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Revista Brasileira de Educação Física e Esporte

Print version ISSN 1807-5509

Rev. bras. educ. fís. esporte (Impr.) vol.25 no.2 São Paulo Apr./June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1807-55092011000200009 

Associação de comorbidades e hábitos não saudáveis com a capacidade de caminhada em pacientes com claudicação intermitente

 

Association between comorbidity conditions and unhealthy habits and walking capacity in patients with intermittent claudication

 

 

João Paulo dos Anjos Souza BarsbosaI; Mariana de Freitas BerenguerI; Lausanne Barreto de Carvalho Cahú RodriguesI; Alessandra de Souza MirandaI; Luis Alberto GobboII; Gabriel Grizzo CucatoIII; Cláudia Lúcia de Moraes ForjazIII; Maria de Fátima Nunes MarucciII; Raphael Mendes Ritti-DiasI

IEscola Superior de Educação Física, Universidade de Pernambuco
IIFaculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo
IIIEscola de Educação Física e Esporte, Universidade de São Paulo

Endereço

 

 


RESUMO

Indivíduos com claudicação intermitente (CI) comumente apresentam comorbidades associadas e hábitos não saudáveis, como o tabagismo e a inatividade física. Todavia, o quanto esses fatores contribuem para a intolerância à caminhada desses indivíduos permanece incerto. Assim, o objetivo deste estudo foi analisar a associação das comorbidades e hábitos não saudáveis com a capacidade de caminhada de indivíduos com CI. A amostra foi composta por 66 indivíduos com CI de ambos os gêneros. Todos os indivíduos realizaram teste ergométrico máximo em esteira, sendo registrada o tempo de claudicação (TC) e o tempo total de caminhada (TTC). Os dados referentes às comorbidades e hábitos não saudáveis foram obtidos por meio de entrevista. Para análise estatística foi empregada análise de regressão simples univariada, com p < 0,05. A comorbidade mais prevalente foi a hipertensão arterial (86,4%), ao passo que a inatividade física foi o hábito não saudável mais prevalente (47%). Além disso, 90,9% dos pacientes apresentaram duas ou mais comorbidades e/ou hábitos não saudáveis. A inatividade física foi associada com menor TC (β = -154 s; p = 0,02; IC95% = -283; -25 s) e TTC (β = -189 s; p = 0,02; IC95% = -384; -29 s). Além disso, o maior número de comorbidades e hábitos não saudáveis também foram associados com menor TC (β = -55 s; p = 0,02; IC95% = -102; -8 s). Como conclusão, os resultados deste estudo indicam que a inatividade física e o número de comorbidades e/ou hábitos não saudáveis estão associados com a intolerância à caminhada de indivíduos com CI.

Unitermos: Doenças, fatores de risco, Doença Arterial Obstrutiva Periférica.


ABSTRACT

Comorbid conditions and unhealthy habits, such as smoking and physical inactivity, are commonly observed in patients with intermittent claudication (IC). However, the impact of these factors on walking impairment in IC patients remains uncertain. Thus, the purpose of this study was to analyze the association between comorbid conditions and non-healthy habits and walking capacity in subjects with IC. Sixty-six men and women with IC were recruited. Subjects underwent a treadmill test in which claudication time (CT) and total walking time (TWT) were obtained. An interview was performed and comorbid conditions and unhealthy habits were obtained. Univariate linear regression was employed for statistical analysis (p < 0.05). The most prevalent comorbid condition was hypertension (86.4%). Among unhealthy habits physical inactivity was the most prevalent (47.0%). Moreover, 90.9% of the subjects had 2 or more comorbid conditions and/or unhealthy habits. Physical inactivity was associated with decreased CT (β = -154 s; p = 0.02; IC95% = -283;-25 s) and TWT (β = -189 s; p = 0.02; IC95% = -384; -29 s). Furthermore, a higher number of factors were associated with lower CT (β = -55 s; p = 0.02; IC95% = -102; -8 s). In conclusion, the results showed that physical inactivity and number of comorbid condition and/or unhealthy habits are associated to walking impairment in subjects with IC.

Uniterms: Diseases; Risk factors; Peripheral arterial disease.


 

 

Introdução

A doença arterial obstrutiva periférica (DAOP) é causada por lesões ateroscleróticas que diminuem o fl uxo sanguíneo nos tecidos distais à estenose arterial, sendo mais comumente observada nos membros inferiores (MITCHELL, 2008). A claudicação intermitente (CI), caracterizada por dor, câimbra, ardência ou formigamento que ocorre durante a prática de atividade física, é o principal sintoma da DAOP (HIRSCH, HASKAL, HERTZER, BAKAL, CREAGER, HALPERIN, HIRATZKA, MURPHY, OLIN, PUSCHETT, ROSENFIELD, SACKS, STANLEY, TAYLOR, WHITE, WHITE, WHITE, ANTMAN, SMITH, ADAMS, ANDERSON, FAXON, FUSTER, GIBBONS, HUNT, JACOBS, NISHIMURA, ORNATO, PAGE & RIEGEL, 2006). Dessa forma, a CI tem repercussão importante na vida do indivíduo, pois pode limitar a realização de atividades físicas cotidianas (GARDNER, MONTGOMERY, SCOTT, AFAQ & BLEVINS, 2007), gerando redução da aptidão física (HERMAN, LIU, TIAN, GURALNIK, FERRUCCI, CRIQUI, LIAO & MCDERMOTT, 2009; KUO & YU, 2008) e da qualidade de vida dos indivíduos (SPRONK, BOSCH, VEEN, DEN HOED & HUNINK, 2005).

No Brasil, a DAOP atinge quase 10,5% da população geral sendo mais prevalente em indivíduos idosos, alcançando uma prevalência de 21,6% em indivíduos com mais de 60 anos (MAKDISSE, PEREIRA, BRASIL, BORGES, MACHADO-COELHO, KRIEGER, NASCIMENTO NETO & CHAGAS, 2008). Dessa forma, a DAOP geralmente ocorre em indivíduos que já apresentam outras doenças crônicas estabelecidas (MAKDISSE et al., 2008), tais como hipertensão arterial (GARG, TIAN, CRIQUI, LIU, FERRUCCI, GURALNIK, TAN  & MCDERMOTT, 2006), diabetes melitos (MARUBITO, D'AGOSTINO, SILBERSHATZ & WILSON, 1997), dislipidemias (HASIMU, LI, NAKAYAMA, YU, YANG, LI & HU, 2006), obesidade (MLACAK, BLINC, POHAR & STARE, 2006) e cardiopatias (HASIMU et al., 2006). Além disso, indivíduos com DAOP comumente apresentam hábitos não saudáveis, sendo que os mais prevalentes são o tabagismo (BREVETTI, SILVESTRO, SCHIANO & CHIARIELLO, 2003) e a inatividade física (GARDNER et al., 2007).

Está bem estabelecido na literatura que a presença de comorbidades e hábitos não saudáveis são fatores de risco para a ocorrência da DAOP (HIRSCH et al., 2006). Todavia, o quanto esses fatores contribuem para a intolerância à caminhada nos indivíduos com a doença já estabelecida permanece incerto. O conhecimento dos fatores relacionados às limitações de locomoção dos indivíduos com CI é de particular importância, pois pode fornecer subsídios teóricos para a elaboração de estratégias que permitam melhorar a capacidade de caminhada dos indivíduos.

Assim, o objetivo deste estudo foi analisar a associação das comorbidades e dos hábitos não saudáveis com a capacidade de caminhada de indivíduos com CI.

 

Métodos

Amostra

Estudo descritivo, transversal, foi realizado com 66 pacientes com DAOP e sintomas de CI, com idade entre 50 e 85 anos, de ambos os gêneros, que foram recrutados do ambulatório do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Os pacientes foram recrutados para a participação em estudo maior, que envolvia a realização de treinamento físico supervisionado, e os dados apresentados são oriundos da avaliação pré-participação. Foram incluídos no estudo os indivíduos que apresentavam: grau II de DAOP (FONTAINE, KIM & KIENY, 1954), sintomas de CI há mais de seis meses, sintomas de CI durante o teste ergométrico, índice tornozelo braço (ITB) < 0,90, diminuição do ITB após exercício, conseguiam caminhar, no mínimo, dois minutos com velocidade de 3,2 km/h. Foram excluídos do estudo, os indivíduos que tinham sido submetidos à cirurgia de revascularização ou angioplastia há menos de um ano e que conseguiam caminhar mais de 20 minutos ininterruptamente no teste ergométrico.

Todos os indivíduos foram devidamente esclarecidos sobre os objetivos e procedimentos que seriam realizados no estudo e, posteriormente, aqueles que concordaram em participar, assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Faculdade de Saúde Pública - USP, processo 1370 em 14 de dezembro de 2005.

Teste ergométrico em esteira

Para quantificação da capacidade de caminhada foi realizado teste ergométrico máximo, em esteira (Inbrasport, modelo ATL, Brasil). Para tanto, utilizou-se o protocolo escalonado específico para indivíduos com CI, com velocidade constante de 3,2 km/h e incrementos de dois graus de inclinação a cada dois minutos até a exaustão (GARDNER, SKINNER, CANTWELL & SMITH, 1991). Todos os indivíduos eram familiarizados previamente com o protocolo de teste. O teste foi realizado em sala silenciosa, com temperatura mantida entre 20º e 23º. O teste era interrompido quando os indivíduos não conseguiam mais continuar a caminhada devido à dor nos membros inferiores. Durante o teste foram obtidos os dados referentes ao momento em que o paciente relatou o início do sintoma de dor, caracterizado como tempo de claudicação (TC) e a distância máxima que o paciente conseguiu caminhar mesmo com este sintoma, denominada como tempo total de caminhada (TTC). Estudo anterior indicou que esses procedimentos resultaram em coeficiente de reprodutibilidade (r) de 0,89 para a TC e de 0,93 para TTC (GARDNER et al., 1991).

Índice tornozelo braço

As pressões arteriais sistólica do braço e do tornozelo foram obtidas por meio do método auscultatório usando um esfigmomanômetro de coluna de mercúrio e um "doppler" vascular (Martec, DV 6000, Brasil), e um estetoscópio para as medidas do tornozelo e do braço, respectivamente, seguindo recomendações da literatura (NORGREN, HIATT, DORMANDY, NEHLER, HARRIS, FOWKES & RUTHERFORD, 2007). As medidas foram obtidas depois de os pacientes terem descansado por 20 minutos na posição supina. O ITB foi calculado para cada perna como a razão da pressão arterial do tornozelo pela do braço, e o menor ITB entre os dois membros foi utilizado.

Variáveis antropométricas

A massa corporal e a estatura foram obtidas utilizando balança mecânica com estadiômetro acoplado (Welmy, modelo 110, Brasil). As medidas de massa corporal e estatura foram realizadas conforme procedimentos descritos previamente (GORDON, CHUMLEA & ROCHE, 1988). A massa corporal foi medida com precisão de 100 gramas e a estatura com precisão de um centímetro. A partir dos valores de massa corporal e estatura, calculou-se o índice de massa corporal (IMC) por meio da divisão de massa corporal (kg) pela estatura (m), ao quadrado, para o diagnóstico de obesidade.

Comorbidades e hábitos não saudáveis

Para a obtenção dos dados referentes às comorbidades e os hábitos não saudáveis foi realizada entrevista. Previamente à entrevista os pacientes foram orientados a trazerem todos os exames e receitas de remédios que possuíam. Assim, nessa entrevista os pacientes foram questionados quanto ao seu nível de atividade física, hábitos de tabagismo e doenças associadas utilizando um questionário semi-estruturado.

A hipertensão arterial foi identificada por diagnóstico prévio, uso atual de medicamento anti-hipertensivo, e/ou valores de pressão sanguínea sistólica ≥ 140 mmHg e/ou pressão sanguínea diastólica ≥ 90 mmHg (SOCIEDADE BRASILEIRA DE HIPERTENSÃO. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA, 2004). O diabetes melitos foi identificada por diagnóstico prévio, uso atual de medicamento de diabetes, e/ou glicemia de jejum ≥ 126mg/dl (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 1997). A dislipidemia foi identificada por diagnóstico prévio, ou uso de medicamento para controle de triglicerídeos, colesterol total, HDL, LDL, e VLDL. A obesidade foi identificada por valores de IMC ≥ 30,0 kg/m2. A presença de doença cardíaca foi determinada por história anterior de doença arterial coronária, angina, e/ou histórico de angioplastia coronária ou revascularização. Foram classificados como inativos fisicamente os indivíduos que realizavam menos que 150 minutos/semana de atividade física de lazer ou transporte. Foram classificados como tabagistas os indivíduos que relataram uso ocasional ou diário de cigarro, charutos ou cachimbos nos últimos seis meses.

Análise estatística

Foi empregada estatística descritiva incluindo média, desvio padrão e distribuição de frequência. A regressão linear simples foi usada para identificar as comorbidades e os hábitos não saudáveis relacionadas independentemente com a capacidade de caminhada. Um modelo de regressão separado foi realizado para a TC e para a TTC. Em todas as análises um nível de significância de p < 0,05 foi adotado.

 

Resultados

A maioria da amostra foi composta por homens (n = 43; 65,7%), com idade variando de 50 a 85 anos (TABELA 1). A prevalência de comorbidades variou de 24,2% (obesidade) a 86,4% (hipertensão arterial). Entre os hábitos não saudáveis, a inatividade física foi a mais prevalente (47,0%). Considerando o número de comorbidades e/ou hábitos não saudáveis nenhum paciente apresentou menos de um fator. Além disso, a grande a maioria dos pacientes (90,9%) apresentou duas ou mais comorbidades e/ ou hábitos não saudáveis (TABELA 2).

 

 

 

 

Utilizando procedimentos de regressão linear simples (TABELA 3), a inatividade física (p = 0,02) e o número de comorbidades e/ou hábitos não saudáveis (p = 0,02) foram significativamente associados com menor TC. Além disso, a inatividade física também foi associada com menor TTC (p = 0,02). Todavia, o diabetes melitos (p = 0,06),

 

Discussão

Os principais achados do estudo foram: 1) pacientes com DAOP apresentam elevada prevalência de comorbidades e hábitos não saudáveis; 2) a inatividade física e o número de comorbidades e/ou hábitos não saudáveis foram associados com capacidade de caminhada nesses pacientes.

A alta prevalência de comorbidades em pacientes com DAOP tem sido bem descrita na literatura (KATZEL, SORKIN, POWELL & GARDNER, 2001). No presente estudo, a hipertensão arterial foi a comorbidade mais prevalente nos indivíduos com DAOP, o que está em linha com outros estudos (BREVETTI et al., 2003; GARG et al., 2006; MLACAK et al., 2006;  PASSOS,  GUERRA,  FIRMO, VIDIGAL  &  LIMA-COSTA, 2001). Porém, é importante destacar que comorbidades, tais como o diabetes, a obesidade, a dislipidemia e as doenças cardiovasculares, também foram frequentes na amostra do presente estudo. Dentre os hábitos não saudáveis, quase 50% dos pacientes foram considerados inativos fisicamente. Esses valores são similares aos observados em estudo prévio nacional em indivíduos com DAOP (MAKDISSE et al., 2008) e bem inferiores a outros estudos nacionais em indivíduos não doentes (PASSOS et al., 2001). A menor prevalência de indivíduos inativos fisicamente entre os indivíduos com DAOP em comparação aos estudos congêneres pode ter sido causada pelo grande incentivo a prática de atividade física pelos médicos que atuam com esses pacientes e pelos diferentes métodos utilizados para quantificação dos níveis de atividade física.

A inatividade física foi associada com menor capacidade de caminhada em pacientes com DAOP. Esses resultados corroboram as evidências disponíveis na literatura que indicam a relação entre os níveis de atividade física e a capacidade de caminhada em indivíduos com DAOP. GARDNER et al. (2007) verificaram que os indivíduos com CI com menor capacidade de caminhada eram aqueles que apresentavam menores níveis de atividade física, principalmente em atividades físicas moderada e intensa. Tem sido sugerido que a relação entre a capacidade de locomoção e a inatividade física dos indivíduos com CI é decorrente da tentativa de minimizar a ocorrência dos sintomas de claudicação (GARDNER et al., 2007). Assim, para evitar os sintomas, os pacientes buscam realizar menos atividades físicas. Isso é preocupante, pois evidências de estudos longitudinais indicam que os indivíduos inativos fisicamente apresentam, em longo prazo, maior deterioração na capacidade de caminhada (GARG et al., 2006), bem como maior morbidade e mortalidade cardiovascular (WEITZ, BYRNE, CLAGETT, FARKOUH, PORTER,  SACKETT,  STRANDNESS  & TAYLOR  JUNIOR, 1996). Esses resultados sugerem que programas de promoção da atividade física devem ser incentivados em indivíduos com CI no sentido de melhorar as limitações funcionais e o prognóstico dos pacientes.

No presente estudo, embora nenhuma comorbidade isolada tenha sido associada com a capacidade de caminhada dos indivíduos com CI, foi observada tendência de associação com algumas comorbidades, como o diabetes e as cardiopatias, o que corrobora com estudos anteriores que evidenciaram associação entre a presença de doenças crônicas e a baixa capacidade de caminhada nos indivíduos com CI (DIAS, FORJAZ, CUCATO, COSTA, CAMARA, WOLOSKER  &  MARUCCI,  2009;  GARG  et al.,  2006;  HASIMU  et  al.,  2006;  MARUBITO  et  al., 1997; ZANDER, HEINKE, REINDEL, KOHNERT, KAIRIES, BRAUN, ECKEL & KERNER, 2002). Todavia, o grande diferencial do presente estudo foi à análise do impacto das comorbidades e hábitos não saudáveis em conjunto. Esse é um aspecto relevante, pois a maioria dos estudos sobre essa temática analisou apenas fatores isolados (HOOI, KESTER, STOFFERS, OVERDIJK, VAN  REE  & KNOTTNERUS, 2001), o que não reflete a característica dos pacientes atendidos em ambulatórios de cirurgia vascular. Isso é confirmado pelos resultados do nosso estudo que mostraram que 90% dos pacientes com DAOP apresentaram duas ou mais comorbidades e/ou hábitos não saudáveis. No presente estudo, o número de comorbidades e hábitos não saudáveis foram negativamente relacionados com a capacidade de caminhada de pacientes com CI. Assim, indivíduos que apresentam maior número desses fatores são os que apresentam menor capacidade de caminhada. Esses resultados sugerem que a redução dos hábitos não saudáveis e o controle das comorbidades, poderiam melhorar a capacidade de caminhada dos indivíduos com DAOP. Todavia, essa hipótese necessita ser testada em estudos futuros com delineamento longitudinal.

Este estudo apresenta resultados que podem ser incorporados na prática diária de profissionais da área da saúde. Foi evidenciada uma associação direta entre a atividade física e a capacidade de caminhada dos indivíduos com CI. Assim, possivelmente, o estímulo à prática de atividade física poderia promover aumentos na capacidade de caminhada destes pacientes. Essa hipótese é corroborada por diversos estudos que confirmam a eficácia do treinamento físico na melhoria da capacidade de caminhada dos indivíduos com CI (GARDNER, MONTGOMERY, FLINN & KATZEL, 2005; GARDNER & POEHLMAN, 1995; RITTI-DIAS, WOLOSKER, DE MORAES FORJAZ, CARVALHO, CUCATO, LEÃO & DE FATIMA NUNES MARUCCI, 2010). Além disso, como indivíduos com maior número de comorbidades ou hábitos não saudáveis são aqueles que apresentam menor capacidade de caminhada, parece que intervenções para controlar esses fatores poderiam promover melhoria da capacidade de caminhada de pacientes com DAOP. No entanto, o impacto do controle das comorbidades na capacidade de caminhada dos indivíduos com DAOP ainda foi pouco estudado, e os estudos disponíveis analisaram apenas os níveis de atividade física e o tabagismo. Assim, sugere-se que estudos longitudinais sejam realizados para analisar o impacto das comorbidades na capacidade de caminhada dos indivíduos com DAOP, para que seja, de fato, estabelecida uma relação de causa-efeito entre as variáveis independentes com o desfecho.

Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas. O delineamento transversal empregado não permite estabelecer relação de causalidade. A amostra selecionada consistiu de indivíduos que estavam interessados em participar de um programa de treinamento físico, e isso, pode de alguma forma ter influenciado os resultados. As medidas de atividade física foram obtidas por método indireto, o que pode ter impactado os dados referentes aos níveis de atividade física dos indivíduos.

Como conclusão, os resultados deste estudo indicam que a inatividade física e o número de comorbidades e/ou hábitos não saudáveis estão associados com a intolerância à caminhada de indivíduos com CI.

 

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Recebido para publicação: 27/10/2010
Aceito: 31/03/2011

 

 

CDD. 20.ed. 613.7
616.1