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Revista Brasileira de Educação Física e Esporte

Print version ISSN 1807-5509

Rev. bras. educ. fís. esporte (Impr.) vol.25 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2011

https://doi.org/10.1590/S1807-55092011000100014 

Agregação familiar na adiposidade do tronco: um estudo em famílias nucleares portuguesas

 

Familial aggregation on trunkal fat: a study with Portuguese families

 

 

Michele SouzaI; Raquel ChavesI; Daniel SantosI; Rogério FerminoII; Rui GargantaI; André SeabraI; José MaiaI

IFaculdade de Desporto, Universidade do Porto - Portugal
IIUniversidade Federal do Paraná e Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Endereço

 

 


RESUMO

Este estudo teve como objetivos: 1) identificar a presença indireta de transmissão vertical de fatores genéticos entre progenitores e descendentes em dois fenótipos da adiposidade do tronco (AT); 2) estimar a contribuição dos fatores genéticos e ambientais responsáveis pela variabilidade fenotípica da adiposidade do tronco relativa (ATrel) e absoluta (ATabs) em termos populacionais. A amostra foi constituída por 422 indivíduos pertencentes a 107 famílias nucleares portuguesas. Os fenótipos da AT foram avaliados com um aparelho de BIA da marca Tanita® modelo BC- 418MA. A estrutura familiar e a análise do comportamento genérico das variáveis entre diferentes membros familiares foram realizadas no "software" PEDSTATS. Para calcular a correlação entre familiares foi utilizado o módulo FCOR do "software" de Epidemiologia Genética S.A.G.E 5.3. As estimativas de heritabilidade (h2) foram realizadas através do método de verossimilhança implementado no "software" SOLAR. Os valores dos coeficientes de correlação entre os diferentes graus de parentesco foram baixos a moderados para ATrel (0,205 < r < 0,738) e ATabs (0,199 < r < 0,782). Os fatores genéticos explicaram 50 e 47% da variação dos fenótipos da ATrel e ATabs, respectivamente. Esses resultados: 1) indicam uma forte agregação familiar na AT de famílias nucleares portuguesas; 2) contribuem para estudos avançados de Epidemiologia Genética e 3) ressaltam a necessidade da implementação de intervenções físicas e nutricionais direcionadas a toda família.

Unitermos: Agregação familiar; Heritabilidade; Adiposidade do tronco; Epidemiologia genética.


ABSTRACT

The aims of this study was to 1) identify the presence of indirect transmission of genetic factors between parents and children in two phenotypes of trunk fat, and 2) estimate the contribution of genetic and environmental factors responsible for phenotypic variation on relative trunk fat and absolute trunk fat. The sample consisted of 422 individuals from 107 Portuguese nuclear families. Trunk fat phenotypes were measured with a bioelectric impedance device Tanita ® model BC-418MA. Family structure and analysis of the generic behavior of the variables between different family members were verified in PEDSTATS software. Familiar correlations were computed in the FCOR module of SAGE 5.3 software. Heritability estimates (h2) were performed using the likelihood method implemented in SOLAR software. Correlation coefficients between relatives were low to moderate on relative trunk fat (0.205 < r < 0.738) and absolute trunk fat (0.199 < r < 0.782). Genetic factors explained 50 and 47% of the variation in phenotypes of relative and absolute trunk fat, respectively. These results 1) indicate a strong familial aggregation on trunk fat of Portuguese nuclear families, 2) contribute to advanced studies in Genetic Epidemiology 3) and emphasize the need for physical and nutritional interventions directed to all family members.

Uniterms: Familial aggregation; Heritability; Trunk fat; Genetic epidemiology.


 

 

Introdução

Um padrão marcadamente andróide ou distribuição central de tecido adiposo representa um problema clínico sério com implicações na saúde pública por induzir riscos diferenciados na manifestação de doenças crônicas, quando comparado com outras formas de deposição de gordura corporal (DAVEY, RAMACHANDRAN, SNEHALATHA, HITMAN & MCKEIGUE, 2000; KATZMARZYK & BOUCHARD, 2005; PÉRUSSE, DESPRES, LEMIEUX, RICE, RAO & BOUCHARD, 1996; RICE & BORECKI, 2001; WALLEY, BLAKEMORE & FROGUEL, 2006). Por exemplo, indivíduos com maior adiposidade do tronco (AT) têm maior predisposição para desenvolver doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos (FERMINO, SEABRA, GARGANTA, VALDIVIA & MAIA, 2008; PÉRUSSE, RICE, PROVINCE, GAGNON, LEON, SKINNER, WILMORE, RAO & BOUCHARD, 2000; PÉRUSSE et al., 1996; RICE, DESPRES, DAW, GAGNON, BORECKI, PÉRUSSE, LEON, SKINNER, WILMORE, RAO & BOUCHARD, 1997; WU, HESHKA, WANG, PIERSON JUNIOR, HEYMSFIELD, LAFERRERE, WANG, ALBU, PI-SUNYER & GALLAGHER, 2007). Estudos populacionais sugerem que a AT apresenta, atualmente, elevada prevalência em diferentes estratos etários e tende a aumentar com a idade (SHEN, PUNYANITYA, SILVA, CHEN, GALLAGHER, SARDINHA, ALLISON & HEYMSFIELD, 2009; WU et al., 2007), acarretando um elevado impacto financeiro para a sociedade, devido aos altos custos (diretos e indiretos) gerados por essa situação de morbilidade (KATZMARZYK & JANSSEN, 2004; LEAL, LUENGO-FERNÁNDEZ, GRAY, PETERSEN & RAYNER, 2006; LLOYD-JONES, ADAMS, CARNETHON, DE SIMONE, FERGUSON, FLEGAL, FORD, FUEE, GO, GREENLUND, HAASE et al., 2009).

A interação entre o ambiente e a herança genética, aliada ao estilo de vida sedentário, tem implicações importantes na explicação da variabilidade interindividual do acúmulo de gordura corporal central (BELL, WALLEY & FROGUEL, 2005; MARTI, MORENO-ALIAGA, HEBEBRAND & MARTINEZ, 2004). Nos últimos anos, estudos no domínio da Epidemiologia Genética têm indicado que alguns indivíduos são mais suscetíveis a mudanças no padrão de distribuição de AT, sugerindo que os fatores genéticos desempenham uma função relevante na etiologia desse fenótipo poligênico e multifatorial (FERMINO et al., 2008). Pesquisas com delineamento familiar mostraram que tanto os genes como o ambiente comumente partilhado contribuem para a agregação familiar (AgF) na adiposidade relativa (ATrel) e absoluta do tronco (ATabs), estimando que cerca de 31 (BUTTE, CAI, COLE & COMUZZIE, 2006; BUTTE, COMUZZIE, COLE, MEHTA, CAI, TEJERO, BASTARRACHEA & SMITH, 2005) a 64% (HSU, LENCHIK, NICKLAS, LOHMAN, REGISTER, MYCHALECKYJ, LANGEFELD, FREEDMAN, BOWDEN & CARR, 2005) da variância fenotípica total é devido à influência dos fatores genéticos.

A estimativa precisa da quantidade de gordura central tem sido efetuada a partir de técnicas, indiretas e duplamente indiretas, que variam em termos de validade, fidedignidade e objetividade (MONTEIRO & FERNANDES FILHO, 2002). Para a AT, os indicadores mais utilizados em pesquisa epidemiológica de larga escala amostral são o perímetro da cintura e as pregas de adiposidade subcutânea. Mais recentemente, a impedância bioelétrica (BIA) passou a ser um instrumento útil devido ao fato de fornecer informação segmentar do corpo, além de ser relativamente mais barata que os métodos laboratoriais, como a ressonância magnética nuclear, tomografia computadorizada (TC) e densitometria computadorizada por absorciometria radiológica de dupla energia (DXA). Além disso, a BIA não é um método invasivo, tem fácil aplicação e portabilidade (JAFFRIN & MOREL, 2009; MONTEIRO & FERNANDES FILHO, 2002), a que se associa validade concorrente bem estabelecida, quando comparada à DXA (PIETROBELLI, RUBIANO, ST-ONGE & HEYMSFIELD, 2004).

Diversas pesquisas procuraram quantificar a influência dos fatores genéticos na AT, sendo que a maioria foi realizada na população americana (BUTTE et al., 2005, 2006; COMUZZIE, BLANGERO, MAHANEY, MITCHELL, STERN & MACCLUER, 1993; HSU et al., 2005; CHOH, DEMERATH, LEE, WILLIAMS, TOWNE, SIERVOGEL, COLE & CZERWINSKI, 2009), a partir de informação obtida com o DXA (BUTTE et al., 2005, 2006; CHOH et al., 2009; HSU et al., 2005) e medidas antropométricas (COMUZZIE et al., 1993; DAVEY et al., 2000; PÉRUSSE et al., 2000). O único estudo de Epidemiologia Genética em língua portuguesa, que conseguimos localizar, foi realizado por FERMINO et al. (2008) cujos fenótipos da composição corporal foram medidos com um aparelho de BIA. Não é de nosso conhecimento que no espaço lusófono haja estudos de Epidemiologia Genética sobre a AT. Daqui que os objetivos da presente pesquisa sejam os seguintes: 1) identificar a presença indireta de transmissão vertical de fatores genéticos entre progenitores e descendentes nos dois fenótipos da AT; 2) estimar a contribuição dos fatores genéticos e ambientais responsáveis pela variabilidade fenotípica da ATrel e ATabs, em termos populacionais.

 

Métodos

Amostra

Este estudo é de natureza transversal e sua amostragem foi efetuada com base no contato com escolas de diferentes distritos da região norte de Portugal. Foi enviada uma comunicação escrita a cada família convidando-a a participar no estudo. Todos assinaram o consentimento livre e informado e foram avaliados no período matutino e em jejum. A amostra foi constituída por 107 famílias nucleares (duas gerações), totalizando 422 indivíduos (214 progenitores - 40,9 ± 4,5 anos e 208 descendentes - 13,2 ± 3 anos); no entanto, face a problemas de informação omissa, o número total de sujeitos analisados foi de 381 (TABELA 1).

Procedimentos

Os fenótipos da AT foram avaliados com um aparelho de BIA da marca Tanita® modelo BC- 418MA (Tanita Corp., Tokyo, Japan). Esse instrumento realiza uma mensuração segmentar, fornecendo informações sobre cinco partes corporais (membros inferiores, membros superiores e tronco) por meio de oito eletrodos (quatro nas mãos e quatro nos pés). Do seu "output" constam valores corporais totais e segmentares da adiposidade relativa, absoluta, massa isenta de gordura, bem como outras variáveis. A estimativa da gordura absoluta do tronco tem em consideração a gordura total do corpo, enquanto a estimativa da gordura relativa é independente do total.

Foi também medida a altura, o peso e calculado o índice de massa corporal (IMC). A altura foi medida com um antropômetro portátil da marca Siber Hegner®, com precisão de 0,1 cm, segundo as referências de LOHMAN, ROCHE e MARTORELL (1988). O peso foi mensurado no mesmo aparelho de BIA, que possui uma precisão de 0,1 kg. O indivíduo deveria estar na posição antropométrica de referência, vestindo roupas leves e descalço (LOHMAN, ROCHE & MARTORELL, 1988). O IMC foi calculado pela razão entre a massa corporal e a altura ao quadrado, obtendo um valor final expresso em kg/m2.

Análise estatística

A análise exploratória dos dados foi realizada no "software" SPSS 17.0, com o propósito de verificar possíveis erros de entrada dos dados, presença de "outliers", normalidade das distribuições, bem como para calcular médias, desvios-padrão e amplitudes de variação. A verificação da estrutura familiar, bem como a análise do comportamento genérico das variáveis entre os diferentes membros familiares foram realizadas no "software" Pedstats. Para identificar a AgF, através dos coeficientes de correlação, foi utilizado o módulo FCOR do "software" de Epidemiologia Genética S.A.G.E 5.3. As estimativas de heritabilidade (h2) foram obtidas no "software SOLAR 4.0, através do método de máxima verossimilhança. Primeiramente, é formulado um modelo esporádico em que se assume uma ausência de covariância entre familiares para os fenótipos avaliados. Um segundo modelo é estabelecido, designado de poligênico. Os valores de ajustamento desses modelos (-2 "Loglikelihood") são contrastados e suas diferenças apresentam uma distribuição aproximada ao qui-quadrado com 1 grau de liberdade. Espera-se que o valor do -2 "Loglikelihood" do segundo modelo (poligênico) seja menor que do primeiro e que o resultado da estatística do qui-quadrado seja significativo. Os dois fenótipos da AT foram ajustados às covariáveis sexo, idade, sexoIidade, idade2; sexoIidade2 e IMC. Foi adotado o nível de significância de 0,05.

 

Resultados

A TABELA 1 apresenta a estatística descritiva das características dos sujeitos da amostra. Em média, os progenitores apresentaram valores de IMC semelhantes, situados na zona do sobrepeso (IMC > 25 kg/m2). Entre os descendentes, os valores médios de IMC revelam que os filhos e filhas são normoponderais para a sua idade (COLE, BELLIZZI, FLEGAL & DIETZ, 2000). Na gordura corporal (GC), relativa e absoluta, as mães apresentam valores médios maiores que os pais, bem como, as filhas maiores que os filhos. Na ATrel as mães tiveram valores médios mais elevados que os pais, 28,9 e 23,7%, respectivamente. Esse dimorfismo também foi verificado entre os descendentes, onde as meninas apresentaram, em média, 5% a mais de AT que os meninos. Na ATabs, os progenitores tiveram valores médios semelhantes; as filhas acumulam mais quilogramas de gordura no tronco do que os filhos.

As correlações entre os familiares, para os fenótipos da AT, estão na TABELA 2. Entre os cônjugues, o valor do coeficiente de correlação (r) da ATabs foi moderado (r = 0,376) e estatisticamente significativo. Na relação entre progenitores e descendentes, as correlações para ATrel situaram-se entre 0,205 e 0,485, sendo o valor mais expressivo encontrado na relação pai-filho. Para a ATabs todas as correlações foram positivas; as relações mãe-filho (r = 0,445) e pai-filho (r = 0,688) foram as que apresentaram valores mais altos. Entre os descendentes, as correlações entre irmão-irmão foram elevadas tanto para ATrel como ATabs (0,738 e 0,782), respectivamente.

 

 

As estimativas de h2 foram moderadas e estatisticamente significativas para os dois fenótipos da AT (ATrel = 0,50 e ATabs = 0,47). As covariáveis explicaram 48 e 56% da variância total da ATrel e ATabs, respectivamente (TABELA 3).

 

 

Discussão

O propósito fundamental deste estudo foi identificar a presença indireta de transmissão vertical de fatores genéticos e estimar a contribuição desses fatores, bem como dos ambientais, na variabilidade da ATrel e ATabs medidos com um aparelho de BIA. Como mencionado anteriormente, optamos por este método por sua fácil aplicação e portabilidade, bem como validade concorrente bem estabelecida com o DXA, que embora seja um método "gold standard" na avaliação da composição corporal, também apresenta alguns fatores limitantes, resultantes das suas equações e pressupostos de avaliação que diferem entre os fabricantes e "software" utilizado para a análise (BROWNBILL & ILICH, 2005; HELBA & BINKOVITZ, 2009).

De maneira geral, os resultados obtidos da GC e do IMC dos progenitores e descendentes foram semelhantes aos reportados em pesquisas prévias (DAVEY et al., 2000; BUTTE et al., 2005, 2006; FERMINO et al., 2008; HSU et al., 2005). Para a ATrel, indivíduos do sexo feminino, de ambas as gerações, apresentaram maior porcentagem de gordura, tal como sugerido anteriormente no estudo com 244 famílias nucleares americanas (HSU et al., 2005), mas não corroboradas na pesquisa canadense de PÉRUSSE et al. (2000). Não foram encontradas investigações sobre a ATabs. É importante salientar que ao contrastar as médias da GCabs com ATabs dos progenitores, os pais demonstraram tendência ao padrão andróide de distribuição de gordura, e as mães ao padrão ginóide. Sendo assim, eles podem tornar-se mais suscetíveis ao desenvolvimento de distúrbios metabólicos, bem como à manifestação de doenças crônicas, sobretudo as de origem cardiovascular (KATZMARZYK & BOUCHARD, 2005; RICE & BORECKI, 2001; WALLEY, BLAKEMORE & FROGUEL, 2006).

As pesquisas de AgF da AT procuram quantificar a magnitude da influência dos fatores genéticos na variação populacional num dado fenótipo. A estatística mais simples para estimar essa semelhança familiar é a correlação (r). O presente estudo mostra valores significativos entre 0,205 e 0,738 para ATrel; 0,199 e 0,782 para ATabs, nas oito correlações calculadas no seio familiar. Esses valores sugerem a presença de AgF na AT, embora com um padrão distinto de semelhança entre pares. A maior correlação foi verificada entre os irmãos, tanto para ATrel como ATabs, sugerindo influência clara dos fatores genéticos nesses traços. Os resultados obtidos entre os cônjuges foram baixos a moderados e expressam a importância do ambiente comumente partilhado, uma vez que não existe qualquer partilha de material genético entre eles.

PÉRUSSE et al. (2000) analisaram 99 famílias nucleares participantes do "HERITAGE Family Study" e, de forma geral, encontraram valores de r mais baixos para ATrel (r = 0,19-0,21), quando comparados com a presente pesquisa. No mesmo sentido, DAVEY et al. (2000) estudaram 1295 indivíduos indianos pertencentes a 300 famílias nucleares e verificaram correlações entre progenitores (r = 0,29), progenitores-descendentes (r = 0,20) e descendentes (r = 0,46), para ATrel. O valor reportado entre progenitores e descendentes foi semelhante ao encontrado na relação mãe-filho (r = 0,20), mas inferior à relação pai filho (r = 0,48) desta pesquisa. Em Portugal, um estudo com famílias nucleres de FERMINO et al. (2008) identificaram AgF nos diferentes fenótipos da composição corporal; as correlações positivas mais altas, para ATrel, foram entre pai-filho (r = 0,20), irmã-irmã (r = 0,22) e mãe-filha (r = 0,23), apresentando semelhança com o presente estudo apenas na relação mãe-filha.

O passo seguinte da AgF é estimar a magnitude dos efeitos genéticos (h2) a governar a variação encontrada nos fenótipos em apreço, que pode ser realizado pelo método de máxima verossimilhança (no pressuposto do fenótipo ter uma distribuição normal multivariada), ou pelo método de "Generalized Estimating Equations". Como a distribuição da AT é multinormal, as estimativas de h2 são precisas face à elevada eficiência da máxima verossimilhança.

Os resultados deste estudo mostram que os fatores genéticos podem explicar 50 e 47% da variação fenotípica total da ATrel e ATabs, respectivamente. Esses resultados indicam uma influência genética substancial nos fenótipos da obesidade central. Informações provenientes de investigações em Epidemiologia Genética são escassas na população portuguesa. Só tivemos acesso ao estudo de FERMINO et al. (2008), citado anteriormente, em que se estimou h2 de 35% para ATrel numa amostra semelhante a presente pesquisa. Estudos em outras populações apresentam, de modo geral, h2 baixa a moderada para ATrel, não havendo informações disponíveis sobre a ATabs. BUTTE et al. (2005, 2006) realizaram duas pesquisas nos EUA, com amostras semelhantes pertencentes ao "Viva La Familia Study" e constataram que os fatores genéticos explicavam 31% dos valores da ATrel. Um estudo realizado na população americana (COMUZZIE et al., 1993) e outro no Canadá (PÉRUSSE et al., 2000) reportaram estimativas de h2 semelhantes, 0,38 e 0,36, respectivamente. Mais recentemente, CHOH et al. (2009) verificaram AgF em 521 indivíduos americanos, com idades entre 18 e 86 anos e reportaram h2 de 35% para ATrel. Esse estudo também teve como objetivo averiguar a correlação genética (rg) entre fenótipos que marcam a obesidade central e atividade física esportiva. Para AT, essa correlação foi significativamente diferente de -1 (rg = - 0,36), indicando pleiotropia incompleta entre os dois traços, i.e., AT e atividade física esportiva são influenciadas, na mesma extensão, pelos mesmos genes; contudo, também apresentam bases genéticas únicas (DUREN, SHERWOOD, CZERWINSKI, CHUMLEA, LEE, DEMERATH, SUN, SIERVOGEL & TOWNE, 2008). Essa sugestão é importante, uma vez que induz a elaboração e aplicação de estratégias de intervenção de atividade física, visando uma maior e melhor sensibilização desses indivíduos, relativamente à prática esportiva. KAY e FIATARONE SINGH (2006), através de uma revisão sistemática de 37 estudos, concluíram que o exercicío físico é a intervenção mais efetiva para a redução da AT e gordura visceral em sujeitos com sobrepeso e obesidade. Nesse mesmo sentido, uma pesquisa recente (HUNTER, BROCK, BYRNE, CHANDLER-LANEY, DEL CORRAL & GOWER, 2009) com 97 mulheres constatou que entre essas, as que praticavam exercícios aeróbios e/ou de força não apresentaram, após um ano de acompanhamento, um aumento significativo de gordura central, principalmente visceral, quando comparadas às mulheres que não praticavam atividade física. Esses resultados sugerem que a suscetibilidade genética para a obesidade pode ser contornada, pelos menos em parte, pela adoção de um estilo de vida fisicamente ativo.

Todas as investigações supracitadas apresentaram estimativas de h2 inferior a do presente estudo, à exceção da pesquisa de HSU et al. (2005), cuja h2 foi de 63% para ATrel. Essa variabilidade dos resultados pode ser explicada, em parte, pelas características distintas de cada estudo, como por exemplo, a dimensão da amostra, composição das famílias (nucleares ou "pedigrees" extensos), idade, aspectos étnicos e culturais, entre outros fatores do estudo. Contudo, ainda que sejam consideradas as diferentes características das pesquisas, há que ser cauteloso na comparação direta das estimativas de h2; dado ser uma estimativa específica de cada população e contexto ambiental (RICE & BORECKI, 2001). No que concerne à composição das famílias, alguns autores (CHOH et al., 2009; RICE & BORECKI, 2001) salientam que um delineamento com famílias nucleares não estima, de maneira isolada, a contribuição dos fatores genéticos e ambientais, e que um estudo com "pedigrees" extensos permite calcular essas duas quantidades.

A identificação de AgF na AT representa a base para a realização de estudos mais avançados no domínio da Genética Molecular. Através das fases III e IV da Epidemiologia Genética é possível identificar regiões cromossômicas que possam conter genes candidatos, bem como mutações genéticas responsáveis pela variabilidade da AT. Não conseguimos localizar estudos de "linkage" para AT, somente para outros fenótipos da obesidade central, como a AV (RANKINEN, ZUBERI, CHAGNON, WEISNAGEL, ARGYROPOULOS, WALTS, PÉRUSSE & BOUCHARD, 2006). Entretanto, um estudo recente verificou associação entre um "single-nucleotide polymorphism" (SNP) do gene FTO com o acúmulo de AT (LOPEZ-BERMEJO, PETRY, DIAZ, SEBASTIANI, DE ZEGHER, DUNGER & IBANEZ, 2008). Ruth LOOS (2009), em um estudo de revisão sobre o progresso da investigação genética em obesidade, também referencia associação entre variações desse mesmo gene com diferentes expressões da obesidade. A autora salienta que apesar dos muitos anos de pesquisa, somente recentemente foi alcançado um maior sucesso na compreensão mais profunda da fisiopatologia desse fenótipo altamente complexo. Entretanto, Ruth Loos acredita que a grande dificuldade das descobertas a nível molecular reside na tradução dos conhecimentos em termos de saúde pública, sobretudo no esclarecimento do risco genético individual.

O presente estudo apresenta alguns pontos fortes: 1) situar-se no domínio da Epidemiologia Genética aplicada à AT; 2) ter uma amostra proveniente de um país lusófono (onde há a escassez de investigações semelhantes e por ser expectável a ocorrência de diferentes estimativas de efeitos genéticos); 3) utilizar um procedimento não invasivo e altamente fiável na estimação da AT (método de bioimpedância). Há, contudo, limitações que importa destacar: 1) ausência de consideração sobre os níveis de atividade física dos participantes da pesquisa; 2) hábitos nutricionais e, 3) a necessidade da presença de maior número de elementos em cada família (sentido vertical e horizontal) para estimar efeitos ambientais comuns.

Conclui-se que os resultados da presente pesquisa salientam a presença significativa de AgF nos fenótipos de AT de famílias nucleares portuguesas e contribuem para estudos futuros nas demais fases da Epidemiologia Genética. Ao mesmo tempo, sugerem a necessidade de implementação de propostas nutricionais e de atividade física dirigida a todos elementos da família. Nesses últimos, seria relevante pensar em estratégias de intervenções multifacetadas, de elevada adesão em atividades cujo dispêndio energético, moderado-a-elevado, fosse mais frequente e sistemático.

 

Agradecimentos

Trabalho financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) de Portugal com referência PTDC/DES/67569/2006.

 

Referências

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Endereço:
Michele Caroline de Souza
Laboratório de Cineantropometria e
Gabinete de Estatística Aplicada
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e-mail: mcsouza85@hotmail.com

Recebido para publicação: 04/02/2010
Revisado: 26/08/2010
Aceito: 29/10/2010

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