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Revista de Odontologia da UNESP

Print version ISSN 0101-1774On-line version ISSN 1807-2577

Rev. odontol. UNESP vol.49  Araraquara  2020  Epub Jan 20, 2021

https://doi.org/10.1590/1807-2577.06820 

Artigo Original

Prevalência de mordida aberta e fatores associados em pré-escolares de Salvador-BA em 2019

Prevalence of open bite and associated factors in preschoolers from Salvador-BA in 2019

Amanda Araújo de CARVALHOa 
http://orcid.org/0000-0003-4239-6464

Tatiana Frederico de ALMEIDAa 
http://orcid.org/0000-0002-6118-6668

Maria Cristina Teixeira CANGUSSUa  * 
http://orcid.org/0000-0001-9295-9486

aUFBA – Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil


Resumo

Introdução

A mordida aberta anterior é um dos tipos de má-oclusão mais frequentes em pré-escolares, sendo considerada um dos problemas oclusais mais difíceis de tratar, principalmente por sua etiologia multifatorial e sua íntima relação com hábitos bucais deletérios.

Objetivo

Identificar a prevalência de mordida aberta anterior nos pré-escolares de Salvador-BA, bem como fatores potencialmente associados à mesma.

Material e método

Trata-se de um estudo de corte transversal em 1.577 crianças em idade pré-escolar (36 a 71 meses), que frequentavam creches públicas municipais de Salvador-BA.

Resultado

A média de idade das crianças foi aproximadamente 54 meses. A maioria pertencia ao sexo masculino (50,29%). A população de estudo foi predominantemente composta por negros e pardos (92,02%). A prevalência de má-oclusão foi de 40,46% e, destes, 14,02% possuíam mordida aberta. Com relação à escolaridade, a maior parte das mães (55,86%) e dos pais (50,08%) foi igual ou superior ao Ensino Fundamental II Completo. A sucção digital foi comum em 6,73% das crianças e 10,39% faziam sucção de chupeta. Foram identificados, como fatores de proteção à mordida aberta, a escolaridade do pai maior ou igual ao Ensino Fundamental II completo (RP= 0,62 IC= 0,41-0,95) e a onicofagia (RP= 0,34 IC= 0,21-0,56). Como fatores de risco, identificaram-se o uso de chupeta (RP= 17,98 IC= 10,91-29,62) e a sucção digital (RP= 11,04 IC= 6,0-20,32).

Conclusão

Medidas educativas direcionadas aos pais e responsáveis se fazem essenciais para a prevenção do desenvolvimento de hábitos deletérios nos pré-escolares. Outros estudos são necessários a fim de aprofundar o entendimento sobre os fatores de proteção identificados neste estudo.

Descritores:  Mordida aberta; pré-escolar; epidemiologia

Abstract

Introduction

The previous open bite is one of the most frequent types of malocclusions in preschoolers, being considered one of the most difficult occlusal problems to treat, mainly due to its multifactorial etiology and its intimate relationship with deleterious oral habits.

Objective

Identify the prevalence of anterior open bite in preschoolers in Salvador-BA as well as factors potentially associated with it.

Material and method

This is a cross-sectional study of 1577 preschool children (36 to 71 months) who attended municipal public daycare centers in Salvador-BA.

Result

The children's average age was approximately 54 months. Most were male (50.29%). The study population was predominantly composed of blacks and browns (92.02%). The prevalence of malocclusion was 40.46%, of which 14.02% of these children had an open bite. Regarding schooling, most mothers (55.86%) and fathers (50.08%) were equal to or higher than complete primary school. The digital sucking was common in 6.73% of the children and 10.39% used pacifiers. As protective factors for open bite were found the father's education level ≥ 1st complete degree (PR = 0.62 CI = 0.41-0.95) and nail-biting (PR = 0.34 CI = 0.21-0.56). As risk factors were found the use of pacifiers (PR = 17.98 CI = 10.91-29.62) and digital suction (PR = 11.04 CI = 6.0-20.32).

Conclusion

Educational measures aimed at parents and guardians are essential to prevent the development of harmful habits in preschoolers. Other studies are needed for in order to deepen the understanding of the identified protection factors in this study.

Descriptors:  Open bite; preschool; epidemiology

INTRODUÇÃO

Entende-se a má-oclusão como um desarranjo no equilíbrio dental e/ou esquelético em posição de repouso e durante a mastigação e/ou a fonação. Tem consequências funcionais, estéticas e psicológicas, e trata-se de um problema de saúde pública quando em grande magnitude ou gravidade, e frequentemente acomete crianças em idade pré-escolar1. Fatores genéticos, ambientais e sociais estão relacionados com a etiologia da mesma2.

A mordida aberta anterior é um dos tipos de má-oclusão mais frequentes em pré-escolares3. Ela consiste num valor negativo para o trespasse vertical entre as incisais dos dentes da arcada superior e da arcada inferior4, e é considerada um dos problemas oclusais mais difíceis de tratar, principalmente por sua etiologia multifatorial e sua íntima relação com hábitos bucais deletérios4,5.

Os resultados apresentados no SB Brasil 2010 trazem uma prevalência de mordida aberta aos 5 anos de 12,1%. Esse valor possui variações entre regiões do Brasil e, na literatura, esta prevalência varia de 8% a 21%1,3,6-9.

Os hábitos bucais de sucção não nutritiva, como o uso de chupetas e a sucção digital, são os fatores etiológicos mais comumente associados com a prevalência da mordida aberta anterior. Estes podem resultar em alterações neuromusculares e também interferir no desenvolvimento craniofacial3,10,11. Acredita-se que a criança que realiza sucção de chupeta de quatro a seis horas diariamente poderá ter movimentação dental significativa. O ato da sucção tem um papel psicológico muito significante para crianças, cujas demandas emocionais são supridas12. Ademais, existe a hipótese de que a mordida aberta pode favorecer o desenvolvimento de outros hábitos prejudiciais, como a superposição lingual13.

Achados em literatura sugerem que hábitos parafuncionais, como a onicofagia, podem se relacionar com o aparecimento de más-oclusões e complicações musculares e articulares14. Outros hábitos, como a respiração bucal, e a função ou o tamanho anormal da língua também podem atuar como fatores etiológicos e gerar a mordida aberta4.

Para além disso, fatores socioeconômicos podem exercer influência no desenvolvimento desse tipo de má-oclusão, com o favorecimento na adoção de hábitos de sucção deletérios3. Contudo, relatos controversos a respeito da influência dos fatores socioeconômicos coexistem em literatura.

Apesar de ser um hábito de sucção, nesse caso nutritiva, a amamentação viabiliza o correto desenvolvimento craniofacial, tanto dentário como neuromuscular, ao estimular corretamente os tecidos. Isso faz do hábito um potencial fator de proteção para o desenvolvimento da mordida aberta4.

Acredita-se na tendência à autocorreção da mordida aberta anterior após a transição da dentição decídua para a permanente1,5. Esta é favorecida a partir do momento em que o hábito que a causou é removido. Contudo, quanto mais tardio o abandono do hábito, mais complexa se torna a correção4,13. Salienta-se que a gravidade da má-oclusão se relaciona estreitamente com a tríade de Graber, em que duração, intensidade e frequência do hábito deletério interagem13.

Neste sentido, o objetivo deste estudo foi identificar a prevalência de mordida aberta anterior nos pré-escolares de Salvador-BA, bem como fatores potencialmente associados à mesma.

METODOLOGIA

Desenvolveu-se um estudo de corte transversal em 1.577 crianças na faixa etária pré-escolar (36 a 71 meses), que frequentavam creches públicas municipais de Salvador-BA. Analisou-se a presença de agravos bucais, entre os quais a má-oclusão. A coleta ocorreu com a participação de oito pessoas − professoras e estudantes de graduação da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia (FOUFBA), devidamente treinados e calibrados, e foi realizada de setembro de 2018 a fevereiro de 2019, por meio de entrevista individual dos pais/ responsáveis a respeito de aspectos sociodemográficos e comportamentais da família e da criança, e de exame bucal das crianças, com o auxílio de espátula de madeira e luz natural, e os devidos equipamentos de proteção individual. Todos os responsáveis autorizaram a participação na pesquisa por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Do questionário e exame bucal, as variáveis utilizadas neste estudo foram (Quadro 1):

Quadro 1 Classificação das variáveis analisadas no questionário aplicado aos responsáveis e no exame bucal das crianças Salvador-BA, 2018-2019 

VARIÁVEIS SOCIODEMOGRÁFICAS CATEGORIZAÇÃO
Idade Em meses
Sexo 0-Masculino 1-Feminino
Cor da pele 1-Amarelo 2-Branco 3-Negro 4-Pardo 5-Indígena 9-Sem registro
Escolaridade 0-Analfabeto 1-Alfabetizado 2-Fundamental incompleto 3-Fundamental Completo 4-Ensino Médio incompleto 5- Ensino Médio completo 6-Superior incompleto 7-Superior completo 8-Pós-graduação 9-Não Sabe
Com quantas pessoas a criança mora Quantidade
Quantos cômodos tem a casa Quantidade
Como é a casa onde a criança mora 1-Alvenaria 2-Barraco 3-Apartamento 9-Sem registro
Gestação 1-Planejada 2-Casual 9-Sem registro
Pré-natal 0-Não 1-Sim 9-Sem Registro
Durante a gestação, a mãe teve alguma doença 0-Não 1-Sim 9-Sem Registro (Se sim, especifica-se por extenso)
Em que local a criança nasceu 1-Casa 2-Hospital público 3-Hospital particular 9-Sem Registro
Tipo de parto 1-Normal 2-Cesáreo 3-Fórceps 9-Sem Registro
Tempo de nascimento 1-A termo 2-Prematura 3-Pós-termo 9-Sem Registro
COMPORTAMENTAIS CATEGORIZAÇÃO
A criança chorou ao nascer 0-Não 1-Sim 9-Sem registro
A criança ficou roxa 0-Não 1-Sim 9-Sem registro
A criança precisou de internação 0-Não 1-Sim 9-Sem registro (Se sim, especifica-se o motivo)
Até que idade foi amamentada Em meses
A criança range os dentes enquanto dorme 0-Não 1-Sim 9-Sem registro
A criança chupa chupeta 0-Não 1-Sim 9-Sem registro
A criança chupa dedo 0-Não 1-Sim 9-Sem registro
A criança morde objetos 0-Não 1-Sim 9-Sem registro
Alimentação equilibrada 0-Não 1-Sim 9-Sem registro
A criança tem alguma doença 0-Não 1-Sim 9-Sem registro (Se sim, especifica-se a doença)
VARIÁVEIS EM EXAME BUCAL CATEGORIZAÇÃO
Má-oclusão 0-Normal 1-Leve 2-Moderada 3-Severa 9-Sem informação
Sobremordida 0-Normal 1-Reduzida 2-Aberta 3-Profunda 9-Sem informação

Elaboração própria.

A má-oclusão também foi analisada, além da mordida aberta anterior. Considerou-se, para este estudo, a variável dependente presença de mordida aberta anterior.

Procedeu-se à digitação das informações coletadas em um banco de dados no Excel e, para análise estatística, utilizou-se o programa MINITAB14. Realizaram-se análises descritivas das variáveis categóricas e contínuas, assim como uma análise exploratória em busca de potenciais fatores associados à mordida aberta.

Realizou-se o teste do qui-quadrado, com um nível de significância de 5%, com o propósito de identificar variáveis associadas à mordida aberta anterior. Após isso, realizou-se uma análise exploratória bi e multivariada com a finalidade de estabelecer as variáveis de risco ou proteção, e a razão de risco para a mordida-aberta em crianças na faixa etária de 36-71 meses. Consideraram-se relevantes as variáveis com nível de significância inferior a 0,20 no modelo bivariado.

A análise de regressão logística multivariada foi realizada através da técnica stepwise, segundo o modelo de regressão de Poison, com intervalo de confiança de 95%.

RESULTADO

Participaram do estudo 1.577 crianças em idade pré-escolar, com média de idade de aproximadamente 54 meses e desvio padrão de 10,8 meses. A maioria pertencia ao sexo masculino (50,29%). A população de estudo foi predominantemente composta por negros e pardos (92,02%). A maioria dos pais (52,77%) tinham até 35 anos e 54,70% das mães tinham até 32 anos. Com relação à escolaridade, a maior parte das mães (55,86%) e pais (50,08%) apresentou formação igual ou superior ao Primeiro Grau completo (Tabela 1).

Tratando-se da moradia, 79,60% das crianças morvaam em casa de alvenaria ou barraco, e 76,94% delas moravam em casas secas. Dentre os pré-escolares do estudo, 77,68% conviviam com até quatro pessoas e 75,87% habitavam em casas com até quatro cômodos; 62,40% dos pré-escolares nasceram de gestações não planejadas e apenas 3,73% do total de mães não realizou pré-natal. A maioria das mães (85%) não apresentou alguma doença durante a gestação, realizando o parto normal (57,3%) em tempo adequado de nascimento (80,34%). Ao nascer, 89,69% das crianças choraram, 12,3% ficaram roxas e 19,71% precisaram de internação (Tabela 1).

Tabela 1 Caracterização da população de estudo − pré-escolares de Salvador-BA, 2018 (n=1.577) 

n %
Sexo
Masculino 793 50,29
Feminino 784 49,71
Raça
Branca, Amarela e Indígena 115 7,98
Negra e Parda 1326 92,02
Idade da criança
Até 54 meses 829 52,57
Acima de 54 meses 748 47,43
Idade da mãe
Até 32 anos 792 54,70
Acima de 32 anos 656 45,30
Idade do pai
Até 35 anos 772 52,77
Acima de 35 anos 691 47,23
Escolaridade do pai
Até Ensino Fundamental II incompleto 633 49,92
A partir do Ensino Fundamental II completo 635 50,08
Escolaridade da mãe
Até Ensino Fundamental II incompleto 637 44,14
A partir do Ensino Fundamental II completo 806 55,86
Tipo de Casa
Alvenaria/Barraco 991 79,60
Apartamento 254 20,40
Com quantas pessoas mora
Até 4 pessoas 1176 77,68
Mais de 4 pessoas 338 22,32
Cômodos da casa
Até 4 cômodos 1116 75,87
Mais de 4 cômodos 355 24,13
A casa é
Úmida 295 23,06
Seca 984 76,94
Gestação
Planejada 540 37,60
Não Planejada 896 62,40
Pré-natal
Sim 1419 96,27
Não 55 3,73
Mãe teve doença na gestação
Sim 224 15,00
Não 1269 85,00
Local de Nascimento
Casa/Hospital particular 271 17,69
Hospital público 1261 82,31
Tipo de parto
Normal/Fórceps 867 57,80
Cesáreo 633 42,20
Tempo de nascimento
A termo/ Pós-termo 1175 85,89
Prematura 193 14,11
Criança chorou ao nascer
Sim 1314 89,69
Não 151 10,31
Criança ficou roxa ao nascer
Sim 144 12,30
Não 1027 87,70
Criança necessitou de internação
Sim 300 19,71
Não 1222 80,29

Elaboração própria.

Na população de estudo, a prevalência de má-oclusão foi de 40,46% e, dentre estes, 14,02% possuíam mordida aberta.

No que concerne aos hábitos, a maioria das crianças foi amamentada até 12 meses de idade. A sucção digital era realizada por 6,73% dos pré-escolares e 10,39% faziam o uso de chupetas. A maioria das crianças (69,43%) não possuía o hábito de morder objetos e 26,14% rangiam os dentes (Tabela 2).

Tabela 2 Hábitos deletérios e condições bucais em pré-escolares de Salvador-BA, 2018 (n=1577) 

n %
Idade de amamentação
Até 12 meses 810 56,60
Acima de 12 meses 621 43,40
Sucção Digital
Sim 81 6,73
Não 1123 93,27
Uso de Chupeta
Sim 154 10,39
Não 1328 89,61
Range os Dentes
Sim 377 26,14
Não 1065 73,86
Morde Objetos
Sim 372 30,57
Não 845 69,43

Elaboração própria.

Na Tabela 3, foi feita a distribuição das variáveis de interesse segundo a presença e ausência de mordida aberta nos pré-escolares. As variáveis idade da criança, escolaridade do pai, escolaridade da mãe, cômodos da casa, gestação, local de nascimento, idade de amamentação, usa chupeta, sucção digital e rói unha mostraram-se relevantes com um p-valor inferior a 0,20 e foram exploratoriamente levadas ao modelo multivariado final.

Tabela 3 Distribuição das variáveis de interesse segundo a presença de Mordida Aberta em pré-escolares de Salvador-BA, 2018 (n=1577) 

Mordida Aberta
Ausente Presente P-valor
n % n %
Sexo
Masculino 687 50,93 105 47,73 0,379
Feminino 662 49,07 115 52,27
Raça
Branca, Amarela e Indígena 99 7,98 16 8,29 0,882
Negra e Parda 1142 92,02 177 91,71
Idade da criança
Até 54 meses 693 51,37 134 60,91 0,009
Acima de 54 meses 656 48,63 86 39,09
Idade do pai
Até 35 anos 661 53,05 107 51,20 0,619
Acima de 35 anos 585 46,95 102 48,80
Idade da mãe
Até 32 anos 671 54,38 120 58,25 0,301
Acima de 32 anos 563 45,62 86 41,75
Escolaridade do pai
Até o Ensino Fundamental II completo 527 48,66 102 57,63 0,027
A partir do Ensino Fundamental II completo 556 51,34 75 42,37
Escolaridade da mãe
Até Ensino Fundamental II completo 531 43,03 104 51,74 0,021
A partir do Ensino Fundamental II completo 703 56,97 97 48,26
Com quantas pessoas mora
Até 4 pessoas 1007 77,76 161 76,30 0,638
Mais de 4 pessoas 288 22,24 50 22,44
Cômodos da casa
Até 4 cômodos 943 75,02 168 81,55 0,042
Acima de 4 cômodos 314 24,98 38 18,45
Tipo de casa
Alvenaria/Barraco 850 79,29 137 83,03 0,266
Apartamento 222 20,71 28 16,97
A casa é
Úmida 249 22,76 44 24,31 0,646
Seca 845 77,24 137 75,69
Gestação
Planejada 478 38,77 57 29,08 0,009
Não Planejada 755 61,23 139 70,92
Pré Natal
Sim 1218 96,28 193 96,02 0,854
Não 47 3,72 8 3,98
Doença na gestação
Sim 187 14,63 37 17,87 0,227
Não 1091 85,37 170 82,13
Local de Nascimento
Casa/Hospital particular 237 18,13 31 14,29 0,168
Hospital público 1070 81,87 186 85,71
Tipo de Parto
Normal/Fórceps 742 58,01 123 57,75 0,942
Cesáreo 537 41,99 90 42,25
Tempo de nascimento
Prematuro 161 13,84 31 15,74 0,481
A termo/Pós-termo 1002 86,16 166 84,26
A criança chorou ao nascer
Sim 1127 89,87 180 88,24 0,477
Não 127 10,13 24 11,76
A criança ficou roxa
Sim 119 11,92 24 14,46 0,357
Não 879 88,08 142 85,54
A criança foi internada
Sim 252 19,38 44 20,56
Não 1048 80,62 170 79,44 0,688
Idade de amamentação
Até 12 meses 658 54,07 149 72,33
Acima de 12 meses 559 45,93 57 27,67 0,00
Range os dentes
Sim 328 26,62 48 23,65 0,371
Não 904 73,38 155 76,35
Usa chupeta
Sim 65 94,87 88 42,72 0,00
Não 1203 5,13 118 57,28
Sucção digital
Sim 46 4,51 35 20,00 0,00
Não 975 95,49 140 80,00
Rói unha
Sim 487 38,80 43 21,29 0,00
Não 768 61,20 159 78,71
Morde objetos
Sim 315 30,67 54 29,67 0,787
Não 712 69,33 128 70,33

Elaboração própria.

O resultado final das variáveis associadas à mordida aberta foi: escolaridade do pai ≤ Ensino Fundamental II completo, usa chupeta, sucção digital e rói unha. Houve associações positivas como potenciais fatores de proteção para a não ocorrência de mordida aberta: escolaridade do pai ≥ 1º Grau completo com chance para o desenvolvimento dessa má-oclusão, sendo 0,38 vez menor (IC 95% 0,41-0,95) e rói unha com chance 0,66 vez menor (IC 95% 0,21-0,56) (P-valor = 0,00). Ademais, usa chupeta apresenta risco 18 vezes maior (IC 95% 10,91-29,62) para mordida aberta e sucção digital com risco 11 vezes maior (IC 95% 6,0-20,32). Estas foram reconhecidas como variáveis potenciais de risco, com associação significativa com a mordida aberta (P-valor = 0,00).

DISCUSSÃO

No estudo, identificou-se a prevalência de 14,02% de mordida aberta. Foi observada a associação do uso de chupeta e da sucção digital com a maior ocorrência da má-oclusão estudada. Além disso, registrou-se a associação negativa com maior escolaridade do pai e a presença de onicofagia.

Tratando-se dos hábitos de sucção não nutritiva, no presente estudo, o uso de chupetas foi identificado como um dos maiores fatores de risco para o desenvolvimento da mordida aberta. A sucção de chupeta não só está associada com a mordida aberta como pode levar ao abandono precoce da amamentação, a qual poderia, por sua vez, atuar como proteção a não adoção dos hábitos de sucção não nutritiva2,3,15. Quando sustentado, o hábito possui maior potencial danoso e para aparecimento da má-oclusão16. O aumento no uso de chupetas pode ser relacionado com fatores socioculturais e o modo de vida moderno8.

Por sua vez, a sucção digital demonstrou ser outro fator de risco para a mordida aberta. Associadamente, esse mesmo achado é documentado pela literatura3. É entendida como o hábito mais difícil de ser abandonado se comparado com a sucção de chupeta11. Ademais, ela pode gerar anormalidades na erupção dentária e alterar o desenvolvimento esquelético, gerando também a mordida aberta2,15.

No atual estudo, o uso de chupeta demonstrou ser mais prejudicial que a sucção digital. De modo geral, independentemente do hábito, as crianças que possuem hábitos de sucção não nutritiva geralmente demonstram maior prevalência de mordida aberta15.

Ao tratar-se de potenciais fatores de proteção ao desenvolvimento da mordida aberta, a escolaridade do pai foi um fator identificado. Entende-se que a mordida aberta está associada com aspectos sociodemográficos e, mais fortemente, com aqueles que se encontram em um baixo nível econômico. Além disso, fatores sociodemográficos podem influenciar na adoção de hábitos deletérios de sucção3. Porém, alguns achados em literatura não identificaram associação significante entre a mordida aberta e o nível de educação dos pais ou o nível econômico familiar8,17. Assim, são necessários mais estudos que avaliem a associação da mordida aberta com aspectos sociodemográficos.

No que concerne à onicofagia, foi um hábito identificado como potencial fator de proteção à mordida aberta. Consiste em um dos hábitos parafuncionais mais prevalentes, sendo relacionado com o estado emocional14,15. Contudo, achados em literatura associam o hábito com o desenvolvimento de más-oclusões14. Sua proteção pode acontecer devido à necessidade de toque entre as incisais dos dentes anteriores com a borda da unha para o estabelecimento do hábito, inviabilizando assim a adoção de hábitos como a sucção digital e o uso da chupeta.

Para além dos achados do presente estudo, deve-se levar em consideração a influência de aspectos hereditários e genéticos no desenvolvimento da má-oclusão. A ausência de resposta no questionário aplicado pode levar à subestimação de variáveis, o que se constitui como uma limitação do estudo. Além disso, deve-se considerar que características culturais de cada região podem interferir nos hábitos da população.

Salienta-se que medidas preventivas e consultas regulares com o cirurgião-dentista podem auxiliar no tratamento e evitar agravos ou aparecimento da mordida aberta. Os dados identificados pelo estudo poderão servir de base para o estabelecimento de medidas de intervenção em controle e prevenção da mordida aberta na faixa etária pré-escolar no município de Salvador-BA e, consequentemente, atuarão em sentido de redução da prevalência da mordida aberta em crianças.

CONCLUSÃO

Em Salvador-BA, os pré-escolares apresentam prevalência de 14,02% de mordida aberta. Além disso, foram identificadas variáveis associadas à má-oclusão com significância estatística. Como fatores de risco, o hábito do uso de chupeta expõe o pré-escolar a um risco aproximadamente 18 vezes (IC 95% 10,91-29,62) maior de desenvolver a mordida aberta, seguido da sucção digital, que apresenta um risco 11 vezes (IC 95% 6,0-20,32) maior no desenvolvimento da má-oclusão estudada. Ao tratarmos dos fatores de proteção, possuir o hábito de onicofagia representa uma propensão 0,66 vez (IC 95% 0,21-0,56) menor de desenvolver a mordida aberta, seguida da escolaridade do pai a partir do Ensino Fundamental II completo, em que a propensão para o desenvolvimento dessa má-oclusão é 0,38 vez (IC 95% 0,41-0,95) menor. Dessa forma, medidas educativas direcionadas aos pais e responsáveis se fazem essenciais para a prevenção do desenvolvimento de hábitos deletérios nos pré-escolares. Ademais, outros estudos são necessários a fim de aprofundar o entendimento sobre os fatores de proteção identificados.

Como citar: Carvalho AA, Almeida TF, Cangussu MCT. Prevalência de mordida aberta e fatores associados em pré-escolares de Salvador-BA em 2019. Rev Odontol UNESP. 2020;49:e20200068. https://doi.org/10.1590/1807-2577.06820

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Recebido: 07 de Outubro de 2020; Aceito: 18 de Novembro de 2020

CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

*AUTOR PARA CORRESPONDÊNCIA Maria Cristina Teixeira Cangussu, UFBA – Universidade Federal da Bahia, Rua Araújo Pinho, 62, Canela, 6º andar, 41110-150 Salvador - BA, Brasil, e-mail: cangussu@ufba.br

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