais viciosos, histórico de traumatismo dentário e prematuridade, em crianças e adolescentes que apresentaram ou não atopia de acordo com o relato de seus responsáveis. Foi verificada associação entre presença de atopia e histórico de traumatismos dentários, hábitos bucais viciosos e maloclusão (p<0,05).

Tabela 1 Características gerais da amostra estudada (n=136) 

Variável Frequência absoluta (n)* Frequência relativa (%)
Sexo Masculino 74 54,4
Feminino 62 45,6
Está em tratamento médico Sim 29 19,9
Não 109 80,1
Qual é o motivo do tratamento? Alergia, rinite, bronquite e dermatite 17 12,5
Alteração no comportamento 7 5,1
Alteração no trato respiratório 3 2,2
Outros 2 1,5
Já apresentou alguma reação alérgica aguda? Sim, não relatou o motivo 6 4,4
Sim, por antibióticos 2 1,5
Sim, por outros medicamentos 3 2,2
Sim, por corantes 2 1,5
Não 121 89,0
Seu filho tem alergia? Sim 49 36,0
Não 83 61,0
Não respondeu 4 3,0
Gestação Normal 41 30,1
Com intercorrências 10 7,4
Não relatou 85 62,5
Parto Normal 20 14,7
Cesárea 27 19,9
Dados ausentes 89 65,4
Prematuro Sim 9 6,6
Não 113 83,1
Dados ausentes 14 10,3
Uso da incubadora Sim 6 4,4
Não 33 24,3
Dados ausentes 97 71,3
Uso de mamadeira Sim 15 11,1
Não 75 55,1
Dados ausentes 46 33,8
Uso de chupeta Sim 35 25,8
Não 52 38,2
Dados ausentes 49 36,0

*Dados analisados por meio do teste do qui-quadrado.

Tabela 2 Dados relativos à dentição, maloclusão, hábitos bucais viciosos e traumatismos dentários na amostra estudada (n=136) 

Variável Frequência absoluta (n)* Frequência relativa (%)
Dentição Mista 47 34,6
Decídua 71 52,2
Permanente 18 13,2
Maloclusão Mordida aberta anterior 16 11,8
Mordida aberta posterior 8 5,9
Outras maloclusões 1 0,7
Não apresenta 60 44,1
Dados ausentes 51 37,5
Hábitos bucais viciosos Sim 87 64,0
Não 47 34,6
Dados ausentes 32 1,5
Histórico de traumatismos dentários Sim 41 30,1
Não 88 64,7
Sim, por corantes 7 5,1

*Dados analisados por meio do teste do qui-quadrado.

Tabela 3 Comparação das variáveis maloclusão, hábitos bucais viciosos, histórico de traumatismo dentário e prematuridade entre crianças e adolescentes atópicos e não atópicos 

Variável Pacientes atópicos (n=49) Pacientes não atópicos (n=83) p-valor*
Maloclusão n (%) Sim 6 (12,24) 19 (22,9) 0,044
Não 26 (53,1) 34 (41,0)
Dados ausentes 17 (34,7) 30 (36,1)
Hábitos bucais viciosos Sim 32 (65,3) 53 (63,9) 0,003
Não 17 (34,7) 29 (34,9)
Dados ausentes 0 1 (1,2)
Histórico de traumatismos dentários Sim 15 (30,6) 26 (31,3) 0,002
Não 32 (65,3) 54 (65,1)
Prematuridade Sim 5 (10,2) 4 (4,8) 0.494
Não 40 (81,6) 72 (86,7)
Dados ausentes 4 (8,2) 7 (8,4)
Uso de mamadeira Sim 5 (10,2) 10 (12,0) 0.787
Não 29 (59,2) 44 (53,0)
Dados ausentes 15 (30,6) 29 (35,0)

*Dados analisados por meio do teste do qui-quadrado.

DISCUSSÃO

A atopia é a tendência de apresentar índices elevados de imunoglobulina E (IgE) e anticorpos para alérgenos ambientais comumente encontrados8. As manifestações clínicas mais comuns de atopia são asma, rinite alérgica e dermatite atópica8. A obstrução da via aérea nasal por causa da alergia atópica pode estar associada à respiração bucal e facial, favorecendo o desenvolvimento de anomalias, incluindo as maloclusões9,10. Neste estudo, 36% das crianças e adolescentes apresentaram alergias, segundo relato de seus responsáveis. Contudo, não foi observada nenhuma relação entre presença de atopia e manifestações clínicas e características gerais avaliadas, com exceção do histórico de traumatismo dentário, hábitos bucais viciosos e maloclusão (p<0,05). O grupo não alérgico (31,3%) demonstrou uma frequência ligeiramente maior de histórico de traumatismos dentários quando comparado ao grupo alérgico (30,6%), sendo um dado significativo (p=0,002). Isso pode estar relacionado a fatores de estresse psicológico e isolamento social que pacientes atópicos costumam apresentar, especialmente na exacerbação de sua condição, o que diminui seu convívio social e, consequentemente, a redução de atividades na infância que estão constantemente envolvidas na ocorrência de traumas dentários11-14.

A maioria das revisões sobre fatores de risco para asma recomenda o aleitamento estendido para reduzir a probabilidade de desenvolvimento de atopia e asma na infância15-17. Embora tal visão seja amplamente aceita e promovida, alguns estudos apresentam resultados conflitantes11,12. Alguns investigadores sugerem um risco maior de alergia e asma associado com aleitamento, enquanto outros apontam que o aleitamento apresenta função protetora. Uma das razões que explicam tal teoria seria a hipótese de que o leite produzido por mães alérgicas pode induzir a sensibilidade a alérgenos15. Essa temática é de suma importância considerando o agravo, pois se sabe que o aleitamento materno, quando comparado ao artificial, é um fator protetor contra a incidência de alergias respiratórias, especialmente a asma11. No estudo de Giuca et al.16, as crianças que receberam os benefícios do aleitamento materno apresentaram menos casos de rinite quando comparadas àquelas com aleitamento artificial exclusivo. Neste estudo, não foram investigadas informações a respeito da amamentação das crianças incluídas na amostra, entretanto foram registrados dados relativos (com baixa frequência) ao uso de mamadeiras (11,1%) e chupetas (25,8%), que predispõem ao aparecimento de mordidas abertas e cruzadas. Em pacientes atópicos, o uso de mamadeira apresentou uma frequência menor quando comparado ao grupo não alérgico (10,2% e 12%, respectivamente), não sendo possível observar uma associação significativa entre atopia e uso de mamadeira (p>0,05).

A associação entre respiração bucal e rinite tem sido amplamente documentada e ocorre como resultado da obstrução nasal, que é um dos sintomas mais desconfortáveis ​​da rinite17. Estudos em longo prazo mostraram uma maior frequência de desenvolvimento facial alterado e maloclusão dentária, principalmente como possível consequência da respiração bucal crônica18,19. Esses estudos estão de acordo com os achados da presente pesquisa, em que a presença de hábitos bucais viciosos, como a onicofagia e morder objetos, foi relatada em 64% dos pacientes, indicando uma alta prevalência no atual grupo estudado (p>0,05). A relação entre presença de atopia e hábitos bucais viciosos demonstrou-se significativa neste estudo (p<0,003), em que o grupo com alergia apresentou uma frequência de 65,3%.

Sabe-se que a presença da mordida aberta pode dificultar o vedamento labial e favorecer a presença da respiração bucal20. Em um estudo prévio, Menezes et al.21 (2006) avaliaram indivíduos portadores de respiração bucal, e os maiores percentuais verificados relacionados a alterações faciais foram para a presença de mordida aberta anterior (60%), selamento labial inadequado (58,8%) e palato ogival (38,8%)21. No presente estudo, foi observada uma associação entre maloclusão e atopia (p=0,044), em que o grupo alérgico apresentou uma frequência menor de maloclusões quando comparado ao grupo não alérgico (12,24% e 22,9%, respectivamente).

A rinite alérgica é considerada uma das principais causas de obstrução das vias aéreas em crianças, o que pode induzir uma perda de respiração nasal fisiológica habitual e, consequentemente, alterar o desenvolvimento craniofacial22. Os fatores predisponentes do traumatismo dentário são a cobertura labial inadequada e o aumento do overjet, com protrusão dentária22. Um estudo prévio com portadores de rinite alérgica demonstrou que crianças portadoras da patologia tinham um risco aumentado para o traumatismo dentário, concluindo haver a necessidade de uma maior atenção de profissionais da saúde e cuidadores dessas crianças23. Diante de uma associação prévia descrita na literatura, foi feita a busca na população estudada de uma associação entre o relato de alergias e o traumatismo dentário, em que pacientes não atópicos apresentaram uma frequência maior de histórico de trauma dentário quando comparados a pacientes atópicos (p=0,002).

O parto cesariano também demonstra ser um fator importante no desenvolvimento de atopias, como dermatite atópica e alergia alimentar24. Essa associação deve-se a alterações na microbiota intestinal presentes na primeira infância desses pacientes24. Um estudo que avaliou 459 crianças que foram acompanhadas até o 36º mês de idade verificou que o parto cesariano predispôs ao desenvolvimento de alergia alimentar nesses pacientes24. Além disso, crianças que possuíam pelo menos um pai alérgico apresentavam uma maior probabilidade de desenvolver alergia alimentar quando comparadas a crianças que não possuíam histórico de alergia e nasceram por meio do parto normal (OR 10,0; 95% CI 3,06-32,7)24. No presente estudo, foi constatada uma frequência ligeiramente maior de pacientes que nasceram por parto cesariano (19,9%) quando comparados aos que nasceram de parto normal (14,7%), apesar de não haver nenhuma correlação entre a presença de alergia e o tipo de parto (p>0,05).

A prematuridade propicia a um maior risco de desenvolvimento de asma, assim como um precoce desconforto respiratório e maior risco de infecção respiratória, quando comparada com crianças que tiveram parto normal25. Neste estudo, foi verificada uma baixa frequência de relato de prematuridade pelos responsáveis (6,6%), não havendo associação entre atopia e prematuridade (p>0,05).

Nesta pesquisa, diversos aspectos apresentaram uma alta frequência na população avaliada, como hábitos bucais viciosos (64%) e presença de alergias (36%). Já outros foram significativos quando correlacionados à atopia, como histórico de traumatismos dentários, maloclusão e hábitos viciosos. Contudo, alguns aspectos, como tipo de dentição, prematuridade, uso de mamadeira e chupeta, não apresentaram significância, o que pode ser justificado em razão das limitações deste estudo, como a presença de uma amostra pequena em relação ao número total de crianças atendidas anualmente e a ausência do diagnóstico médico por escrito das crianças participantes. Somente o relato dos responsáveis foi utilizado para caracterizar a presença das atopias.

CONCLUSÃO

Diante dos resultados observados neste estudo, é possível concluir que:

  • O estudo possibilitou verificar uma alta prevalência de hábitos bucais viciosos (64%) nas crianças atendidas na Clínica de Odontopediatria do curso de Odontologia da Universidade Veiga de Almeida.

  • A prevalência de alergias relatadas nessa população foi de 36%, sendo observada associação significativa entre presença de atopias e histórico de traumatismos dentários, maloclusão e hábitos bucais viciosos (p<0,05).

Como citar: Ruas BM, Nascimento MO, De França M, Sodré CS, Tannure PN, Ferreira DC. Alterações bucais associadas à presença de atopia em crianças: um estudo transversal. Rev Odontol UNESP. 2020;49:e20200067. https://doi.org/10.1590/1807-2577.06720

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Recebido: 27 de Setembro de 2020; Aceito: 28 de Outubro de 2020

CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

*AUTOR PARA CORRESPONDÊNCIA Patricia Nivoloni Tannure, UVA – Universidade Veiga de Almeida, Rua Ibituruna, 108, Maracanã, 20271-020 Rio de Janeiro - RJ, Brasil, e-mail: pntannure@gmail.com

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