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Revista Brasileira de Educação Física e Esporte

versão impressa ISSN 1807-5509

Rev. bras. educ. fís. esporte vol.28 no.1 São Paulo jan./mar. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S1807-55092014000100041 

Biodinâmica

Validação de uma bateria de testes para avaliação da autonomia funcional de adultos com lesão na medula espinhal

Validation of a test battery to assess functional autonomy of adults with spinal cord injury

Camilla Yuri KAWANISHI *  

Márcia GREGUOL *  

*Centro de Educação Física e Esporte, Universidade Estadual de Londrina

RESUMO

O presente estudo teve como objetivo criar e validar uma bateria de testes motores relacionados à atividade da vida diária (AVD), com o intuito de avaliar a independência funcional de indivíduos com lesão na medula espinal. Para tanto, foram selecionados 22 sujeitos por conveniência, com idades variando entre 20 e 53 anos. Esses indivíduos foram submetidos à realização de uma bateria de testes, a qual passou por processo de verificação da validação por conteúdo, objetividade e reprodutibilidade. Os dados foram tratados através de estatística descritiva, Análise de Variância (ANOVA- "one-way"), Coeficiente de Correlação Intraclasses e teste t-Student. Adotou-se a = 5%. Os principais resultados demonstraram que os testes que compõe a bateria possuem descrição clara, relacionam-se com AVD e possuem aplicabilidade, o que torna válido seu conteúdo. Além disso, todos os testes demonstraram alto grau de objetividade (p = 1,00 e F = 0,00) e reprodutibilidade (CCI > 0,85). A elaboração desta bateria de testes específicos para pessoas com lesão na medula espinhal pode ser uma ferramenta útil para avaliar de forma efetiva e com qualidade alguns parâmetros relevantes do seu dia a dia, de modo a analisar a independência dos sujeitos.

Palavras-Chave: Lesão medular; Deficiência motora; Medidas e avaliação; Validação

ABSTRACT

The present study aimed to create and validate a battery of motor tests related to activities of daily life (ADL), in order to evaluate the functional independence of individuals with spinal cord injury. For this, were selected 22 subjects by convenience, aged between 20 and 53 years, which were submitted to a battery of motors tests. This battery was underwent to process of validation of content, objectivity and reproducibility. The data were analyzed by descriptive statistics, one-way ANOVA, Coefficient of Intraclasses Correlation and t-Student test. The a = 5% was adopted. The main results shown that the tests of battery present clear description, they are related to ADL and they have applicability, making valid the battery content. Moreover, every tests have demonstrated high degree of objectivity (p = 1.00 e F = 0.00) and reproducibility (CCI > 0.85). The formulation of this battery of specific tests for people with spinal cord injury can be a useful tool to evaluate some relevant parameters of their daily with effectiveness and quality, analyzing the subjects' independence.

Key words: Spinal cord injury; Motor disability; Measurements and evaluation; Validation

Introdução

Segundo estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) cerca de 10% da população mundial vive com algum tipo de deficiência. Em números esse percentual equivale a aproximadamente 650 milhões de pessoas. No Brasil o coeficiente de incidência de lesão traumática é desconhecido e não existem dados precisos sobre sua incidência e prevalência, uma vez que esta condição não está sujeita a notificação1 - 3.

Dados epidemiológicos apontam o crescente aumento da violência urbana e consequentemente o número de casos de indivíduos com lesão da medula espinal. Esta violência caracteriza-se principalmente por acidentes com arma de fogo, automobilísticos e mergulhos, que faz entre suas maiores vítimas os homens jovens4 - 5. Vários estudos, como os de Venturini et al.6 e Garma et al.7, têm demonstrado alta prevalência de pessoas com lesão da medula espinal que apresentam relativa dependência de terceiros para realizar tarefas cotidianas. Essas tarefas cotidianas, também denominadas atividades básicas da vida diária (ABVDs) e atividades instrumentais da vida diária (AIVDs), incluem habilidades como as de se comunicar, vestir, arrumar, tomar banho, locomover-se e gerenciar a casa. Dependendo do nível da lesão, o indivíduo apresentará diferentes níveis de dependência. Pessoas com tetraplegia em nível alto (C1-C4) poderão apresentar dependência à maioria das atividades, enquanto aquelas com tetraplegia mais baixa (C5-C8) podem apresentar maior grau de independência, o que pode ser potencializado através do uso de órteses adequadas ou equipamentos adaptados. Indivíduos com paraplegia deveriam ser capazes de realizar as atividades do dia-a-dia de maneira independente8.

Considerando como fator relevante a independência funcional de pessoas com lesão medular, estudos têm sido realizados9 - 11 no intuito de analisar possíveis fatores de influência na realização das atividades básicas e instrumentais da vida diária. Nesse contexto, faz-se necessária a criação de instrumentos que contemplem a avaliação da independência de modo prático, confiável e com baixo custo, sempre levando em consideração a individualidade dessas pessoas.

O presente estudo se justifica pela crescente necessidade de criação de baterias de testes que avaliem pessoas com lesão da medula espinal em seu contexto, respeitando suas restrições e possibilidades. A criação e validação de uma bateria de testes possibilitariam a detecção do nível de capacidade funcional, a prescrição individualizada de exercícios e o acompanhamento no processo de reabilitação motora após a lesão, uma vez que critérios de validação para os instrumentos atuais que avaliam a deficiência não possuem um padrão ouro12. Nesse sentido, o objetivo deste estudo foi criar e validar uma bateria de testes motores relacionados às atividades da vida diária (básicas e instrumentais), somente para pessoas com paraplegia, de modo a avaliar de forma efetiva a independência funcional de pessoas com lesão da medula espinal.

Método

Foram selecionados por conveniência 22 indivíduos, sendo 20 homens e duas mulheres, todos com idades variando entre 20 e 53 anos (33,18 ± 9,42). Todos os participantes possuíam lesão da medula espinal em níveis torácicos ou lombares, sem acometimento da função muscular dos membros superiores que atenderam aos seguintes critérios:

• Critérios de inclusão:

- Ter passado por processo de reabilitação;

- Ter no mínimo um ano de lesão;

- Ter lesão em nível torácico e/ou lombar; e

- Ter concordado em participar da pesquisa, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

• Critérios de exclusão:

- Apresentar outra condição física e/ou comprometimento intelectual que dificulte a realização dos testes propostos;

- Ter lesão em nível cervical ou T1 (primeira vértebra torácica); e

- Recusar-se a participar do estudo após os esclarecimentos.

Para obtenção dos dados sobre as características gerais de cada indivíduo foi proposto aos mesmos que respondessem a uma anamnese, não validada, criada pelas próprias autoras da pesquisa e composta por questões que abordaram informações gerais sobre sua saúde (presença de comorbidades como: hipertensão, diabetes, úlceras de pressão e utilização de medicamentos controlados), a deficiência (tipo, tempo e causa da lesão), e possíveis restrições para a execução de qualquer uma das tarefas que compunha a bateria de testes (dificuldade de entendimento e/ou comprometimento físico que impedisse a execução dos movimentos propostos). Foi solicitado também que esses mesmos indivíduos respondessem a um instrumento que mensurasse seu nível de atividade física, fator que poderia influenciar os resultados dos testes da bateria proposta. Optou-se pelo Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ), na versão curta, de mais fácil aplicação e análise com algumas questões adaptadas para a realidade de pessoas com lesão medular, especialmente no que tange à locomoção em cadeira de rodas. Os resultados do IPAQ foram categorizados em dois níveis, de acordo com o tempo total gasto em atividades físicas ao longo dos sete dias, sendo que indivíduos que tiveram resultados menores que 150 minutos por semana foram classificados como insuficientemente ativo e aqueles com mais que 150 minutos por semana, classificados como ativo. Foi feita a opção pela versão curta do IPAQ, com adaptações para a realidade de pessoas com lesão medular, pois esta forma é geralmente melhor aceita pelos participantes e é recomendada para estudos nacionais de prevalência com possibilidade de comparações internacionais13.

Os sujeitos do estudo foram recrutados entre os participantes dos projetos voltados para pessoas com lesão da medula espinal desenvolvidos pelo Centro de Educação Física e Esporte e pelo Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, Paraná. Todos os sujeitos leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para participação no estudo. A pesquisadora colocou-se à disposição para quaisquer esclarecimentos e se comprometeu em divulgar individualmente os resultados e interpretação da bateria de testes. O estudo obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo Seres Humanos da Universidade Estadual de Londrina, por meio do parecer no 159/2011.

Procedimentos para elaboração da bateria de testes

A elaboração dessa bateria de testes foi desenvolvida em duas fases: a) criação da bateria (escolha das atividades que foram selecionadas para compor os testes e dos critérios de pontuação); b) validação da bateria, através da determinação da validação por conteúdo e dos graus de objetividade e fidedignidade dos testes.

Para selecionar as atividades que comporiam a bateria de testes de independência funcional, 10 pessoas com lesão da medula espinal foram convidadas a escrever, durante uma semana, um relatório com as atividades do cotidiano e a dificuldade apresentada para a realização das mesmas. Com base na análise destes relatórios foram selecionadas as atividades mais desempenhadas e as de maior dificuldade de execução. Logo após a seleção, os testes foram criados e adaptados para serem realizados em cadeira de rodas. Posterior à fase de elaboração, procedeu-se à aplicação dos testes em dois indivíduos com lesão da medula espinal, atletas de basquete em cadeira de rodas. O objetivo deste procedimento foi criar um "ranking" para a pontuação, bem como para classificar os níveis de independência em cada um dos testes que iriam compor a bateria. Os resultados obtidos pelos dois atletas passaram então a ser considerados como o referencial ideal de desempenho e, a partir deste, foram delimitados os outros referenciais. Dessa forma, conseguiu-se elencar escalas classificatórias com pontuações para cada resultado relativo à independência funcional.

O processo de verificação da autenticidade científica da bateria de testes de atividades da vida diária foi composto pela determinação da validade por conteúdo, objetividade e fidedignidade. A validade por conteúdo foi determinada por meio da apreciação dos testes criados. Cinco especialistas na área de atividade física adaptada analisaram a clareza da descrição dos testes, bem como sua aplicabilidade e relação com atividades da vida diária desse tipo de população e emitiram suas opiniões em formulário próprio para cada teste (adaptado de Andreotti & Okuma)14.

Para fins de avaliação de fidedignidade e objetividade, a bateria foi aplicada simultaneamente por três avaliadores, que o fizeram de forma independente e não tiveram contato entre si durante a aplicação. E aplicada pelo mesmo avaliador em duas situações distintas nos mesmos sujeitos, com um intervalo de aplicação que variou entre sete a 10 dias. Para auxiliar na aplicação da bateria de teste utilizou-se uma ficha de avaliação elaborada especialmente para este fim.

A objetividade de um instrumento de medida pode ser definida como o "grau em que se espera consistência dos resultados, quando o teste é aplicado ou anotado simultaneamente por diferentes avaliadores nos mesmos indivíduos". Já a reprodutibilidade de um instrumento de medida, também conhecida como fidedignidade, é o "grau em que se espera que os resultados sejam consistentes ou reprodutivos, quando examinados pelo mesmo observador em dias diferentes, geralmente próximos entre si"15. O estudo de Gorgatti e Bohme16 e Rech et al.17 utilizaram a mesma metodologia empregada nesse estudo para fins de validação.

Após análise da autenticidade científica da bateria de testes, foram atribuídas notas que variaram entre zero a cinco pontos para cada teste selecionado (Anexo 1). Dependendo do desempenho na execução da tarefa o indivíduo poderia pontuar entre zero até a marca máxima de 27 pontos.

Em relação à pontuação dos testes, o de suspensão em cadeira de rodas, resistência muscular de bíceps e tríceps, transpor degrau e teste de 400 metros variavam com pontuação de zero a três pontos. O teste de transferência da cadeira de rodas para outro assento poderia ser pontuado de zero a um. Os testes de alcance lateral, alcance lateral para baixo e alcance com rotação de tronco variavam os escores de zero a dois pontos e apenas o teste de alcance frontal teve pontuação variando entre zero a cinco pontos. Desse modo, através da somatória dos pontos de cada teste foi elencada a categorização quanto à independência funcional de pessoas com lesão na medula espinhal, conforme mostra a tabela 1.

TABELA 1 Classificação da independência funcional da bateria de testes. 

Pontuação Descrição
0 - 8 pontos Dependência total
9 - 18 pontos Independência moderada
19 - 27 pontos Independência total

Os testes foram aplicados no Centro de Educação Física e Esporte da Universidade Estadual de Londrina/PR. Avaliações e reavaliações foram realizadas sempre nos mesmos horários e locais, evitando deste modo possíveis interferências de fatores externos que atrapalhariam nos resultados do estudo.

Para efetuar a análise dos dados, na fase de seleção das atividades que comporiam a bateria de testes e na determinação da validade por conteúdo, foi utilizada a estatística descritiva (frequência de resposta, com valores percentuais). Para a verificação da objetividade da bateria de testes, foi utilizada Análise de Variância (ANOVA "one-way") entre os valores aferidos pelos três avaliadores, adotando-se significância p < 0,05. Já a reprodutibilidade foi verificada por meio do Coeficiente de Correlação Intraclasses entre as duas aplicações do teste. Análises de comparações realizadas entre os grupos ativo e insuficientemente ativo foram feitas através do Teste t-Student para amostras independentes, adotando-se também a significância p < 0,05. Para a análise dos dados foi utilizado o programa estatístico SPSS, versão 18.0.

Resultados

Dos 22 indivíduos que fizeram parte da pesquisa, 20 (90,9%) eram do sexo masculino e a faixa etária predominante (45,5%) apresentou-se entre os 30 e 39 anos. Houve maior frequência de lesão do tipo completa (68,19%) em nível torácico mais baixo (T9 e abaixo), contabilizando 59,1% da amostra. Quanto ao tempo de lesão, a maioria dos participantes (63,6%) reportou tempo superior a cinco anos. Em relação à classificação quanto à sensibilidade e função motora, 68,2% dos participantes foram categorizados através da escala ASIA (American Spinal Injury Association) na classe ASIA A, 22,7% na classe ASIA B e o restante (9,1%) na classe ASIA C. Em relação ao nível de atividade física, a maior parte dos indivíduos (54,5%) foi classificada através do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ) como fisicamente ativa. Ainda, em relação ao nível socioeconômico, a maioria dos participantes (54,5%) foi categorizada nas classes B1 e B2. A tabela 2 reproduz os dados quanto à caracterização dos sujeitos do estudo de forma mais detalhada.

TABELA 2 Caracterização dos sujeitos. 

Variáveis N %
Sexo
Masculino 20 90,9
Feminino 2 9,1
Faixa etária
20-29 8 36,4
30-39 10 45,5
40-49 3 13,6
50-59 1 4,5
Tipo de lesão
Completa 15 68,19
incompleta 7 31,81
Nível de lesão
T3 - T8 9 40,9
T9 - L1 13 59,1
Tempo de lesão
1 a 2 anos 6 27,3
3 a 4 anos 1 4,5
5 anos e mais 15 68,2
Nível de atividade física
Ativo 12 54,5
Insuficientemente ativo 10 45,5

N: número de indivíduos

%: Percentual.

Seleção dos testes

Os dados obtidos nos relatórios apresentaram várias atividades realizadas rotineiramente pelos indivíduos e o grau de dificuldade em executá-las. Dentre as mencionadas, fez-se uma seleção de atividades que poderiam ser realizadas em cadeira de rodas e que refletissem situações cotidianas. Durante a seleção de todas as atividades que compuseram a bateria de testes procurou-se avaliar de forma efetiva a independência de pessoas com lesão medular, levando em consideração atividades da vida diária desempenhadas pelos sujeitos.

As atividades selecionadas foram: suspensão em cadeira de rodas por cinco segundos, transferência da cadeira de rodas para outro assento, resistência muscular de bíceps e tríceps, alcance funcional lateral, lateral para baixo, frontal e com rotação de tronco, transposição de degrau e toque de cadeira de rodas por 400 metros. Todos os testes estão descritos detalhadamente no Anexo 2.

Durante toda a fase de seleção das atividades que iriam compor a bateria de testes foram apontadas as justificativas para a escolha das mesmas. Optou-se pelo teste de suspensão em cadeira de rodas por cinco segundos, pois este movimento é muito indicado às pessoas com lesão da medula espinal por evitar a ocorrência de úlceras de pressão, sequela de impacto importante no seu cotidiano.

O segundo teste, o de transferência da cadeira de rodas para outro assento, foi escolhido por refletir a ideia de independência para a realização de atividades de cunho básico como ir ao banheiro, tomar banho e até mesmo deslocar-se da cadeira de rodas para a cama, em que o individuo necessita se deslocar de maneira efetiva de sua cadeira para outro assento qualquer.

A escolha dos testes de resistência muscular de bíceps e tríceps justificam-se por contemplar em sua execução movimento mono articular de ângulo reduzido, importante na realização de atividades da vida diária e que repercute diretamente na independência funcional desses sujeitos. Já os testes de alcance funcional lateral, lateral para baixo, frontal e com rotação de tronco foram selecionados por possibilitarem a execução de alcance funcional em diferentes direções, viabilizando maior independência na realização das atividades da vida diária às pessoas lesão da medula espinal.

A locomoção realizada com eficiência, principalmente para pessoas com lesão da medula espinal, é extremamente importante por se traduzir em independência e efetividade em várias atividades realizadas durante o dia-a-dia. Locomover-se através do auxilio de uma cadeira de rodas não compreende apenas o deslocamento efetivo dessas pessoas, mas a transposição de fatores externos como barreiras arquitetônicas, alterações no tipo de solo e sua inclinação. Tendo em vista a locomoção como atividade de vida diária e sendo ela indicador importante de independência, os testes de transpor degrau e tocar cadeira de rodas por um percurso de 400 metros também foram incluídos na bateria.

Validação por conteúdo

A validação por conteúdo foi determinada por meio do parecer de cinco especialistas de reconhecido gabarito no assunto, sendo um mestre e quatro doutores nas áreas de atividade física adaptada e reabilitação, que emitiram opiniões sobre a aplicabilidade dos testes que compunham a bateria, bem como sua efetividade em mensurar e classificar níveis de independência em pessoas com lesão medular. Os pareceristas preencheram os formulários anexados ao final de cada teste, respondendo questões relacionadas à clareza na sua descrição, aplicabilidade e relação com as atividades da vida diária.

Quanto ao entendimento em relação à descrição dos testes (clareza), 80% dos pareceristas classificaram-nos como de muito fácil entendimento, 20% de fácil entendimento e nenhum deles apontou respostas classificando os testes como difícil ou muito difícil de entender.

Na análise dos resultados quanto à viabilidade de aplicação dos testes, todos os pareceristas (100%) classificaram-nos como muito viáveis. Quanto à relação dos testes com atividades de vida diária, nenhum dos pareceristas considerou a alternativa "não" como resposta, ou seja, todos os testes foram considerados capazes de predizer a eficiência na realização das atividades de vida diária.

Todos os especialistas emitiram parecer favorável quanto ao conteúdo e aplicabilidade de todos os testes propostos, indicando que a bateria seria capaz de mensurar as variáveis que se propõe. Nesse sentido, os resultados apontaram que os testes têm uma descrição clara, possuem aplicabilidade e relação com atividades da vida diária, o que corroborou a validade de seu conteúdo.

Reprodutibilidade

A reprodutibilidade foi verificada por meio do cálculo do Coeficiente de Correlação Intraclasses realizado com os dados obtidos em duas testagens distintas, com intervalo de sete a 10 dias entre elas. A reprodutibilidade foi verificada em todos os testes. A tabela 3 apresenta os valores dos Coeficientes de Correlação Intraclasses que indicaram excelente confiabilidade. Para a situação teste/reteste, observa-se que os valores de correlação Intraclasses foram maiores que 0,85 em todos os casos, indicando uma forte associação linear entre as variáveis.

TABELA 3 Resultados dos Coeficientes de Correlação Intraclasses (CCI) em cada teste 

Testes CCI
Suspensão por cinco segundos 1,00
Transferência 1,00
Resistência muscular bíceps 0,97
Resistência muscular tríceps 0,98
Alcance lateral 0,88
Alcance lateral para baixo 1,00
Alcance frontal 0,96
Alcance com rotação de tronco 1,00
Transpor degrau 1,00
400 metros 0,98

Objetividade

A fim de se verificar a objetividade da bateria proposta, três avaliadores fizeram as mensurações simultaneamente em todos os testes, que foram aplicados em dois momentos, com intervalo de sete a 10 dias. A análise de variância com um fator fixo e medidas repetidas (ANOVA "one-way") foi utilizada para análise de concordância entre os observadores, avaliando dessa forma a objetividade dos testes em validação. Os resultados não demonstraram diferença significativa (p = 1,00 e F = 0,00) entre as aferições realizadas pelos três avaliadores em nenhum dos testes propostos e no reteste, indicando boa concordância entre as médias e consistência dos resultados.

Resultados da bateria de testes

Os resultados da bateria de testes obtidos através de sua aplicação em 22 sujeitos demonstraram que 86,4% dos avaliados possuem total independência para realização das atividades do dia-a-dia. Destes, 63,1% são fisicamente ativos e 36,9% insuficientemente ativos. Os outros 13,6% foram categorizados com nível de independência elevada, mas não total, e eram representados apenas por indivíduos insuficientemente ativos. Nas tabelas 4, 5 e 6 são apresentados os resultados gerais obtidos através da aplicação da bateria de testes.

TABELA 4 Escore individual e classificação quanto à independência funcional. 

ID Nível da lesão Pontuação Classificação
1 T7 19 Independência total
2 T 12 26 Independência total
3 T12 27 Independência total
4 T10 26 Independência total
5 T10 23 Independência total
6 T12 26 Independência total
7 L1 27 Independência total
8 T11 26 Independência total
9 T10 26 Independência total
10 T12 26 Independência total
11 T3 23 Independência total
12 T10 27 Independência total
13 T3 26 Independência total
14 T4 26 Independência total
15 T4 22 Independência total
16 T4 26 Independência total
17 T10 19 Independência total
18 T7 26 Independência total
19 T12 22 Independência total
20 T3 19 Independência total
21 T11 26 Independência total
22 T6 24 Independência total

ID : Identificação do sujeito.

TABELA 5 Porcentagem de escores obtidos na bateria de testes 

Testes Pontuações
0 1 2 3 4 5
Suspensão por cinco segundos - - - 100% NA NA
Transferência 4,5% 95,5% NA NA NA NA
Resistência muscular bíceps - - 4,5% 95,5% NA NA
Resistência muscular tríceps - - 4,5% 95,5% NA NA
Alcance lateral - 9% 91% NA NA NA
Alcance lateral para baixo - - 100% NA NA NA
Alcance frontal - - 4,5% - 77,3% 18,2%
Alcance com rotação de tronco 4,5% - 95,5% NA NA NA
Transpor degrau 13,6% 18,2% 4,5% 63,7% NA NA
Tocar cadeira por 400 m 4,5% 4,5% 27,3% 63,7% NA NA

NA: não se aplica

TABELA 6 Resultados descritivos da bateria de testes. 

Testes Média
Resistência muscular bíceps (rep) 25,9 (6,8)
Resistência muscular tríceps (rep) 25,4 (7,8)
Alcance lateral (cm) 28,2 (6,9)
Alcance frontal (cm) 46,6 (9,7)
Tocar cadeira por 400 m (s) 206,6 (69,1)

rep: número de repetições

cm: centímetros

s: segundos

Discussão

Os resultados obtidos por meio da seleção das atividades que compuseram a bateria de testes demonstram que os sujeitos do estudo apresentaram alto grau de independência funcional, inclusive no grupo insuficientemente ativo. É possível que a alta prevalência de lesão medular baixa e que a seleção amostral por conveniência tenham interferido neste achado, uma vez que a pesquisa fora realizada com pacientes de centros de reabilitação ou programas de atividade física.

Resultados convergentes aos encontrados foram observados por Durán et al.9, que avaliaram 13 pessoas, selecionadas também por conveniência, com lesão da medula espinal em níveis T3 (terceiro nível torácico) a T12 (12º nível torácico). Após a intervenção de um programa de exercícios físicos, pode ser observada melhora nos parâmetros de independência de pessoas com lesão medular mais baixa quando comparado a lesões em níveis mais altos. Neste caso, a independência foi mensurada pré e pós-intervenção, através da Escala MIF (Medida de Independência Funcional). Em ambas as situações foram observadas melhoria nos escores, no entanto em pessoas com lesão mais baixa os escores sobre a independência apresentaram-se mais significativos. Uma possível explicação colocada pelos autores é o fato de o tempo de lesão dos indivíduos que participaram do estudo ser a partir de seis meses. Além disso, lesões em níveis mais baixos acarretam em menos comprometimentos físicos e motores do que lesões em níveis mais elevados.

A Escala MIF é um instrumento de avaliação da capacidade de pacientes com restrições funcionais de origem variada18, aplicável para pessoas com lesão medular, mas não específica a este tipo de população. Com tradução e validação para a língua brasileira é efetiva na avaliação quantitativa, a carga de cuidados demandada por uma pessoa para a realização de uma série de tarefas motoras e cognitivas19. Entre as atividades avaliadas estão os autocuidados, transferências, locomoção, controle esfincteriano, comunicação e cognição social, que inclui memória, interação social e resolução de problemas.

Em comparação a bateria de testes proposta neste estudo e a escala MIF é relevante ressaltar que ambas não são instrumentos autoaplicáveis, e que necessitam de treinamento para sejam utilizadas de forma correta. No entanto, convergente, tem-se a escala estruturada através de questionamentos sobre as diferentes atividades básicas e instrumentais da vida diária e a bateria propondo testes específicos que avaliem atividades parecidas a aplicadas na escala.

A escassez de instrumentos específicos para pessoas com deficiência, mais especificamente para pessoas com paraplegia é uma realidade que necessita ser modificada. Nesse sentido, estudos têm sido realizados no intuito de sanar essa necessidade, ainda em processo. A escala SCIM (Spinal Cord Independence Measure) é um exemplo de instrumento criado especificamente para pessoas com lesão medular e que está sendo amplamente utilizada. Sua primeira versão foi publicada em 1997. É um instrumento que se propõe a mensurar a independência nas atividades cotidianas do paciente com lesão medular, ABVDs e AIVDs20. Suas principais vantagens em relação a outros instrumentos utilizados para avaliação funcional, especificamente na área da reabilitação são a sua sensibilidade a mudanças no desempenho de tarefas que são relevantes para pacientes com lesão medular e o fato de não mensurar apenas a carga de cuidados, mas também as conquistas, com relevância médica, psicológica e social para o paciente com lesão na medula espinal21. Consiste em três subescalas, três domínios, com 19 tarefas a serem avaliadas no total: autocuidado, manejo respiratório e esfincteriano e mobilidade. Pode ser aplicada em pacientes adultos e idosos e em diferentes grupos de lesão medular, tetraplegia, paraplegia, completa ou incompleta, com etiologias diferentes. Trata-se de um instrumento já validado internacionalmente, que deve ser aplicado por equipe designada de profissionais da saúde como fisiatria, enfermeiro, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta22, com baixo custo, mas com demanda relativamente alta de tempo (30 minutos cada aplicação) e que ainda não foi traduzida nem validada para a realidade brasileira.

Nesse contexto, a bateria de testes proposta neste estudo visa a avaliação da independência funcional, fundamentada na realidade da cultura brasileira e pautada sobre testes específicos a essa população, testes estes executáveis e que refletem atividades corriqueiras dessas pessoas.

A partir dos resultados do presente estudo foi constatada a legitimidade científica da bateria que fora proposta, demonstrando que os testes são válidos, fidedignos e passíveis de serem reproduzidos. Sugere-se, diante do exposto, a produção de novos trabalhos que faça uso dessa bateria em amostras não tão convenientes em que fosse possível uma discussão mais precisa sobre a eficácia do uso desse novo instrumento e sua aplicabilidade na avaliação da independência de indivíduos com lesão na medula espinal.

É válido ressaltar que estes dados são preliminares e que estudos posteriores devem ser realizados, comtemplando talvez, uma amostragem mais significativa (maior), incluindo também pessoas com lesões em nível cervical e que não sejam recrutados de centros de reabilitação (amostra por conveniência).

Por fim, é importante ressaltar a necessidade da criação de instrumentos para a análise direcionada a cada tipo específico de deficiência. Este trabalho abordou apenas pessoas com paraplegia com o intuito de avaliar de forma efetiva padrões relacionados a essa população. A bateria de testes que foi proposta pode oferecer subsídios para o desencadeamento de ações que visem à melhoria na independência.

Os resultados deste estudo permitiram concluir que a bateria de testes proposta possui validade de conteúdo, objetividade e fidedignidade. No entanto apresenta limitações quanto à análise de desempenho ser feita apenas em nível quantitativo. Sugere-se que, juntamente com a aplicação desses testes, exista a preocupação de avaliar a forma com a qual os indivíduos desempenham tais tarefas, ou seja, a forma pela qual se adaptam a cada situação motora. Além disso, os resultados deste estudo ainda evidenciaram sobremaneira, que a criação de uma bateria de testes relacionados a atividades do cotidiano de pessoas paraplégicas é de extrema importância, na medida em que é capaz de detectar níveis de capacidade funcional e ser utilizada para avaliação do desenvolvimento em busca da independência de uma maneira mais ampla.

Referências

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ANEXO 1

Ficha de avaliação bateria de testes.

ANEXO 2

Testes.

Recebido: 15 de Maio de 2013; Revisado: 20 de Novembro de 2013; Aceito: 07 de Fevereiro de 2014

Endereço Camilla Yuri Kawanishi Centro de Educação Física e Esporte Universidade Estadual de Londrina Rod. Celso Cid, km 380 - Campus Universitário 86057-970 - Londrina - PR - BRASIL e-mail: camilla_kawanishi@hotmail.com

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